AINDA E SEMPRE «O ROMANCE DO GENJI»…
Minha Princesa de mim:
Os Contos do Genji encerram uns oitocentos waka, poemas de trinta e uma sílabas, que vão compondo a narrativa como despertadores do nosso entendimento para as sensações e sentimentos mais íntimos, como essas subtilidades do amor que não se explicam por correntezas de prosa. Afinal, talvez nos contem as mesmas histórias, mas pelo lado de dentro, pelo como os protagonistas sentidamente as viveram. A poesia japonesa é económica, curta e despojada. Sugere a abertura de sentidos, desperta, não diz. As colecções de arte da casa imperial do Japão conservam um biombo cuja pintura é atribuída a Kano Eitoku (1543-1590), mestre da escola de apelido Kano - que produziu vários biombos namban - ilustrando o livro V dos Contos, aquele em que Genji vislumbra a jovem Murasaki, num cantinho da montanha, entregue aos cuidados de uma monja, sua avó. Parece-se a menina com a mãe do próprio Genji, e com a madrasta deste, Fujitsubo-chugu, que o príncipe secretamente ama. Pede à avó tutora, ele que é um jovem de 18 anos, que lhe confie Murasaki, Ervinha Tenra, com 10 anitos apenas, para que ele a eduque e dela faça a mulher ideal. Pigmalião? Talvez, mas, perante a recusa da monja, Genji lembra-se mais de Fujitsubo-chugu, e com esta se deitará quando regressar à capital. E lhe fará um filho, futuro imperador. Murasaki será a protegida de Genji,o amor mais duradouro e ideal da sua vida. Eterno feminino? Concerteza,mãe,amante,pupila,todas se parecendo,todas incarnando a mulher no coração do homem. Dera o Genji com aquele retiro subtraído aos olhos do mundo, por ter ido em busca de cura para qualquer mal junto de famoso eremita que por ali vivia com seus confrades. A este confiara que a flor que só uma vez, em toda a eternidade, desabrocha, nunca se poderá encontrar... ao que o monge lhe responde, bebendo do divino licor que lhe oferecera, e fitando-o com olhos marejados de lágrimas:
No fundo dos montes
uma só vez abri
a minha porta de pinho
e vislumbrei a flor
que jamais vira
Este waka segreda-nos uma descoberta interior,silenciosa e universal. Por vária que possa ser. Murasaki Shikubu, a autora dos Contos, não a Ervinha Tenra, desgostava da corte em que vivia, como aia nobre da imperatriz Akiko. Não tanto pela rigidez às senhoras imposta pela imperatriz - disciplina exagerada, que ela critica no seu diário - mas pela estupidez e desbragamento dos homens. O próprio pai de Akiko a perseguiu até, certamente, atingir o seu objectivo. Eis um relato do diário: Sua Excelência o Primeiro Ministro topou os Contos do Genji no quarto de Sua Majestade, e depois de tecer as habituais insensatas gracinhas sobre eles, entregou-me o seguinte poema, escrito numa tira de papel a que apusera um rebento de flor de abrunheira.: "Como foi possível que,sendo tão amargo o fruto do abrunho,tu tenhas conseguido tanta florescência em contos tão amorosos?" A isso respondi: "Quem te disse que o fruto trai a flor ? Posto que do fruto não provaste,e da flor só sabes por ouvires dizer ... " Estas "desgarradas" eram parte dos jogos de sedução ou simples desafio no meio cultural da corte imperial do período Heian. A tradição de "dizer" em verso é todavia mais antiga. E a sua subtileza nunca se desvaneceu: ainda hoje se pratica a escrita de haiku, cujo espírito e forma outras literaturas importaram. Até Claudel escreveu um livro de haiku. Aliás, mesmo nas nossas culturas europeias, se desenvolveram, desde muito cedo, motes e cantigas a pedirem voltas, glosas e redondilhas, dos salões do paço às grades dos conventos de freiras, como nas boémias de estudantes. O Alberto cantava, com aquela sua graça marota, umas trovas que Luís de Camões mandou com um papel de alfinetes a uma dama. Lembro-me dos primeiros versos:
Esses alfinetes vão
a vos picarem,não mais,
só porque julgueis então
o como me picarão
os com que vós me picais.
Mas os que dessas estrelas
vêm,têm pontas tão agudas
que,em questoutros vão co´elas,
podem dar-vos picadelas,
mas os vossos dão feridas.
Dardejavavam setas de amor os olhos daquela dama. Mas há olhares baços,em rondas de amores sem brilho. Como nesta Quadrilha do Drummond, que te prometi na carta anterior e nos deixa quites:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Na cena do biombo de Kano Eitoku, de que te falava acima, Genji, escondido por canas, entrevê a jovem Murasaki deixando fugir um pardal da varanda do seu retiro, sob vigilância da monja e na companhia de duas meninas... A fuga do pássaro é a visão da fragilidade dos laços que nos prendem. A tudo e a nada. Como se a vida fosse um voo. Dou-te a mão. Não para a prender, mas para te dar a minha.
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira
