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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEMOS A MESMA CONDIÇÃO…

 

Meu Caro José Saramago:

 

Vou ganhando este hábito de comunicar intemporalmente consigo. Gosto muito, farto de falar e ouvir sobre ninharias ando eu... Consigo, pelo menos, converso. Há certamente quem não perceba que estamos conversando, por pensar que o José está calado. Mas eu ouço ( bem ?) o que diz, não o que disse ou alguém lhe ouviu, isso passou, mas aquilo que, talvez, penso eu, permaneça connosco, estejamos ou não de acordo, esteja mais ou menos a nosso gosto. Não o conheci pessoalmente, nas nossas contemporâneas andanças pelo mundo, nem tampouco discuto as razões que o tornaram, pelo esforço da sua escrita e os prémios que ela mereceu, nosso património (noção, infelizmente, cada vez mais dúbia, a julgar, por exemplo, pela ausência de reparo na substituição do Z pelo S, no advérbio anterior... a não ser que um atento corretor eletrónico, sem perceber a "piada", tenha exercido o quê, não sei...). Não gosto de agitar fantasmas, confio mais no cântico revolucionário de Maria de Nazaré, Mãe de Jesus, Virgem Santíssima na nossa tradição, só por ser Mãe da Misericórdia de Deus, que repete a acção de graças e esperança de Ana, no livro de Samuel, do que nas promessas irrealizáveis de um Hitler ou de um Estaline... Perdoe-me o desabafo: entre ambos não há diabo que escolha... Nesta conversa,vou aprendendo a distinguir os "sinais dos tempos": entre os que são interiores ao movimento profundo da história, e os que simplesmente surgem como falsos alarmes das circunstâncias. O que quero mesmo dizer é que nada, nada, se resolve circunstancialmente, nem sequer a circunstância... Cá em baixo, fala-se muito de crises e, de acordo com as diferentes ideologias e antagónicos interesses, vão-se reclamando soluções que têm, apesar dos seus desacordos, um denominador comum: miopia, ignorância da história e dos sinais que nos deviam despertar para caminhos novos. E se precisamos de rasgos que nos deixem ver para além dos sistemas onde hoje nos encerramos,cada qual a pretender mais do seu,sem perceber a urgência do nosso destino comunitário e fraterno... Sabe? Penso com frequência que as religiões  -  designadamente o cristianismo enquanto revelação de Deus connosco e do amor como único caminho de salvação do povo  -  podem acordar-nos para esse novo "olhar o outro", pois é no nosso amor dos outros que Deus se reconhece. Infelizmente, vezes demais se tem confundido a Igreja com uma ideologia, prisioneira de dogmas quantas vezes mal entendidos e mal ensinados, ou com um código de normas de conduta ritualizada, esquecendo que o princípio fundador é a lei do amor, esse apelo a que cada um dos nossos actos e ditos deve dar resposta: "Ama e faz o que quiseres", disse Sto. Agostinho...

Gostei muito de ler "As Pequenas Memórias", pequenas talvez por serem da sua infância, ou quiçá por ocuparem apenas 140 páginas de um livro impresso. Acho-as grandes, quer pelo princípio do " Livro dos Conselhos" a que o José nelas obedece ("Deixa-te levar pela criança que foste"), quer, sobretudo, pela simplicidade da narrativa da sua circunstância, em que nunca disfarça nem lamenta, nem agita em revolta, mas tampouco com ela se resigna, a pobreza do meio e das pessoas de quem nasceu e com quem cresceu. Mais do que a sua precoce curiosidade e o seu gosto na descoberta e exploração dos mundos à sua volta, mais ainda do que a fortaleza da sua legítima ambição de aprender e subir, é maravilhoso o enorme, inteligente e reconhecido amor pelos seus. Um profundo sentido da eterna grandeza da pessoa humana, aquilo a que alguém já chamou o valor divino do humano. Com sua licença, respigo dois trechos dessas memórias, não para lhos lembrar, a si que está onde já nada se esquece, mas para instrução de algum mortal curioso que deite o olho às cartas que lhe  escrevo: "O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado,o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente...   ...Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?" E que palavra poderei eu dizer agora? Tenho a mesma condição e contemplo o silêncio do meu porvir, esperando sentir a sombra amiga do olhar misericordioso de Deus. Talvez assim responda àquela incerteza que o acometeu, José, quando noutro passo das suas memórias refere a sua deslealdade para com seu primo José Diniz, a quem escamoteara uma maçaroca de milho:  ..."eu suspeito que no dia do Juizo Final, quando se puserem na balança as minhas boas e más acções,será o peso daquela maçaroca que me precipitará no inferno...". Mas está escrito que tudo será perdoado a quem muito amou. Amar é sempre a procura do bem do outro. Não só do bem que lhe possamos fazer, nem só do ótimo que queiramos desejar-lhe. Mas de todo o bem,até esse da felicidade oculta que não somos capazes de oferecer. Desse bem, talvez supremo, que estará no que, para nós é ainda noite, a noite que Álvaro de Campos assim chama:

      "Vem soleníssima,

      Soleníssima e cheia

      De uma oculta vontade de soluçar,

      Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,

      E todos os gestos não saiam do nosso corpo

      E só alcançamos onde o nosso braço chega

      E só vemos até onde chega o nosso olhar."

Talvez o José tenha, menino ainda, como eu adolescente, repetido essa oração do Eng.º Campos à "Mater -Dolorosa das Angústias dos Tímidos,/ Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados, / Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes, / Sabor de água sobre os lábios secos dos cansados." O menino já homenzinho que foi  -  esse que teve de afrontar e, quiçá, amar um mundo sem outro abrigo além da pobreza material dos seus e do que o seu labor ia conquistando  -  esse menino era, e para sempre será, igual a mim e a todos os outros, pobres ou ricos, na condição essencial da existência. Pobres somos. Ao ler e reler a sua lembrança da morte da sua avó, recordei a minha avó Ana. Diz o José: " Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer. Assim mesmo. Eu estava lá". A minha avó materna, senhora que por aqui passou bafejada por outra sorte aparente, tinha a "assistência" de um capelão  - lembro-me dele, era o "abbé Balthasar"  -   que era estrábico e lhe ia repetindo que a morte a todos nos cabe, é simplesmente o último degrau até às alegrias celestes. Ao que a avó Ana invariavelmente retorquia: "Senhor padre, o senhor é um hipócrita, um dos seus olhos aponta o céu, o outro não deixa de ver a terra, de que tanto gostamos..." Ambas as avós, a sua e a minha, gostaram desta vida. Que lhes foi dada, em circunstâncias diferentes, mas na mesma condição. Não sei que salário celeste lhes foi reservado, nem se o acaso do nascimento e dos fados, tal como a hora em que todos somos chamados a trabalhar na vinha, será ou foi motivo de especial compensação. Desconheço as razões de Deus. Mentir-lhe-ia se dissesse o contrário. Mas sei que, na vida temporal que me foi dada, e no juízo comparativo a que a natureza me condiciona e a razão do amor me obriga, eu devo fazer tudo o que o meu braço alcance para que a igualdade do Céu seja, com justiça, já visível na terra.

  
Camilo Martins de Oliveira