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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O AMOR NÃO INVESTIGA CULPAS…

 

Meu Caro José Saramago:

 

São suas "As Pequenas Memórias", essas que nos contam como, menino e moço, pelas férias de verão em casa dos seus avós Josefa e Jerónimo, metia "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge" (tal como o Jesus do seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", que não é evangelho nem pretende sê-lo) e saía para o campo, por onde pouco tinha para escolher:  "ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe cobre e protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim, na direção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso. Não havia muito por onde escolher, é certo, mas, para a criança melancólica, para o adolescente contemplativo e não raro triste, eram estas as quatro partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro"... Por longa que fosse a aventura,ou penoso o esforço que o levasse além dos obstáculos, até novas descobertas, "o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascenção à ponta extrema do freixo de vinte metros, ou então, modestamente, mas com maior proveito degustativo, as suas subidas à figueira do quintal, de manhã cedo, para colher os frutos ainda húmidos da orvalhada nocturna e sorver, como um pássaro guloso, a gota de mel que surdia no interior deles"... No fim do sec.II, Santo Ireneu de Lyon, na esteira de tradições ainda mais antigas no convívio e na pregação evangélica da Igreja, afirma a autoridade canónica de quatro evangelhos. Sabemos que, em tempos sem imprensa nem televisão, etc., a comunicação em sociedade se fazia por transmissão oral  -  designadamente em assembleias e reuniões  -  que era muitas vezes registada em manuscritos, então copiados para serem lidos de forma a darem alguma consistência e uniformidade aos relatos e teses que se iam difundindo. Houve assim várias narrativas da vida e dos ensinamentos de Jesus e, embora todas fossem autorizadas em privado, sentiu-se a necessidade de reter, como corpo autêntico de futuras leituras, um pouco como o José memorizou percursos e paisagens da sua infância, quatro delas, "como partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro". Assim escreveu Santo Ireneu: "Não pode haver nem maior nem menor número de evangelhos. Na verdade, porque existem quatro regiões do mundo em que estamos e quatro ventos principais, e posto que, por outro lado, a Igreja se dispersou por toda a Terra e tem por coluna e suporte o Evangelho e o Espírito de vida, é natural que tenha quatro colunas que de todos os lados soprem a incorruptibilidade e dêem vida aos homens. Por isso nos deu o Verbo um evangelho em quatro formas, ainda que alimentado por um único espírito..." Leio, com alguma regularidade, os apócrifos cristão antigos, até porque neles encontro essas memórias do imaginário cristão de antanho, que tantas vezes serviram  -  e ainda hoje servem  - de tema e inspiração para a arte religiosa ou a simples representação de cenas bíblicas mais familiares: o Presépio é disso belo exemplo. Também me aconteceu ler romances ou outras fantasias da vida de Jesus, nada aprendi para além do que já sabia sobre o gostinho que alguém possa ter em meter sexo em tudo ou escandalizar crentes. Nunca me escandalizei, pareceu-me tudo isso pouco interessante. Mas cada qual sabe como se trata. No seu romance, José, há todavia aquela insistência na culpa de Deus, ao ponto de querer confundi-lo com o diabo. Penso que, hoje em dia (para mim, não para si, que já saiu do tempo), o José terá esclarecido a questão. O que a seguir direi é, portanto, mero desabafo, seria estultícia pensar agora convencê-lo, a si, fosse do que fosse. São José, pai de Jesus, é culpado da morte das inocentes crianças que Herodes mandou ceifar, pois apenas pensou em salvar o seu filho e se esqueceu de avisar as famílias de Belém. Será castigado, crucificado pelos romanos por conspiração em que não entrou: "Deus não perdoa os pecados que manda cometer." Mais tarde, no seu romance, Jesus descobrirá que "nunca houve no mundo gente mais inocente que aquela de Belém, os meninos que morreram sem culpa e os pais que essa culpa não tiveram, nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se calou quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem a vida foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a vida, mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará". E nessa revelação do mal intrínseco ao ser e à vida surge, como força telúrica, quase sem idade, como Deus, o anjo, mendigo na anunciação, pastor na natividade, Pastor dos fantasmas que, depois, perseguirão Jesus, aquele a quem "não fazemos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir as respostas, ou por termos, simplesmente, medo delas. E, quando encontramos coragem para as lançar, não é raro que não nos respondam, como virá a fazer Jesus quando um dia lhe perguntarem, Que é a verdade. Então se calará até hoje." Não sei se Pilatos encontrou resposta, tampouco sei se a pergunta que fez era já a sua resposta, é por vezes mais cómodo duvidar do que procurar. Perante a ordem aparente do mundo, que não esconde um  caos eminente, vivemos esta condição de pressentimento contínuo. Poderei não saber a verdade do que vejo, ou encontrar uma verdade em várias fórmulas apresentada e discutida, ou, ainda, ir ou não descobrindo um pouco mais desta ou daquela verdade. Todas essas verdades, com mais ou menos lógica e aceitação, são meras representações. Mas acredito numa Verdade. Inscrita no coração dos homens. O menino que sou aventura-se pelos quatro evangelhos, como o menino da Azinhaga, pelas quatro partes do mundo, trepa por freixos acima quando encontra frases misteriosas ou afirmações estranhas, que deverá avistar lá de cima, para não se deixar enredar por arbustos e silvas, nem travar por muralhas de trepadeiras. Percorro narrativas singelas, cheias de amor pelas crianças e outros pequenos, de segredos guardados no coração, porque só aos que têm a humildade de aceitar que não sabem muito, e nem tudo poderão perceber, é dada a revelação negada aos sábios e poderosos. Os evangelhos por onde me passeio falam-me de culpa mas a pretexto de perdão, de falta como porta aberta à misericórdia. E da única Verdade que posso, em vida, e devo, conhecer: amai-vos uns aos outros. Nenhuma demonstração teológica, nenhum martírio, nem manifestação pessoal ou colectiva de fé ou de sagacidade filosófica, é isenta de contestação. A Verdade, a única, essa que cada um de nós deve descobrir no íntimo do coração, é o amor. Que vai criando o mundo e revelando Deus. A verdade que me cabe, a única de que tenho absoluta certeza, é o amor de cada dia, como se, ao dá-lo, Deus esteja comigo na construção da paz. Escuto muitas vezes os 4º e 5º andamentos da 3ª sinfonia do Mahler. O 4º, como sabe, é um solo para contralto: "O Canto da Meia-Noite" de "Also sprach Zarathustra" do Nietzsche. "Ó Homem,tem cuidado! Que diz a meia-noite profunda?...   ...Profunda é a sua dor!" Mas logo se inicia o 5º andamento,com o "bim-bam" do coro de crianças e mulheres e esse poema tradicional que Mahler foi buscar ao "Knaben Wunderhorn", anunciando que a Pedro foram perdoados os pecados: "A alegria celeste é uma cidade feliz / a alegria celeste não tem fim./ A alegria celeste foi dada a Pedro/ por Jesus, e a nós para felicidade nossa!". O amor não investiga culpas, alegra-se na misericórdia.


Camilo Martins de Oliveira