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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS


de 21 a 27 de abril 2014

 

Quarenta anos depois de 25 de Abril de 1974, mantém-se a necessidade de compreender. Alfredo Cunha e Adelino Gomes, acabam de publicar «Os Rapazes dos Tanques» (Porto Editora, 2014), enquanto «O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril», de Avelino Rodrigues, Cesário Borga e Mário Cardoso (Planeta, 5ª edição, 2014), se mantém como o grande clássico.

 

 

ENTENDER O 25 DE ABRIL…
Não é possível entender o 25 de abril de 1974 sem o inserir no longo prazo da história. Quando lemos Fernão Lopes a descrever os acontecimentos de Lisboa de 1383, percebemos que há, na distância do tempo, elementos comuns de determinação e rebeldia, que nos levam a pensar noutros momentos cruciais de mudança política. Nessa circunstância, foi lançada uma nova legitimação do poder, que culminaria nas Cortes de Coimbra, pela verificação de que o trono estava vago, e pela aclamação pelos Estados do reino de D. João I como novo monarca. Como disse Jaime Cortesão: «a Nação só atingiu a maioridade política e a plena expressão nacional com a revolução democrática do século XIV, conforme lhe chamou Oliveira Martins, e o triunfo e incorporação das classes populares na vida política». Até então, havia regiões, classes e cidades, com interesses divergentes, só depois o movimento dos concelhos vai fazer nascer o conceito de Nação. Como defendeu Alexandre Herculano, foi da aliança entre os municípios e o poder real que resultou a força e a consolidação de Portugal. O Estado precedeu a Nação. As cidades que ganharam importância política desde D. Afonso Henriques e D. Dinis contribuíram para eleger o Mestre de Avis e assegurar a independência nacional. A leitura da obra fundamental «Os Fatores Democráticos na Formação de Portugal» de Cortesão permite-nos compreender os fundamentos do Estado instituído no ocidente peninsular. Um forte sentido de autonomia, a articulação da diversidade cultural, a ocupação do território por uma população permanente e perdurável, a tendência atlântica, a elaboração dos primeiros elementos nacionais da língua à urbanização dos grandes centros moçárabes e a criação gradual de uma consciência nacional – tudo isso determinou a persistência de uma Nação que, sendo originalmente europeia, se projetou universalmente no mundo como matriz de uma cultura de «humanismo universalista», língua de várias culturas, cultura de várias línguas.

 

UMA VOZ NO LARGO DO CARMO…
Pensar no 25 de abril é, assim, referir um acontecimento que se insere numa longa continuidade histórica, que Francisco de Sousa Tavares bem compreendeu no Largo do Carmo, em cima de uma guarita, como o primeiro civil a falar, invocando o paralelismo como o Primeiro de Dezembro de 1640. Ao fazê-lo, afirmou que era um sinal inequívoco de independência histórica que ali estava a ser dado. De facto, 1974 situou-se num encadear de acontecimentos que vem da independência do Estado no século XII. Daí se parte para o misterioso desenlace da crise de 1383-85, continuando na afirmação dos tempos de coruja e de falcão do Príncipe Perfeito, na chegada à India com D. Manuel e no movimento pendular que envolve o desastre de Alcácer-Quibir e o renascimento da Restauração da independência – e desde o século XVIII: a glória do ouro, a maldição do terramoto, a reconstrução e a reforma de Pombal, a guerra peninsular de libertação nacional; bem como a difícil afirmação do liberalismo constitucional – 1820, guerra civil, vitória liberal, revolução de setembro de 1836, nova guerra civil, estabilidade da regeneração, ultimatum, bancarrota, primeira República, Estado Novo. Eduardo Lourenço começa, sintomaticamente, em «O Labirinto da Saudade», a citar o seu mestre Joaquim de Carvalho numa afirmação essencial para compreendermos quem somos e para onde vamos: «as nações, com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem imobilizar-se estaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm de desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar em concordância com o seu ser permanente». A pertinência da consideração não oferece dúvidas. Daí que falar de 25 de abril de 1974 seja superar a comemoração de quatro décadas, para atingirmos o cerne da afirmação da liberdade, da democracia e da emancipação cívica. Eduardo Lourenço pede-nos, assim, no ensaio publicado em «Raiz e Utopia», que venhamos para dentro de casa, que percebamos que importa conjugar o interesse nacional e o interesse social e que cultivemos «a nova viagem para esse outro desconhecido que somos nós mesmos e Portugal connosco». Profeticamente, o europeísmo do nosso ensaísta liga-se à melhor compreensão de Portugal – europeizar Portugal sem deixarmos de ser nós mesmos, cultivando a liberdade, a história e a ciência. E assim voltamos a Garrett na sua reflexão sobre Portugal na Balança da Europa ou a Antero nas Conferências do Casino. Eis por que razão, nesta celebração de quarenta anos, não se trata de regressar historicamente ao tempo pretérito, mas de afirmar a democracia e a liberdade como realidades incompletas e atuais. Como recordei no último número da revista «Esprit» (março-abril, 2014), sobre a nossa data, João Fatela tinha razão em 1979 quando afirmava que «se a democracia não se constrói sem compromisso, só o exercício coletivo da liberdade o torna possível», do mesmo modo que Agustina Bessa-Luís na «Crónica do Cruzado Osb» dizia que a nossa revolução não foi algo tivesse a ver com a vitória de uma classe sobre outra ou com um ajuste de curto prazo, mas de alguma coisa mais profunda, talvez o fim de um medo milenar ou do desprezo de si-próprio.

 

«OS RAPAZES DOS TANQUES»
Ao vermos e lermos «Os Rapazes dos Tanques», testemunho vivo de história vivida, de Alfredo Cunha (imagens) e Adelino Gomes (texto), percebemos o cartaz que resultou do encontro entre Sophia de Mello Breyner e Maria Helena Vieira da Silva - «a poesia está na rua». Nota-se a generosidade de quem veio para a rua em nome da liberdade, e de quem regista os acontecimentos inéditos, inesperados e imprevisíveis. Salgueiro Maia, com olhar genuíno e puro, enche o teatro do momento mágico.  É o «instante feito história», na expressão de José Carlos de Vasconcelos. E há uma sobreposição de acontecimentos, uma vez que, sem se repetir, a história vai-se sempre reconstruindo. Lídia Jorge em «Os Memoráveis» fala dos «eus» que taparam os cinco mil que puseram em andamento aquela relojoaria que permitiria restaurar a democracia e cumprir as promessas do Movimento das Forças Armadas. E o tal estranho milagre afinal aconteceu. Em nome dos cinco mil, o cabo-apontador José Alves Costa é o novo «soldado desconhecido», felizmente vivo e reencontrado. Ora, sendo a história uma realidade viva e a democracia uma flor muito frágil, sinal permanente de imperfeição, do que se trata é de atualizar a herança da liberdade, como esperança e futuro, que é o que sentimos na herança perdurável do fio que une os diversos gestos emancipadores ao longo dos tempos, sempre sujeitos ao movimento pendular. Mais do que discursos que o vento leva, importa cuidar do exemplo e da palavra, o que obriga a preferir a perenidade do espírito de resistência – desde Fernão Lopes até aos nossos dias.     

Guilherme d'Oliveira Martins

A MISERICÓRDIA É IRMÃ GÉMEA DA ESPERANÇA…

 

Minha Princesa de mim:

 

Cá estou em Paris, em reuniões da OCDE. Jantei hoje com o nosso primo Hubert, sempre inteligente e interessante, com uma pontinha de génio apimentado a pôr muito encanto na conversa. Falámos muito, sobretudo ele... Vinha eufórico, ainda que um pouco contrito, de uma sessão na Academia: pretendia ter dado uma monumental lição  -  urbi et orbi, disse ele  -  num auditório magno e cheio de sumidades; mas, no entusiasmo do verbo explosivo, não se contivera em referências carregadas de ironia feroz a um trabalho que um colega seu apresentara de manhã. Lamentava agora tê-lo feito, sobretudo depois de ter reparado no semblante humilhado e triste da sua vítima, de quem não se despedira à saída. Felizmente, concluiu, faço amanhã a minha confissão semanal ao padre Balthazar, e tirarei este peso da consciência! Como sabes, somos parentes e grandes amigos, e o Hubert também é um homem bom e, fora dos achaques de vaidade extravasante, muito compassivo e sensível aos outros. Havias de ver a cara dele  -- parecia uma criança apanhada a roubar chocolates  --  quando lhe fiz o sermão que de seguida te conto: "Sabes como Jesus manda que, primeiro, nos reconciliemos com os outros, antes de ir rezar ou levar ao altar a nossa oferta. Pedir perdão a Deus faz-se pedindo-o aos que ofendemos, e perdoando aos que nos ofenderam. O que, em consciência cristã, tens de fazer é ir ter com o teu colega e, se possível em nova sessão da Academia, pedires-lhe publicamente desculpa... Aliás, nos chamados capítulos ou reuniões de governo comunitário e correcção fraterna regularmente celebradas pelas comunidades religiosas (fossem de cónegos das sés ou de monges ou frades das ordens ditas regulares), aplicando a chamada regra de Santo Agostinho, o reconhecimento de desvios ou faltas contra Deus, a norma comum ou irmãos, sempre se fez abertamente. A própria designação de confissão deriva do verbo latino confiteor  que, sendo depoente, se diz, no particípio passado, confessus sum, isto é, reconheço, declaro,confesso. À letra, ser confessado é ter proclamado a sua fé e a sua adesão a uma norma e à comunidade que a transmite (à tradição). Não será assim confessor o que ouve, mas o que proclama. Há aí uma vocação à consciência de cada um, não para que murmure um segredo em condições sombrias, como as que dispunham os confessionários pós-tridentinos, a partir do sec.XVI, mas para que reconheça perante a comunidade e os seus membros, a sua falta ou infidelidade." Na Igreja primitiva, o sacramento da reconciliação era esse reconhecimento e esse perdão recíproco, na celebração da eucaristia, acção de graças comunitária, em comunhão fraterna e real com Cristo. Só para finais do primeiro milénio se começou a propagar a confissão individual, secreta e auricular, que, aliás, era feita a monges, ordenados ou não. Os primeiros difusores dessa prática foram monges russos, no oriente, e irlandeses, no ocidente. A obrigação dela data já do segundo milénio, do Concílio IV de Latrão, em 1215. Trabalhei, como sabes, nos cinco continentes. Fosse onde fosse, cumpri sempre o hábito de partilhar, com a frequência possível, uma refeição descontraída com os meus colaboradores. Como uma espécie de capítulo, em confissão livre e fraterna. No formalíssimo Japão, era um momento de oiro: até aos subordinados se perdoava dizerem o que pensavamsentiam do Chefe. E nunca me esquecerei do que certa vez me disse uma japonesa, a Takei-san: O sensei (eu) é católico e, para os católicos tudo se torna mais fácil: erram, podem fazer mal, mas vão confessar-se e o padre logo lhes perdoa tudo... É claro que, logo também, lhe retorqui que o importante  -  a condição sine qua non do perdão  -  era o arrependimento ou contriçaõ  do faltoso... Ao que aquela shinto-budista contestou  - e bem evangelicamente  -  que a responsabilidade do infractor não é descartável por segredo, mas pelo reconhecimento dela perante o ofendido e a assembleia. Desde então, muitas vezes me interroguei sobre a possível hipocrisia  - até de cada um consigo mesmo  -  de práticas que, mutatis mutandis, psicanaliticamente seriam transferir a responsabilidade para o inconsciente... Nada deve nem se pode interpor entre a nossa consciência e Deus. Nem o alívio. Deus vê tudo, é justo e misericordioso. Mas o modo de o entendermos forma-se no tempo. O tempo e o modo de cada momento de nós, no decurso desta vida, o tempo e o modo da nossa circunstância, da cultura em que vivemos. Podemos hoje entender melhor como os romanos perceberam os cristãos enquanto seita: a mensagem cristã era, definitivamente, fracturante, porque César não queria, não quis, nunca quererá, apenas o que é de César: necessariamente ambicionará sempre o que é de Deus. Comunidade minoritária de fé, rebento definitivamente profético de Israel, do povo de Deus na história, os cristãos primitivos, no império romano, eram motivados pela necessidade de conversão ao que só a Deus pertence: a alma que se despoja do mundo, a pessoa que se lava do pecado, pelo baptismo. Este é, assim, um rito iniciático também: o que é baptizado separa-se de outros mundos, a confissão da sua fé é sustentada na e pela comunidade dos crentes. A libertação do pecado não é só uma conversão ou profissão individual, é a íntima adesão a uma comunhão dos santos. Assim, ser pecador será sempre romper com a comunidade dos crentes, sobretudo quando sentida numa circunstância adversa e persecutória. A partir do sec.V, após a queda do império romano  --  entretanto já constantiniano e cristão  --  a festa da Páscoa, da Ressurreição de Cristo, será o momento anual da penitência e reconciliação dos trânsfugas, da absolvição pública dos pecadores.. Mas tal graça acabará por ser disponível apenas uma vez na vida, pelo que muitos se candidatarão a ela in articulo mortis, até porque as penitências impostas eram pesadíssimas. Será portanto benvindo o alívio penitencial que, a partir dos secs.VII/VIII, começou a ser proposto pelos monges: não só se poderia sempre repetir o perdão das faltas, como ainda se tornariam mais leves as penas, sobretudo após a divulgação de uns livros chamados penitenciais, que foram minimizando os arbítrios justiceiros de túnicas ou togas mais castigadoras... Séculos mais tarde, mesmo penitências de anos de jejum ou de abstinência de relações sexuais, foram desaparecendo, em benefício de peregrinações a lugares santos. Muitas e muitas vezes pensei como é tão ténue e tão difícil a distinção entre uma pena imposta como castigo e outra  --  mesmo que materialmente idêntica  --  como apelo à conversão, isto é, ao esforço de nos melhorarmos. Voltei a olhar, ontem ou anteontem, de visita à  Maison de Victor Hugo, para o Ecce, esse desenho a tinta da China e guache branco, em que o autor de Les Misérables representa Tapner, um criminoso de Guernesey, enforcado por sentença judicial. O título que o mesmo Hugo  -  militante abolicionista  -   dá ao seu desenho é uma referência à Paixão de Cristo: a pena de morte é contra o próprio Deus, único Senhor da vida e do juízo final. Noventa anos mais tarde, em 1944, Georges Rouault pinta, inspirado no Ecce, o seu Homo homini lupus, que vemos hoje no Centre Pompidou. O artista católico que nos legou a série Miserere, dolorosa e compassivamente pintada durante a Primeira Grande Guerra  -  um grito de profundis em que o sofrimento imposto aos homens se identifica com a Paixão de Cristo  -  insiste agora em recordar-nos que só a Deus pertence o direito de julgar... E já que, pela infelicidade das nossas culpas, é necessário administrar a justiça humana para que males maiores não advenham, esteja sempre presente no espírito de quem tiver de proferir sentença que o poder que usa e para tal lhe foi confiado não lhe pertence. Sinta o miserere como súplica do próprio Deus que diz preferir a misericórdia ao sacrifício. E tenha mais alegria na conversão de quem falhou ou faltou do que no exercício cego, ou simplesmente rigoroso da autoridade que lhe foi delegada. A misericórdia é irmã gémea da esperança. Dou-te a mão, Princesa.

 

           Camilo Maria

   

 

Camilo Martins de Oliveira 

MÁRIO QUARTIN GRAÇA


Para a Bi.
E também para o Duarte Ivo Cruz.
O Mário deixou-nos esta madrugada, serenamente, em Sábado Santo. Muito esperávamos ainda dele, da sua inteligência, da sua sobriedade, do seu conhecimento. Felizmente, deixou-nos ainda as deliciosas memórias, que intitulou despretensiosamente «Páginas Amarelas». Poderemos sempre regressar a elas e reencontrar o seu espírito e o seu exemplo. Aí deparamo-nos com uma época e um conjunto de personagens, que nos permitem gozar o melhor do memorialismo. Homem de nunca parar, deixou preparadas as comemorações de Miguel de Unamuno, que lhe prometi que se fariam, em sua memória e segundo o espírito que desejava imprimir nelas. A promessa aqui está reiterada, com o pedido a todos os seus amigos que possam congregar esforços para que a dignidade seja suprema. Para o Mário, a cultura portuguesa era inesgotável, universalista, permanente, feita de pormenores, de amizades, de encontros – mas sempre de vontade, de determinação e de esperança. A cultura é por definição viva, imprevista, incerta, imperfeita, apaixonante. Amava, por isso, os sítios por onde passou na sua vida multifacetada de diplomata, de caminhante, sempre de peregrino – Brasil e Espanha tiveram uma importância fundamental. Todos nos lembramos da sua presença neste blog do CNC. Lendo os seus textos, percebíamos que o tempo e as personagens que aí habitavam eram motivo permanente das suas invocações e do seu entusiasmo. Do Mário poderemos dizer o que ele mesmo, muito justamente, disse de Paulo Lowndes Marques: «foi em toda a sua vida um exemplo perfeito da Parábola dos Talentos, ou seja, o exemplo de quem nunca deixou de pôr a render todas as suas qualidades e de cumprir, de forma exigente, os seus deveres na terra e de quem nunca se conformou com a atitude daqueles, pessoas ou instituições, que não assumiam por inteiro as suas responsabilidades». Nunca esquecerei a sua invocação do Padre António Vieira, que foi para D. João IV o que grão-doutor João das Regras foi para o Mestre de Avis. «Já então os lisboetas se haviam habituado a encher a Igreja de s. Roque, atraídos pela fama dos seus sermões, nos quais, além de cuidar das coisas de Deus, cuidava também das coisas da Pátria, exortando os fiéis a cumprirem as suas obrigações perante o Estado e a cuidarem do bem comum, porque advertia ele, “sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixaste de fazer”». A conversa com Mário apenas foi interrompida. Seguirá dentro de momentos! Muito e muito obrigado pela amizade e pela generosidade.

Guilherme d’Oliveira Martins

LONDON LETTERS

 

 

Follow the money, 2014

 

O estilo ou o defeito de substância geram desconforto. E que escrever sobre as contradições? Com a aceleração política para a caçada ao voto no próximo mês, em eleições locais e europeias, o debate público ganha já traços feéricos nas linhas partidárias com uns costumados flash boys. — Chérie, c'est le ton qui fait sa chanson! As campanhas eleitorais sempre terão quê malabárico de ato promocional de venda ao incauto de um Buckingham Palace ou quiçá aqui dos belíssimos jardins de St James. Diz-se uma coisa e o seu contrário, é alto e é baixo, é largo e é estreito, será e não será, restando ao eleitor concluir sobre se o que aquele tal diz é pouco ou nada. –Humm. There is no alternative but to leave the serious stuff for serious people! Temo mesmo que o esforço desmesurado para convencer as gentes de que vivem hoje melhor que no passado recente atinge picos que fariam corar uma working lady de apelido Thatcher. Ainda assim, abreviadas a vida e a comunidade às finanças, o fim da crise foi hoje oficialmente declarado com argumento estatístico e em modo Ronald Reagan. Daí: Votar-se-á com a carteira.

 

Anda por cá deliciosa ironia ao melhor de Pieter Bruegel, The Elder em De parabel der blinden. A crise do cost of living finda às mãos de razão técnica: os salários crescem acima da inflação. Que o ganho seja às décimas e as faturas galopem a dois dígitos, é cor fora da paleta do pintor.  O fact checking exige trabalho e a dívida+défice esfumam-se em rude e volumosa pobreza. O micro management explica o declínio do debate político com a metamorfose de elites que enveredam pela escada rolante do cifrão ao invés dos degraus do status – a educação não é mais o antigo bem; sim o neo artigo para compra e venda. Ora, nem classistas georgians ou victorians toleraram dogma da desigualdade entre ricos e pobres a galope anual de 42% como hoje. Também nem em 1814 ou 1864  se ouviam numa qualquer sala de Westminster senhores vermelhuscos a citar grandes padres da fé em latim, pois sobreviria a frieza entre verbis e verbera. Tal qual Mr George Bush sr no labera lege, para orelhas que leiam, temos lupus in fabula. Advém risco maior: a falar para a fotografia, os representantes e candidatos podem imunizar-se no partido, sem impedir a repulsa no voto. É que há algo de moralmente corrosivo nisto a que a indispensável confiança da coroa não resiste.

 

Not by accident, o líder do UKIP continua em escalada radical nas sondagens. Com as intenções de voto a atribuirem à sua hoste uns consistentes 15%, Mr Nigel Farage é agora visado com os milhões recebidos como deputado europeu na união política que afirma abominar. Aos críticos responde o independentista como sempre: o dinheiro é bem aplicado na gesta para ser despedido e encerrada a empresa que lhe paga tais chorudos vencimentos. Pagará tamanha ingratidão? Afinal, at the end of the day, seja em Westminster ou em Brussels, quem paga é o contribuinte. O ataque negro tem leitura nas sondagens que avaliam a qualidade dos empregados políticos. Ipsos MORI Political Monitor: Clegg – 29%; Miliband – 30%; Cameron – 38%; Farage – 40%.

Vale o Rt Hon Secretary of State for Foreign and Commonwealth Affairs, Mr William J Hague, a doar liderança à Europe na Ukraine crisis. Cá por casa anda a garotada entretida a pintar coelhos e ovos para as festas da Páscoa. Os dias afiguram-se até longos pela fadiga de os ouvir no jardim dos fundos. — Indeed, a bad workman quarrels with his tools.

 

St James, 16th April

 

Very sincerely yours,

 

V.

Cien Años de Soledad

© EFE

Gabriel García Márquez: para ti um ramo de dias escolhidos.
Aceita,
ou ao inaugurar do dia a alma não caminhasse à frente de ti e o realismo mágico coado de impurezas não tivesse uma definitiva força.
E como há um dizer das coisas nervuradas, perturbadoras, e como quem as ler aceita ser prometido.
Aceita, neste ramo, o quanto sabias que só abrindo janelas se inicia o impossível.

M. Teresa Bracinha Vieira
17 de Abril 2014

NEM TUDO É TRISTE…

 

Minha Princesa de mim:

 

A sofrer tormentos, caldos e gélidos, obriga Virtude corpos iguais, e não nos revela nem como nem quais. Louco é quem espera que a nossa razão possa discorrer a substancial união de três pessoas numa... Contentai-vos,humana gente, com perguntar: pois se tudo pudésseis ver, não teria tido Maria de à luz dar... Traduzo livremente uns versos do terceiro canto do Purgatório da Comédia do Dante. Está aí Agostinho de Hipona, como quando pergunta a um menino como pretende encher a covita que fez na areia da praia com a água toda do mar, e o pequeno lhe responde que tal seria mais fácil do que o bispo explicar o mistério da Santíssima Trindade. O mesmo Santo Agostinho que se interrogava sobre se, entre a morte de cada um e o Juízo Final de todos, não haveria um passo qualquer de purgação das faltas que não pesassem o suficiente para precipitar o pobre humano nas profundas do inferno. Durante séculos, a ideia de purgatório -- palavra que, como substantivo, ou concretização de um lugar não terá sido utilizada antes do sec. XI - não diferia muito da de estado de espera do dies irae, intervalo entre duas vidas ( a passada e a possível)... Só em meados do sec. XII ganhará corpo o conceito de estado ou local de última purificação. E mesmo o papa Inocêncio IV, em 1245, ou o concílio de Lyon, em 1274, o referem de modo mais adjacente... Curiosamente, o chamado concílio da união (Florença, 1439), recordado ou não desse florentino do sec.XIII que se chamava Dante Alighieri, guelfo (e, por sê-lo, morreria exilado em Ravena) com amigos gibelinos (pela sua Beatriz?) - o tal vate cuja Comedia, só no sec. XVI apelidada Divina, se tornou certamente num dos maiores arautos do Purgatório (há quem diga que o escreveu e meteu entre o Inferno e o Paraíso para se conter e não atirar totalmente para as profundas o papa Bonifácio VIII) - lembra, na linha mística da comunhão dos santos, o seguinte: Aqueles que morreram na amizade de Deus antes de terem conseguido dignos frutos de penitência são purificados depois da sua morte pelas penas purgatórias e beneficiam do sufrágio dos vivos... Cento e vinte cinco anos mais tarde, o Concílio de Trento tentará salvar do anátema dos reformadores protestantes sobre o sufrágio das almas - tido como caça papal ao dinheiro dos fiéis, por via do comércio de indulgências - a intenção generosa da comunhão dos santos: A Igreja Católica ensina que há um Purgatório, e que as almas aí retidas são ajudadas pelas intercessões dos fiéis e sobretudo pelo sacrifício propiciatório do altar... E assim, Princesa de mim, se afirmou uma ideia como lugar onde - em que já poucos acreditam - com outra que, aliás, também em outras religiões e culturas, concita cultos e obrigações devotas: a do nosso estado de comunhão com os mortos. Por isso, na Igreja Católica, se celebram os fiéis defuntos, logo no dia seguinte à festa de todos os santos. Estes - que não sabemos nem quantos nem quem todos são - estarão já no paraíso. Os outros -- aqueles de que apenas sabemos que são defuntos - esperançosos esperamos que não tenham caído no inferno e estejam, todavia, a lume brando, no purgatório... E para que dele se livrem depressa e bem, rezamos e sufragamos: nós,os ricos, com muitos ofícios e missas encomendadas, como se, na eternidade do além, valessem ainda os dinheiros que todas as civilizações do mundo insistiram em entregar como viático dos mortos com posses ou amigos abonados; nós todos, incluindo nós outros, os pobres, quando mentalmente introduzimos uma intencão piedosa por um dos nossos naquelas cerimónias... Ou, universalmente, todos os dias em qualquer lembrança orante, e em comunhão manifesta com todos - passados, presentes e futuros - nesse dia 2 de Novembro, quando a memória antiga do ser que somos nos diz que, afinal, só uns com os outros existimos. Pensossinto que é nessa consciência íntima da comunhão dos santos (que são os pecadores em conversão ), que o purgatório existirá: sentido agudo de que a cidade de Deus, a Jerusalém celeste, se vai construindo com estas pedras de sofrimento que todos, no decurso de milénios, temos sido. Cada um de nós, e Deus incarnado em todos. O purgatório, minha Princesa de mim, é esta vida. E ao dizer-to, creio-me privilegiado: porque para muitos e muitos homens e mulheres, esta vida tem sido o inferno que não mereceram mais do que tu ou eu. E não desejemos que para outros, muito poucos, se cumpra esse dito de Jesus: Já tiveram a sua recompensa. Se nenhum de nós conhece a própria cruz, quem saberá pesar a de outrem? Acabo mais uma carta sem te falar do fantasma espanhol... Ou, melhor, desse purgatório, noctívago e assombroso, que é a condição de alma circulante e penada... Conheço fantasmas que atravessam muros - inclusive os parietais das nossas cabeças - e, suplicantes, nos ameaçam...até tropeçarem num qualquer invisível degrau, baterem com o nariz no chão e se instalarem na nossa sala, com os inexistentes pés metidos num alguidar com água de sais, e compressas aliviantes no frontespício... Nem tudo é triste. Hoje, além da mão, dou-te um beijo, daqueles que sossegam.

 

Camilo Martins de Oliveira

Lídia Jorge

 

Os Memoráveis

 

É um facto que um sentido de responsabilidade democrática ainda não substituiu o da responsabilização autoritária que, à toa, ainda existe por todo o lado, num processo de malícia situada e lentamente abafadora de memórias e de futuros e de passados por honrar.

A minha querida Amiga Lídia Jorge tem boa razão quando neste seu romance Os Memoráveis:

Sem nada ter feito para isso, sem querer nem desejar, encontrava-me em face a um tempo longínquo, recebia mensagens de um país distante de que havia prescindido a ponto de, ultimamente, chegar a duvidar da existência real do seu presente, quanto mais do seu passado.

E Lídia!

contorce-se o tempo num país-lagarta, num país que muitos desejam que comece e acabe por citações. Mas não será assim. Foi nas mãos da Lídia, que entreguei o verde caderno para António Gamoneda. Embainhei palavras que não podiam esperar e de modo a que não perdessem forças, levou-as a Lídia ao destinatário, olhando em redor e procurando-o para lá do horizonte, deitando mão do seu veio de luz. Mulher- tempo.

Quando voltámos a conversar, eu já tinha o livro da Lídia que acima cito. Já tinha o testamento do poeta magrebino

Silêncio é morte

e tu, se te calas

morres, e nós também

e se falas

morres, e nós também

então diz e morre.

(e acrescentado à mão de um)

E nós também.

Lídia:

Temos, às vezes tido músculos de bronze maleável, que muito têm sabido refulgir sob a luz rasante do interpretar. Tanto falamos acerca…e sem dúvidas de identificar o que nos espera ou aguardou, até a música que não ouvimos e a que em nós cresceu, e até o jogo que nos fez e faz mergulhar os dedos nos cabelos, plantas enfeitiçadas pelos céus púrpuras de alegrias e choros e raivas e espaços de amor que cada uma, em ângulos de caminhos diferentes, aceitou percorrer pelas ilhas perdidas, no centro dos mundos que habitávamos e habitamos.

E do muito eis que também nada

Como um dia que havia começado com um filme de felicidade.

Nada como ser-se filho de uma revolução para se ficar acompanhado para sempre por uma multidão entre a alegria e a fúria.

Nada como nem fome, nem sede, nem cansaço, une tanto, o banho do valor requintado de alma fresca, que nos habita quando também se liberta a voz.

Lídia, assim também e por aqui, o livro Os Memoráveis deve e pode ser lido. Nele o acordar de um torpor estranho que se entranhou nas gentes, a proposta de se reajustar o espírito aos limites do tolerável e do intolerável, pois que, a escuridão se adensa, e o veleiro, curvado, já nos não dá a protecção total da sua silhueta.

Os homens metediços e ressentidos que a Lídia refere neste livro serem gentes que abalam cedo deste mundo, deles adverte, que uma boa parte do solo arável se alimenta de ossos tenros, ora,

os do rapaz dos tanques, autor daquelas conversações prolongadas no Largo do Carmo, parecem terem sido requerimento adiado sine die.

Parece-me Lídia, parece-me mesmo que o prau se fundeou lá onde regressados sem dano das visitas às memórias, não viremos nunca.

A inquietude deste livro é notável. É exposta por mulher que espreita e espia o parto que um dia viu e o confronta com a ideia do que outros querem fazer crer que dele se creia, e, mirando-se esta mulher de dentro e de fora ao mesmo tempo, permite-se que a cerquem até onde, liberta pela fortíssima tensão, faça do tempo que se passou uma íris das manhãs, e que no tempo de hoje escrevam sempre as suas mãos nestes confins torrenciais, como quem afirmará sem receios: eu estou na História, não nos limbos: afirmará a Escritora. A vida compele-me num correr de nunca submetida.

E nesta conversa-chave propõe-nos a Lídia Jorge

(…) deixando-nos (…) vinte, trinta, quarenta, cem anos, ou o tempo que ainda venha a ser necessário, para decifrarmos o que verdadeiramente se passou(…) é um tipo de ousadia que a história está sempre a engendrar.

É uma difícil verdade-alívio, remédio para uma angústia à deriva, mas que nos revela também quem somos no fim do périplo, se nos quisermos pôr à prova.

Assim te li, querida Amiga e sentida Escritora.

 

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Março 2014

NOTA FINAL SOBRE O GRUPO FERNANDO PESSOA NO BRASIL

Fazemos hoje uma referência final à atuação do Grupo Fernando Pessoa (GPF) no Brasil. Mas atenção – final nesta abordagem, pois poderemos sempre voltar ao assunto, quanto mais não seja na perspetiva de iniciativas teatrais e dramatúrgicas luso-brasileiras.

Em crónicas anteriores, ficaram bem patentes três ideias-base: o carater percursor da tournées do GPF, o seu alto nível cénico-dramatúrgico – textos de Pessoa representados por tão excelentes artistas portugueses – e a repercussão e a qualidade do público, bem representado pelo conjunto de escritores brasileiros que se fizeram fotografar com o Grupo e, tal como os artistas portugueses, evocados um a um nesta série de crónicas.

Iremos então agora, como nota final destas evocações, referir a existência de apreciações que alguns grandes nomes da literatura brasileira, ou residentes no Brasil, fizeram ao espetáculo e aos intérpretes, num livro de autógrafos conservado por Glória de Matos: Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Paschoal Carlos Magno, Carlos Drumond de Andrade, João Gilberto, Tomaz Ribeiro Colaço e Madalena Rey Colaço, entre outros, assinalam e elogiam o espetáculo do GFP.

Como amplamente temos lembrado, os espetáculos do Grupo Fernando Pessoa no Brasil tinham como texto principal, precisamente a “Mensagem”, publicada no primeiro número do Orpheu. Nesse sentido é oportuno referir também que na origem do Orpheu surge o escritor modernista brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), diplomata de carreira, criador e estudioso da literatura e um dos nomes referenciais e referenciados da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), movimento renovador da arte e da cultura no Brasil.

Ronald de Carvalho, hoje bem pouco lembrado entre nós, estabelece assim uma ligação entre o início do modernismo português, via Orpheu e o início do modernismo brasileiro: e isto, não obstante as reservas que em obras diversas, formulou relativamente à literatura portuguesa.   

Ora, retomando as evocações que, nesta série de artigos temos escrito sobre Almada Negreiros e sobre Fernando Amado, é interessante então fazer mais algumas breves referencias:

Em 1935, escreveu Almada, especificamente sobre Ronald: «Na formação do Orpheu, os primeiros nomes que aparecem são os do poeta português Luiz de Montalvor e o do escritor brasileiro Ronald de Carvalho. Ronald de Carvalho, há bem pouco tempo falecido no Brasil, vítima de um desastre de automóvel, era, além de escritor, diplomata e secretário da Presidência da República, tendo sido recentemente eleito “Príncipe das Letras Brasileiras”»...

E é curiosa a referência ao Rio de Janeiro feita em 1944 por Fernando Amado: “Desembarquei há mais de quatro meses na cidade maravilhosa e, embora cheio de projetos, não consegui ser mais do que um vulgar turista, passeando, admirando, tentando perceber o que em volta de mim sucede, o que pode e quer e o que há-de vir a representar, num futuro próximo, o imenso Brasil”.

 

DUARTE IVO CRUZ

SEMANA DA PAIXÃO

 

          Minha Princesa de mim:

 

Cá estou eu, em vésperas de Semana da Paixão, hoje por aí mais conhecida por Semana Santa, de janelas abertas sobre o espreguiçar dos campos em tarde de primavera acinzentada e morna, à escuta, neste retiro, da Johannes Passion do Bach, na magnífica versão do John Eliot Gardiner, com o Monteverdi Choir e os English Baroque Soloists. Sempre gostei mais desta do que da segundo São Mateus. Para mim, como sabes, o evangelho de S.João é sempre mais inspirador do que qualquer dos sinópticos. Talvez o mesmo tenha acontecido a Bach, que também não terá resistido totalmente ao encanto do libreto de Bartoldus Henricus Brockes, cuja Paixão encontrou vários compositores, incluindo Georg Philipp Telemann, enorme na música e na amizade aos Bach... Esse libreto intitulava-se Der für die Sunde der Welt leidende und sterbende Jesus:  pelo pecado do mundo sofreu e morreu Jesus. As paixões de Bach já são Paixão-oratórios, sofrem influências teatrais, operáticas, mas foram compostas para serviços litúrgicos. As várias outras com libreto de Brockes são já só oratórios da Paixão, consagram a representação,em salas de concerto ou teatro, do drama histórico da Paixão de Jesus Cristo.... Por próximos que sejam os estilos e técnicas de composição, certo é que a evolução da piedosa devoção  -  e do culto litúrgico  -  da Paixão, a foi tornando, cada vez mais, um drama mais antropológico e menos teológico. (Num à parte, ocorre-me um provérbio português, que muitas vezes ouvi ao nosso Alberto: Deus escreve direito por linhas tortas... E esse grande escritor universal que foi S.João Evangelista, di-lo tão bem, ao situar o conselho de Caifás para que Jesus fosse condenado e morto, a bem da nação: Não disse isto por si próprio; mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação; e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos... Os engrossados são meus e sublinham a força do desígnio de Deus, até o mal por bem  --  e, quiçá, muitas vezes afirmamos enganados  --   isso a que o nosso lusitano Alberto chamava fado). Aliás, também a escultura e pintura europeias, ocidentais, cedo se foram emancipando das regras do hieratismo das representações e composições do império bizantino, para irem dando mais lugar e expressão ao sofrimento humano do Deus incarnado, como à dor e à alegria dos seus próximos e fiéis. Ainda na Idade Média, a Igreja foi consentindo na representação de autos ou actos teatrais de cenas e mistérios das escrituras e da fé religiosa, até no recinto de catedrais. Creio que é sobretudo a partir do sec.XIII que a celebração da Paixão de Jesus Cristo é "dramatizada" na própria liturgia: da simples leitura narrativa dos evangelhos passa-se para a reconstituição declamada dos acontecimentos, através da voz de um narrador (o evangelista), do sacerdote oficiante (Jesus Cristo) e dos fiéis presentes, quer em conjunto,quer por coros, quer por uma voz solo (a turba, Pilatos, Caifás, e os demais intervenientes). Pelo século XV, com o desenvolvimento da polifonia, se começa a musicar essa proclamação, e no sec.XVI já se conhecem três formas musicais do seu uso litúrgico: uma responsorial, uma em moteto e o princípio do oratório. Este, ainda que nascido em Itália, vai sobretudo desenvolver-se na liturgia da reforma protestante (luterana) alemã, até atingir, de meados do sec.XVII a meados do XVIII, numerosas produções. O recurso aos textos evangélicos e a outros, litúrgicos, em forma declamada, em recitativo e em árias cantadas, para além da beleza emocional, procura comover a assembleia dos fiéis, apresentando-se assim a Paixão,não só na perspectiva teológica de resgate do pecado e salvação dos homens, mas na compaixão da humanidade sofredora de Cristo. O próprio mistério teológico é sentimentalizado, humanizado... Traduzo-te, do libreto de Brockes, trechos que se seguem à palavra final de Cristo na cruz: Consummatum est, ou, em alemão, Es ist vollbracht. ( Não te esqueças de que, na Alemanha luterana, os textos bíblicos e litúrgicos já nessa altura se diziam em vernáculo). 

      Trio (três almas crentes):

      Ó palavra fulminante, ó terrível grito!

      Som que a morte e o inferno temem ouvir

      porque torna irrisório o seu poder!

      Rasgos de voz que racham pedras e rochedos,

      põem o diabo a uivar e a tremer

      e fazem explodir o abismo sombrio!

 

      Ária (uma alma crente):

      Ó santa palavra, ó grito salvífico!

      Jamais terás, pecador, que temer

      o poder do diabo e do inferno!

      Ó som que nos curas as feridas

      e nos concedes a bem-aventurança

      que Deus há muito nos destinava!

      ................................................

      Duo (Filha de Sião):

      Serão as chagas profundas da minha alma

      ligadas pelas tuas chagas?

      Herdarei eu agora, pelo teu sofrimento

      e pela tua morte, o paraíso?

      Estará próxima a salvação do mundo?

      (uma alma crente):

      Eis as perguntas da Filha de Sião.

      Como Jesus não pode falar das suas dores,

      deixa tombar a cabeça

      e silenciosamente diz: sim!

      Recitativo (Filha de Sião):

      Ó generosidade! Ó coração digno de piedade!

      Evangelista:

      E rendeu o espírito.

   E é cheio de dolorosa força o arrependimento de Pedro, após o terceiro canto do galo:

      Que dor imensa

      inteiramente me invade!

      Um arrepio de gelo me corta a alma!

      O braseiro feroz da sombria gruta das torturas

      já me incendeia o coração!

      O meu coração e a minha alma se consomem como carvões ardentes!

      Quem destruirá esta ignomínia?

      Como poderei eu salvar-me?

   Na música de Telemann e na voz do tenor Donát Havár, com direcção de René Jacobs, a Welch ungeheurer Schmerz de S.Pedro soa-me como um De profundis: a compaixão transforma o sofrimento em esperança. Porque compaixão não é ter facilmente pena. É compatir, sofrer com. Não é ser espectador, é participar no drama. Partilhá-lo. E a música, anima-nos, põe as almas a cantar. E qualquer canto afugenta o demónio, que não gosta de harmonias. Dou-te a mão em sol maior.

 

          Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS


de 14 a 20 de abril 2014

 

Jacques Le Goff (1924-2014) foi um dos historiadores europeus contemporâneos com maior influência no final do século XX. «La Naissance du Purgatoire» (Gallimard, 1981) é já um clássico, onde se analisa a génese da sociedade moderna à luz da mudança de mentalidades.

 


Foto: La Croix

 

PERÍODO ESSENCIAL
«Descobri que a Idade Média (disse o historiador) foi um período essencial para a formação da nossa sociedade e da nossa cultura, talvez mesmo a mais importante. Foi, com efeito, na Idade Média que se pôs em prática o elemento fundamental da nossa identidade coletiva que é o cristianismo. Foi na Idade Média que vimos aparecer o Estado e a Ideia de soberania». Então nasceram as línguas atuais, apareceram as cidades modernas e o poder tornou-se urbano, além do surgimento das Universidades e da própria ideia de Europa. «Atrás da razão, a Idade Média soube ver a paixão do justo, atrás da ciência, a sede da verdade, atrás da crítica, a procura do melhor». O historiador considerava, assim, a Idade Média como a matriz da nossa cultura, não podendo, no entanto, esquecer-se a parte sombria desse tempo (durante o qual o historiador não teria gostado viver). Ao lermos a sua vasta obra, desde a análise da intelectualidade medieval até às biografias de S. Luís de França e de S. Francisco de Assis, compreendemos que tenha procurado escrever sobre a «história global» em «La Naissance du Purgatoire», onde analisa, com rigor e vitalidade, a emergência de novas estruturas mentais, sociais e económicas. As cidades favoreceram a autonomia individual e o surgimento de uma nova classe intermédia, a burguesia, a qual vai dar importância crescente ao capital, em lugar do patrimonialismo agrário… A partir de finais do século XII verifica-se no cristianismo a exigência de superação do dualismo recompensa / castigo, paraíso / inferno. A designação para o paraíso ou para o inferno dependia dos pecados cometidos por cada um, na terra, lugar de penitências e provações, para a humanidade atingida pelo pecado original. O Deus dos cristãos é bom e justo, cheio de misericórdia, mas dotado de severidade, decorrente do facto de as pessoas disporem de livre arbítrio, que permite a punição quando a pessoa se deixa abandonar ao génio do mal. O juízo final ditaria, assim, uma sentença definitiva, positiva ou negativa. Se é certo que, desde os primeiros séculos do cristianismo, os fiéis alimentavam a esperança de que a sorte dos mortos pudesse ser melhorada, através de orações, oferendas e sufrágios, a verdade é que só tardiamente é descoberto um lugar que permitirá reconsiderar das penas do inferno. De qualquer modo, há já quem entenda, desde muito cedo, haver dois infernos: um inferior e outro superior. Este último, era para os condenados com acusações mais leves. Do ano mil ao século XIII, os padres da Igreja julgaram como insuportável a simples oposição entre o paraíso e o inferno. Daí a formulação de uma terceira realidade, o Purgatório, onde os mortos pudessem ser «purgados» dos pecados graves. Trata-se, para J. Le Goff, da «interiorização do sistema religioso, que, da intenção à contrição, reclama do pecador mais uma conversão interina do que ações exteriores». Em vez de opor bons e maus, segundo a tese agostiniana – considera aqueles que ficariam durante um certo tempo, num lugar onde suportariam penas comparáveis às do inferno, igualmente infringidas por demónios. Assim, há uma associação das faltas cometidas por cada um, em ligação com o afeto dos próximos, cujo papel é tentar abreviar a permanência no Purgatório, através das suas orações, das suas oferendas e da sua interferência: numa palavra, funciona a solidariedade entre vivos e mortos. Como salientam Philippe Ariès e Pierre Chaunu, há um suplemento de biografia purificador – o purgatório tem apenas uma saída: o paraíso. E o morto poderá finalmente ser salvo no Juízo Final.

 

TRABALHAR COM DIVERSOS EXEMPLOS
A investigação de Jacques Le Goff é de extraordinária importância e atualidade. Com a figura do Purgatório, o morto tem uma nova oportunidade, que lhe permitirá ser finalmente salvo no Juízo Final. A investigação de Jacques Le Goff, a sua visão de conjunto, é do maior significado, baseando-se na leitura e análise de documentação vária dos séculos XII e XIII, designadamente o «Dialogus Miraculorum» do monge cisterciense Cesário Heisterbach (1220), no qual se estudam «exempla» de mortos no inferno, no purgatório e no paraíso. O tema da usura é paradigmático e tem importância relevante. O usurário se quiser evitar a condenação deverá repor ou restituir o dinheiro mal adquirido e confessar a sua falta. O sistema tradicional de resgate de que o usurário dispunha durante a vida e na morte compreendia confissão, contrição, ou arrependimento e satisfação ou penitência. Como se compreende é a contrição que ganha uma importância crescente neste período em que também as conceções económicas sofrem alterações significativas. O usurário é difícil de salvar, já que obriga a uma ação cumulativa de restituição e arrependimento. De facto, muitas vezes, com a aproximação da morte, não há tempo suficiente para conseguir os dois efeitos. Os exemplos analisados pelo historiador são muito ilustrativos, até para não perderem o efeito dissuasor, procurando evitar qualquer frouxidão prática.

 

O PURGATÓRIO E A ECONOMIA
Ao estudar a génese do Purgatório, o que Jacques Le Goff fez foi investigar a génese e o desenvolvimento da economia centrada no capital, progressivamente, encontrando a preparação ainda no período medieval. Notem-se, por exemplo, as cinco «desculpas» encontradas pela tradição escolástica para as práticas próximas da usura: (a) o dano emergente, ou aparecimento inesperado de um prejuízo devido ao atraso no reembolso; (b) o lucro cessante, ou impedimento de um lucro superior legítimo; (c) a remuneração do trabalho («stipendium laboris») por terra e mar, ir às feiras e até ter contabilidade merece um salário; (d) o risco sofrido pelo prestamista, já que a exposição aos «assaltos de Satã» ou aos inimigos pode gerar perturbações; por fim, há o cálculo da incerteza, que reconhece a ponderação da dúvida, o que pode dar lugar a um preço. Le Goff conclui: que um número crescente de usurários passa a ter probabilidade de se salvar do inferno, pela moderação e pela deslocação da sua atividade para empréstimos autorizados… É uma nova economia que nasce, é o comércio que se desenvolve, mais do que os fatores naturais - passa a funcionar o capital… E eis-nos perante um tema que revela uma capacidade única para mobilizar estudiosos e investigadores. E Jacques Le Goff compreendeu-o com grande sentido prático, disciplina e entusiasmo. Pierre Nora disse que era o último dos grandes – ao lado de Marc Bloch, Fernand Braudel ou Georges Duby – além de François Furet e Le Roy Ladurie… Umberto Eco, amigo do historiador, lembrou o cidadão, o combatente contra a intolerância e o estudioso, «menos dos acontecimentos que da cultura (como filosofia e teologia), sendo o seu livro sobre o Purgatório umas obra-prima inultrapassável em erudição e como exumação de textos esquecidos».


Guilherme d'Oliveira Martins