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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Antonio Gamoneda

 

Antonio:

 

Es bueno ir por las calles y escutar tus passos. Antonio, Antonio, acaso estemos en igual tormento? Pois eu creio que existe uma juventude da dor quando Deus com um sopro faz rolar toda a areia de uma praia, expondo imagens que não deviam ser vistas. E se uma mulher astral, espera, nessa hora, o seu vestido à deriva, diz-te que flui o desvelo dos vigilantes.

 

Luni, meu camino de mar pronto que se levanta como um grito inmenso, cobiço-te

 

como el musgo cobija las paredes.

 

E conheces-me de há muito no eixo dos teus sonhos, e um dia, enviaste-me la noche como una promessa de vigília! Yo de espalda sedosa  y firme de encontro ao rochedo dos tempos seguintes, repousei el grito definitivo y certero.

 

     Nadie me há enseñado una lágrima.

 

Nada.

 

Y Dios solo era verdade en el silencio. Luni?

 

Aquele que viste, não era o estrangeiro, era yo a llorar sobre la tierra.Yo la própria impotência de levantamiento. Eu a tentar compreender o código do amor de Deus enquanto desfiava rosários de joelhos para te amar louco e sem razões.

 

António, em Israel, o estrangeiro foi testemunha do como se pode arrancar o mundo de um nada. Amar apesar dos riscos, por vezes apocalípticos e de assimétricas tensões, pois que assim mais doem pelos beijos

 

Oh qué dura, feroz es la frontera

Ambos estamos de igual maneira ?

 

Não, a inflexibilidade do destino grego, impede, por uma migalha, que os humanos sintam o mesmo, à mesma hora e pela mesma razão.

 

Para o ocaso foi a asa de um pássaro. Meu mundo de sede. Meu mel desesperançado. Depois desenhei no chão da praia um jogo sem sentido, tremendamente solitário. Joguei-o para o deus jogador, insaciável à tragédia do estar-no-mundo. Mis lágrimas entram en la luz.

 

             Miro a mi amor, Luni.

 

Esteve o estrangeiro perto de la nudez de tus pechos? Reduziu-se à sua condição de homem? Ou por distracção de um anjo ficou sozinho a olhá-los enquanto o jade de um deus lhe impedia a nitidez?

 

Não sei. A minha ideia era só a de que Deus não precisa de ninguém.

 

Sim,

Es bueno ir por las calles y escutar tus passos

e ainda assim é bom de quando em vez pensar que quiero morrir en libertad como um caso de luz incorporada

o centro da luz que escuta o quanto não tens piedade do estrangeiro,

Ah António o universo e a criatura. Nada mais peças ou não tivesses sido um imenso ouvido

Es bueno ir por las calles y escutar tus passos

Luni, ah a pureza das facas abandonadas.

Sim, o zero e a completude são de uma claridade sem descanso.

Así las cosas

 

Teresa Vieira

Sec. XXI (Oviedo em 1931)

ALMADA E A “FACILIDADE” DO TEATRO. UMA REFLEXÃO FILOSÓFICA


O teatro de Almada Negreiros percorre, no seu conjunto, uma escala de acessibilidade imediata, perante o espetador, que nos leva do quotidiano epocal das primeiras peças, marcadas muitas vezes por um teor pró-realista, à destemporização digamos assim de outros textos posteriores: e por todos, cito, neste aspeto, a profunda reflexão filosófica dos dois últimos textos dramáticos conhecidos - “Galileu. Leonardo e Eu”  que parte de uma reflexão sobre Picasso, e “Aqui Caucaso”: ambas de 1965, partem de expressões dialogantes para sínteses do pensamento de Almada no plano estético e existencial. Haveremos de as analisar em maior profundidade.

É significativo que Almada, num texto que denominou precisamente “O Meu Teatro” dedicado “a Fernando Amado que pôs em cena duas peças minhas: sinto -me pago em artista e em amigo”, inclui, em nota preambular, uma reflexão estética e existencial sobre a arte do teatro - o dele, Almada, mas mais ainda o da criação literária-espetacular que o teatro significa e representa.

Retoma um princípio que já temos encontrado: “Teatro é o escaparate de todas as artes.” O que logo identifica a dimensão de espetáculo da criação teatral. E isto porque, lê-se no final do mesmo texto, ”a não-ação em teatro parece contradição. Não ação é o que distingue teatro dos espetáculos cinema e televisão”. Porquê? Direi eu que só no teatro a presença necessária do publico e a ação direta dos atores perante o publico caracterizam a própria essência da arte teatral - direta e sistematicamente criada e transmitida  dos artistas para os que  participam no simples ato de assistir diretamente…

E no mesmo texto, Almada esclarece: ”perguntaram-me se teatro não era a mais facil das artes. Respondi: não há artes mais fáceis, qualquer delas é facilidade. Teatro é facilidade, ali, à vista de todos”.

E mais ainda: “Arte é tornar facil o difícil. O difícil é o espontâneo. Este vem no fim. Pois quando foi primeiro não estava lá o próprio”. E isto porque “a amplitude do significado de Teatro é tal que não suporta categorias. Apenas esta: o Teatro de Fulano. Nenhuma outra arte tem grafologia tão rigorosa. É impressão digital do autor. Cadastral”…!

 

Duarte Ivo Cruz

LONDON LETTERS


Truth to power, 2013

 

O neologismo faz já o seu caminho nas veneráveis paredes de Westminster City. Os naysayers são todos quantos se opõem, discordem ou simplesmente duvidem de mais ou menos brilhantes narrativas ou iluminados projetos que por aqui proliferam ao sol de visões políticas alternativas. A retórica até que não anda especialmente apelativa, mas também, caro princípio, o dissenso não envia ninguém para a masmorra. — Qui casse les verres les paie. O ceticismo cresce, porém. A House of Commons emitiu um “brutal report” (sic) sobre o progresso da modernização administrativa. Em Truth to power: how Civil Service reform can succeed afirma o Public Administration Select Committee estar unconvinced que o governo haja produzido análise, políticas e liderança para responder a problemas que reconhecidamente afetam a eficácia, efetividade e transparência de Whitehall. — Well! As the call, so the echo! Ora, talvez em homenagem ao centenário literário de Ms Barbara Pym, em estilo pymish se arrassa a promessa refundadora do estado.
 

 
 

A noite foi hoje de foguetório à memória de Guy Fawkes. Em 1605, November 5, um grupo de conspiradores dedica-se a acartar barris de explosivos para as caves de Westminster. Objetivo: enviar pelos ares quer o King James I, quer as Houses of Parliament. O gunpowder plot não corre bem. Descobertos a instantes de acender o rastilho, áspero é o que a seguir regiamente lhes sucede na Tower of London. Já nos 400 anos subsequentes se celebra o evento queimando na rua efígies dos terroristas, e equivalentes, enquanto a criançada pede a penny for the guy numa singular tradição propagada pelas Bonfires Nights societies. A história fornece fartos exemplos de insucedidos planos da pólvora. Pois, apesar dos abrangentes esforços do No 10, teme-se que o programa reformista em torno do civil service “is bound to fail”. Segundo o PASC, as propostas da coligação conservadora-liberal falham na forma e no conteúdo para melhorar “one of the great institutions of state, critical to the continuation and stability of government”. Ponto sensível no escrutínio parlamentar é a ideia de rever a Haldane doctrine (1918) sobre a ministerial accountability, tal qual as nomeações personalizadas de Downing Street na prática revêm as bases do Northcote-Trevelyan Report (1854) relativas à political impartiality do funcionalismo.

O passado nem sempre tão joyously ou tão inconclusively se projeta no mundo contemporâneo. O achamento numa casa de Munich de valiosa coleção de arte furtada pelo regime nazi (1933-45) diz do sombrio legado hitleriano. O Führer cria o Confiscation Committee em 1938 March, sob a atenção do inefável Reichsmarschall Hermann Göring, a fim de tomar bens alheios, vender a “arte degenerada” em moeda estrangeira e reunir inigualável catálogo no Fuehrermuseum em Linz (Austria). Esta política tem aspetos definidores além do apartamento de Herr Cornelius Gurlitt, na propaganda de Herr Joseph Goebbels e em exibições públicas como a fogueira de 1,004 obras na central dos bombeiros de Berlin. O desiderato culmina no suicídio de Herr Adolf Hitler no bunker do 77 Wilhelmstraße, em 1945, com o dedo apontado ao povo alemão por não ascender à altura cultural do líder.

Contrastante e mais popular é o resultado da gubernatorial race nos USA. Mr Bill de Blasio vence em New York, entrega a maior cidade do mundo aos democratas e abre nova geração de políticas liberais numa longa noite de oooohs e aaaahs face às roman candles, chinese crackers e outros rockets que animaram os céus britânicos ao som da velha nursery rhyme. — Remember remember the fifth of November / Gunpowder, treason and plot. / I see no reason why gunpowder, treason / Should ever be forgot...


St James, 6th November

 

Very sincerely yours,

 

V.

Jürgen Habermas

 

O grande pensador que nos diz : envergonha-te de morrer antes de teres alcançado uma vitória para a humanidade.

 

No passado dia 28 do corrente na Fundação Calouste Gulbenkian colocaram-se as questões inerentes aos livros e às leituras, tendo em conta os desafios da era digital. Debater o papel do livro e da leitura na era da internet. Convidado o filósofo e sociólogo alemão, Habermas,  Jürgen Habermas, figura central do pensamento contemporâneo que confessa

"No meu trabalho diário sentir-me-ia perdido sem o meu computador pessoal, mas não sou verdadeiramente um habitante do novo espaço virtual. Não participo nas redes sociais, não leio 'ebooks' e de tempos a tempos escuto os relatos da minha neta sobre o seu admirável mundo novo”.

Gomes Canotilho deu-nos conta que em 2010 Habermas falhou a presença em Portugal por razões de saúde. Desta feita aceitou fazer a viagem até Lisboa por se tratar de uma conferência sobre educação

Escutar Habermas, um privilégio aguardado por mim de há muito. Habermas entre nós também com uma mão cheia de reflexões sobre a Democracia na Europa. Habermas um dos mais influentes filósofos do mundo falando para todos nós a dois passos de fisica distância.

Na semana passada, tinha leccionado uma aula sobre a Europa e, alertando, naturalmente, para os raciocinios de Jügen Habermas, nomeadamente no que respeita ao desenvolvimento de uma política comum entre os povos, nos quais se enraizam os mesmos princípios constitucionais, ainda que sem as mesmas origens étnicas, linguisticas ou culturais. Recordei a importância da Europa, pensamento  a que Habermas se tem dedicado nos últimos anos, atravessando áreas como a ética, a filosofia da religião, a linguagem, a estética,  entre outras temáticas, e recordando que a Fundação C.G. já editara este ano a obra de Habermas “A transformação estrutural da esfera pública”.

Para o filósofo, "no caso da pós-democracia, a percepção é que os governos não só perderam a vontade como também a força para intervir de modo a alterar o estados dos mais desfavorecidos".

Deste modo, poderemos colocar a possibilidade de alargar as fronteiras da legitimação democrática para lá das fronteiras do estado-nação?

Habermas entende que a transnacionalização da democracia, oferece uma saída que não se compadece com a apatia do mundo ocidental, nem com o distanciamento em relação aos políticos, existindo mesmo uma exigência, por parte dos cidadãos e grupos de protesto, de uma democracia directa.

Aqui um silêncio interrogativo do auditório. E acrescentei que mais nos atiçara o pensador:

o preço a pagar pela governação para lá dos estados é a crescente insignificância dos processos de legitimação no interior do estado-nação (…)”

Então a resposta reforça a afirmativa:

 necessário se torna que surjam novos tipos de comunidades transnacionais e a União Europeia é suposta ser a primeira desse tipo de instituições, explicou o autor da “Teoria da Acção Comunicacional”.

No entanto, prosseguiu Habermas que, a crise da zona euro é a prova de como é difícil o caminho até se chegar a um “sistema democrático supranacional ambicioso e com vários níveis”.

Ultrapassar o actual estado de coisas implica, defendeu, uma mudança no espaço público europeu, um espaço que é mais uma soma de espaços públicos nacionais do que um fórum de discussão de questões genuinamente europeias e comuns a todos os estados-membros.

A mundialização, a busca planetária, a Europa de geometria variável ou a la Carte, os laços de pertença interrompidos pelo “poder de agenda”, mostra-nos que, esta crise nos clareou o quanto é necessário mudar de política, e levá-la a enquadramentos partilhados por políticas económicas e sociais que nos libertem dos mercados financeiros , neles responsabilizando investidores e não contribuintes.

Claro está que para se caminhar neste futuro os países têm que se afastar dos egoísmos nacionais e adoptar verdadeiras perspectivas europeias comuns, não conformadas ao mercado, mas sim, à modificação do seu papel em prol de um advir consciente, responsável e inequivocamente seguro da geração que se deseja por uma justiça a recriar, começando esta em cada um.

 Mas os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, daquilo que os europeus devem uns aos outros. Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Quantas vezes a política do dar e do haver prejudicou a identidade dentro da União Europeia? Lancei aos alunos. Quantas vezes? E repito a análise de Habermas

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos maiores pensadores do nosso tempo, encerrou com estas palavras a sua conferência sobre a democracia na Europa, na passada segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Fica por repensarmos todos a razão e o limite das transferências de soberania que não colocam em causa a coragem da revisão dos tratados, e fica por saber o quanto os meus alunos puderam compreender que qualquer dos caminhos tem custos, mas que é preciso sair do conforto dos egoísmos nacionais que nos condenam, e que saibamos olhar-nos como parte de uma comunidade, independentemente de fronteiras, na qual saibamos responder à  questão: quem somos nós?

Se estas controvérsias não forem lançadas nos espaços públicos nacionais, estes serão moldados de acordo com o formato das ‘democracias conformadas”, digo.
Mas, os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, refere e repete de novo

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas

(re)concluiu o filósofo.
Gozar de soberania é também saber tomar decisões políticas comuns e esta característica unifica-nos sem nos causar unidimensionalidade. Digo.

Nasceu em Düsseldorf, em 1929 Habermas, e foi fortemente influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger.

Habermas para quem

O Homem é um “sim” que vibra com harmonias cósmicas

Recorde-se também o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". Habermas e o cardeal debateram razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum.

Saibamos sempre que os homens de cultura se situam no contexto da história.

E com este filosofo, casa cheia afinal na Fundação Gulbenkian !

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Outubro 2013

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins 
de 4 a 10 de novembro de 2013

 

"Alfabetos" de Claudio Magris (Quetzal, 2013) é um conjunto de artigos e ensaios sobre a literatura e a cultura, bem como sobre ideias e autores. Encontramo-nos com um dos grandes pensadores europeus do tempo atual, vencedor do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva. Para o Centro Nacional de Cultura e para a Europa Nostra foi um motivo de extraordinária alegria podermos receber entre nós um europeu que não esconde o entusiasmo, o sentido crítico e a determinação em nome da cultura de paz.

 

 

 

ANTÍGONA, BEM PRESENTE…
«Se me fosse permitido escolher uma só página da literatura para lançar no espaço em testemunho da humanidade, escolheria o monólogo de Antígona, de Sófocles». Todos nos lembramos da intensidade dessas palavras, ditadas pelo amor e pela revolta. Quem o disse foi Claudio Magris, recentemente galardoado com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural. A referência a Antígona não é casual, é um símbolo de ligação entre a humanidade e a memória, entre a justiça e a verdade. Magris é um escritor consagrado. Nasceu em Trieste, cidade que viveu o drama dos conflitos europeus. Os seus ensaios partem da literatura e correspondem à reflexão permanente sobre a relação com a memória. O que está em causa é a consideração do património cultural como causa comum, como direito e dever, como lembrança e criação. Ao longo dos seus escritos tem encarado esse múnus pátrio como muito mais do que os monumentos e os vestígios materiais, mas como a vida, enquanto relação com a natureza e como as pessoas. O património cultural não é apenas constituído pelas pedras e pelos monumentos, mas pela gente, pela história, pelas línguas, pelos costumes e pelas tradições. Não esqueço o dia já distante em que o meu amigo Marcello Duarte Mathias me falou da impressão fascinante deixada pelo «Danúbio», obra-mestra de Magris, exemplo de viagem iniciática desde as origens, uma fonte, uma torneira, até aos destinos do drama e da esperança, da tragédia e da ilusão de todo um continente que é o nosso. Como podemos ficar indiferentes relativamente a esse percurso atribulado da geografia à literatura, dos monumentos aos hábitos, das pessoas e dos símbolos, das vozes e dos silêncios? «Onde vos dirigis?», perguntam os viajantes numa das obras-primas de Novalis, lembrada pelo autor em «Alfabetos» (Quetzal), última tradução saída entre nós. E a resposta é: «Sempre rumo a casa!». Eis-nos perante o múnus pátrio. «Esta odisseia sem retorno a Ítaca é a viagem, o destino mais frequente dos Ulisses modernos». E que é o culto, a defesa e a divulgação do património cultural senão essa aventura de rumar a casa, encontrando mil caminhos e descobrindo a diversidade e a força das raízes? Claudio Magris vive com intensidade o imaginário europeu, sendo cidadão de um lugar onde a guerra terminou muitos anos depois de ter formalmente encerrado. Trieste está no centro da Europa, mas compreende o sul e o norte, e tem a lembrança de muitos mares, como aconteceu como jovem Enrico Mreule, helenista e filósofo, em «Um Outro Mar», que partiu para a Argentina, deixando a sua Gorízia natal a chamar por si, onde ficou o genial poeta Michelstaedter. «Na desconexa e conflituosa multiplicidade da vida, o indivíduo apercebe-se de que é apenas uma precária e provisória cristalização (dos) conflitos e descobre que já não lhe é possível desejar não ter mais nada sobre que se possa debruçar com amor e nostalgia».

 

DE TRIESTE A LISBOA
Lisboa está na outra ponta europeia, mas miticamente ligada a Ulisses, e é um lugar de outros mares. Manuel Poppe invoca a ligação portuguesa, em nota a «Ilações sobre um Sabre»: «o triestino, o triestino ensaísta e criador, poeta e analista enquanto subia as ruas de Alfama, as do Bairro Alto e via – e, se não via, adivinhava-o – o Tejo, lá em baixo, recordava o golfo da própria cidade» (cidade de Svevo e Saba, lembramos nós), mas também «o casario da cidade velha e pensava que o cossaco fugitivo (o general Krasnov) poderia ter enterrado o sabre naquele mar. (…) E em Lisboa viu, provavelmente, as pessoas à procura das qualidades, das particularidades, do próprio perfil, com a obstinação, a teimosia e a honestidade que o caracterizam a ele, Claudio Magris». A obra do ensaísta de Trieste é uma invocação permanente da viagem, é o gene de Ulisses que está vivo. Mas não é uma viagem imaginária, e sim uma peregrinação de vida, de raízes, de tradições, de valores comuns. E quando falamos de património comum, perguntamo-nos de que cultura é o templo dos Balcans que foi sinagoga, igreja ortodoxa ou romana e mesquita? Temos, no fundo, de entender que é património comum, sinal de unificação, como encontramos no monólogo de Antígona. E, assim, ao chegar ao fim da viagem do Danúbio, e de percorrer toda a história europeia, de guerra e paz, de conflito e entendimento, o viajante, o peregrino, o cultor da palavra invoca Biagio Marin: «Fa che la morte mia, Signor, la sia como l’scôre de un fiume in t’el mar grando». É o futuro da Europa que aqui se encontra, como encruzilhada de elementos contraditórios. Como não ter dúvidas sobre um futuro comum europeu? Magris é crítico. Fala-nos de falta de audácia. E não deseja um futuro uniforme, mas sim um caminho de diferenças e de compreensão de que a vida tem de partir e aceitar os conflitos e de encontrar capacidades para os entender e regular – de modo a pôr a dignidade das pessoas no lugar central. Hoje movemo-nos, deslocamo-nos, encontramo-nos, deixamo-nos fascinar pelas diferenças, mas sabemos que há uma pequena luz bruxuleante que nos espera, no aconchego da nossa diferença. E «há, principalmente, uma lição na Bíblia necessária a toda a liberdade individual e coletiva: a da anti-idolatria. (…) O ser humano torna-se escravo quando é escravo de qualquer ídolo, quando exalta, como sendo absoluto, um valor terreno, histórico e relativo».

 

A MEMÓRIA COMO SINAL DE VIDA
No último livro que nos deixou, Helena Vaz da Silva usou o título significativo «Incitações para o Milénio» (2001). Aí nos alerta para o movimento, para a atenção e para o cuidado. Temos de regressar a essa leitura, que muitos esqueceram. Este primeiro prémio, criado pela Europa Nostra e pelo Centro Nacional de Cultura, procura dar o sinal nítido de que não há cultura sem capacidade de perceber a incerteza e a complexidade, que exige a audácia inovadora e o sentido crítico. E, em tempo de crise, importa encontrar o modo de realizar, de ser criador, de ser fator de paz e de justiça. Só a exigência, a vontade, a dúvida, o entendimento dos limites podem ajudar-nos. Claudio Magris ensina-nos a encontrar na memória um sinal de vida e de futuro. Edgar Morin exige-nos que entendamos a importância da metamorfose, estando de sobreaviso perante todas as ameaças sub-reptícias que procuram limitar a autonomia, a liberdade e a dignidade. Uma nova narrativa europeia obriga à busca de valores comuns, à preservação das diferenças e sobretudo a que não haja ilusões sobre qualquer futuro idílico. A liberdade nunca está adquirida. A paz nunca está conquistada. A virtude nunca nos protege da perversão. «Por detrás das coisas, tal como são, há também uma promessa. A exigência do que elas deveriam ser; sempre a potencialidade de uma outra realidade (diz Magris, em «Utopia e Disincanto») que se esforça para vir à luz, como a borboleta na crisálida». E afinal não será o desencanto uma forma irónica, melancólica e aguerrida de esperança?

 

Guilherme d'Oliveira Martins

NASCER É OBRA DE MILÉNIOS…

 

Meu Caro José:


Saberá, meu unilateral correspondente, melhor, muito melhor do que eu, o quanto gostei do seu relato da Natividade de Jesus: "O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. "Sei bem que me desvio (um pouco?) da contemplação feliz, apaziguadora, certamente necessária, de um Presépio tradicional, inodoro e bonito. Eu, como todos, gentes várias de muitas condições, preciso dessa paz, do instante, curto que seja, em que sinto, no coração angustiado ou perdido, o conforto duma lareira amiga, a visão de uma esperança como promessa antiga... (Uso as ... reticências,sei que o José as não usava nem gostava delas. Mas não é por mim nem para mim que as uso. É tão só porque assim exprimo uma expectativa, que mais não é do que querer aguardar o que ainda não conheço. Modos de ser, concedo...) Mas gosto, sem reticência alguma, da verdade humana, dessa densidade tão sentida do parto de Jesus, do livramento de Maria. Essa foi a Incarnação de Deus. É, como todas as dores de parto, contra todos os atentados contra a vida e todos os desvios dela, o Manuel, o Deus connosco. É, para o cristão, o que a poesia é para Novalis: o real absoluto. Fundador da nossa cultura como visão metafísica do mundo e da história. O Deus que "nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo..."morrerá, infamemente talvez, mas para que, na hora da morte, ao fechar os olhos, cada um de nós os possa abrir com Ele. Deus é como a semente: morre para renascer. E porque não será assim, na nossa condição de trânsfugas, quando até do casulo da lagarta sempre nasce uma borboleta? Ou do coração que está na boca de um poeta analfabeto, se liberta um poema que nos prende o vadio pensamento? Onde se nos promete Deus? Se à sua imagem e semelhança fomos feitos, ele certamente habita o segredo do nosso coração. E é esse o segredo, José, da vida de cada um. O tal que cada um, à sua maneira, desvendará ou não. Por isso sempre penseissenti que de nada vale, nem para nada serve, a santa inquisição ou outra qualquer perseguição. A verdade não se impõe de fora para dentro, nem sequer se demonstra fora da íntima intuição de cada um. Creio muito que, no coração de Deus, a verdade é uma vocação lançada ao coração dos homens. E Deus lá sabe. Posso entender que almas piedosas se amofinem à imagem súbita dessa natividade tão carnal do Deus humanado. Mas assim terá sido, nenhum escrito canónico nem apócrifo o contesta, e,  pelos séculos de piedade cristã que se sentia na rudeza do mundo em que ela vivia, tal sentido de pertença de Jesus à terra e à condição dos homens esteve sempre presente. Mas é também parte do humano coração dos povos uma eucaristia,acção de graças. A incarnação de um deus transcendente, nem nos olimpos onde os deuses incarnavam os nossos desejos e fúrias, nem mesmo nos neopaganismos "à Ricardo Reis", em que se contentavam com o espetáculo do mundo, despidos já de qualquer intervenção nas nossas vidas, tem, para os fiéis de religião monoteísta, explicação plausível. É um escândalo. E tal é o espanto, que a sua representação terá de se apoiar em sinais de transcendência. Até o José Saramago talvez não tenha resistido a essa tentação: no seu "evangelho", percebo, a conceção de Jesus terá de ser realizada pela união carnal de Maria com José. Não me escandalizou a ideia, devo dizer-lhe, nesse tempo terrenal (como diria o nosso Gil Vicente), em que o José a pôs por escrito. Nada tem contra a natureza das coisas. Aliás,nem sempre compreendi,antes de estudar alguma antropologia,o horror "religioso" ou "puritano" ao ato carnal  -  que, na minha religião, tal como a fui entendendo, é sacramento do amor criador, com Deus, entre um homem e uma mulher  -nem ganhei horror ao sangue menstrual da mulher; nem me passou pela cabeça que a união de meu pai e minha mãe fosse um acto reprovável... Abençoado gozo que me deu vida! Mas também não vejo por que razão, antes e depois de ter estudado antropologia, eu não hei de perceber que um acontecimento de dimensão cósmica como é a incarnação de Deus, não possa ter, nos textos que nos transmitem testemunhos coevos  -  que, aliás, ó José, note bem!, não eram de gente interesseira, antes de pessoas simples, muitos pobres, todos talvez agradecidos por esse gesto de Deus, que maravilhava a sua fé!  - essa expressão de pureza absoluta, o gesto sem mácula possível, livre de qualquer outro pensamento  -  desses muitos que nos ocorrem quando em acto sexual,a luxúria ou a violência vêm apagar a ternura e o amor. Somos trânsfugas, sabê-lo-á hoje, bem melhor do que eu. Por isso tanto precisamos dessa " Ó estrelinha do norte, espera por mim, que já vou, alumia o meu caminho, já que o luar me enganou..." Cá em baixo, José, digo-lhe com franqueza: preciso de esperança, não de mitos que os homens construíram e trucidantemente se entreteram a destruir... Como Antero de Quental, tenho um coração que procura a mão de Deus... Amar os outros, amar mesmo este destino de escuridão e saudade, a que tantas vezes nos sentimos condenados, não é fácil. Para nenhum de nós, sobretudo para os que o fado despojou e nós outros desamparámos. Só por isso seja abençoada a virgindade de Maria, pois não é de um insignificante pormenor físico de que então falamos,mas desse indizível sentimento de dignidade inicial, essencial, falo-lhe, José, do intocável que habita o cerne de cada pessoa e que, à falta de melhor, os mais pobres reconhecem na Virgindade Maternal de Maria.
Por isso, à margem e contra as tradições misóginas e machistas de civilizações, culturas e religiões, se foi impondo, no culto popular, a revelação do que não deixamos que alguém desrespeite em nós. No seu "evangelho", o José Saramago tem algum temor (?), ou será premonição temerosa (?), quanto ao sobrenatural de Jesus: concebido pela união de Maria e José, não se livra todavia de um mendigo - anjo? - a quem Maria dá de comer numa tijela, onde ele deitará terra, no fundo da qual brilhará uma luz e que, mesmo enterrada, por obra de José e dos da sinagoga, será sempre semente de uma árvore sempre renascida. Será esse anjo (?) escolta de Maria até ao livramento,aí feito pastor que lhe leva o pão. Bonita imagem,no seu presépio,aliás,só os pobres participam e oferecem ... Se algum dia eu chegar aí acima  -  pois duvido de que o José possa entretanto voltar cá abaixo  -  far-me-á o favor de explicar porque insistiu em que o outro José (o carpinteiro) fizesse mais filhos a Maria, e lhes deu os nomes que uma narrativa egípcia, de que se conhecem originais em copta e árabe, atribuiu aos filhos do primeiro casamento de José Nazareno, antes de Maria. Estes textos, como outros coevos, e a tradição dos povos crentes, sempre referem a Virgindade Maternal de Nossa Senhora. Ora, se o Alfredo Marceneiro perguntava, sobre ele mesmo, "há maneira melhor de ser fadista?", não poderei eu inquirir se há maneira melhor de concebermos a incarnação de Deus? Noutro texto apócrifo, uma vida de Jesus em árabe, de origem síria, remotamente persa, diz-se "Em nome de Deus, Benevolente e Misericordioso: no Tempo de Moisés, o profeta, sobre ele permaneça a paz, vivia um homem chamado Zoroastro; foi quem revelou as ciências da magia. Certo dia, em que, junto de uma fonte, ensinava as ciências do magismo, disse-lhes em seu discurso: A virgem engravidará, sem ter conhecido homem, sem que o selo da virgindade tenha sido rompido..." E diz o Corão: "Deus não pode ter filhos. Longe da sua glória essa blasfémia! Quando decide uma coisa, diz: Seja! E ela é." Mas antes disse: "A ela enviámos o nosso espírito... ... Disse-lhe: sou o enviado do teu Senhor, para te dar um filho santo... Como, contestou ela, terei eu um filho? Homem algum se chegou a mim e certamente não sou uma dissoluta... Respondeu-lhe: Será assim, disse o teu Senhor : isso é fácil para mim. Será o nosso sinal diante dos homens, prova da nossa misericórdia.".  Haverá forças ocultas, ânimos, que nos escapam e perseguimos com símbolos e ritos que possam possuí-las; ou deuses olímpicos, tão cheios de vícios nossos que poderemos corrompê-los; ou divindades sanguinárias que exijam sacrifícios que medularmente nos anulem. Ou, ainda, promessas de homens com memória mais curta e força mais fraca do que a sua própria existência. E aparece esta proposta de um Deus que fecunda, ele mesmo, o ventre de uma mulher humilde e nos diz: Quero ser convosco! Posso acreditar, aceitar ou não. Se disser sim, sei que participo dessa geração. E não preciso de mexer numa história que foi tão lindamente contada.

Camilo Martins de Oliveira

EM DIA DE COMUNHÃO DE IGUAIS

 

Meu Caro José Saramago:

 

Veja bem ao que chegámos! Aí, que não é sítio em que se esteja, mas tão simplesmente se é, em alegria e paz... Ou, melhor ainda  --  procuro eu exprimir-me apesar da minha limitação  -  aí, que nem sítio é, mas tão somente a magnífica glória da comunhão de todos nós, passados, presentes e futuros, com a infinitude do universo que, creio, sim, é o coração de Deus, o José está cheio de todos os que amou, publicamente ou no segredo íntimo do seu coração imortal, o tal que já morreu e continua... Desculpe, hesito no modo de dizer, pois não sei como... e como seria eu capaz de dizer o profundamente sentido, o que nem eu de mim entendo e entrego à misericórdia de Deus? O indizível, porque indefinível como o mesmo Deus? Volto ao meu sítio, Portugal em dia de Todos os Santos, 258 anos depois do terramoto que arrasou Lisboa. Não vou comemorar uma dor, basta-nos a lembrança dela. E a esperança renascida, que reconstruiu uma cidade, hoje ainda renovadamente querida! Lisboas com vários nomes, muitos senhores, diversos povos e fés, mais ou menos acertadas urbanizações, muitas houve! E, nelas todas, só uma é. A nossa Lisboa, que está aqui, como a vemos hoje, mutilada, reparada, acrescentada, projetada ainda, esta que o nosso olhar enxerga...é querida e efémera! A Lisboa que é, aquela que ainda descobrimos ou vamos pressentindo como estava noutros disfarces passados, essa é a que é, sem tempo nem modo, a nossa comunhão com o que vemos e não vemos, com o que dizemos e o que não conseguimos dizer. Volto ao meu tempo, a este 1º de novembro de 2013, quando, pela primeira vez,  por acordo entre o Estado Português e a Igreja Católica, não haverá dia de feriado santo para a celebração do que é a essência das comunidades: esse manifesto sinal de pertença e esperança, essa lembrança de que não somos sem os que nos vieram antes e nos virão depois. Há milénios que todas as civilizações de gentes humanas procuram conservar os mortos e celebrá-los com os vivos. Numa Nação tão tecnologicamente "avançada" e economicamente poderosa como o Japão, a celebração de lares e de penates  -   assim diriam os romanos  - determina hoje duas semanas de feriados por ano. Não há futuro sem origem. Não há sociedade solidária sem comunhão. Não há existência sem essência. Não há desenvolvimento sem pessoas. Nem motivação sem alma. Esta, já outro dizia, no século XIX, que não a encontrara na ponta do bisturí. Procurou mal, nunca ali a encontraria. Estes dizem que encontram aumento de produto no corte da comunhão das almas. Curto é o alcance de quem não comunga na gente. Talvez o José me compreenda. Já não está aqui, onde o interesse imediato é o exercício quotidiano da estupidez. Chegue a esse assento etéreo o meu queixume.

 

Lisboa, 1 de novembro de 2013.

       
Camilo Martins de Oliveira 

NUNC ET IN HORA…


Meu Caro José:

Nomeai-vos, foi pelo José dito, uns aos outros. E bem. São sempre bonitos e bons, e connosco devem ficar, estes nomes que pais ou avós, ou padrinhos ou quem nos acolheu, ou alguém antes de nós, nos deu em penhor de nos querer bem. Pensossinto, muitas vezes, esse instante único, irrepetível, em que, todos nós, fomos simplesmente esse ser que gritou um chôro ou chorou um grito, pouco importa aqui a ordem das palavras, a dor de um livramento de mulher é a nossa dor inicial, e a alegria dela aquela que não sabemos nunca quanto tempo dura. Assim somos feitos, esta, e nenhuma outra, é a nossa condição. Da minha vida só sei que a recebi para que jamais ela me pertença. Não possuo, nunca poderei possuir, o meu bem mais precioso. Aí, onde hoje já não está mas simplesmente é, o José único, que em seu dia nasceu, talvez saiba já (já, para mim, aí se apagou o tempo, nem espaço há, digo aí por escassez de conhecimento) que a negação de Deus é tão absurda, aqui em baixo, se assim me posso exprimir, como qualquer perentória afirmação de um deus reduzido à nossa dimensão, com as nossas simpatias e antagonismos. Há um rasgão inato à condição humana: ao rompimento das águas do ventre materno, somos compulsivamente atirados para o desconhecido, e não sei se choramos para podermos respirar, ou se já de saudade de um refúgio que tão cedo não teremos. Nesse momento, sem o saber sabemos que, da nova vida em que acabámos de entrar, só a morte nos livrará. E porque, a partir daí, passamos a ser quem busca sempre, quem sempre terá de procurar, queira ou não queira, até aquilo que desconhece e não sabe se irá encontrar, aprenderemos de nós que somos esses que Ortega y Gasset chamou trânsfugas da natureza. E mais trânsfugas seremos ainda, quando, de Caronte, o barqueiro sombrio nos largar na outra margem. Onde, teimo eu em crer, com S. João Evangelista, "Deus é luz e nele não há quaisquer trevas"... Como se tivéssemos sido destituídos de um paraíso inicial, achamo-nos desamparados, sabemos todos que seremos sempre pobres, mesmo aqueles que acumulem muitas riquezas no mundo. É nesta aflição que pensamos em Deus ou, se preferir, interrogamos o desconhecido, o inevitável mistério da vida e do destino. E essa interrogação habita o coração de cada um, como segredo que se poderá ou não desvendar... Mas lá fica, usque ad mortem. O José já (já, para mim, claro!) conhece a resposta, sem segredo, tão só como evidência. Eu ainda não, e todos os dias repito a mesma prece: Que a minha tão dura condição não me deixe cair no desalento, nem baixar os fracos braços perante a injustiça e o mal; nem me leve a qualquer raiva, manifesta ou surda, contra a única esperança que a transcende. Que não esqueça, no decurso do tempo incógnito desta minha vida  -  o único em que ontem ou amanhã, agora, jamais ou nunca poderão ser significantes  -  que  "um só dia, perante o Senhor, é como mil anos, e mil anos como um só dia". Ascendeu o José a uma sabedoria que está muito acima da minha, da nossa, dos que por cá andamos neste esforço de cegos a abrir os olhos. Conhece o que é o mal, não precisará de procurar, como nós, uma explicação plausível, comum a todos, para o escandaloso facto de ter sido razão de castigo maior Adão e Eva terem provado o fruto da árvore do conhecimento. Eu ainda me pergunto porquê. Sobretudo quando considero tanta literatura sacra, tantas religiões insistindo em que devemos saber distinguir entre o bem e o mal. E será o mal, cujo conhecimento original nos foi negado  -  só porque a primeira mulher o terá querido saber  -  culpa mesmo nossa? Diz o José que Caim matou Abel, mas por culpa de Deus. E que em nome de Deus (perdoa-me, certamente, que antes da minha hora eu escreva Deus com maiúscula) se foram fazendo, pela extensão do tempo e do espaço, fartas guerras, perseguições, sevícias e mortandades. Não posso negar que assim, de facto, foi e é múltiplas vezes invocado esse nome de Quem é. Como não será possível escamotear que, em nome do benefício da negação e desejada morte de Deus, tão indesculpáveis atrocidades se cometeram, ainda em tempo da vida terrena do José,do império soviético ao Cambodja de Pol Pot. Porque terei eu de culpar Deus de tudo o que os humanos fazem  -  e do mal, ainda, de todo o mal que cada um de nós considera que não praticou e cuja responsabilidade, portanto, a outrem deverá ser imputada? Não é tudo isto um enormíssimo absurdo? Que sentido tem a raiva, o ódio do Outro, o mesquinho, malevolente impulso ou desejo de lhe imputar culpas? Será essa revolta que nos libertará do mal que nos rodeia e persegue? Quantas teses filosóficas, quantas revoluções sangrentas nos prometeram a construção do homem novo pela sua auto-apropriação, por essa ilusão de um destino possuível e controlável? E,finalmente, impuseram regimes de tão sentida redução do homem e tanta injustiça persecutória... A tal ponto que George Orwell verificou esta simplicidade lapaliciana: "All animals are equal, but some animals are more equal than the others..." Assim é sempre, e a injustiça relativa dos destinos pessoais e das desigualdades sociais, tanto quanto o possamos saber, não encontrou ainda solução satisfatória, isto é, resposta adequada das nossas teorias e métodos. Por maioria de razão, perplexos continuaremos perante a questão do mal. No tempo e no lugar, no espaço em que o José percorreu a vida tensa que a cada um de nós cabe "cá em baixo" (e é bem baixinho,por vezes...), acreditou talvez no milagroso Deus da sua infância, jurou, mais tarde, a morte dele e a redenção dos homens pelos homens (repare no plural). Só não acabou (porque,como o José tão bem disse,há "essa estranha formosura" que não morre) nem revoltado nem resignado por obra e graça da Morte (perdoe-me outra vez a maiúscula) que, afinal, se queda intermitente, hesita e, como se Deus fosse, não ceifará um homem, só pelo encanto de uma suite para violoncelo, de Bach. Mais precisamente,como aponta José Saramago em "As Intermitências da Morte", da 6ª, em ré maior. Composta em Cöhten, quando o compositor estava ao serviço da família ducal Anhalt-Cöhten que, apesar de calvinista, fazia questão em fomentar a liturgia e a música, quer sacra quer profana. Conta-nos o José que a Morte foi visitar o violoncelista desconhecido a sua casa, para lhe entregar o pré-aviso da sua hora letal. Mas não resiste à tentação de lhe pedir que para ela toque essa suite nº6, opus 1012, ao que ele finalmente acederá: "mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a Rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher"... Mas foi Rostropovitch quem escreveu: "Com a "allemande" da 6ª suite espera-nos uma grande surpresa. A sua melodia flutuante parece escapar à lei da gravitação universal  -  é como se errasse pelo espaço". Creio que o José Saramago sabe que nunca se emancipou totalmente de uma certa tentação religiosa. Afinal, o pessimismo da sua visão do mundo e dos homens parece-me ser antes fruto duma frustração: a de não ter jamais conseguido discipliná-los, tal como, ao engano, também certas instituições religiosas chegam a presumir que podem. Ou como Ricardo Reis que, monárquico educado pelos jesuítas, até no seu neopaganismo continua sendo fiel à disciplina mental dos tais jesuítas. E eu ousaria afirmar que há fortes analogias psíquicas entre arautos do materialismo ateu e fundamentalistas religiosos, entre os quais certos proclamados católicos que num qualquer "corpus" canónico pretendem encerrar Deus e assim responder terminalmente às inquirições da nossa angústia. Penso todavia que a revelação de Deus não está terminada, vai-se desenrolando ao longo da história dos homens. São, assim, os dogmas uns semáforos, surgem em encruzilhadas e têm o seu tempo: avança,espera,pára,avança,etc. Deus vai-se revelando em nós e por nós. Essa é a dinâmica do cristianismo, religião incarnada. Aí se debruça Deus como o pai do fugitivo pródigo, naquele quadro do Murillo,na National Gallery de Washington D.C., que Camilo Maria gostava de lembrar e comentava dizendo que,sem querer blasfemar,lhe parecia que o pai,ao acolher o filho arrependido, lhe pedia perdão também, perdoar outro é pedir-lhe perdão também. Eis o que, para mim, é tão bonito no cristianismo, essa constante misericórdia que, só ela, torna solidária a esperança. Contemplo muitas vezes o mundo e a história com uma visão "teilhardiana": vivemos um processo de cosmogénese, somos, Deus e nós, solidários no sofrimento, na dor do parto, e na alegria da promessa que nos dá esperança. Que bem o diz este Papa Francisco: "A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para S.Francisco de Assis,ou os pobres para a beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob forma de uma presença que o acompanha, de uma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, se tornou " autor e consumador da fé " (Hebr.12,2). O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente..." E agora mesmo, no silêncio desta casa grande onde estou só, a essa fé entrego a dor do meu parto, e à esperança a simultânea alegria. Talvez também como a Morte faz no fim das intermitências do seu livro, José: "A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu"

Camilo Martins de Oliveira

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