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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MUDAM-SE OS TEMPOS, FICAM-SE AS VONTADES…

 

Minha Princesinha de mim:

 

Chegou-me (hoje aí, 18 de Agosto de 2013), por misterioso correio comungante, uma carta que a um escritor que não conheci no meu tempo, José Saramago, escreveu o nosso Camilo português. Neste nenhures ou todalgures  -  terás de esperar a hora em que sejas, simplesmente, fora de tempo e lugar, para entenderes o que é ser sem estar na tua limitação  -  ter-me-ia comovido se ainda sentisse comoção e não comungasse apenas na inefável alegria de ser... Deste lado da vida, já não esperamos, comungamos no amor que é a vossa esperança e já nossa foi. Aqui já não há mal, nem fé, há a visão da glória a que fomos chamados. Que é de todos. Adivinha-a, aí em baixo, quem tiver percebido que a vocação da Vida é partilha. De ti me lembrei muito quando, eu também, procurava no amor humano esse "íntimo rumor que abre as rosas"... Era daqueles homens que na mulher como que adivinha a presença maternal de Deus. Ou essa união inicial que até o sentimento erótico nos revela e Georges Bataille tão bem exprimiu quando afirmou que l´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort...

      No teu parto,Senhor,nosso nascimento,

      antes e depois de nós acontecemos,

      Nossa Senhora do nosso livramento,

      Deus-Mulher,onde nos movemos...

      Que nome dar-te,de raiva ou de sossego,

      Eros,Virgem,Vida ou Ser tão simplesmente,

      dia só de sol ou noite de aconchego,

      amores breves ou Amor eternamente?

      Onde procurar-te a Ti,se em Ti só somos

      a alegria de sermos mais que estamos

      nesta vida tão mesquinha que nos deste?

      Ou será abandonar-te,se nos pomos

      à procura de Ti,e renunciamos

      ao mesmo desejo que em nós quiseste?

   Tinha então vinte e poucos anos, era namoradeiro e casto, e ouvia vozes a chamarem-me... Fala-se muito em vocação, eu sempre senti muitas. Arrisco dizer,desde este "assento etéreo", que me teria certamente comovido, na minha existência aí em baixo,com o que o ateu Saramago escreveu,com o que,na visão eternamente feliz da essência ou do infinito ser que somos,saberei que é a verdade única do amor: querer bem,pensarsentir,no tempo finito que nos foi marcado, que viver é dar sem nada pedir em troca. Que o mais importante,na efeméride da vida terrena,é essa atenção,esse cuidado amigo,de escutar em nós o "íntimo rumor que abre as rosas"... A minha religião cristã não foi, a tua não é ,um código jurídico do amor. É, do Amor, a vocação. Muitas leis poderão promover, justificar, tolerar, perdoar qualquer concupiscência, esse desejo inato de satisfação egoísta,quer no plano das paixões ditas carnais (intemperança, luxúria ), como no das que permissivamente vão por aí arranjando teorias económico-sociais para justificar a injustiça entre irmãos. Poderão determinar ou convencionar padrões de comportamentos. Mas não devem esquecer que a chamada essencial, a vocação dos homens, é à conversão interior. É compreender que o amor concupiscente,o desejo da posse de nós nos outros, ou a idolatria do dinheiro à custa deles,é uma negação. Amar é transformarmo-nos,como Deus incarnado é tudo em todos. Falhar-se-á muitas vezes,tentar-se-á sempre. Imperfeitos são os homens,limitadíssimos. Mas, mesmo não sendo desse mundo, o Reino de Deus só se constrói pelo coração dos homens de boa vontade. Lembras-te de outro mau soneto (nunca tive grande jeito para versejar) que,por esses meus vinte anos,escrevi? Até ao fim dos meus dias senti essa necessidade de um encontro:

      Inquietante amor, este que te tenho,

      Senhor, assim disperso em meus sentidos,

      único, vário, igual e estranho,

      a Ti e a teus frutos proíbidos...

      Tu, só Tu, comandas em segredo

      a paixão em que a tua me adivinha

      e a tua mão tece o meu enredo

      e à tua vida em mim eu chamo minha...

      E na solidão,teu silêncio manso,

      meu coração repousa no deserto,

      onde, estando longe, estás tão perto...

      quando, Mulher, te despes e te alcanço

      e com tanto pudor me aconchego

      à sombra do teu ventre,meu sossego...

Pensavassentia então (vejo) que o amor, esse querer bem, tem, afinal, em sua própria dádiva a sua primeira recompensa: a pacífica alegria de nos darmos. A confiança. Talvez isso seja a eternidade onde sou.

                                  Camilo Maria


     
 
Camilo Martins de Oliveira 

DIREITOS LINGUÍSTICOS E LÍNGUA PORTUGUESA

 

Da autoria de Joaquim Miguel Patrício divulgamos, pela sua importância, o seguinte texto:                                                                      

«Se temos direito à língua, temos de ter o direito à língua; se não temos direito à língua, temos de ter o direito à língua; em qualquer caso, temos de ter o direito à língua. Para rejeitar o direito à língua, temos de usar o direito à língua, ou seja, para argumentar que não temos o direito à língua, temos de ter o direito à língua. Não existem argumentos biológicos, físicos, históricos, jurídicos, matemáticos, sociológicos, ou outros, contra o direito à língua. Qualquer argumento contra a existência do direito à língua, negando-o, tem de fazer uso desse mesmo direito. Qualquer ser humano pode viver sem liberdade de imprensa, de manifestação, de profissão, mas não sem uma língua e o direito à língua. A religião, por exemplo, comunica-se pela língua, a qual se lhe antecipa como meio para alcançar o fim que as religiões perseguem, pelo que quem controla os meios controla os fins. Tudo isto prova a inevitabilidade do direito à língua, um direito inevitável…». 

 

Leia o texto na íntegra aqui

QUO VADIS?...

 

Minha Princesa de mim:

 

Limpando caixas e gavetas, vou percorrendo papelada amarelecida, coisas que ficaram, por esquecimento umas, para lembrança outras. Todas já sem importância alguma, nem sei se jamais a tiveram: apontamentos de reuniões talvez discutidas e sábias,sentimentos deixados nos papéis delas  --  que nem só do ganhapão vive o homem  --  crónicas impressas em jornais vários, entrevistas conversadas e fotografadas. E muito relatório, Deus meu, tanto relatório, com avisos, alvitres e outras opiniões e sugestões de que poucos se deram conta... Foram, por três décadas, mil e quinhentas páginas metodicamente escritas em cada ano. Enterro-as. Sorrio. Haveria razão em muitas, mas eu não quero ter razão. Menos ainda quero tê-la tido, se acaso a tivesse. O que foi deitado fora, fora também ficou de mim. Quero morrer pobre, sem nada ganho. Feliz como um lírio. Respigo apenas, aqui e ali, coisas mais íntimas, talvez pobremente ditas, mas por isso mesmo mais cheias de mim. Andei pelo mundo, estive diferentemente, mas coisas houve que me calaram fundo e não desminto. Somos, misteriosamente, o que nos chamámos, essa vocação que nos foi desenhando e sedimentou, no íntimo pensar do nosso coração, tudo o que, no nome único que Deus nos deu, Deus nos deixou dar.

   Cheguei à idade de amar a minha imperfeição, como quem se aceita. Não sou melhor nem pior. Sou a graça que Deus me deu e a graça que não vi ou não soube aceitar. Do mérito ou desmérito não sou nem serei juíz. Tudo é graça. De meu, se algo tenho, é só a minha limitação. E nem essa posso descontar-me. Seja eu feliz assim, e é meio caminho andado. Busquei-me sempre. Errei muito, talvez também tenha acertado. Não me repreendo, só espero que Deus me tenha encontrado. Assim, minha Princesa de mim, me confio nestas vagas saudades que guardei do que sou ainda. Foram escritas há meio século,e mais,quase todas. Fui obedecendo a um impulso secreto,que empurrava o meu pensarsentir para o manuscrito. Nunca me inclinei a publicar o que me tomava todo, tampouco alguma vez o confidenciei. Destruo esta tarde umas folhas redigidas na caligrafia ainda legível dos meus quinze anos,quando começava a ler filósofos. Estas traduziam o meu entusiasmo por Espinosa e Ortega y Gasset,que nessa idade eu lia, arrumando-me com eles pelo princípio tomista de ser necessário distinguir para compreender... Já cheio dos Pessoa, de Mauriac, Bernanos, Camus, Graham Greene,e dos grandes mestres russos. E ainda Simone Weil, ou José Régio. Fascinava-me a imensidão e o silêncio de Deus, o mal presente e a harmonia prometida. O pecado e a graça, o misterioso caminho da misericórdia. Brincava muito, militava, lutava, namorava, era social. Mas era eu e a minha circunstância. Nela estava, diferentemente sendo, afinal, sempre o mesmo. De tudo isso me disse, no longo apontamento que hoje rasgo. Começava assim: só no silêncio somos verdadeiros...  E terminava: como palavra sigo, sem morada... Pelo meio, ambíguo, palavra e gesto me descubro, ia escrevendo, em francês, um romance, cujo protagonista se chamaria Jerónimo: Jerónimo tinha uma particularidade curiosa: era sem recordações. O passado, para ele, não existia, a não ser enquanto presente, ou talvez sempre no futuro. As suas sensações não eram novidade e, todavia, eram sempre novas. Delas tirando prazer ou sofrimento, assim as reconhecia no mais antigo de si mesmo. E nunca se surpreendia por ser presa inteira de tal encanto. Encantador seria ele também, por sempre ser um estrangeiro. Não lhe escapavam pormenores,mas acontecia-lhe que,ao concentrar-se no objecto da sua atenção,se perguntasse: "Comment n´avais-je pas remarqué que Thérèse a les yeux bleus?" Não era um libertino, muito pelo contrário: era a personificação do pudor. Simplesmente, como amava tudo e todos,tinha um coração transparente como aquele dia de sol com que sonhamos. Descobri-lhe o coração: era uma praia onde o mar vai deixando conchas que já foram cheias, e onde nos sentamos na areia, a falar sozinhos... Sete anos depois, quando saiu da vida do mundo para um convento, esse garoto escreveu:

        Entre duas esperanças,

        meu coração diz que não.

        Mas pensando,diz que sim.

        E é com saudade de mim

        que parte meu coração.

        Se ficasse não veria

        nem sequer a luz do dia

        quando varre enfim a noite.

        Não há vida que perdure

        nem há bem que sempre dure

        para quem nunca se afoite...

        Entre duas esperanças,

        meu coração diz que sim.

        E assim brincam as crianças

        que moram dentro de mim!

O velho que esse garoto foi (ou que foi esse garoto?) hoje ainda vai sentindo muito próximo o estranho Deus que sempre se anuncia. Que Ele te guarde, Princesa de mim.

           Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

Antonio Gamoneda

Y el momento llégo quando nos fuimos. El mundo era sin límite, igual a mi deseo. Ver con estos ojos lo demás?, qué valia? Realidad fabulosa allá nos esperaba. Un reino virgen.

E por entre o ar busquei o ninho; aquele que esquecido descansava na paz de um pássaro desviado afinal do eixo do mundo.

Chegou-me então uma notícia singular: o universo calara-se num esforço de focagem pois que a essência da matriz das coisas oscilava.

Um mal-entendido, perguntava-me? Um médico que só se interessava pelas doenças e minguava os doentes, chegara de novo vitorioso?

Ah!, a tua voz mudara

e era a tarde moribunda, plena de brancos lenços de adeus

à porta do inicial vento do verão.

Y para que tú me oigas en mi voz dolorida, te recuerdo como eras na mais alta fogueira dos meus olhos.

No meu céu foste ceifeiro, mas nada soubeste da estranha mistura dos tempos do saber.

Os dias, camada por camada, têm espessuras diferentes, e livros como templos onde nos aguardam locais improváveis e suspensos entre realidades e nós. Livros cuja convocação

é de sério esforço e emoção esfíngica num tu a espreitares para ti. Deus! Que eres la obscenidad y la esperanza.

Percebi de novo que o medo ia entrar em mim

ó estrangeiro que a tua oração é de um rosário de Gamoneda, parcela de prece escrita por mim, Luni, quando Deus cansado da tristeza não quis existir e

aquela tarde foi a única tarde da minha vida em que semeei um barco

e parti.

 

Teresa Vieira

Janeiro, dia 16 do ano 2014

LONDON LETTERS

The echoes of war, 1943

A proposta vem no último Chartwell Bulletin e é de abraçar como um gentil sol que nos visite. A folha informativa do The Churchill Centre recorda John Steinbeck, um dos grandes clássicos da literatura sobre a guerra e também páginas bem humoradas sobre quanto esta pode engendrar nas comunidades de afetos e no mais fundo do comportamento humano. — Quand l’honneur nous unit! O título anda hoje talvez esquecido. Once there was a war é a coletânea de despachos do novelista para o New York Herald Tribune durante a sua cobertura jornalística da II World War na Europe. O resultado é um esplêndido hino à coragem moral. — Good blood cannot lie! O retrato dos londoners sob o pesado bombardeamento hitleriano fica esculpido em “theater party”, com palavras rápidas sobre novo ataque mortífero, o caos inicial, a chegada dos defense squads e a rumagem da criançada que sobrevive para a sala do médico mais próximo. Se the game goes on na 2014 London, naqueles dias inteiros seleciona-se a vida. Sir Winston prepara até bem sucedida operation mincemeat.

 

O norte-americano atravessa o Atlântico num navio de tropas e no ano de 1943 está em Britain, já depois da intervenção do UK Prime Minister no United States Congress a marcar o seu envolvimento no conflito e em vésperas da Cairo Conference — a "Sextant" que o reúne com o President Franklin D. Roosevelt e o Chairman of China Chiang Kai-shek. Aqui passa o Verão, às notas oceânicas sobre o perigo latente dos U-boats somando o som sibilante das bombas que fulminam casas e catedrais ou destroem Aberdeen. O sangfroid britânico tinge-lhe os escritos. Segue depois as tropas do General Sir Bernard Montgomery para as linhas de uma Italy ocupada pelas tropas nazis e distraída com a tomada de Tripoli. A rebelião interna e a resignação de Signor Benito Mussolini só se saberão nos primeiros dias de September. Em London, entre as tabuletas shower ou windy do tempo à superfície, em pleno War Cabinet Room, Mr Churchill planeia o desembarque europeu. The Man Who Never Was é o codename que persuade o estado-maior inimigo de um ataque iminente através da Greece. Os Allies entram a 10 July em Sicily, com as divisões do Lieutenant General George S. Patton a marcarem o terreno no avanço para Berlin.

O autor de The Grapes of Wrath (1939), a quem chamam a consciência da América pelo dedo apontado a quantos perdem the heart durante a long recession, conta a experiência na linha da frente, na war zone, sem outra preparação para a mortandade senão registos patrióticos. Testa finalmente as palavras ao negro, face a sangue e balas. A atenção recai sobre variedade de detalhes que proporcionam o regresso a um tempo do mundo que importa recordar: dos rumores entre os militares durante a travessia marítima ao quotidiano numa base aérea de B-17 ou  ainda à tensão vivida nas missões de desminagem. Steinbeck sempre fala de pessoas, sobretudo do seu state of mind. O foco é tudo. Assim se distancia do imaginário bélico que ocupa a demais imprensa e mesmo um paralelo, e também laureado, Ernest Hemingway quando narra a sonância da furiosa batalha.

A singularidade steinbeckeana percorre vasta obra, entre Cup of Gold (1929) a The Winter of Our Discontent (1961) ou a incontornável reflexão sobre o terror e utopia dos revolucionários em The short reign of Pipin IV (1957). Com múltiplos protagonistas a disputarem hoje em Westminster o prémio de qual o melhor rubber man, das notas sobre a IIWW recordo perguntas ocasionais em torno da morale dos soldados. — Are fortunes being made while these men get $50 a month? Will they go home to a country destroyed by greed? If anyone could assure them that these things are not true, or that, being true, they will not be permitted, then we would have a singing Army. This Army can defeat the enemy. There is no doubt about that.”

 

St James, 15th January

 

Very sincerely yours,

 

V

A VIDA DOS LIVROS

 

Guilherme d'Oliveira Martins
de 13 a 19 de janeiro 2014

 

"Memórias para Após 2000" de José-Augusto França (Livros Horizonte, 2013) é um bom exemplo, como o foram, aliás, "Memórias para o Ano 2000", de como podemos sentir o pulsar de uma vida culta e atenta, disponível para pensar e para usufruir dos prazeres da criação e da arte. A leitura é fácil e sentimos a cada passo uma empatia natural com o cicerone que nos guia.

 


Foto de Ângela Camila Castelo-Branco.

 

INCANSÁVEL INVESTIGADOR

José-Augusto França é um incansável investigador do tempo. As suas memórias são um precioso roteiro para a compreensão dos acontecimentos do mundo – nossos permanentes e insondáveis mestres interiores. A história só é compreensível nessa encruzilhada entre factos quotidianos e ocorrências marcantes. Uns e outras misturam-se nestas Memórias e a sua importância relativa projeta-se inesperadamente no amanhã. No início de tudo, há a invocação de Rogério de Moura, o editor dos Livros Horizonte, cuja memória é recordada no pórtico do livro. O autor sente a sua falta – e quantos o conheceram e com ele privaram reconhecem-se nesse preito (e eu pessoalmente não esqueço a amizade que nos unia). Com justiça, lembra a sua excecional sensibilidade de editor com rara perspicácia, que lhe permitiu publicar obras fundamentais, em nome da liberdade e da qualidade. A publicação de «Lisboa, História Física e Moral» foi das suas últimas grandes iniciativas. Depois, há a referir a capa e a escolha de uma obra de António Pedro, que estivera para estar no anterior volume de memórias - «O Avejão Lírico» (1939), que J.-A. F. bem conhece. O avejão «ameaça assombrando» a cidade. Será o crítico - «apontando por dever de ofício, mesmo literariamente imaginário, o pecado que o autor comete»? A opção não casual, é mesmo a dualidade do crítico e do autor que aqui se quer assinalar, associando-a a António Pedro, para quem as dimensões pictórica e poética se entrelaçavam sempre, no inefável teatro da vida.

 

À VOLTA DO JARDIM DA ESTRELA

Depressa descobrimos o roteiro da Lisboa de J.-A. F.. Antes de mais, o Jardim da Estrela, à beira dos patos e dos gansos do lago: «pergunto-me se não devo dizer, para ser mais claro, que Lisboa (para não dizer Portugal inteiro!) é, para mim, finalmente, só o Jardim da Estrela?». Depois, «tirando o Jardim da Estrela, e apesar de outros locais académicos ou universitários e mais nacionais, é o Grémio Literário o meu sítio mais frequente, e mesmo empenhado, em Lisboa, pelo século XXI dentro». A capital de Lisboa é o Chiado e a capital do Chiado é o Grémio. Lá estão os fantasmas de Rodrigo da Fonseca (o autor dos estatutos) e a variada companhia do cartista fiel Herculano e do setembrista Garrett – numa «associação com fim de cultura das letras e que pela ilustração intelectual podia concorrer para o aperfeiçoamento moral» do país. O Grémio Literário fundou-se dois dias antes de rebentar a revolta da Maria da Fonte, três antes do Teatro Nacional e no ano da criação do Banco de Portugal - «numa coevidade ilustre e mesmo significativa». E, em falando de espíritos a povoarem aqueles salões, chegamos a Eça e à sua inesgotável geração e, ainda, a Almada e a Pessoa - «dois homens que se cruzaram no tempo e no lugar: Almada diz o que diz, Pessoa diz o que não diz»… Mas, continuando nesse roteiro, chegamos ao Monte Olivete e à Cotovia, que «partilham a toponímia tradicional, algo confusamente se sobrepondo, e sobretudo, que os nomes surgem onde não pareciam dever estar como no morgadio dos Soares da Cotovia que descia a S. Bento e ia ao Rato, defronte do sítio jesuíta, e onde Monte Olivete fora». Essa foi a «aldeia» do memorialista, bem lembrado de dois «conterrâneos»: Ruben A., autor da admirável «Torre da Barbela», vizinho «com conversas esbracejadas de janela para janela»; e Alexandre O’Neill, imaginoso poeta de «No Reino da Dinamarca»…

 

O CÉU AINDA PODE ESPERAR

Com fino sentido de humor (que Rui Mário Gonçalves bem recordou na apresentação do livro na Sociedade de Belas-Artes), J.-A. F. imagina uma conversa imaginária com S. Pedro às portas do Empíreo. O diálogo com o primeiro dos Papas ia começar quando o autor acordou num quarto do Hotel dos Templários, ao lado da Várzea Pequena, lembrando outro despertar também em Tomar nove décadas atrás. «Foi bom, meu filho, foi bom», comentou o Santo Padre, «que o fim e o princípio, o alfa e o ómega, devem encontrar-se». Mas (para o autor) o céu pode (ainda) esperar, como ensinou Lubitsch. Estas memórias são, assim, deliciosamente feitas ao correr da pena, com uma notável cópia de bons pormenores, de uma agenda cuidada e rigorosa (e tenho paixão por esse pequeno instrumento). Percebemos por que motivo J.-A. F. desatou a escrever romances e contos – e os seus leitores compreendem e agradecem. «A receita é simples: senta-se o autor e repara, ou traz já no ouvido uma frase que lhe veio à boca, de descrição, situação ou diálogo, e a partir disso, que alavanca é, se escreve rapidamente o conto, ou o quadro ou a cena, em confusão pacífica de géneros, que podem ser assim ou assados»… «Bela Angevina» leva-nos misteriosamente, entre buscas vãs, a José Maria Eça de Queiroz. Os «Exercícios de Passamento» permitem-nos entender o cerne do género biográfico, no momento crítico por excelência. Os estudos sócio-culturais (anos X e XX da dita Revolução Nacional…) são preciosos repositórios de enquadramento, que permitem ir além da cronologia ou da magia das listas de acontecimentos.

 

CONTAS COM A VIDA

Sentimos um ajustar de contas com a vida - «porque o fiz e continuo a fazer, já o expliquei, por lembrança antiga de um fio, que diz o Eduardo Lourenço, sacrifiquei (mesmo que fosse “em beleza”…) por necessidade minha de ver gente viva…». E o escritor continua a sua revelação: «a minha ficção é assim mesmo – dos outros». Percebe-se a natureza do leitor sistemático: Tolstoi, Proust, Joyce… As invocações sucedem-se: a importância do museu de Tomar, a relação especial com o Museu do Chiado, a comissão do património da UNESCO (a convite de José Sasportes), o Conselho Editorial da Imprensa Nacional, a mesa A-15 da Biblioteca Nacional e os gabinetes de reservados (dessa instituição de tão sólidas e justas tradições), as Universidades, a luta inglória para a salvação da casa de Almeida Garrett na velha rua de Santa Isabel, em frente ao cemitério dos ingleses, a lembrança do saudoso Paulo-Guilherme d’Eça Leal e do seu estudo imaginativo e encantatório sobre os Painéis de Nuno Gonçalves na Batalha ou as celebrações das nove décadas de vida, com uma jovialidade invejável… Na contracapa do livro encontramos a fotografia da casa francesa - «Le Pavillon», edifício de 1911, em Jarzé, no Anjou, onde Mahité (que em menina fazia servir o chá às visitas da avó e já da mãe) e J.-A. F. passam seis meses por ano, alternando com os de Lisboa do Jardim da Estrela… «…Tudo está em tudo, e todo em todos, como deve saber-se – e o “Pavillon” entra na minha Guerra e Paz, na Mina, e por contos vários tem andado, lugar onde, de memória e imaginação». Estas memórias são uma belíssima fonte de descobertas e redescobertas. Vale bem lê-las.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

NO HORIZONTE PASSADO AMANHECERAM VELAS…

 

Minha Princesa de mim:

 

   «Não te escrevo hoje. Já te escrevi o que abaixo digo, há muitos anos. Em New York, no dia em que cumpri 42 anos de vida. Copio agora o que poderia ter sido uma carta e apenas foi um manuscrito esquecido na confusão de muitos outros. Sobrevivo ainda, entre tantos que, aqui e ali, foram sendo sepultados. Começa pela primeira quadra de um soneto:

      Voto-te,Senhor,meu abandono

      a Ti só,Senhor,com quem lutei

      como contra a noite luta o sono,

      minha cabeça contra o que não sei...

   Volta-me a ideia de que morrerei brevemente. Não sei quando, nem porque penso vir a morrer cedo. Dá-me para aí. É-me indiferente, como se nada fosse comigo. Penso na mulher e nos filhos, para quem a morte do pai possa ser um deserto de Deus. Mesmo isso nada teria a ver comigo  -  não sou assim tão bom, nem grande, nem necessário  - a não ser por esse sentimento, de código antiquíssimo, que determina a relação ao pai como o princípio de nós. Bem cedo perdi o meu, e não me esqueço. Talvez seja cansaço, mas vou-me sentindo distante do mundo. Ou será claustrofobia, neste caso o horror dessa máquina infernal que é o Leviathan das sociedades materialistas e de cegueira desumana, social e internacional. Sinto-me a viver num mundo com falta de ar, numa discoteca em que o movimento das luzes engana tudo e todos, onde a única solidariedade é o desejo de cada um, a noite um fantasma que se afugenta, o dia aquilo que não se quer, só real por fora, pois só brilharia se víssemos o diamante que cada um de nós é por dentro. Agonia-me a agonia desta civilização sem angústia, aborreço esta cozinha que serve sempre os mesmos pratos, indifere-me a banalidade das políticas e dos sonhos. E assim peco: sou um aristocrata que, do longe de mim, olha para tudo, menosprezando. As "iniciativas" que tomo são as de um morto. Divirto-me a brincar aos fantasmas, prego partidas e irrito as pessoas que só gostam do que lhes está ao "democrático" alcance, pronto a vestir. Continuo a ler muito, mas nada vejo de novo. Mantém-me ainda vivo a crença de que o espírito não pode contentar-se com limitações, pelo que se irá divorciando desta tipografia e desta televisão, e andará a soprar por outros continentes. E aqui começa a minha interrogação ética: o espírito que anima tudo, não pode ser a pomba do Alberto Caeiro, a borrar-se em Deus e na gente. Logo, é imperativo olhar para os sinais dos tempos  -  deste tempo  -  e vislumbrar a esperança. (Mas também por aí se banaliza a esperança, com tantos a falarem da luz que já surge ao fim do túnel...). Volto ao silêncio, ao silêncio que me deixe escutar. Fujo à "cantiga do infinito cantada numa capoeira", como diria o Álvaro de Campos. Tentando sair da capoeira e do "poço tapado", dessa prisão no engarrafamento de trânsito que a primeira sequência do "Fellini 8 e 1/2" tão bem nos faz sofrer. Fico sozinho com os meus sonhos (outra capoeira?). Procuro a noite "antiquíssima e idêntica" e espero que a lua comece a ser real. Quero a lua, como o Calígula do Camus, mas não a quero para qualquer idílio interior. Quero a lua como quem quer falar e dizer e estar com os outros, até que surja Vénus, deusa do amor e estrela da manhã... Stella matutina, Nossa Senhora de nós! Tenho dado comigo, todas as manhãs, a cantar a Salve Regina, em gregoriano, no duche. Do duche saio para os dias de "business", para a megacidade onde os homens se movem pelo dinheiro: Nova Iorque é uma slot-machine / onde a gente respira /  tilim-tilim-tilim... Sou tão importante como o calhau da parábola do Anthony Quinn à Giulietta Masina, em "La Strada" do Fellini. Valho por ser único e pouco ser. Serei, talvez, esta ternura em mim, que não desminto. A força que estende a mão,para uma carícia. Por vezes um olhar, como o de São Frei Bartolomeu dos Mártires que, conta Frei Luís de Sousa, agasalhava um mendigo. Assim no horizonte amanhecem velas... Escutar os responsoria da Semana Santa de Gesualdo da Venosa, esse príncipe siciliano que, dizem, matou a mulher que o traíra (também dizem) silencia-me. Fascina-me essa alma inquietante que faz de um coro de vozes uma orquestra de instrumentos vocais,cordas vocais tratadas como cordas. Para um descanso de fera, de fera ferida,de ferida só. A paixão e a angústia tornadas solenes,a sensualidade contida pelo respeito,o respeito ousando a sensualidade. Como em amores secretos. O choro de Cristo em 6ª feira santa: abandono e amor traído. Lamento apenas, agressividade nenhuma. Impotência sem consolação,como o Inverno. Mas já Primavera que germina, esperma que busca, como o amor. Não há maior paixão de amor do que a que transforma desejo e dor em ternura. E se deixa mansamente correr, num murmúrio. Mesmo nas relações de trabalho, procuro o despertar da fonte de cada um. Porque dinheiro algum, nem símbolo de classe, nem ideologia, nem canto ou discurso preparado vale o gosto de estar comigo e com os outros. E assim continua o tal soneto:

      Dou-te e Ti, Senhor, minha amargura

      com a raiva de quem não descobriu

      se sai da solidão pela ternura

      ou trai o amor que nunca viu...

      Dou-te a minha alma, em desespero

      das coisas todas que se agitam tanto,

      que por querê-las muito já não quero!

      Guarda em teu silêncio o meu segredo

      amansa a grande dor deste meu espanto

      de andar perdido no meu próprio enredo.

   Décadas depois, Princesa, copio um texto como se hoje ainda o tivesse escrito. A isto chamo "estuporada fidelidade"! Sofro a mesma tensão de ser. Não terei percebido o que, nos meus vinte anos a mim mesmo disse:  Inutilmente te cansas,/ inutilmente e não crês / que os olhos só das crianças / descobrem o que não vês... Deixo-te um sorriso como traço de união».

          Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira 

O TEMPO É ESQUIVO…

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreves-me que é esquivo o tempo. Será? Ou, antes, antes mesmo do que já tememos, ou, talvez depois, depois do que já perdemos, somos nós, ou não, que nos esquivamos ou nos esquecemos? Vivemos no tempo, a fugir de nós, e dizemos que o tempo passa a fugir... Até que uma qualquer luz vertical nos pára, e ilumina. E nos torna, talvez, eternos como deuses. Entretanto, vou sabendo que, por meticuloso e pontualíssimo que sou, se agrava em mim o desentendimento do tempo. Vivo fora:

      Cresce na noite a lua

      há maresia no ar

      e no mar uma dor

      que eu não sofria...

      existo entre ser e estar

      como o fumo dessa luz

      que não se via.

      Não há mão esquerda

      e nem a direita

      me alivia...

      Em ombro que não sei

      me pesa a vida

      no fundo de mim sinto

      o nascer de um rio.

      Sigo-o como no labirinto

      Teseu, de Ariana, o fio...

   Mas não desleixo Ariana em Naxos, como Teseu a esqueceu. E de que lhe valeu a ela, princesa filha de Minos, rei de Creta, ter chorado tanto o abandono, se só Baco, afinal, a socorreu? A coroa de Ariana, Baco ao céu a lançou. E lá ficou, feita de estrelas, como a lira de Orfeu, que pela mão das bacantes morreu. Não há mão esquerda que nos valha. O amor não tem remendo possível. Não é momento, nem luz que se apague, nem acontecimento que seja só notícia. O amor é ser eu no ser amado transformado. Como Jesus que morreu na infâmia da cruz. O amor não é um ato praticado, sou eu sempre que sou dado. Não tem idade, é alheio ao tempo. Não tem sítio, amar é ser-se sempre sitiado. É ter sempre sede. Sitio ,tenho sede, disse Cristo crucificado. Sede, sim, não de água, nem do vinagre que lhe deram. Teve sede de si, sim, do amor que deu pelo amor que lhe negaram. Quem ama sabe bem que o amor só tem uma saída: amar é continuar. Não tem meta. Nem há o que dê outro sentido à vida. Pôs-se escura a noite, vieram nuvens negras a tapar a lua. Mas há leite no céu. Pela manhã, virá o sol que alumia. Mas talvez Hadés insista em que o não veja. Nada ganha. Eu sei que sempre virá um novo dia,que numa noite qualquer a lua voltará como sol que se anuncia,ou as estrelas me chamarão ao infinito por seguir da vida. Entretanto, Princesa, dou-te a mão e contemplo a tua companhia.

         Camilo Maria

    
Camilo Martins de Oliveira 

Antonio Gamoneda

 

E vejo-as ao longe, as minhas palavras poisadas na praia como gaivotas. Ou sinto-as como heras no meu corpo, em redor da minha cintura. Também lhes tento o abraço que as ancore como herdeiras puras do meu sentir. Por certo que são meu caminho, meu anseio ilimitado, minha fadiga, minhas madressilvas, minhas folhas de tecto de alma.

Estrangeiro:

Como me assemelho ao mundo e bem sei o quanto ele ao meu peito não bastou.

Vem, quiero hacer contigo lo que la primavera hace com as cerejas

(assim me disseram um dia. Naquele em que ouvi do fundo do meu ouvido, a voz de um visitador)

Vem, prometo que as minhas redes não reterão tua água nem teu vento. Sou gondoleira entre o tempo vivido e aquele onde quero ir. Só as facas me protegem das dúvidas e, às vezes, dos caminhos da infância.

Luni: tenho um sentir sentimento como uma liana a mim dentro que admite coisas, muitas, daquelas que olham e são olhadas, daquelas que irrompem ou são vistas irromper.

Estrangeiro:

a essência do jogo não ilude as defesas. Nada temas senão mesmo a ameaça. Não entristeças de repente como uma viagem. Peço-te.

Agora vem, volto a dizer-te.

Vem, que o atracadouro do mundo, é o nosso umbigo junto. Gamoneda sabe onde passo e onde não estou. As palavras, essas, seguem o caminho que se afasta de tudo e que tudo antecipam. Ah! nada puedo decir!

Vejo-as ao longe, poisadas na praia como gaivotas.

Y te pareces a la palabra melancolía,

(pájaro todavía).

 

Teresa Vieira

9 Janeiro 2014

Sec XXI

FERNANDO AMADO: O “ENCONTRO” COM O MONÓLOGO

 

A influência de Pirandello percorre a obra teatral de Fenando Amado, sobretudo no contraste entre a realidade imediata e os paradoxos do conteúdo respetivo: é, como sabemos, um teatro de tese e demonstração a partir da evolução dos conflitos, das personagens, dos diálogos e da própria potencialidade do espetáculo.

Ao longo de cada peça, o espetador vai primeiro intuindo, e vai compreendendo o que o dramaturgo quis dizer - e o que o dramaturgo quis e quer dizer decorre da própria evolução do conflito dramático, quantas vezes - ou quase sempre - para desfecho expresso ou implícito, mas sempre inesperado…

Evoca-se aqui o único grande monólogo autónomo de Fernando Amado, para constatar e documentar a análise acima referida. E nesse aspeto, o monólogo que o autor intitulou “Encontro”, exprime bem, não só a lição subjacente de Pirandello, mas sobretudo o exemplar sentido teatral da sua dramaturgia - “sua”, de Pirandello e de Fernando Amado!...

Trata-se de uma reflexão íntima da personagem Ela, de ”vinte e poucos anos; airosa, vestida com elegância discreta”, que regressa ao quarto de dormir minuciosamente descrito com escrúpulos realista - naturalistas: “janela ao fundo, um biombo à esquerda, colocado sobre o ângulo profundo do quarto. À esquerda, a porta; num plano mais adiantado, um toucador com espelho. À direita, um guarda-fatos. Ao meio da cena, colocada paralelamente à ribalta, uma cama”…

E a partir deste enquadramento, entra-se no monólogo d’Ela. E esse monólogo, no aparente naturalismo do texto e do contexto, perdoe-se a redundância, assume a tal dúvida existencial pirandelliana. Ela, ao tomar o autocarro, sentiu que “os olhos dele, com insistência, poisavam aqui na nuca como se fossem dois focos magnéticos!... Sentia a cara a arder, os passos vacilantes (,,,) Senão tem vindo o autocarro, (eu) teria dado um grito… Mas graças a Deus, tudo passou!”

Pois bem - não passou. E o que fica, na mestria dramatúrgica de Fernando Amado, é o longo monólogo pirandelliano, não nos cansamos de insistir, d’Ela, hesitante entre a o samba e o rock que vai dançar, a convite da amiga Mariana, com o Damião, o qual “reconhece, com a sua indiscutível autoridade, que (eu) teria sucesso em Hollywood” (estamos no inicio dos anos 50)…
Mas o que sobressai é o desconhecido que a olhou na paragem do autocarro e que desapareceu: “Como é diverso o outro! O que falou sem palavras e sem gestos… apenas com o olhar… mas o que disse ele… o que queria dizer?”

A peça ganha assim uma certa expressão existencial, próxima, insistimos, do grande teatro de Pirandello: “que queria dizer? Não sei… Não tinha tensão de conquistar-me… nem de pedir esmola… Talvez antes o seu olhar procurasse revelar uma censura, uma queixa, um modo de dIzer Aqui estou… Ou talvez antes uma advertência Cuidado!...”

Fica a dúvida existencial: “que significado tinha aquele olhar grave e profundo que tanto me agitou? … Ou talvez fosse impressão minha… Acontece que atribuímos aos outros os nossos estados de alma”.

E o final é também muito pirandelliano, na dúvida que subsiste:

«Mas encontrei-o realmente?»

 

DUARTE IVO CRUZ