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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NUNC ET IN HORA…


Meu Caro José:

Nomeai-vos, foi pelo José dito, uns aos outros. E bem. São sempre bonitos e bons, e connosco devem ficar, estes nomes que pais ou avós, ou padrinhos ou quem nos acolheu, ou alguém antes de nós, nos deu em penhor de nos querer bem. Pensossinto, muitas vezes, esse instante único, irrepetível, em que, todos nós, fomos simplesmente esse ser que gritou um chôro ou chorou um grito, pouco importa aqui a ordem das palavras, a dor de um livramento de mulher é a nossa dor inicial, e a alegria dela aquela que não sabemos nunca quanto tempo dura. Assim somos feitos, esta, e nenhuma outra, é a nossa condição. Da minha vida só sei que a recebi para que jamais ela me pertença. Não possuo, nunca poderei possuir, o meu bem mais precioso. Aí, onde hoje já não está mas simplesmente é, o José único, que em seu dia nasceu, talvez saiba já (já, para mim, aí se apagou o tempo, nem espaço há, digo aí por escassez de conhecimento) que a negação de Deus é tão absurda, aqui em baixo, se assim me posso exprimir, como qualquer perentória afirmação de um deus reduzido à nossa dimensão, com as nossas simpatias e antagonismos. Há um rasgão inato à condição humana: ao rompimento das águas do ventre materno, somos compulsivamente atirados para o desconhecido, e não sei se choramos para podermos respirar, ou se já de saudade de um refúgio que tão cedo não teremos. Nesse momento, sem o saber sabemos que, da nova vida em que acabámos de entrar, só a morte nos livrará. E porque, a partir daí, passamos a ser quem busca sempre, quem sempre terá de procurar, queira ou não queira, até aquilo que desconhece e não sabe se irá encontrar, aprenderemos de nós que somos esses que Ortega y Gasset chamou trânsfugas da natureza. E mais trânsfugas seremos ainda, quando, de Caronte, o barqueiro sombrio nos largar na outra margem. Onde, teimo eu em crer, com S. João Evangelista, "Deus é luz e nele não há quaisquer trevas"... Como se tivéssemos sido destituídos de um paraíso inicial, achamo-nos desamparados, sabemos todos que seremos sempre pobres, mesmo aqueles que acumulem muitas riquezas no mundo. É nesta aflição que pensamos em Deus ou, se preferir, interrogamos o desconhecido, o inevitável mistério da vida e do destino. E essa interrogação habita o coração de cada um, como segredo que se poderá ou não desvendar... Mas lá fica, usque ad mortem. O José já (já, para mim, claro!) conhece a resposta, sem segredo, tão só como evidência. Eu ainda não, e todos os dias repito a mesma prece: Que a minha tão dura condição não me deixe cair no desalento, nem baixar os fracos braços perante a injustiça e o mal; nem me leve a qualquer raiva, manifesta ou surda, contra a única esperança que a transcende. Que não esqueça, no decurso do tempo incógnito desta minha vida  -  o único em que ontem ou amanhã, agora, jamais ou nunca poderão ser significantes  -  que  "um só dia, perante o Senhor, é como mil anos, e mil anos como um só dia". Ascendeu o José a uma sabedoria que está muito acima da minha, da nossa, dos que por cá andamos neste esforço de cegos a abrir os olhos. Conhece o que é o mal, não precisará de procurar, como nós, uma explicação plausível, comum a todos, para o escandaloso facto de ter sido razão de castigo maior Adão e Eva terem provado o fruto da árvore do conhecimento. Eu ainda me pergunto porquê. Sobretudo quando considero tanta literatura sacra, tantas religiões insistindo em que devemos saber distinguir entre o bem e o mal. E será o mal, cujo conhecimento original nos foi negado  -  só porque a primeira mulher o terá querido saber  -  culpa mesmo nossa? Diz o José que Caim matou Abel, mas por culpa de Deus. E que em nome de Deus (perdoa-me, certamente, que antes da minha hora eu escreva Deus com maiúscula) se foram fazendo, pela extensão do tempo e do espaço, fartas guerras, perseguições, sevícias e mortandades. Não posso negar que assim, de facto, foi e é múltiplas vezes invocado esse nome de Quem é. Como não será possível escamotear que, em nome do benefício da negação e desejada morte de Deus, tão indesculpáveis atrocidades se cometeram, ainda em tempo da vida terrena do José,do império soviético ao Cambodja de Pol Pot. Porque terei eu de culpar Deus de tudo o que os humanos fazem  -  e do mal, ainda, de todo o mal que cada um de nós considera que não praticou e cuja responsabilidade, portanto, a outrem deverá ser imputada? Não é tudo isto um enormíssimo absurdo? Que sentido tem a raiva, o ódio do Outro, o mesquinho, malevolente impulso ou desejo de lhe imputar culpas? Será essa revolta que nos libertará do mal que nos rodeia e persegue? Quantas teses filosóficas, quantas revoluções sangrentas nos prometeram a construção do homem novo pela sua auto-apropriação, por essa ilusão de um destino possuível e controlável? E,finalmente, impuseram regimes de tão sentida redução do homem e tanta injustiça persecutória... A tal ponto que George Orwell verificou esta simplicidade lapaliciana: "All animals are equal, but some animals are more equal than the others..." Assim é sempre, e a injustiça relativa dos destinos pessoais e das desigualdades sociais, tanto quanto o possamos saber, não encontrou ainda solução satisfatória, isto é, resposta adequada das nossas teorias e métodos. Por maioria de razão, perplexos continuaremos perante a questão do mal. No tempo e no lugar, no espaço em que o José percorreu a vida tensa que a cada um de nós cabe "cá em baixo" (e é bem baixinho,por vezes...), acreditou talvez no milagroso Deus da sua infância, jurou, mais tarde, a morte dele e a redenção dos homens pelos homens (repare no plural). Só não acabou (porque,como o José tão bem disse,há "essa estranha formosura" que não morre) nem revoltado nem resignado por obra e graça da Morte (perdoe-me outra vez a maiúscula) que, afinal, se queda intermitente, hesita e, como se Deus fosse, não ceifará um homem, só pelo encanto de uma suite para violoncelo, de Bach. Mais precisamente,como aponta José Saramago em "As Intermitências da Morte", da 6ª, em ré maior. Composta em Cöhten, quando o compositor estava ao serviço da família ducal Anhalt-Cöhten que, apesar de calvinista, fazia questão em fomentar a liturgia e a música, quer sacra quer profana. Conta-nos o José que a Morte foi visitar o violoncelista desconhecido a sua casa, para lhe entregar o pré-aviso da sua hora letal. Mas não resiste à tentação de lhe pedir que para ela toque essa suite nº6, opus 1012, ao que ele finalmente acederá: "mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a Rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher"... Mas foi Rostropovitch quem escreveu: "Com a "allemande" da 6ª suite espera-nos uma grande surpresa. A sua melodia flutuante parece escapar à lei da gravitação universal  -  é como se errasse pelo espaço". Creio que o José Saramago sabe que nunca se emancipou totalmente de uma certa tentação religiosa. Afinal, o pessimismo da sua visão do mundo e dos homens parece-me ser antes fruto duma frustração: a de não ter jamais conseguido discipliná-los, tal como, ao engano, também certas instituições religiosas chegam a presumir que podem. Ou como Ricardo Reis que, monárquico educado pelos jesuítas, até no seu neopaganismo continua sendo fiel à disciplina mental dos tais jesuítas. E eu ousaria afirmar que há fortes analogias psíquicas entre arautos do materialismo ateu e fundamentalistas religiosos, entre os quais certos proclamados católicos que num qualquer "corpus" canónico pretendem encerrar Deus e assim responder terminalmente às inquirições da nossa angústia. Penso todavia que a revelação de Deus não está terminada, vai-se desenrolando ao longo da história dos homens. São, assim, os dogmas uns semáforos, surgem em encruzilhadas e têm o seu tempo: avança,espera,pára,avança,etc. Deus vai-se revelando em nós e por nós. Essa é a dinâmica do cristianismo, religião incarnada. Aí se debruça Deus como o pai do fugitivo pródigo, naquele quadro do Murillo,na National Gallery de Washington D.C., que Camilo Maria gostava de lembrar e comentava dizendo que,sem querer blasfemar,lhe parecia que o pai,ao acolher o filho arrependido, lhe pedia perdão também, perdoar outro é pedir-lhe perdão também. Eis o que, para mim, é tão bonito no cristianismo, essa constante misericórdia que, só ela, torna solidária a esperança. Contemplo muitas vezes o mundo e a história com uma visão "teilhardiana": vivemos um processo de cosmogénese, somos, Deus e nós, solidários no sofrimento, na dor do parto, e na alegria da promessa que nos dá esperança. Que bem o diz este Papa Francisco: "A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para S.Francisco de Assis,ou os pobres para a beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob forma de uma presença que o acompanha, de uma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, se tornou " autor e consumador da fé " (Hebr.12,2). O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente..." E agora mesmo, no silêncio desta casa grande onde estou só, a essa fé entrego a dor do meu parto, e à esperança a simultânea alegria. Talvez também como a Morte faz no fim das intermitências do seu livro, José: "A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu"

Camilo Martins de Oliveira