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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

Doris Lessing, 1919-2013


Oh! That Lessing woman. A expressão fica associada à escritora cuja frontalidade amiúde assombra o politicamente correto do establishment e que este domingo partiu, aos 94 anos, talvez para conhecer as galáxias que com excelência divulga no zénite indefinido da Cold War. O visionarismo de Mrs Doris Lessing deixa legado, além das dezenas de livros e incómodas intervenções civícas. Une femme de une outre monde, vous savez!? A 2007 Nobel Prize for Literature impulsionou uns quantos amantes de sci-fi para cultos religiosos e muitos mais para a caligrafia, após doce peregrinação no Old Testament com os proféticos Sirian experiments. Quando, algo tarde, os prémios e as honras se somam nos degraus da sua casa em North London, reage felinamente e ecoa opiniões antisistémicas sobre os destinos da mulher ou as razões do terrorismo em terra de ovos. — One of The Greats. Daí a apresentarem depois, não sem displicência, como venerável mas controversa autora, pela persistência num traço afetuoso com os galáticos e um tom abrasivo com a mediocridade dos dunces.

Quem lê na sensibilidade poética de Mrs Lessing viaja entre Shikasta e o anel de universos paralelos aberto na fascinante série dos Canopus Archives. The marriages between Zones Three, Four and Five, The making of the representative for Planet 8 ou The sentimental agents in the Volyen Empire são explorações que cedo inspiram o genial piano de Philip Glass e recriam nos admiráveis mundos de inspiring minds como Philip K Dick, Frank Herbert ou ainda Carl Sagan. Em retrospetiva do Cosmos’ book club, só mesmo Madam Marguerite Yourcenar gerará efeito diverso em verdes anos, ao transportar à fronteira do tempo em formativas aventuras da imaginação histórica. A remarquable fine writer, pois, revelada em The golden notebook.

Já a mulher de North London que agora expirou é mais difícil de captar na sua impossible simplicity. O percurso transcultural marca-a indelevelmente. Nascida na Persia de 1919, filha de um militar, recusará o título de Dame of The British Empire dizendo que o dito ente era morto e por isso não fazer sentido tal distinção do Buckingham Palace. Cresce na British colony da Southern Rhodesia (Zimbabwe) e é educada no Dominican Convent High School, abrindo-se-lhe os céus africanos com a proibida convicção de o berço da humanidade pertencer senão aos nativos. Como life defining moment, regista algures um diálogo entre um velho negro e uma branqueada criança palradora que ruma a denso minimalismo filosófico.

Em dia da Monty Python reunion no Spamalot, escrevo após troca de palavras sobre o poder tribunício com um outro profeta, bem real, cuja autenticidade ensina a aprender como aprender. Vem o imperativo dos ouvidos que entendam e até o magno exemplo da clarividência de Sir Winston Churchill nos dias de trevas. Ora, na 1962 magnum opus, The Man in the High Castle, ensaia a argonauta resposta à questão que parece animar certos espíritos na viagem dantesca. No caso, "What if Germany won World War II?” No sonho só fala mesmo quem pode salvar. — Farewell, Mrs Lessing.


St James, 19th November

 

Very sincerely yours,

 

V.

-- To Martha RP: So happy for your coming, dear child.

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins  
de 18 a 24 de novembro de 2013
 


A última edição de
«A Felicidade em Albert Camus», de Marcello Duarte Mathias (Rio de Janeiro, 1975; 3ª ed., D. Quixote, 2013) apresenta-nos na capa um jovem que sorri. Não estamos perante a imagem de alguém que transporta os males do mundo, mas de um homem que olha atento o tempo em que vive – perscrutando o absurdo da existência. A obra tornou-se profundamente atual, e invoca bem o escritor no ano do centenário.



UM JOVEM MARCANTE
Já cem anos… A imagem que temos de Albert Camus é a de alguém que partiu cedo, jovem, com apenas 46 anos, antes de nos ter legado a obra que dele esperaríamos. O tempo passou e a sua influência, longe de se ter desvanecido, cresceu e tornou-se um símbolo do tempo em que viveu – de grandes mudanças e escolhas dilacerantes: a emergência do singular, os existencialismos, a consideração do absurdo, num contexto de fim de uma guerra violenta e de queda do eurocentrismo e dos colonialismos. No dia 3 de janeiro de 1960, o potente Facel-Vega de Michel Gallimard despistou-se numa longa reta, perto de Montereau, embatendo contra um plátano. Albert Camus, que deveria ter viajado de comboio, teve morte imediata, o editor resistiria cinco dias. Tudo absurdo. Numa pasta de couro, estavam cento e quarenta e quatro páginas de «Le Premier Homme», romance incompleto que veria a luz do dia numa edição em 1994. Sete anos antes, Camus escrevera «L’Homme Revolté», que gerara uma tempestade nos meios intelectuais parisienses, por comparar a barbárie nazi e a lógica estalinista, o que conduziu ao corte de relações com Sartre e a uma violenta reação da revista «Les Temps Modernes». Em 1957, no auge do conflito argelino, depois de tentar uma via legalista (então impossível), no momento em que o Prémio Nobel reconhece a importância da sua obra, incendeia, de novo, o debate político ao dizer «creio na justiça, mas defenderia a minha mãe antes da justiça». Num tempo em que os nervos estão à flor da pele e em que o tema da independência e da autodeterminação estava na ordem do dia, a independência de Camus é por muitos interpretada como um desvio aos ideais da esquerda. E à pergunta se se considerava um intelectual de esquerda contrapõe: «Não estou certo de ser um intelectual. Quanto ao resto, sou pela esquerda, apesar de mim, e apesar dela». A obra de Marcello Duarte Mathias sobre Camus tornou-se profundamente atual. Limpos os circunstancialismos dramáticos de debates muito duros de vida ou de morte, podemos reencontrar Camus como alguém que compreendeu a história, recusando uma lógica de sistema. Como o autor português do magnífico ensaio recorda, Camus fez seu o grito de alma de Píndaro, colocando-o como epígrafe de «O Mito de Sísifo»: «Ó minha alma, não aspires à vida imortal mas esgota o campo do possível». De facto, como diz Marcello: «para lá das contingências históricas que o condicionam, todo o homem é uma liberdade em movimento, liberdade que se afirma e interroga ao serviço de uma ambição mais alta». Eis o centro desta reflexão. Eis a marca fundamental da personalidade de Albert Camus – engrandecer o homem e desdenhar o que o apouca e empobrece. E a decantação do tempo permitiu que essa liberdade se tenha projetado para além dos episódios momentâneos dessa hora já distante. Sendo certo que (como bem viu Raymond Aron) não estamos perante alguém que apenas foi clarividente. Não, Camus foi importante porque viu o que poderia ver, mesmo sem ver tudo, como sempre no-lo disse. Cometeu erros? Poderia ter dito mais? O certo, porém, é que teve as intuições fundamentais. Como referia o obituário do «The Times», Camus foi «a man who walked alone», e como tal soube definir o momento histórico singular em que viveu. Não por acaso, tanto Calígula como Sísifo são protagonistas únicos. E a felicidade, como o absurdo, são filhos da mesma terra, da relação entre o homem e o mundo e entre o mundo e os outros homens.


O TESTEMUNHO DE MOUNIER
Num ensaio luminoso, intitulado «Albert Camus ou l’appel des humiliès» (Esprit, jan. 1950), escrito pouco antes de morrer, Emmanuel Mounier procura compreender a originalidade do autor de «État de Siège». «O mundo nem é tão racional assim, nem irracional. É desrazoável, e nada mais que isso». Aqui estaria a raiz do absurdo – «como divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que desilude, este espírito e este mundo estão confrontados um contra o outro sem poderem abraçar-se» (como se diz no «Mito»). O absurdo é o «pecado sem Deus». E Camus recusava o jogo de palavras de um suposto divórcio entre o homem e o mundo. Como diz Mounier a «vitalidade mediterrânica que bate no coração de Camus não pode tirar, do nada como espetáculo, o dever de agravar ainda mais a negação. Mesmo o absurdo quer mantê-lo em vida, não como absurdo, mas como algo de vivo». E, em convergência com o tema do ensaio de M.D.M., diz-se que «a abstração se opõe à felicidade». É esta recusa da abstração e do sistema (que nos aproxima de Kierkegaard) que torna os temas da felicidade e da vida decisivos. A felicidade passa além do heroísmo, levando-nos a uma «exigência generosa» (que encontramos em «A Peste» e nas «Cartas a um Amigo Alemão»). E o absurdo é o contrário da esperança. Mounier fala, por isso, de uma «esperança de desesperados», unindo os destinos de Malraux, Camus, Sartre e Bernanos. Para eles, a recusa não é uma renúncia, como um não de método, mas um sim à vida. E a felicidade é a maior das conquistas contra o destino que nos é imposto… É a vida que está em causa. E foi isso que perturbou os bem pensantes quando Camus invocou o exemplo da sua mãe, exposta ao drama da violência. Calígula organiza a indiferença. Mas nem tudo é permitido. A vontade incessante e obstinada do homem é que decide o absurdo. A Prometeu, herói da superação, Camus contrapõe Sísifo, herói da incessante repetição. Impõe-se compreender os limites: escolher a história contra o eterno, a ação contra a contemplação, o presente contra a abstração, «escolher uma vida inteiramente votada à dispersão». O que tem sentido para Camus? Não é um sentido superior, mas um sentido «le monde a du moins la verité de l’homme». Tolstoi como Camus (segundo Mounier) consideram como raiz do mal a cedência à autoridade de uma abstração, estatista ou teocrática (Magris falou-nos da idolatria). Daí a importância dos limites. Anos passados, M.D.M sabe que as considerações que apôs no final da sua reflexão confirmaram, de pleno, a indiscutível influência de Camus, o caráter premonitório das suas considerações e, sobretudo, a abertura de horizontes no sentido dos limites e da imperfeição. «Camus possuía uma profunda, uma tenaz esperança nas virtualidades redentoras do homem. Essa esperança apontava um caminho e constituía, já de per si, uma promessa de plenitude que o levava a naturalmente imaginar Sísifo feliz – pois não renova Sísifo todos os dias, perante todos e sem desfalecimentos, a liberdade do seu sonho? Isolado decerto, mas solidário dos outros na procura e conquista da felicidade. E é isso o que afinal importa».


Guilherme d'Oliveira Martins

AS ÚLTIMAS PALAVRAS

 

Meu Caro José:

 

"Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na sua própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos que certamente julgariam estar no reino dos céus..." Lendo "As Pequenas Memórias" registei, com outros, tão bonitos também na sua candura simples, este momento. Alguns desses bácoros terá o menino José ajudado a conduzir a feiras ribatejanas para serem vendidos. E sem que qualquer de nós possa, em cada caso, assegurar o destino que lhes terá sido dado,não será difícil acertar num ou noutro ... Talvez por isso o José  -  ou o Jesus-Saramago  -  no seu "evangelho" não tenha querido sacrificar qualquer cordeiro do seu rebanho ou, mais exatamente, do rebanho do seu Pastor-Diabo (apesar da insistência deste) à Páscoa do Templo de Jerusalém. Nem sequer quis oferecer ao sacrifício ritual o anho que um fariseu caridoso lhe oferecera, marcou-o com o corte numa orelha para que tivesse imperfeição impeditiva da oferta a Deus. Mas este, finalmente, o virá reclamar, porque, no seu romance, José, ele reclama, como Baal e os deuses todos antigos, o sacrifício... Mas o Jesus-Deus da minha infância, esse que bebi familiarmente na tradição de uma fé que, até ao fim dos meus dias, sempre haverá de ser a dor e a alegria da procura de um encontro, diz-me que não me propõe sacrifício mas misericórdia. O  "Santo Sacrifício da Missa", como tantas vezes se ouvia dizer, não é sangrento, nada tem a ver com um deus bárbaro que vá dividindo com os demónios o sangue e a vida de seres vivos. É uma eucaristia, a ação de graças por Deus partilhar connosco o seu ser, a vida que, pela ressurreição de Cristo, venceu a morte. Lembra-nos de que vivemos na companhia uns dos outros e que a única expressão possível do amor é a partilha. O sacrifício de Cristo não é uma vareta de fada ou ilusionista que transforme pão e vinho em corpo e sangue. É memória da partilha da vida de Deus com todos. Como o José escreve: "Sabemos o que fez, mas nunca saberemos como pôde tê-lo feito. Ia de pessoa em pessoa, partindo e dando o pão e o peixe, porém, cada uma recebia, em cada pedaço, um peixe e um pão inteiros...   ...É o Messias, diziam alguns, É um mago, diziam outros, mas a nenhum dos que ali estavam passou pela cabeça perguntar, És o filho de Deus. E Jesus dizia a todos, Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes, não multiplicareis." "As Pequenas Memórias" do José menino referem a tentativa de piedosas senhoras o iniciarem "nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular". E aí recorda: "Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que se estaria ali a passar e não devesse ser visto." Na verdade, não se passou nada, nem nada se escondia. A sineta apenas chamava a a atenção de cada um para a memória de Jesus em todos: o sacrifício de Deus Filho do Homem torna definitivamente inúteis e absurdos a crueldade e o sangue com que ousámos tentar que Deus estivesse do nosso lado (tal como Caim sacrificou seu irmão Abel para superar a oferenda de animais que este fazia), e diz-nos que Ele quer  - e de nós também  -  não o sacrifício, mas a misericórdia. A partir daí, o único sacrifício ( o que faz ou torna sagrado) é a partilha do amor: "Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes não multiplicareis"... Se o José Saramago, quando por cá andava, percebeu isto, porque teria então insistido, na última página do seu "evangelho": ..." Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez." Inútil sacrifício, pois em seu nome se verterá o sangue de mártires, cruzadas, guerras e inquisições, já que Deus pretende um poder totalitário e universal, a cujos despojos o diabo (o tal Pastor) irá colher a sua necessária parte. E a tijela de barro negro, a tal da anunciação do anjo-mendigo (depois diabo-pastor) lá está: Jesus "já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava". Ao ler este final, lembrei-me de ir escutar as "Septem Verba Christi in Cruce" na música de Joseph Haydn. Como diria o meu Camilo Maria, ali surge a harmonia, não como receita, mas tão só como procura... Uma meditação musical muito inspirada pela clareza mental que o iluminismo do século XVIII buscava, mas alimentada pelas palavras de Jesus na cruz, respigadas dos evangelhos canónicos. Cito a primeira, tirada do Evangelho de S. João: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem". E a última, do Evangelho de S. Lucas: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Gosto delas, muito, muito, por saber que, eu, como todos nós, nem sempre sei o que faço; e, como Antero de Quental, e tantos outros, nas mãos de Deus entrego o meu espírito. Esta noite, calhou-me ouvir este Haydn na versão dirigida por Jordi Savall, em 2009. E acabei por ler o texto que o José Saramago intitulou "As Sete Palavras do Homem" e que, com outro, do Pannikar, integra o livrinho que acompanha a edição desta gravação. Repito aqui a sua interrogação final: "E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?" Faço-a, eu mesmo, tantas vezes, que já penso que o maior, o infinitamente misterioso milagre de Jesus Cristo é fazer com que com Ele nos interroguemos. Esta é a décima e, por ora, a última carta que lhe escrevo, José. Nem sempre teremos tido a mesma inspiração, nem seguido os mesmos caminhos de procura. Mas, desde a partida até à chegada, ambos teremos sempre perguntado: Como pensar o homem sem Deus? E que Deus será sem o homem? Devo-lhe um abraço grato pelo muito que me interrogou sobre a minha fé.

 

Camilo Martins de Oliveira 

A LUZ LIMPA DE CRETA…

 

Caríssimo José:

 

Chamou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" a uma narrativa  -  a história de uma vida inventada por si  -  que, como todas as vidas que imaginamos para os nossos contos, servem para dizer quanto gostaríamos de sentir, à nossa medida e, também, nas desmedidas de nós, esses seres que nos surgem na frente da memória como heróis ou épicos, esses que percorreram aventuras de tão ciclópicos feitos, "mais do que permitia a força humana"... O Jesus do seu romance, José, é construído à sua imagem e semelhança, mas também está sempre a soltar-se de si, é simultaneamente o homem que se acolhe em Maria Madalena (como o José tanto precisou de um amor de mulher na vida) e o que sabe que outra força  - misteriosa e ignota  -  lhe dá poderes que ele não entende e o interpela e destina a outra oblação de si. Esse Jesus é o José Saramago: "Jesus tinha um súbito pressentimento e o seu coração estremecia,porém os olhos não se viravam para o céu,onde é sabido que Deus habita, o que ele fixava com obsessiva avidez, era a superfície calma do lago, as águas lisas que brilhavam como uma pele polida, o que ele esperava, com desejo e temor, parecia que das profundidades é que devia aparecer, o nosso peixe, diriam os pescadores, a voz que tarda, pensava talvez Jesus. A pesca chegava ao fim, a barca volvia carregada, e Jesus, cabisbaixo, seguia outra vez ao longo da margem, com Maria de Magdala atrás, à procura de quem precisasse dos seus serviços de olheiro grátis. Desta maneira passaram as semanas e os meses, passaram os anos também, mudanças que à vista se percebessem só as de Tiberíades, onde cresciam os edifícios e os triunfos, o mais eram as costumadas e consabidas repetições duma terra que nos invernos parece morrer-nos nos braços e na primavera ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido." O homem de letras que foi  -  com a mais sabedoria que "nesse asento etéreo se consente"  - entende bem melhor do que eu que talvez seja "engano grosseiro" também iludir duas metáforas: a do inverno que dorme para dar força à primavera e a do que nos nossos braços morre para ressuscitar em flor... Até já alguem disse o que tantas vezes quem o ouviu repete: "o sono é a antecâmara da morte". Acordar e despertar, tal como ressuscitar ou renascer,” é sempre ressurgir. Uma amiga japonesa, manhosamente, confundindo-me talvez na sua ideia de um romantismo ocidental sempre guloso de um pôr de sol romântico, perguntou-me de que gostaria eu mais, se do poente ou do sol nascente... respondi-lhe lembrado de uma balada do Zeca Afonso: "olha o sol que vai nascendo, anda ver o mar, os meninos vão correndo, ver o sol chegar!" Com o panorama que, aí de cima se lhe oferece, o José verá bem que, em Portugal, ao fim do dia, o sol esconde no mar a promessa da luz. Mas em Tóquio, na costa leste do Japão, surge do Mar Pacífico, das "águas lisas", dessas "profundidades" donde chega " a voz que tarda"... Por isso, esses nipónicos querem ver o sol que nasce em cada madrugada de ano novo, esse a que sempre chamo, à antiga portuguesa, Ano Bom! É bonita a esperança,e assim como a arte e a música,e os abraços e festas dos amigos,só por ser bela nos é necessária. Como naquele poema da Sophia: "As praças fortes foram conquistadas / Por seu poder e foram sitiadas / As cidades do mar pela riqueza / Porém Cacela / Foi desejada só pela beleza". O Jesus-Saramago não quereria Cacela pelo "nosso peixe,diriam os pescadores," mas pela "voz que tarda". Pela beleza, por essa que, quiçá, tanta maquilhagem clerical disfarça e esconde aos olhos de quem quer ver. Todavia, além do Jesus-Saramago, há também outro Jesus ,a personagem que o José criou para o seu romance ou para reinterpretar o Jesus Cristo dos quatro evangelhos e da tradição: fá-lo em tudo semelhante aos homens,como o José os vê, no desejo, na dúvida, na desconfiança, no ressentimento e no medo. Até na imprevisibilidade que pode conduzir à destruição e no egocentrismo que nos cega para os outros. Os milagres desse Jesus não são sinais do amor que salva, nem ilustrações da fé na presença de Deus entre nós. São artifícios de ilusionista, ou gestos que não medem consequências ou não correspondem a justas intenções. Pois o Deus desse Jesus é um velho cínico cuja inseparável sombra é o diabo, e estes dois nem sequer se distinguem tão bem como as duas metades do "Visconde cortado ao meio" do Italo Calvino. Racionalmente, repugna-lhe, a si, admitir a transcendência que sopra o amor, essa a que o seu coração aspira, como o do Antero na mão direita de Deus. Custa-lhe aceitar que, a cada um de nós, compete, com sucessos e revezes, ir limpando o olhar, para chegar à pureza do coração que nos transforma no amor dos outros. ..."O mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe aprendeu, amados irmãos, o mal é como a famosa e nunca vista ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira, de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira. Jesus disse à adúltera, “Vai e doravante não tornes a pecar,mas no íntimo ia cheio de dúvidas." Ocorre-me, ao lê-lo aqui, "The Heart of the Matter" do Graham Greene, que a escritora britânica Lesley Hazleton resume assim: "a dúvida é essencial à fé. Aboli as dúvidas,e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos". Quando Schumpeter dizia que o marxismo é uma religião pejada de dogmas, pensava certamente na arrogância com que ali se pretende acabar com interrogações e lembranças que foram alimentando o percurso milenar da humanidade  -  que é o da esperança  na revelação final da misericórdia  -  para impor a certeza da insurreição dos vivos, e da sua necessária vitória, em vez da fé (que é o caminho da nossa procura) na ressurreição dos mortos. Sei bem  -  e isso me tem fartas vezes magoado  -  que a Igreja (falo da minha) pode e se tem entretido mais com a apologética de dogmas, princípios e normas, do que com laborar na oração de Deus misericordioso, aberto ao acolhimento de todos, mistério de refúgio e promessa de encontro. Esquecem-se demasiado os cristãos  -  e, desagradavelmente, uns quantos clérigos vivaços e espertinhos   - de que  só um testemunho nos é pedido, e por esse sinal nos deverão reconhecer, o amor dos outros como sacramento autêntico do amor de Deus. Volto a Sophia e ao final do seu poema "Ressurgimentos": «Ressurgiremos para olhar para a terra de frente / Na luz limpa de Creta / Pois convém tornar claro o coração do homem / E erguer a negra exatidão da cruz / Na luz branca de Creta». E mansamente, neste dourado entardecer de Verão, já agradecido a esta luz que lembrarei noite fora, repito com Álvaro de Campos o verso final do seu "Magnificat": «Sorri, minha alma, será dia!». E sorrio também pensando que o José terá encontrado a resposta à interrogação que começa esse poema: «Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu, a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado?»


Camilo Martins de Oliveira 

Antonio Gamoneda

 

 

Donde empiezan mis manos? Mis manos de mujer? Por qué clausurar la claridad que llamamos vida?,

         todos os dias para que não regresse a solidão e se expliquem as mãos? Meu estrangeiro, meu tear de desejos e medos nascidos no silêncio.

                                                    Luni conduz-me.

Estrangeiro!,  extranjero , mostra-me a fértil permanência do teu sonho, o silêncio dos teus domínios, o teu astuto caçar babilónico e entrarei amparada por una cierta esperanza,

por la esperanza de los que vigilan la mina del tiempo.

Que te disse António? Antonio Gamoneda?

Um segredo denso. Disse-me que de repente a meio da vida chega uma palabra nunca antes pronunciada (…) e começa uma longa viagem.

Luni, escuta-me, desvenda-me à flor da tua pele. Peço-te. Acredita que eu tenho um universo incontido e que de há muito o guardo na tua mão.

E quando começaram as minhas mãos a serem mãos? A serem mãos de mulher?

Afinal

não estavas lá, quando a pagã arvore da vida, ébria, celebrava a minha pergunta por mais um copo de champanhe. E não me olhes assim estrangeiro que os teus lábios são da cor dos teus olhos, cor nunca vista, nem pensada e me perdoo, perdoando-te pois quanta vertigem que se sucede.

                                                                                              Aquí

                                                                                         hay algo   

                                                                                  desconocido. Sim Antonio há. São oito da noite de Fevereiro e faz-se dia.

E unos por el camino que hicieron, otros por el que no hicieron, unos con la cédula de identidad, otros en la alma. Otros sin haberse cruzado con nadie.

E Luni, outros sin haber empezado a vivir.

Ama-me o tempo que quiseres pois só em ti se envolvem as estações por mãos destras, mãos de mulher, mãos-de-luz, mãos onde e de onde voam os pássaros. Ou não me ames. Deixa-me amar-te para que a mim regresses. Permite que o creia. Dá-me o milagre e entrarei lentamente na felicidade sem fim e por teu amante conhecerei as decifrações dos olhos que mais vêem pelo ângulo que não olham: os teus, os teus. Flor sin la cual todo es imposible.

Meu estrangeiro:

 é com a verdade que se responde às perguntas dos príncipes?, Deus! que se conhecêssemos o ponto preciso por onde algo se rompe haveria que guardá-lo num lugar bem mais seguro.

Depois, com ele guardado, poderíamos visitar outras versões da noite: completamente despiertos.

Y tal vez no exista otra manera de comenzar a conocernos.

 

Teresa Vieira

Sec.XXI

FERNANDO AMADO NUMA EVOCAÇÃO DE JORGE LISTOPAD


No inicio deste mês de Novembro, Jorge Listopad lançou um novo livro, intitulado significativamente “Remington”:  é um conjunto de contos que expressam bem  o talento  do autor, a sua notável capacidade de criação num idioma que é o seu há dezenas de anos mas não é, obviamente o da sua Praga natal, e a visão cultural, cosmopolita e internacional - e isto, para alem da consagrada e intacta capacidade de efabulação.

Ora, precisamente, o conto que talvez melhor caracterize o livro, quanto mais não seja por se denominar precisamente também “Remington”, contem referencias a Fernando Amado,  num registo também certamente algo fantasista em aspetos de atividade literária, politica e  doutrinaria, mas profundamente justo e rigoroso no elogio da personalidade  e do talento de Fernando Amado.

O conto descreve conversas do autor com Sartre, nada menos, em Paris na Brasserie Lipp, onde teria sido levado por Aimé Césaire. Sartre abordá-lo-ia mais tarde e dessa conversa resulta a cedência de uma velha maquina de escrever Remington.

Passado algum tempo, o autor muda-se para Portugal e traz a Remington. E descreve:
“Encontrei então Fernando Amado, um homem extraordinário, um homem do teatro, fundador da Casa da Comédia , fundador internacional da pontuação comparativa nas disciplinas atléticas , aceite no mundo inteiro. Homem bom , de olhos azuis desarmantes” a quem Listopad emprestaria e Remington...

E segue a história da Ramington, que Listopad encontrará um dia abandonada, destruída, próximo da Praia das Maçãs…

Ora, efetivamente, já temos recordado que Fernando Amado  foi um dos fundadores (o outro foi João Osório de Castro) da Casa da Comédia justamente citada por Listopad. E, tal como tenho aqui lembrado, a essa sala algo marginal e a essa companhia experimental se ficou a dever muito  da renovação que o teatro português, a nível de elencos e repertório, exigia nos anos 60-70, completando de certo modo a docência de Fernando Amado no Conservatório, nas cadeiras de Arte de Representar e de Estética Teatral. 

Por essa alturas, já Jorge Listopad se tinha naturalizado português: e é notável que, decorridos estes 50 anos, continue a marcar o ambiente literário e cultural, como este livro amplamente demonstra.

 

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

The surveillance society, 2013
 

O caso está condenado a entristecer os atlantistas. Recapitulemos os passos da já histórica fuga de informação. Edward Snowden leaks para o Guardian e outros jornais europeus de referência um número indeterminado de documentos secretos da mais poderosa agência de espionagem do mundo e desnuda massiva operação de vigilância cibernética sobre elites e cidadãos. As chancelarias indignam-se no continente. Ce qu'on dit de soi est toujours poésie. O meridiano de Greenwich entra em crisis mode face às reações à prospeção digital a comunicações privadas pela National Security Agency, seus parceiros e tutti quanti. Algo estremece. Os líderes do MI5, MI6 e GCHQ vão à House of Commons recordar que os espiões agem segundo a lei e em nome de bem maior no all-knowing surveillance state: (1) salvar vidas e (2) combater o terrorismo e crime organizado. — Be aware! Corruption of the best is the worst of all! No Cenotaph de London logo soam as honras do Sunday Remembrance e do Armistice Day, em plena aceleração dos preparativos para o First World War Centenary.

Tudo tranquilo na very first apresentação parlamentar dos espiões, televisionada, ainda que em estilo so-tell-us-how-are-yours-days? propício a dececionar os fãs de James Bond ou mesmo os heróis da Cold War ali presentes. Ignoro o exato pico de audiências no live, mas foi deveras insólito ver e ouvir os three spooks. O argumento de Sir John Sawers, Head of MI6, Sir Iain Lobban, Director of GCHQ e Andrew Parker, Director general do MI5, sintetiza-se numa linha contra a fuga de dados: aiding the enemy. A questão do NSA spying é delicada, porém, ao testar os limites do dever de segurança perante o direito de privacidade. Outro elemento soma. A sumária descrição operacional realizada na reunião do Intelligence and Security Committee serve ao foco do Home Office na ameaça terrorista, mas aliena a face dos riscos financeiros e afins no sistema internacional. Precisamente os que fazem da Europa um alvo apetecido na rede das cinco orelhas e certificam a relevância política dos Regional charter for stability que circulam no Foreign Office.

Neste mix de John Le Carrè e George Orwell a ilustrar a power play, também o dinheiro marca presença na agenda de Westminster com o crescente clamor face ao cost of living. À quinta semana do debate sobre a energy bill e com vários em Whitehall ocupados no made up, as sondagens aclaram o sentido do voto. Do Sunday Times/YouGov poll: Labour 39; Conservatives 34; Ukip 11; Lib Dems 10. Resulta potencial maioria de 60 para a equipa de Mr Ed Miliband. Sir John Major, o líder que sucede a Lady Thatcher nos Tories e no No 10, esgrime contra a poshness da sua liderança partidária. O Telegraph de ontem relata a diatribe: "The former Conservative Prime Minister said he was appalled that 'every single sphere of British influence' in society is dominated by men and women who went to private school or who are from the 'affluent middle class'”.

O tópico da mobilidade social é interessante face ao curso da revolta das elites contra as massas. Na Europa do Sul há quem fale em milagre. Aos ténues vestígios da recuperação económica auxiliam os novos milhões do número crescente de multimilionários na região. Se o fenómeno é legível à luz das circunstâncias individuais à Mr Ortega y Gasset, quando um tal gentleman censura as políticas do elitismo, bom será que todos o escutem! — Corruptio Optimi Pessima.

 

St James, 12th November

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins  
de 11 a 17 de novembro de 2013
 

 

«Un Autre Visage de l’Europe» (editions Noir sur Blanc, 1989), de Tadeusz Mazowiecki, com prefácio de Jean-Marie Domenach, é uma obra esquecida que deve ser relida e revisitada no momento em que o seu autor nos deixou há muito pouco. O livro reúne diversos textos fundamentais que nos permitem seguir a resistência intelectual polaca e o início da transição democrática.

 

 

SÍMBOLO EUROPEU
Tadeusz Mazowiecki (1927-2013) é um dos símbolos da democracia polaca e da Europa contemporânea. Não o conheci pessoalmente, mas fui amigo de dois dos seus mais próximos companheiros, Jacek Wosniakowski (membro do Centro Nacional de Cultura) e Bronislaw Geremek. Acompanhei, por isso, a sua ação muito de perto, também graças ao conhecimento de Adam Michnik, um antigo resistente duramente perseguido e um dos grandes jornalistas contemporâneos na «Gazeta Wyborcza». A vida e o pensamento deste homem permitem compreender como o fim da guerra fria e a queda do muro de Berlim puderam ser preparados e antecipados. É verdade que a eleição de João Paulo II como Sumo Pontífice em 1978 suscitou a aceleração dos acontecimentos, mas devemos dizer que sem a participação persistente dos intelectuais e leigos católicos polacos na defesa da liberdade nada teria sido possível. T. Mazowiecki foi um dos mais influentes políticos cristãos na preparação da democracia no centro e no leste da Europa. Foi um dos mais determinantes discípulos de Emmanuel Mounier (ao lado de Jacques Delors), que soube interpretar fielmente a defesa feita em 1932 na revista «Esprit» sobre a necessidade de os cristãos se associarem aos não cristãos na construção, na cidade terrestre, de uma sociedade aberta e solidária, livre e responsável, assente na eminente dignidade da pessoa humana. Tadeusz Mazowiecki nasceu em Plock (18.4.27), no coração da Polónia. Fez os seus estudos de Direito em Varsóvia, sendo profundamente influenciado pela doutrina social da Igreja. Começou por militar na associação política católica Pax, até ser dissolvida, participando depois de 1955 na criação do KIK (Clube de Intelectuais Católicos) e na fundação da influente revista «Wiez» (Elo), onde (sob a inspiração de Mounier) lança a reflexão que visa suscitar um ambiente capaz de contrariar a lógica totalitária, aproveitando as margens toleradas pelo regime. Assim, procura forçar uma evolução gradual das instituições, aproveitando a tímida abertura de Wladislaw Gomulka.

 

PREPARANDO A TRANSIÇÃO
Em 1961, é eleito para a Dieta como membro do grupo de deputados católicos independentes do Znak (ligados a uma prestigiada corrente de reflexão e a uma editora, que viria a ser dirigida por Wosniakowski). Compreende depressa que a abertura de Gomulka é débil e efémera. Em 1968, protesta contra a repressão dos estudantes, a vaga de antissemitismo orquestrada pelo poder e a invasão soviética da Checoslováquia. Conhece e apoia o jovem Adam Michnik, que acolhe, sob pseudónimo, na redação da revista «Wiez» - ao lado de outro inconformista, Jacek Kuron. Em 1970, sendo a abertura impossível, rompe definitivamente com o poder. Inicia-se um tempo difícil de provação e perseguições. Encontra de novo Michnik e Kuron no Comité de Defesa dos Operários (KOR), apoia as atividades do grupo, defende as vítimas da repressão e contribui para a criação das Universidades volantes. E chega o momento decisivo em que, em agosto de 1980, com Bronislaw Geremek vai ao encontro dos grevistas dos estaleiros de Gdansk. Esse episódio mudará o curso dos acontecimentos. Com Lech Walesa, lançam as bases do «Solidariedade» - o primeiro sindicato independente do mundo comunista. As vicissitudes são conhecidas. Na noite de 13 de dezembro de 1981, o general Jaruselski decreta o estado de sítio para destruir o Solidariedade, que passa à clandestinidade. Mazowiecki é preso. Só será libertado ao fim de um ano. Desenvolverá então intensa atividade clandestina – através da imprensa e de encontros informais. Segue atentamente a Perestroika de Gorbatchov. Até 1989, criar-se-ão as condições para a realização de negociações e para que se alcancem importantes acordos na Mesa-Redonda com as autoridades, que permitem a vitória eleitoral do «Solidariedade» e a nomeação de um católico como o primeiro Chefe do Governo não comunista no mundo coletivista. O Solidariedade é legalizado, podendo apresentar candidatos às eleições de 4 de junho de 1989. A vitória é esmagadora. Abre-se a porta ao que culminará, em 9 de novembro de 1989, na queda do muro de Berlim e no fim do poder soviético (1991). Nomeado primeiro-ministro, o antigo militante católico toma todas as precauções, para não pôr em causa a transição, uma vez que há uma coabitação com a velha guarda comunista e o general Jaruselski. Completa-se, assim, a nova vaga democrática iniciada em Portugal em 1974, segundo Samuel Huntington. O programa de Mazowiecki é complexo e simples: construir um Estado de direito, criar a economia social de mercado, fazer a Polónia sair da ruína e reunir-se à Europa. Para dirigir a reforma económica escolhe Leszek Balcenowicz, que põe em prática com sucesso a célebre «terapia de choque». Importaria salvaguardar os passos graduais e seguros, o que levou os caricaturistas a representarem Mazowiecki como a tartaruga da fábula. Assim, recusa a caça às bruxas e os ajustes de contas, o que o levará, mais tarde, a ser crítico de alguns companheiros. Então o Solidariedade divide-se e Mazowiecki apresenta-se contra Walesa na eleição presidencial de 1990, que este último vence. Apesar dessa contenda, L. Walesa, há dias, ao tomar conhecimento da morte de Mazowiecki considerou-o o melhor primeiro-ministro da democracia e um político exemplar de excecional honestidade.

 

POLÍTICA NO MAIS NOBRE SENTIDO
Em «Un Autre Visage de l’Europe», Mazowiecki fala da necessidade de uma política antipolítica, usando deste modo um jogo de palavras que, não pondo em causa a nobreza da política como responsabilidade cívica, a afasta totalmente da politiquice e dos jogos imediatistas. Foi essa a sua coerência, que o levou a afirmar que a política deve ser o lugar «onde respirar a verdade e poder fazer tudo pela verdade é um fator de liberdade». Cristão e católico de uma coerência exemplar, demitir-se-á mais tarde de relator especial da comissão de direitos humanos das Nações Unidas para a ex-Jugoslávia, ao verificar não poder tomar decisões que fossem relevantes e pudessem contribuir para a paz. Perante a falta de coragem das grandes potências confrontadas com a «odisseia trágica» dos muçulmanos em Srebenica, recusa-se a participar num processo aparente e ilusório, insuscetível de garantir a defesa e a salvaguarda dos direitos humanos (1995). Mazowiecki é o exemplo do cristão que não volta a cara às responsabilidades. Acreditou na força do «compromisso político» e deixou-nos, como outros cristãos (Giorgio La Pira e Robert Schuman), a demonstração de que o combate à indiferença exige uma responsabilidade cívica determinada (v. Guy Coq, «Mounier: o Compromisso Político», Gradiva).   


Guilherme d'Oliveira Martins

TEMOS A MESMA CONDIÇÃO…

 

Meu Caro José Saramago:

 

Vou ganhando este hábito de comunicar intemporalmente consigo. Gosto muito, farto de falar e ouvir sobre ninharias ando eu... Consigo, pelo menos, converso. Há certamente quem não perceba que estamos conversando, por pensar que o José está calado. Mas eu ouço ( bem ?) o que diz, não o que disse ou alguém lhe ouviu, isso passou, mas aquilo que, talvez, penso eu, permaneça connosco, estejamos ou não de acordo, esteja mais ou menos a nosso gosto. Não o conheci pessoalmente, nas nossas contemporâneas andanças pelo mundo, nem tampouco discuto as razões que o tornaram, pelo esforço da sua escrita e os prémios que ela mereceu, nosso património (noção, infelizmente, cada vez mais dúbia, a julgar, por exemplo, pela ausência de reparo na substituição do Z pelo S, no advérbio anterior... a não ser que um atento corretor eletrónico, sem perceber a "piada", tenha exercido o quê, não sei...). Não gosto de agitar fantasmas, confio mais no cântico revolucionário de Maria de Nazaré, Mãe de Jesus, Virgem Santíssima na nossa tradição, só por ser Mãe da Misericórdia de Deus, que repete a acção de graças e esperança de Ana, no livro de Samuel, do que nas promessas irrealizáveis de um Hitler ou de um Estaline... Perdoe-me o desabafo: entre ambos não há diabo que escolha... Nesta conversa,vou aprendendo a distinguir os "sinais dos tempos": entre os que são interiores ao movimento profundo da história, e os que simplesmente surgem como falsos alarmes das circunstâncias. O que quero mesmo dizer é que nada, nada, se resolve circunstancialmente, nem sequer a circunstância... Cá em baixo, fala-se muito de crises e, de acordo com as diferentes ideologias e antagónicos interesses, vão-se reclamando soluções que têm, apesar dos seus desacordos, um denominador comum: miopia, ignorância da história e dos sinais que nos deviam despertar para caminhos novos. E se precisamos de rasgos que nos deixem ver para além dos sistemas onde hoje nos encerramos,cada qual a pretender mais do seu,sem perceber a urgência do nosso destino comunitário e fraterno... Sabe? Penso com frequência que as religiões  -  designadamente o cristianismo enquanto revelação de Deus connosco e do amor como único caminho de salvação do povo  -  podem acordar-nos para esse novo "olhar o outro", pois é no nosso amor dos outros que Deus se reconhece. Infelizmente, vezes demais se tem confundido a Igreja com uma ideologia, prisioneira de dogmas quantas vezes mal entendidos e mal ensinados, ou com um código de normas de conduta ritualizada, esquecendo que o princípio fundador é a lei do amor, esse apelo a que cada um dos nossos actos e ditos deve dar resposta: "Ama e faz o que quiseres", disse Sto. Agostinho...

Gostei muito de ler "As Pequenas Memórias", pequenas talvez por serem da sua infância, ou quiçá por ocuparem apenas 140 páginas de um livro impresso. Acho-as grandes, quer pelo princípio do " Livro dos Conselhos" a que o José nelas obedece ("Deixa-te levar pela criança que foste"), quer, sobretudo, pela simplicidade da narrativa da sua circunstância, em que nunca disfarça nem lamenta, nem agita em revolta, mas tampouco com ela se resigna, a pobreza do meio e das pessoas de quem nasceu e com quem cresceu. Mais do que a sua precoce curiosidade e o seu gosto na descoberta e exploração dos mundos à sua volta, mais ainda do que a fortaleza da sua legítima ambição de aprender e subir, é maravilhoso o enorme, inteligente e reconhecido amor pelos seus. Um profundo sentido da eterna grandeza da pessoa humana, aquilo a que alguém já chamou o valor divino do humano. Com sua licença, respigo dois trechos dessas memórias, não para lhos lembrar, a si que está onde já nada se esquece, mas para instrução de algum mortal curioso que deite o olho às cartas que lhe  escrevo: "O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado,o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente...   ...Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?" E que palavra poderei eu dizer agora? Tenho a mesma condição e contemplo o silêncio do meu porvir, esperando sentir a sombra amiga do olhar misericordioso de Deus. Talvez assim responda àquela incerteza que o acometeu, José, quando noutro passo das suas memórias refere a sua deslealdade para com seu primo José Diniz, a quem escamoteara uma maçaroca de milho:  ..."eu suspeito que no dia do Juizo Final, quando se puserem na balança as minhas boas e más acções,será o peso daquela maçaroca que me precipitará no inferno...". Mas está escrito que tudo será perdoado a quem muito amou. Amar é sempre a procura do bem do outro. Não só do bem que lhe possamos fazer, nem só do ótimo que queiramos desejar-lhe. Mas de todo o bem,até esse da felicidade oculta que não somos capazes de oferecer. Desse bem, talvez supremo, que estará no que, para nós é ainda noite, a noite que Álvaro de Campos assim chama:

      "Vem soleníssima,

      Soleníssima e cheia

      De uma oculta vontade de soluçar,

      Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,

      E todos os gestos não saiam do nosso corpo

      E só alcançamos onde o nosso braço chega

      E só vemos até onde chega o nosso olhar."

Talvez o José tenha, menino ainda, como eu adolescente, repetido essa oração do Eng.º Campos à "Mater -Dolorosa das Angústias dos Tímidos,/ Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados, / Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes, / Sabor de água sobre os lábios secos dos cansados." O menino já homenzinho que foi  -  esse que teve de afrontar e, quiçá, amar um mundo sem outro abrigo além da pobreza material dos seus e do que o seu labor ia conquistando  -  esse menino era, e para sempre será, igual a mim e a todos os outros, pobres ou ricos, na condição essencial da existência. Pobres somos. Ao ler e reler a sua lembrança da morte da sua avó, recordei a minha avó Ana. Diz o José: " Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer. Assim mesmo. Eu estava lá". A minha avó materna, senhora que por aqui passou bafejada por outra sorte aparente, tinha a "assistência" de um capelão  - lembro-me dele, era o "abbé Balthasar"  -   que era estrábico e lhe ia repetindo que a morte a todos nos cabe, é simplesmente o último degrau até às alegrias celestes. Ao que a avó Ana invariavelmente retorquia: "Senhor padre, o senhor é um hipócrita, um dos seus olhos aponta o céu, o outro não deixa de ver a terra, de que tanto gostamos..." Ambas as avós, a sua e a minha, gostaram desta vida. Que lhes foi dada, em circunstâncias diferentes, mas na mesma condição. Não sei que salário celeste lhes foi reservado, nem se o acaso do nascimento e dos fados, tal como a hora em que todos somos chamados a trabalhar na vinha, será ou foi motivo de especial compensação. Desconheço as razões de Deus. Mentir-lhe-ia se dissesse o contrário. Mas sei que, na vida temporal que me foi dada, e no juízo comparativo a que a natureza me condiciona e a razão do amor me obriga, eu devo fazer tudo o que o meu braço alcance para que a igualdade do Céu seja, com justiça, já visível na terra.

  
Camilo Martins de Oliveira 

O AMOR NÃO INVESTIGA CULPAS…

 

Meu Caro José Saramago:

 

São suas "As Pequenas Memórias", essas que nos contam como, menino e moço, pelas férias de verão em casa dos seus avós Josefa e Jerónimo, metia "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge" (tal como o Jesus do seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", que não é evangelho nem pretende sê-lo) e saía para o campo, por onde pouco tinha para escolher:  "ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe cobre e protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim, na direção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso. Não havia muito por onde escolher, é certo, mas, para a criança melancólica, para o adolescente contemplativo e não raro triste, eram estas as quatro partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro"... Por longa que fosse a aventura,ou penoso o esforço que o levasse além dos obstáculos, até novas descobertas, "o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascenção à ponta extrema do freixo de vinte metros, ou então, modestamente, mas com maior proveito degustativo, as suas subidas à figueira do quintal, de manhã cedo, para colher os frutos ainda húmidos da orvalhada nocturna e sorver, como um pássaro guloso, a gota de mel que surdia no interior deles"... No fim do sec.II, Santo Ireneu de Lyon, na esteira de tradições ainda mais antigas no convívio e na pregação evangélica da Igreja, afirma a autoridade canónica de quatro evangelhos. Sabemos que, em tempos sem imprensa nem televisão, etc., a comunicação em sociedade se fazia por transmissão oral  -  designadamente em assembleias e reuniões  -  que era muitas vezes registada em manuscritos, então copiados para serem lidos de forma a darem alguma consistência e uniformidade aos relatos e teses que se iam difundindo. Houve assim várias narrativas da vida e dos ensinamentos de Jesus e, embora todas fossem autorizadas em privado, sentiu-se a necessidade de reter, como corpo autêntico de futuras leituras, um pouco como o José memorizou percursos e paisagens da sua infância, quatro delas, "como partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro". Assim escreveu Santo Ireneu: "Não pode haver nem maior nem menor número de evangelhos. Na verdade, porque existem quatro regiões do mundo em que estamos e quatro ventos principais, e posto que, por outro lado, a Igreja se dispersou por toda a Terra e tem por coluna e suporte o Evangelho e o Espírito de vida, é natural que tenha quatro colunas que de todos os lados soprem a incorruptibilidade e dêem vida aos homens. Por isso nos deu o Verbo um evangelho em quatro formas, ainda que alimentado por um único espírito..." Leio, com alguma regularidade, os apócrifos cristão antigos, até porque neles encontro essas memórias do imaginário cristão de antanho, que tantas vezes serviram  -  e ainda hoje servem  - de tema e inspiração para a arte religiosa ou a simples representação de cenas bíblicas mais familiares: o Presépio é disso belo exemplo. Também me aconteceu ler romances ou outras fantasias da vida de Jesus, nada aprendi para além do que já sabia sobre o gostinho que alguém possa ter em meter sexo em tudo ou escandalizar crentes. Nunca me escandalizei, pareceu-me tudo isso pouco interessante. Mas cada qual sabe como se trata. No seu romance, José, há todavia aquela insistência na culpa de Deus, ao ponto de querer confundi-lo com o diabo. Penso que, hoje em dia (para mim, não para si, que já saiu do tempo), o José terá esclarecido a questão. O que a seguir direi é, portanto, mero desabafo, seria estultícia pensar agora convencê-lo, a si, fosse do que fosse. São José, pai de Jesus, é culpado da morte das inocentes crianças que Herodes mandou ceifar, pois apenas pensou em salvar o seu filho e se esqueceu de avisar as famílias de Belém. Será castigado, crucificado pelos romanos por conspiração em que não entrou: "Deus não perdoa os pecados que manda cometer." Mais tarde, no seu romance, Jesus descobrirá que "nunca houve no mundo gente mais inocente que aquela de Belém, os meninos que morreram sem culpa e os pais que essa culpa não tiveram, nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se calou quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem a vida foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a vida, mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará". E nessa revelação do mal intrínseco ao ser e à vida surge, como força telúrica, quase sem idade, como Deus, o anjo, mendigo na anunciação, pastor na natividade, Pastor dos fantasmas que, depois, perseguirão Jesus, aquele a quem "não fazemos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir as respostas, ou por termos, simplesmente, medo delas. E, quando encontramos coragem para as lançar, não é raro que não nos respondam, como virá a fazer Jesus quando um dia lhe perguntarem, Que é a verdade. Então se calará até hoje." Não sei se Pilatos encontrou resposta, tampouco sei se a pergunta que fez era já a sua resposta, é por vezes mais cómodo duvidar do que procurar. Perante a ordem aparente do mundo, que não esconde um  caos eminente, vivemos esta condição de pressentimento contínuo. Poderei não saber a verdade do que vejo, ou encontrar uma verdade em várias fórmulas apresentada e discutida, ou, ainda, ir ou não descobrindo um pouco mais desta ou daquela verdade. Todas essas verdades, com mais ou menos lógica e aceitação, são meras representações. Mas acredito numa Verdade. Inscrita no coração dos homens. O menino que sou aventura-se pelos quatro evangelhos, como o menino da Azinhaga, pelas quatro partes do mundo, trepa por freixos acima quando encontra frases misteriosas ou afirmações estranhas, que deverá avistar lá de cima, para não se deixar enredar por arbustos e silvas, nem travar por muralhas de trepadeiras. Percorro narrativas singelas, cheias de amor pelas crianças e outros pequenos, de segredos guardados no coração, porque só aos que têm a humildade de aceitar que não sabem muito, e nem tudo poderão perceber, é dada a revelação negada aos sábios e poderosos. Os evangelhos por onde me passeio falam-me de culpa mas a pretexto de perdão, de falta como porta aberta à misericórdia. E da única Verdade que posso, em vida, e devo, conhecer: amai-vos uns aos outros. Nenhuma demonstração teológica, nenhum martírio, nem manifestação pessoal ou colectiva de fé ou de sagacidade filosófica, é isenta de contestação. A Verdade, a única, essa que cada um de nós deve descobrir no íntimo do coração, é o amor. Que vai criando o mundo e revelando Deus. A verdade que me cabe, a única de que tenho absoluta certeza, é o amor de cada dia, como se, ao dá-lo, Deus esteja comigo na construção da paz. Escuto muitas vezes os 4º e 5º andamentos da 3ª sinfonia do Mahler. O 4º, como sabe, é um solo para contralto: "O Canto da Meia-Noite" de "Also sprach Zarathustra" do Nietzsche. "Ó Homem,tem cuidado! Que diz a meia-noite profunda?...   ...Profunda é a sua dor!" Mas logo se inicia o 5º andamento,com o "bim-bam" do coro de crianças e mulheres e esse poema tradicional que Mahler foi buscar ao "Knaben Wunderhorn", anunciando que a Pedro foram perdoados os pecados: "A alegria celeste é uma cidade feliz / a alegria celeste não tem fim./ A alegria celeste foi dada a Pedro/ por Jesus, e a nós para felicidade nossa!". O amor não investiga culpas, alegra-se na misericórdia.


Camilo Martins de Oliveira