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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SÓ AMANDO PURGAMOS…

 

 

Minha Princesa de mim:

 

Vi no Tokyo Kokuritsu Hakubutsukan  -  o Museu Nacional de Tokyo  -  dois  zosh, rolos de papel que se abrem na horizontal e se vêem ou lêem da direita para a esquerda, descrevendo cenas arrepiantes do Jigoku ou inferno budista, e pintados nos finais do sec.XII, na transição da era Heian para a de Kamakura. Um Jigoku-zoshi imagina a cena horrível de vermes necrófagos a desfazerem o corpo nu de uma senhora de alta linhagem; o outro é um Gaki-zoshi, pinta-nos uns danados (gaki)  famélicos e esqueléticos a devorarem, numa ignóbil fossa, excrementos humanos... Já um século antes, uma Fujiwara no Michitaka, primeira mulher do imperador Ichijo, encomendara, para sua espiritual admoestação, um biombo com representações do inferno. Mas não conseguira olhar mais para ele... Porquê? Teria sido só por repugnância, por nojo? Nojo, aliás, é ainda hoje o que juridicamente se adjectiva aquele período em que o luto nos dispensa de outras obrigações. Ou seria por avassalador sentimento de culpa, ou por medo? O primeiro tem que ver com o temor do inferno, o qual é um caleidoscópio das nossas angústias... O segundo, que  é temor imediato e não apenas interrogação sobre um eventual castigo futuro, tem só que ver com a consciência da nossa condição... Aí, medo é o receio do desconhecido: quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?  -  receamos a resposta, não por ela, mas pela nossa ignorância. O medo do inferno agita-se perante nós, e todos nos perguntamos como, com que obras, dádivas ou actos de contrição e reparação, poderemos fugir aos horrores dessa eterna prisão e tortura. Conta o Evangelho que, só depois de no Jigoku já ter caído, um rico se lembrou de Deus e de Lázaro, esse pobre que ignorara em vida, in tempore oportuno. Para então suplicar que fossem avisados os seus (dele rico) familiares de que a injustiça e o coração fechado só ao inferno conduzem... Teria sido tarde, talvez, na parábola certamente o foi. Na misericórdia de Deus, tudo, ainda hoje, como sempre, dependeu e dependerá da resposta que quem tiver ouvidos, depois da escuta, quiser dar. A dureza crua dos Jigoku-zoshi contrasta com a serenidade das representações do Buda Amida, esse que promete a Terra Pura.  Muitas vezes me interroguei sobre a tranquila, seráfica aparência de Buda, contraposta ao sofredor retrato de Cristo, seguido da imagem triunfante do Redentor. .. Talvez tenha a ver com uma diferença, quase imperceptível (e S. Francisco Xavier que o diga!), entre o conceito de felicidade alcançável pela imanência transcendente da meditação, e o da bem-aventurança possível pela encarnação de Deus, transcendência imanente... Mas não me deu hoje o fígado para teo-filosofias. Antes me surpreendeu, nesses zoshi, a lembrança da marmórea pedra tumular de Guillaume de la Salle, cavaleiro da Ordem de Malta, no pavimento da catedral de S.João, no esplendor do sec. XVIII: um capuz envolve a caveira, desdentada quase, do fidalgo. São só acusações de si, os olhos e as narinas. Ossos ainda vertebrados, o pescoço. Está ali a morte, não se enfeitou, é monástica. Não é estátua, ainda que jazente, de triunfos passados ou futuros. Se ressurgir, será para um imprevisível juízo. E logo me ocorreu outra imagem  -  que religiosamente guardo comigo  -  de um Buda magríssimo e sofredor, como outro com que  deparei na Tailândia. Pintou-a o devoto Yamamoto, artista filho de um colaborador meu, que me dizia como, para ele, Buda teria vivido o sofrimento misericordioso de Cristo. Assim também me veio à cabeça outra lembrança: a de tantos e tantos monumentos tumulares que, na cristandade, procuraram enaltecer, para a eternidade, as desejáveis e imaginárias virtudes de muitos que, com pretensiosismo, se apontam como vencedores da morte. Como se a vitória sobre a morte não fosse a humilhação da vida que se perde, para se ganhar outra... Sobejam, na cristandade, exemplos do que eu  chamaria quase ganância de canonização, pois esquecidos terão ficado tantos promotores de que a vitória definitiva sobre a morte conseguiu-a a paixão de Deus que se reduziu à humilhação da condição humana. Assim a morte é como o nosso esqueleto: descarnada e pobre. Como todos os pobres que, em vida deles e nossa, foram sendo esquecidos. Hieronimus Bosh representou tentações que são infernos, e infernos que continuam a ser tentações.O hediondo do mal que não nos larga a porta de casa. Desde esse misterioso instante, perdido algures, na escuridão dos tempos, em que ser humano se tornou em abrir os olhos e ver... E o que viu primeiro foi a morte, a sua morte, conscientemente. A morte com ele mesmo nascida, e que ele sabe, objectivamente, que não é só as mortes que vê à sua volta, mas a sua própria. Como sabe, precisamente porque a morte lhe habita a consciência, que não é apenas quando com ela actualmente se defronta e luta que terá de a olhar... Para o homem, a morte não é só uma eventualidade: é uma vocação que lhe traz muitas outras interrogações e representações. Seja qual for o nosso tempo e o nosso modo, a nossa fé ou o nosso desânimo. Piero della Francesca, na sua Ressurreição de Cristo (1463), hoje conservada na pinacoteca municipal de Sansepolcro, sua terra natal, mostra-nos um Senhor triunfante da morte, segurando com a mão direita a bandeira da cruz, e com o pé esquerdo bem firme sobre o túmulo que soldados adormecidos em vão guardaram... Já Matthias Grünewald nos dá um Cristo luminosamente explodindo, como saudação de vitória e paz, de um túmulo, cujos guardas ficam deslumbrados e caem... Dum e de outro modo se exprime a vitória da vida sobre a morte. Mas Cristo é Deus, e nós humanos apenas...  Gosto muito das histórias sobre a  dormição da Virgem Maria, tal como são contadas em textos, todos eles apócrifos, escritos em muitas línguas, do grego ao etíope, do copta ao arménio, do siríaco ao eslavo, do arábico ao latim, língua em que são conhecidas sob o título genérico de Transitus Mariae. Sobre esses contos assenta a iconografia cristã da morte e assunção de Nossa Senhora. Nas cenas da morte, ou surge o anjo anunciador que lhe estende a palma com que entrará no céu, ou a rodeiam e assistem os apóstolos, como naquela Morte de Maria, de Joos van Cleve, hoje na Alte Pinakothek de Munique, em que S.Pedro administra o santo viático. Muitas e várias são as representações da assunção, mas uma me tocou especialmente, numa visita à Galleria dell´ Accademia, em Florença: Nossa Senhora do Cinto, de Francesco Granacci. Diz a lenda que S. Tomé estaria ausente do trânsito e subida ao céu de Maria. Neste quadro, uma Virgem irónico-bondosamente sorridente, que anjos elevam ao céu, olha para Tomé ajoelhado junto ao túmulo que ela deixou  -  e onde florescem rosas  -  e oferece-lhe ,como prova de que é mesmo ela que está lá em cima, o cinto que a cingia... Na National Gallery, em Washington D.C., um quadro do Mestre da Lenda de Santa Luzia, mostra-nos Maria, Rainha do Céu, e resume bem o texto de Tiago Voragino (que na sua Legenda Aurea retoma  lendas e narrativas apócrifas que considera merecedoras de crédito e de devoção) que para ti aqui traduzo: Foi assim que a alma de Maria deixou o seu corpo, e que ela voou nos braços de seu Filho e foi poupada a qualquer dor carnal, tal como fora preservada da corrupção. O Senhor disse aos apóstolos: «Levai o corpo da Virgem minha mãe para o vale de Josafat, colocai-o no sepulcro novinho em folha que lá encontrareis e esperai três dias até que eu volte para perto de vós». E logo as rosas flores de rosa  --  a assembleia dos mártires  --  e os lírios dos vales  --  o exército dos anjos, dos confessores e das virgens  --  a rodearam. Os apóstolos chamam-na,gritando: «Para onde vais, ó Virgem cheia de clarividência? Lembra-te de nós, ó Nossa Senhora!» O concerto dos anjos que ascendiam encheu de espanto as tropas que estavam no céu; precipitaram-se ao seu encontro e, vendo o seu Rei, que em braços levava a alma de uma mulher, e que esta se apoiava nele, exclamaram estupefactos: «Quem é esta mulher que sobe do deserto coberta de delícias e se apoia no seu bem-amado?» Os que a acompanhavam disseram-lhes: « É a mais bela das filhas de Jerusalém, que vístes cheia de caridade e amor». E foi assim que, cheia de alegria, ela foi acolhida no céu, colocada num trono de glória à direita de seu Filho, e os apóstolos viram que a sua alma tinha tal  pureza que nenhuma língua mortal poderia exprimi-la. Mas, por uma qualquer associação temática, cromática, ou simplesmente de impressões minhas ou de composições e estilos que povoam o meu museu imaginário, o Maria, Rainha do Céu evoca-me O Juízo Final do Fra Angelico, em San Marco, Florença. Dizia Sto Agostinho que, depois da morte, só há dois lugares: o céu e o infrerno. Nos séculos XII/XIII inventámos mais um, uma espécie de câmara de descontaminação: o purgatório. Aliás, já Agostinho meditara sobre o rigor extremo de um juízo final: não poderia, ao fim e ao cabo desta vida, existir um lugar,uma condição, em que se fossem apagando, por prestações, tantas outras faltas que talvez fossem mais veniais e não merecessem o eterno exílio? A ideia dessa condição de purga  --  conhecida por Purgatório  --  foi ganhando corpo, esperança e crença na cristandade, facultando até a venda eclesiástica de indulgências, uma espécie de bilhetes de primeira classe na barca de Caronte... Talvez por isso, na Reforma do sec.XVI, Lutero rejeitasse o conceito de purgatório... Mas a fé e o temor populares mantiveram-no nas devotas prácticas católicas, quiçá mais lembradas do êxito da oração de Abraão, pai dos povos, suplicando a Deus que da destruição poupasse cidades inteiras se nelas encontrasse um justo. Assim, então, mais esquecidos do insucesso do rico que, em vão, lhe pedira que prevenisse, do risco de eterno ostracismo, os seus familiares, como narra o Evangelho. No Juízo Final do Angelico  --  e quando voltares a San Marco, olha bem para essa magnífica pintura  --  um Cristo pantocrator e trinitário, sentado no trono eterno da realeza celeste, preside, nesse acima de tudo que é o Céu, a assembleias  de arcanjos e anjos a seus pés, com a Virgem sua mãe puríssima, sentada também e, toda de branco luminoso vestida, humana elevando-se acima deles, rodeados todos pelos apóstolos e os padres e fundadores religiosos da Igreja. Abaixo. à sua direita gozam já dos prazeres do paraíso, entre flores e frutos, santos desconhecidos, eleitos. E, mesmo à beirinha do abismo fechado junto a túmulo aberto que os separa dos outros, dos que se irão danar, santos já reconhecidos e venerados rezam contra a coacção que demónios exercem sobre cardeais,turcos,frades e freiras,senhores e campónios,que o diabo empurra para o inferno. Este ali está representado, em cenas de sofrimento infringido em cinco andares subterrâneos, aos quais, de foice em punho, preside a morte esquelética e feia... No seu A Morte e a Extrema Unção, H. Bosch pinta-nos um moribundo no seu leito de morte, assistido por rezas familiares e sacramentos administrados. Ao centro da cabeceira da cama, a morte espreita, com o seu dardo já apontado. Mas logo à esquerda do transeunte final, um monstro demoníaco o aguarda. Ao lado deste, um anjo de asas brancas (em tendo-as,voava ao céu...), espera-o. É a misericórdia de Deus, e talvez ganhe. Mas tu sabes bem, Princesa de mim, talvez melhor do que ninguém, como penso que é humilde o amor. Como o perdão. Perdoar, aliás, quer dizer que nos convertemos quando nos damos. Assim Deus se fez homem. Dou-te a mão, pensando no Fantôme Espagnol dos Bob et Bobette... A morte também se representa por divertidos fantasmas que nos ensinam que o purgatório, no cenário deste ou de outro mundo, é sempre e só o esforço gostoso de tentar amor maior.

 

           Camilo Maria

LONDON LETTERS


The John Lewis list
, 2014

 

 

Um articulista equipara tais momentos na Westminster bubble a um daqueles snowglobes que conheceis com pitada de horror ao inútil. Não servem para apurar nada ou resolver coisa alguma. Agita-se, há uma artificial queda de neve e depois volta tudo à quietude de reino pacífico. Já boa parcela condensa estes casos no champagne lifestyle na eterna passagem pela euforia no ciclo político. — Chérie, les gens font toujours le loup plus redoutable que lui! Um membro do governo é questionado sobre o teor das despesas apresentadas como parlamentar eleito e coagido a repor £5,800 pagas pelo contribuinte, indevidamente assalariadas e por isso ainda também compelido a apresentar desculpas na House of Commons. O governante em causa faz uma meteórica 32-second apology. O Prime Minister encerra o revés.  —Humm. Islands in the clouds! A controvérsia preenche a nuvem mediática há dias, denotando nada senão a dificuldade de extrair conclusões aquando da tomada de conta face à john lewis list. Teme-se até que a atual auditoria pela IPSA menos valha que o velhinho rol de armazém fino. Para uns quantos, como sempre, mas mais cara, a vegetarian cookbook for carnivores.

Belos estão os dias em privilégio meteorológico: solares e frescos. As plantas e os autóctones agradecem. Na House of Commons anda também o negócio animado. Em novo episódio de abuso nas MPs’ expenses e seco pedido de desculpas à câmara, aliás: algo a louvar no Hansard porque conciso e preciso, sobem os pedidos do género red queen em torno da Culture Secretary, Mrs Maria Frances Miller. — Cortem-lhe a cabeça, clamam em uníssono jornais da manhã e vozes das fileiras conservadoras. A lacónica MP por Basingstoke tem apoio do Prime Minister, mas Mr David Cameron não sacia o desejo de sangue nos Tory green backbenchers a braços com o ascenso do UKIP. Já o caso, em si, expõe o problemático e privado sistema de compras em Westminster, com tendência a agravar se inconsequente e não somente a envergonhar elementos desaforados de todos os partidos.

A razoabilidade das faturas apresentadas a ressarço era usualmente feita por comparação com preçário de famigerados armazéns: os John Lewis. O 2008 MPs’ expenses scandal trouxe reforma e avaliação pela IPSA – Independent Parliamentary Standards Authority. Por bizarro que fosse o antigo método, o ruído em torno do caso de Mrs Miller revela fragilidades no 2009 Act. Afinal, ao invés do passado, o abuso não conduz já a demissão ou despedimento sob forte sanção pública. Ora, o historial destas contas parlamentares revela que a velha régua possuía vantagens. A JLL mostrava intuitivamente o quão desadequado é debitar ao erário público aposentos em London mais sete second-homes dispersas pelo countryside, tal qual quão sovina é solicitar restituição por itens como um limão (23 pences) ou uma colher de pau (26p) e ainda quão inteligente é requerimento para reembolsar uma libra entregue para caridade. São exemplos reais, aos quais o eleitorado tirava medidas. Agora não é assim. Pior: para a computação importava o Member of Parliament tropeçar na regalia da numerária e não que confiasse em apoio de aliados no crime way up.

As fronteiras jurídicas e morais são assunto sério. Em viagem ao UK vem o President of Ireland. As relações com a green, three-leafed & wild flower evoluem em sereníssimo processo político com a mestria de HRM Elisabeth e do Duke of Edinburgh. Mr. Michael D. e Mrs Sabina Higgins avistam o Prince of Wales e Duchess of Cornwall na Irish Embassy a abrir ceremonial welcome, após saudados no Heathrow Airport pelo Lord-in-Waiting, Viscount Hood. Algo impensável há uma década atrás. Acolhidos no Royal Borough com a carriage procession e um State banquet no Windsor Castle, o casal presidencial visita ainda o palácio e a abadia em Westminster. Aqui discursa o líder irlandês para uma assembleia conjunta de ambas as câmaras em painel histórico. — Indeed, good memories are our second chance at happiness.

 

St James, 8th April

 

Very sincerely yours,

 

V.

ENTRE CÁ E LÁ…

 

Minha Princesa de mim:

 

No meio das minhas aflições, nem sempre sei onde estou. Estarei, presumo, entre cá e lá. Melhor diria  -  quiçá  -  que todos nós, afinal, somos entre cá e lá. Vivemos em circunstâncias várias, mas numa só condição: essa de ser interrogação, trânsfugas de uma natureza, que, em nós, se tornou também  memória e desafio. Para além do instinto e da reacção a estímulos, a consciência humana que, aliás, se foi emancipando da pertença à consciência do grupo, da malta ou da horda, para a consciência de si ( aqui, o cogito ergo sum  de Descartes ganha  sentido), vai-se defrontar sozinha com o desconhecido, inicia-se na apreensão e na escolha, responsabilidade própria a cada um... Esta tem a sua relação ou referência social  --  e, nesse sentido, talvez eu possa dizer, parafraseando Ortega y Gasset, que el hombre es un transfuga de la naturaleza... y de su circunstancia...  -  mas, por cima ainda, depara com a interrogação metafísica do antes e do depois. Assim, todas as mitologias e filosofias antigas, mesmo as anteriores ao desenvolvimento do que já se chamou lógica de negação no pensamento de diversas culturas, representaram uma qualquer relação de vai-vem entre o mundo percetível e o invisível. Já me ocorreu pensar na narrativa bíblica da transgressão do preceito que proibia comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como sendo simplesmente o conto do aparecimento da consciência moral: o ser humano sai assim de uma condição onde nenhum comportamento é bom ou mau, posto que é determinado por necessidades do funcionamento da natureza (animais matam outros no "cumprimento" da regra da cadeia alimentar, e diz o princípio de Lavoisier que na natureza nada se cria,nada se perde, tudo se transforma), para cair, descobrindo que está nu, não no mundo subterrâneo  -  como os anjos demonizados  -  mas neste nosso mundo intermédio a que chamamos terra. Nesta encontrará de tudo, mas tudo lhe é dado para seu proveito, na condição de o fazer frutificar e desenvolver pelo seu trabalho. E do mesmo modo que conceberá técnicas de cultivo, terá de criar regras de organização social e normas reguladoras de conflitos e comportamentos. A isso chamo cultura: ao eco-sistema onde, em cada sociedade humana, no tempo e no modo se constroem as referências orientadoras de uma visão do mundo, e de acções que poderão ser boas ou más. Assim, na condição humana, a bondade ou maldade da mãe-natureza, não se afirma per se, antes resulta da nossa percepção do ser, do devir e do dever ser. A ideia judeo-cristã do pecado original não será, pois, primitivamente, no mito do Génesis, a explicação do mal existente como castigo de uma transgressão inicial da mulher e do homem  -  na perspectiva, de influência maniqueísta, de Sto.Agostinho, primeiro passo no posterior desenvolvimento milenário de uma lógica de negação do mundo no pensamento cristão ocidental. Negação, entenda-se, no sentido de propósito de libertação, através do percurso da vida como ascese merecedora da paz além prometida, onde o mal não existirá, pois Cristo venceu a morte. Mas pelo lado interior dessa narrativa interpretada como sendo a do surto da consciência moral, poderemos dizer que essa negação é um regresso à inocência: o mal que conhecemos resulta, na perspectiva do devir universal, da auto-percepção da consciência humana como fuga à natureza inicial e matriz.

Na ópera Orfeo ed Euridice de Gluck, o herói desce ao mundo subterrâneo de Hadés e, pelo comovedor encantamento da sua lira, consegue trazer de volta à vida a sua amada. De novo a perderá, porque, por ela rogado, para ela olha na ascensão de regresso, transgredindo assim uma condição sine qua. O mesmo se passava na narrativa mitológica grega, segundo a qual as bacantes depois despedaçaram Orfeu... mas na versão setecentista de Christoph Willibald Gluck (com libreto de Calzabiggi), aparece finalmente Cupido, que volta a reunir os dois amantes. Na verdade, a estreia da ópera foi em 5 de Outubro de 1762, em Viena, na festa do santo onomástico do imperador: um fim trágico seria impensável, ainda por cima em terra cristã e em pleno século de luzes! Mas já no mito greco-latino de Clore (a quem Ovídio identificará Flora, a primavera), que noutra carta te contei, esta é libertada do mundo de Hadés por sua mãe Deméter , para que a Terra possa florescer e frutificar. Irá e virá, todos os anos, de um para outro mundo. No Koji-ki japonês (narrativa das coisas antigas), compilado no período Nara (710-783), mas certamente redigido um século antes  --  e de que também já te falei  --  aparece um mundo celestial: Takamagahara, a alta planície celeste, paraíso cujos montes e campos, rios e vegetação, em tudo se assemelham aos que se viam em Ashihara no Nakatsukuni, reino terrestre ou intermédio, cuja paisagem é, afinal, a de Yamato, o primitivo Japão. Durante a Era dos Deuses, muitos deles e heróis vários, circulam de um mundo para outro, incluindo para o país das trevas Yumi no Kuni. Mas estes três mundos situam-se nas mesmas coordenadas geográficas, como três patamares do mesmo território. Não há correspondência do primeiro com o que, mais tarde, sob influência budista, se chamaria Tokoyo no Kuni ( o país da imortalidade ou reino dos céus), nem podemos confundir este país das trevas com o inferno (Meido), morada dos mortos ou dos fantasmas. Vou buscar ao professor Ienaga Saburo a lenda do pescador Urashima que, por ter salvo a vida a uma tartaruga   --  animal que,aliás, na mitologia sino-nipónica é símbolo de longevidade  -  foi acolhido por uma princesa ( terás sido tu...) no Ryugujô, palácio no fundo do mar. Apesar de cumulado de mimos, a saudade da terra natal leva-o a pedir à princesa que o liberte e deixe regressar. Ela consente e dá-lhe um cofre que ele não poderá abrir, sob pena de velhice e  morte. O que virá a acontecer, em resultado de uma transgressão, como com o fruto da árvore de Adão e Eva ou o olhar amoroso de Orfeu a Eurídice. No Mannyô-shu, antologia poética dos meados do sec.VIII, diz-se: Ele teria podido viver sem jamais envelhecer ou morrer,e ,dando a mão à princesa, transpor o limiar de sumptuosa moradia,no interior do palácio do deus dos oceanos... Comenta o prof.Ienaga: Mas esse país de imortalidade mais não é do que a imagem idealizada de um país distante,separado pelo mar.  A narrativa da visita de Tajimamori ao país da imortalidade, tal como a lenda do pescador Urashima, podem ser interpretadas sem hesitação como simples viagens a um lugar impreciso, além mar. Esse aí, mesmo que se lhe acrescente uma idealização qualitativa,não deixa de ser, com toda a evidência,um sítio espacialmente ligado ao território japonês... No relato do Nihon-shoki (coisas do Japão), esse Tajimamori, acima referido por Ienaga, é um herói que o imperador Suinin mandou ao país da imortalidade buscar o elixir da vida eterna, viagem em que passou dez anos. Lembra-me a babilónica Epopeia de Gilgamesh, o  qual também regressa frustrado da sua busca da planta da vida, que lhe foi roubada por uma serpente... Voltando ao citado professor japonês, transcrevo-te este passo: Aquilo a que chamamos diferença entre mundo aparente e mundo escondido parece-se muito com a diferença entre mundo real e mundo metafísico: mas segundo Motoori Morinaga (outro estudioso do Japão antigo), isso mais não exprime do que a diferença entre o território japonês e o país das trevas. Mesmo Tachibana Moribe que, contra essa opinião, insistiu no significado da «coisa escondida», reconhecia que o mundo da «coisa escondida» não pode existir fora do mundo humano. Assim, não é possível encontrar nas lendas e narrativas da Antiguidade um mundo do Além que seja concebido enquanto negação do mundo real. Paralelamente à visão do mundo contínuo,a especificidade essencial do pensamento antigo residia no conceito afirmativo da vida...  O mal sendo, para os Antigos, facilmente ultrapassável, qualquer conceito de vida que pretendesse sabotar os fundamentos dos prazeres reais seria estranho ao seu modo de pensar. Afirmando a realidade enquanto tal, eles não podiam evidentemente imaginar um mundo transcendente baseado na negação do mundo da realidade. Por mim, vou pensando que a ideia de transcendência ou, se quiseres, os conceitos de salvação e vida futura no Além, só puderam surgir quando a evolução da consciência humana a coloca já num patamar de ruptura com a realidade  sensorialmente apreensível, para a levar a considerar a fugacidade das variações do mundo real e a necessidade de controlo dos comportamentos humanos,de modo a libertar-nos do que é efémero e doloroso para nos elevar até à serenidade do que é eterno e não sofre. É universal este salto, este sentimento novo. Certo dia, visitando o Byodo-in, em Uji, junto a Kyoto, vi o raio de sol que, pela abertura propositadamente desenhada para o efeito na fachada do Pavilhão da Fénix, onde se acolhe a estátua dourada do Buda Amida, vai iluminar esta imagem, como promessa de salvação e vida na Terra Pura. Esculpida por Jocho em 1052/53, foi nessa data ali colocada, por ordem de Fujiwara no Yorimichi que, aos sessenta anos, decidira transformar em templo budista da Terra Pura, um seu pavilhão de repouso e recreio. Fujiwara no Sukefusa, alto funcionário da corte imperial   -  que os seus familiares de classe superior governavam, e de cujo diário  te falei noutra carta  -  já por essa altura registara os temores e apreensões da nobreza de Heian, que iriam conduzi-la a uma certa contemptatio mundi, desprezo ou negação deste mundo:  ...Já não tenho esperanças de promoção. Os meus bens não foram poupados. Mas porquê? Porquê? ...  Os éditos imperiais já não são eficazes...  Começa uma era perturbada... É o fim dos tempos!... Ai de mim! Que tristeza! como vivemos numa época em que Bodisatva desapareceu, mais vale fazer-me monge. A vida neste mundo não serve para nada! No teto do Pavilhão da Fénix e nas paredes circundantes do Amida dourado, hiten, seres celestiais ou apsaras voam e tocam música, como anjos celebrando a salvação. Séculos antes, no reverso de um espelho de bronze datado da era dita "das grandes sepulturas", cenas de música e dança exprimem a alegria natural da vida numa realidade cheia de prazeres... Esta é uma alegria espontânea, natural, como o bem-estar físico, acontece na sua brevidade, mas não tem medida. A outra é uma promessa, nascida da memória do sofrimento e da esperança de uma libertação. Assim vista, será ela desejo de finalmente escapar ao mal, que é imperfeição, precaridade? Ou, antes, será ela negação do determinismo que nos corta a vida e a felicidade? Só o ser humano, desde que a consciência o arrancou à natureza, sente para tão grande amor tão curta a vida... Dou-te a mão, Princesa, para não me sentir só, entre cá e lá...  

 

       Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

As novas opções políticas.

 

Julgo que quem analisar ao vivo um conjunto de mecanismos como os que perscrutam e se infiltram nas atmosferas políticas dos dias de hoje, depreenderá que, afinal, tinham surgido, pelo menos duas opções muito claras por entre os regimes e os sistemas políticos existentes e em relação aos quais, qualquer voto bafeja, e até mesmo a abstenção.

 

Referimo-nos à possibilidade de se poder optar por entre uma ditadura arejada ou uma democracia abafada, ou ainda por uma osmose das duas, se abandonarmos de vez tudo quanto constitui um princípio em si mesmo.

 

O papel destas opções, quais energias curativas da intranquilidade das sociedades, são edificadoras de um estilo de pensar à sombra do sol.

 

Ainda assim, as opções que acima referimos, ou mesmo a união de ambas constituem um infalível caminho de destruição da liberdade. Ao menos da responsável liberdade criativa, única que, no nosso entender responde à altura pelo nome.

 

Aliás, exactamente por essa razão de bem se orgulhar esta liberdade do seu nome, e do que representa, é que nasceram estas opções a que acima nos referimos, numa aproximação artística de destruir autor e peça ou cansar ambos, ao ponto de confundir humanidade e expectativas, mas seguro ser o controlar de feição supostamente aternurada qualquer esfera de vida.

 

Como refere o Professor Doutor Paulo Otero no seu magnífico livro A Democracia Totalitária, o totalitarismo surge (…) reunindo todo um conjunto de dogmas radicalmente opostos do modelo do Estado liberal então vigente na Europa e, deitando mão das palavras de Nicólas Pérez Serrano, acrescenta, o quanto o totalitarismo comporta em si um verdadeiro esforço de divinização do Estado.

 

Ora, como não chegasse ter acontecido ao mesmo tempo, entre mim e o Professor Paulo Otero, a comunhão de pensamentos e de investigação sobre a temática que se aborda no presente texto, a verdade é que, ontem, ao relermos as palavras de Albert Camus na Peste, e outras por nós escritas num texto publicado no Jornal Euronotícias sob o título O Tirano Que Sulca A Democracia, concluímos o quanto o bacilo da peste, de facto, nunca morre, mas antes se transforma numa suposta possibilidade de ditadura arejada e perversamente aberta a eventuais fenómenos democráticos que logo castra, e, uma democracia abafada, igualmente perversa e sedutora, por entre as naftalinas que tanto matam bicho como apodrecem ilusões e forças.

 

Em rigor o espaço de uma vida é curto para lutar contra as tais novas opções que a realidade nos demonstra existirem, e igualmente pouco, o tempo necessário para que os homens acreditem que estão mais aptos à não liberdade do que ao desafio que ela consigo traz.

Referimo-nos à tal liberdade criativa e responsável, grande caminho que muitos seres não vêem ou dele se arredam para que se cumpram as vidinhas no descanso podre de um jornal matinal que mecaniza o pensamento até que à noite de novo o leve o sono.

 

Afinal, troca-se, como dizia Hobbes, a obediência pela protecção obediente, quando se aceita o tal pacto de sujeição, nele se englobando o direito de pensar e decidir.

 

Assim, quando no exercício da docência procuro transmitir aos meus alunos, o quanto se inquinam gerações vendendo-lhes por comerciáveis os direitos inalienáveis, apenas os estou a alertar para os perigos dos modernos autoritarismos que, bem sabem dividir entendimento e resistência, soluções e salvaguardas, numa proximidade de uma interpretação de Maquiavel, quando transfere para a imensa burocracia o poder anestésico de eliminar o homem.

 

Todavia, lembremos que também do Homem faz parte o fogo grego, único que arde debaixo de água, único que herda e transmite o quanto a dignidade humana é inviolável, o quanto, qualquer forma de desprezo pelo ser humano, subverte os fundamentos da própria democracia, ao ponto de sob ela se erigirem as tais supostas novas opções politicas.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

27.02.11

Sec.XXI

MANUELA DE FREITAS COM O GRUPO FERNANDO PESSOA NO BRASIL

Com Manuela de Freitas, terminamos esta série de evocações do Grupo Fernando Pessoa no Brasil. Ou melhor: terminamos a análise crítica da tournée e das atividades artísticas dos participantes, mas iremos ainda ouvi-los acerca desta grande viagem. Viagem que serviu de primeira internacionalização para alguns destas jovens atrizes e atores, mas também, de afirmação, no exigente meio cultural e teatral brasileiro, de uma cultura e de um profissionalismo que na época – estamos em 1962! - não seria comum em Portugal.

Serviu ainda para afirmar o nome e a obra de Fernando Pessoa, na altura bem menos conhecido do que é hoje, sobretudo na sua dimensão poético-dramática.

Nesta rememoração da tournée do Grupo, importa agora referir a carreira de Manuela de Freitas. Tem a especificidade de uma larga continuidade no cinema, com mais de 30 filmes, sobretudo, mas não só, filmes portugueses.

Mas entre esses, podemos já referir que 9 foram dirigidos por João César Monteiro, quatro por Manoel de Oliveira, três por Jorge Silva Melo: mas como se disse, estamos perante uma carreira cinematográfica que passou as fronteiras, o que não é, como bem sabemos, habitual entre nós.

E que tem como remate coerente a colaboração na Cinemateca Nacional.

Vejamos um pouco a participação nos filmes de Oliveira. Desde logo, pela relevância e qualidade do realizador: mas é interessante notar que esses filmes reportam a peças de teatro ou a obras de ficção de autores também do maior relevo – e desde logo Vicente Sanches (“O Passado e o Presente” – 1971 – “nunca a câmara de Oliveira foi tão ágil” – João Bénard da Costa), Camilo (“Amor de Perdição” – 1978), Agustina Bessa-Luís (“Francisca” – 1981), Paul Claudel (“Le Soulier de Satin” –1985).

Este último filme teve como Conselheiro Literario Jacques Parsi, autor de um estudo sobre Manoel de Oliveira, onde designadamente refere o sucesso unanime na estreia em Paris: “O filme conseguiu pôr de acordo L’Humanité e La Croix!” (“Manoel de Oliveira” ed. Centre Culturel Calouste Gulbenkian Paris 2002).    

Mas também não estará fora deste registo a colaboração de Manuela de Freitas com outros realizadores e em especial com João César Monteiro, com quem trabalhou regularmente de 1971 a 2003, ou com Jorge Silva Melo, que como sabemos reparte a sua atividade entre o cinema e a encenação e produção teatral.

E encontramos esta mesma exigência, digamos assim, na carreira teatral. Manuela de Freitas estudou em Londres, e em Lisboa, trabalhou com Alfredo Gutkin, Peter Brook, Bob Wilson, Grotowsky, Fermando Amado, Luis de Lima. E praticamente todos os encenadores portugueses de relevo. Esteve ligada à Casa da Comédia com João Mota, com quem iria fundar A Comuna.

E interpretou textos de António Patricio, Almada, Fernando Pessoa, Bertold Brecht, Paul Claudel, Samuel Beckett, Natália Correia, Arrabal, Tenessee Williams, Eugene ONeill,  mas também  Strindberg, Shakespeare,  Racine, Eurípedes…

Resta dizer que esta série de referências sobre o Grupo Fernando Pessoa justificará a recolha de uns depoimentos de atores que estiveram na tournée ao Brasil.

 

DUARTE IVO CRUZ 

EIS COMO MORRE O JUSTO…

 

         Minha Princesa de mim:

 

Em Domingo de Ramos, quando arrefece a tarde e vem mansa a noite, recolho ao abrigo deste estar sozinho. Tenho recebido, todavia, inúmeras mensagens amigas, a desejarem-me santa Páscoa. Muitas já respondem a um voto que hoje enviei: Em tempo de sentida inequidade e incerteza, seja a nossa Páscoa mais um passo na partilha da alegria! Está aí uma ideia, cujo vocábulo não consta de qualquer dicionário que se preze: inequidade. Muito embora se diga e escreva, bem, equidade,  do latim  aequitas . Mas para a negativa,  ortograficamente correcto seria escrever-se iniquidade! E assim é: o étimo latino é iniquitatem, acusativo de iniquitas, que quer dizer iniquidade, injustiça, desigualdade. E já os romanos chamavam iniquus ao inimigo. E nós, finalmente, guardámos mais essa ideia de iníquo como sendo o inimigo da alma, algo que tanto desafiou a lei divina e a infringiu, que é o mal incarnado... E, com tanto temor do inferno e certeza da razão do nosso recto propósito, decretámos que eram iníquas muitas coisas, e fomos esquecendo uma, fundamental: a desigualdade, que, essencialmente, quer precisamente dizer iniquidade, injustiça. Ao escrever inequidade, quis que entendêssemos todos como, aos olhos de Deus, pouco serão os nossos pecadilhos, pouco valerão os nossos indignados protestos contra a iniquidade das ideias de outros... Iníquo mesmo, pecado maior contra o mandamento do amor, é a nossa indiferença perante a falta de equidade, a inequidade, a injustiça no tratamento das pessoas, a nossa ausência de escândalo perante a imensa multidão dos pobres! As três religiões monoteístas, também chamadas religiões do Livro pela sua relação à Bíblia, têm em comum o Deus criador de tudo, eterno, transcendente e misericordioso. Fidelíssimo à sua promessa aos homens, mas temível porque terrível para os que lhe forem infiéis. Mas nesta visão panteocrática, o Cristianismo diferencia-se do Judaísmo e do Islão, por proclamar que Deus se fez homem, padeceu e foi sepultado, tomando a condição humana para a ressuscitar consigo. Reflectindo sobre o apelo de S.Paulo aos hebreus cristãos, para que perseverem na fé nova e se gloriem na cruz de Cristo, Santo Agostinho escreve: Porque hesita ainda a humana fragilidade em acreditar que um dia os homens viverão com Deus? Muito mais incrível é o que já se realizou: Deus morreu pelos homens. Tal pensamento é loucura ou blasfémia para judeus e muçulmanos: Deus não incarna, nem jamais poderá morrer como um homem; está lá em cima, nós cá em baixo. A fé cristã, a herança do reino prometido a Abraão, pai dos povos, é, por Jesus Cristo, a companhia de Deus entre nós todos. A boa nova, o evangelho, não é um código, não privilegia dogmas nem ritos, muito menos a eles condiciona a salvação, a salvação que é a alegria do encontro com Deus. A boa nova é como a Santíssima Trindade representada naquele ícone do Rublev  -  de que já te falei  -  como três anjos anunciadores da boa nova da gravidez de Sara (octogenária que será mãe de Isaac), é a geração incessante do amor. Colhido espiritualmente  - sem quaisquer pretensões de vitória moral, militar ou intelectual sobre outras crenças ou convicções éticas, nem qualquer teimosia separatista ou inimizade sectária, ou,ainda, absurdas pretensões de poder clerical (que, como sabes, me irritam solenemente)  -  o Cristianismo é a génese de Deus connosco. Com Cristo vivemos, no sentido grego, se quiseres, um drama de dimensão universal: sofremos com o próprio Deus a paixão de um mundo novo. A Revolução Francesa só nos veio lembrar  que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, são valores divinos do humano, em Cristo Jesus. Em vésperas de quinta-feira santa, festa dessa inovadora revolução que é o Deus-Connosco a dizer-nos que a sua presença entre nós, como corpo seu por nós oferecido e em nós constituído, é a partilha do pão da vida  -  da vida eterna, sim, mas enquanto e porque partilhado nesta  -  escuto os Sept Répons des Ténèbres , encomendados, em 1959, para a New York Philarmonic, por Leonard Bernstein, judeu agnóstico e americano, a Francis Poulenc, católico francês regressado à fé de seus pais. Poderão os peritos designar, aqui e ali, influências dodecafónicas, polifónicas, barrocas ou stravinskianas. Eu apenas reconheço um homem a compor unsresponsoria em que irrompe o sentimento do seu despojamento inevitável, ao comungar na Paixão de Cristo: 

      Caligaverunt oculi mei a fletu meo

      Cerraram-me as lágrimas os olhos

      pois que de mim se afastou

      quem me consolava...

      Vede, gentes de todos os povos,

      se há dor igual à minha...

          ........................ 

      Ecce quomodo moritur justus

      Eis como morre um justo,

      sem que alguém o tenha no coração...

      E homens justos são levados,

      sem ninguém dar por eles...

      Mas o justo subtraído à iniquidade

      repousará em paz sua memória...

 

   A Paixão de Cristo  - e a sua acção de graças, que é a eucaristia  -  é a nossa comunhão de Deus com os pobres. Peço-te, Princesa, uma mão vazia de ti e cheia de tudo, como a que gostaria de te dar agora.

 

                     Camilo Maria

 

   

Camilo Martins de Oliveira 

A VIDA DOS LIVROS

de 7 a 13 de abril 2014

 

«Os Memoráveis» de Lídia Jorge (D. Quixote, 2014) é um romance que ultrapassa em muito a invocação de um acontecimento histórico, a revolução democrática portuguesa de 1974, já que estamos perante uma reflexão atual sobre a liberdade, a resistência e a esperança. Ao longo do livro, encontramos o ceticismo e a vontade, a dúvida e o empenhamento, mas sobretudo a imperfeição natural das sociedades humanas, que não podem ser aprisionadas pela indiferença ou mesmo pela utopia…

 

 

O VALOR DA LIBERDADE
«Os Memoráveis» de Lídia Jorge leva-nos, no título, quase sem querermos, a Xenofonte, mas há algo que aproxima e algo que afasta a obra do clássico antigo, de um lado, os ideais e os princípios, de outro, as pessoas, os sentimentos e as tentações. A liberdade, afinal, quando entra na normalidade das coisas vai perdendo o fulgor. Péguy resumiu o tema de um modo emblemático: «tudo começa em mística e acaba em política». A história funciona pendularmente, e é esse movimento que a autora procura descobrir, sem se ater apenas a um começo e um fim… A apatia, o imobilismo e a indiferença levam ao acordar. E sente-se que esta escrita tem a ver com uma obrigação de despertar e de resistir… Não há nostalgia, como na decadência, mas sentimento melancólico, que obriga a agir, não retrospetivamente, mas olhando para diante. E lembramo-nos do que Lídia Jorge disse em «Contrato Sentimental» (Sextante Editora, 2009), partindo da alternância (sempre o pêndulo) entre o herói do mar e o lixo a que alguns desejariam votar-nos (estávamos no auge dos ratings das agências): «seria ridículo garantir, com base no passado, ou mesmo no presente, alguma coisa de seguro em relação à sobrevivência futura deste tipo de convivialidade amorosa entre os outros e o tuga, o tuga e os outros, sabendo que nós mesmos em breve seremos outros, e os outros também serão outros em contacto connosco, num mundo tão amplamente aberto, sobretudo quando os mitos de representação forem diferentes e as relações de poder se alterarem, a ritmos que não podemos prever». E aí, dizia a autora, em vez de processo de integração só há processo de educação. E que educação sentimental? Como afirmou Mário Mesquita na apresentação de «Os Memoráveis», no dia em que fomos despedir-nos de José Medeiros Ferreira, o que está verdadeiramente em causa neste livro e nesta reflexão é um espírito de resistência.

 

A PARTIR DE UMA FOTOGRAFIA
Numa fotografia em torno da qual vai girar o romance, tirada no «Memories», temos as personagens cujo percurso a romancista vai acompanhar e analisar: El Campeador, o Bronze, Charlie 8, Umbela, António Machado, Rosie Honoré, o cozinheiro Nunes, o Dr. Salamida, três militares barbudos, o casal de poetas Ingrid e Francisco Pontais, o fotógrafo Tião Dolores. Ana Maria Machado, repórter portuguesa em Washington, é convidada a fazer um documentário sobre a Revolução portuguesa de 1974. A «machadinha», filha de António Machado, e a equipa da CBS (Margarida Lota e Miguel Ângelo) vão encarregar-se, assim, da investigação sobre esses protagonistas: onde estavam? O que sentiram na altura? Que balanço fazem, passados os anos? Qual a melhor imagem de tudo o que aconteceu? Daqui tudo parte. Um acontecimento histórico não se resume a um momento, é uma evolução, um encontro de sinais contraditórios. E depois da fábula, vamos descobrir a «viagem ao coração da fábula», onde se desconstrói o estereótipo do embaixador americano e onde se vai descobrir a matéria de que se fazem as vidas: ressentimento, egoísmo, inveja, maledicência. E, mais importante do que descobrir quem cada um é, a verdade é que a autora vai compondo as personagens com elementos vários que os tornam recomposições da realidade, desaconselhando o exercício de tentar descobrir o rosto que está tapado pela máscara. Há situações evidentes e outras propositadamente menos claras, já que um romance tem de deformar a realidade para a tornar verosímil. Agustina ensinou-o sempre, magistralmente, sobretudo quando se lhe apontavam as aparentes contradições na narrativa. Lídia Jorge faz muito bem esse difícil exercício. «O que me interessou foi ver o tempo a correr, perceber o que ficou, surpreender a memória no momento em que deixou de ser necessária. Porque a memória tem em si a artimanha do esquecimento» (J.L., 5.3.14).

 

COMPREENDER A REALIDADE DE HOJE
«Os Memoráveis» ajudam-nos a compreender o Portugal de hoje. Com preocupações de agora, vemos que um acontecimento como o 25 de abril de 1974 não se resume a uma ocorrência pretérita, porque a liberdade e a democracia são presentes e sempre inacabadas. Eduardo Lourenço, de «Os Militares e o Poder» está presente quando diz que «a Revolução não veio pôr apenas em causa os mecanismos do poder civil nem as relações do poder militar e do poder civil, mas a própria ordem militar». No entanto, nesta novíssima psicanálise mítica do destino português, mostra-se, entre outras coisas, «que são as Forças Armadas que estão na Nação e não a Nação nas Forças Armadas», e é a partir daí que a história pendular deve continuar a ser acompanhada. Lídia Jorge tem, por outro lado, razão quando coloca «Os Memoráveis» ao lado do seu primeiro romance - «O Dia dos Prodígios» - tendo a sensação correta de o estar a atualizar. Sentimo-lo numa leitura atenta. De facto, vamos de um ato de fixar um tempo que desaparecia até à necessidade de «compreender um tempo que está para vir»… Eis o fio de Ariadne. As personagens de «Os Memoráveis» recriam o que foi a euforia revolucionária e a desilusão que sempre se segue a um período de entusiasmo, no caminho sempre difícil, de avanços e recuos, para a emancipação. E quando lemos, no final, o argumento do filme, compreendemos por que razão se diz: «É muito importante que o Bronze, antes de mais, diga o que disse – “Classifico-o como obra de um milagre, minha senhora. Milagre, sim. Sendo eu um agnóstico, até que gostaria de usar outro termo mais sereno, mas não encontro. E milagre porquê? Pela coincidência no tempo de factos inesperados. Olhai! Registem a minha opinião antes que seja tarde”. Por razões óbvias esta passagem deve ser incorporada na íntegra. Não encontro nenhuma outra declaração que melhor defina o espírito de “História Acordada” (…) Não nos interessa escurecer o que pode ficar claro. A nós só nos interessa recuperar a metralha de flores que o tempo deixou intacta». Estamos perante uma construção de quem? O Oficial de Bronze bem insiste: «Quem desenhou o plano e comandou as movimentações a partir da Pontinha? Nem eu, nem ele, nem nós, nem vós. Foram eles, os cinco mil». Por isso, alerta para as tentações dos vários cultos do eu («…já cada um queria ter uma estátua erguida…»). E confessa-nos: «Sou franco, eu também me envolvi, também disse demasiadas vezes eu»… E a viúva de Charlie 8 lembra que este sabia que cinco mil homens «estavam a fazer rodar as agulhas sobre o mostrador». Mas o Campeador não vai ter voz no filme, intencionalmente, porque a «figura do estratega deve ser poupada à fala. Sempre que um mito fala o seu barro arrefece». A capa do livro invoca El Cid, o Campeador, Don Rodrigo Diaz de Vivar, um cavalo à beira-mar, não altivo mas de cabeça baixa, figurando o velho mito histórico: «o meu corpo será cadáver e ainda há de ganhar batalhas»… É assim que Lídia Jorge, neste momento alto da sua obra, deixa a memória esbatida, forte e sem ilusões, de uma resistência e de uma esperança que não se desvanecem.

Guilherme d'Oliveira Martins 

WHAT ELSE?

 

Minha Princesa de mim:

 

Comecei esta carta para começar o dia, tão lembrado de ti acordei hoje. E pensossinto-te como certeza. É certo que certeza e acerto não são necessariamente coincidentes: posso ter a certeza e desacertar, como acertar sem estar certo do meu acerto. Mas enquanto este é uma relação objectiva (e, portanto, convencional), a certeza é uma convicção subjectiva (e, portanto, moral). Sendo íntima, tem a grandeza de ser autêntica e fiel. O nosso Alberto gostava de repetir um passo do Fradique Mendes, de Eça de Queiroz: Fradique fala de um polaco, G. Cornuski, professor e crítico, que escrevia na Revista Suiça, e que (diz Fradique) "constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebelar-se contra obras de Literatura e de Arte que a unanimidade crítica, desde séculos, tem consagrado como magistrais... Mas sempre que a sua probidade de professor e de crítico lhe impunha a proclamação da verdade,este homem robusto,sanguíneo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava: «Não! Porque será o meu critério mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez nessas obras exista a sublimidade  --  e só no meu espírito a impotência de a compreender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepúsculo de Outono, continuava, diante dos coros da Atália e das nudezas do Ticiano, a murmurar desconsoladamente: «Como é belo!». Raros sofrem estas angústias críticas do desditoso Cornuski. Todos, porém, com risonha inconsciência, praticam o seu servilismo intelectual...  ... O homem do século XIX, o Europeu, porque só ele é essencialmente do século XIX (diz Fradique numa carta a Carlos Mayer) vive dentro de uma pálida e morna infecção de banalidade...

Eu acrescentaria que hoje, já neste século que é o nosso, a essa infecção se juntou o seu efeito: o triunfo generalizado da vulgaridade. Vêem-se, ainda e felizmente, muitas excepções: jovens estudiosos e investigadores, criadores e intérpretes de várias artes, pais e professores dedicados à educação (a libertarem, para a sua realização mais plena, as capacidades das crianças e jovens), monges e missionários, artesãos e operários conscientes e capazes, movimentos de solidariedade social, de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos... Mas a cultura prevalecente vai sendo aquela que os meios de informação social e publicidade todos os dias vão desenhando e impondo, guiados apenas pelo objectivo do ganho monetário máximo com um mínimo de conteúdo espiritual e esforço crítico. Esquece-se a máxima milenária de Plotino (270 a.C.): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma para o que é superior. Pelo contrário, ocupa-se a gente por aí a satisfazer o mais imediatamente fácil, sem espírito crítico nem elevação. À riqueza das diferenças  -  pelo que representam em diversidade e esforço  -  prefere-se a pobreza da banalização soez de "ideias" (?) e comportamentos induzidos pelo repetido apelo à facilidade saciadora. Os heróis hodiernos ou, melhor, os que como tais nos são apresentados e sugeridos, são deuses pagãos, cheios de dinheiro, de sexo e de cosmética. Escamoteia-se a virtude  -  que é a força dos que se engrandecem, humanizando-se  - mesmo ao falar-se de desportistas ou artistas de renome, exagerando-lhes o glamour, e calando o esforço disciplinado com que conseguem os seus resultados, tantas vezes incautos e explorados. A liberdade, que é necessariamente responsável, é apregoada como libertinagem caprichosa e irresponsável. A igualdade, que é o reconhecimento da mesma condição e dignidade em todos, é procurada pela facilitação do rebaixamento, não pela promoção da excelência. A fraternidade fica assim de fora do circuito, mas, graças a Deus, continua a ser profética: por todas essas mãos que por aí se vão estendendo à diferença dos outros, à indigência de muitos, ao amor de todos. Bem hajam! Não sou elitista, nem saudosista, nem pessimista. Acredito no triunfo do bem, na recompensa do esforço, creio, profundamente, que a glória de Deus são os homens de boa vontade.  Mas desabafos de velho, resmungo muito contra o que me parece tão estúpido, que me magoa e cansa... Tivesse menos 50 ou 60 anos, iria para remotas paragens, trabalhar com quem será pobre pelos industrializados critérios e estimativas, mas solidariamente sabe construir comunidades de partilha e justa convivência. Ou talvez ficasse pela nossa Europa, aprendendo com grupos cheios de esperança inovadora, que é possível e desejável consumir menos e amar mais, muito mais... Enfim, dirás tu, fantasias de velho... Mas deixa-me que volte a esse sonho. Sonhar é fácil  -  diziam-nos na nossa juventude. Creio que não: sonhar é necessário, muitas vezes difícil. Desesperado será, valha-nos Deus!, o sonho do pobre que nada lhe traz... Mas mesmo a esse teremos moralmente de recorrer, para ganharmos a força que o nosso comodismo não nos deixa ter. Perguntaste-me certo dia se acredito na vida eterna, quando tantos crêem na metempsicose e na reincarnação, no regresso à matéria natural, ou em coisa nenhuma... Respondi-te lembrando o monge Zózimo do Dostoievsky, que ensinava que cada um de nós tem, na sua vida, uma oportunidade para amar. Se a agarrarmos, aí começa, digo-te eu, a vida eterna.  Só o amor é eterno, e Deus é amor. Bem sei que, para ti, misturo tudo, sou um velho tonto que pensa cavalgar corcéis só por andar aos saltinhos de ideias... Mas sou visceralmente fiel ao meu pensarsentir que tudo é graça sempre que, nesta vida, agarramos a mão invisível de Deus e nos deixamos conduzir pelo querer bem. Não sou fã de cânones, desconfio de canonizações, sobretudo de muitas que por aí ultimamemte se têm feito... Jesus Cristo nunca gostou de ouvir discípulos discutir sobre quem seria maior... Acredito, sim, na comunhão dos santos, na santidade escondida dessa miríade de mulheres e homens de boa vontade, que, no silêncio das suas vidas, e na alegria íntima dos seus corações, deram o que lhes pedia o amor dos outros. E não é esse o amor de Deus? Nenhum de nós tem o direito de julgar os outros para a eternidade. A justiça dos homens é certamente necessária, as sociedades só se governam por normas objectivas (convencionais). A justiça de Deus é de Deus só, os homens só a conhecem, cada um, em sua consciência (moral). Repito só, pois só com os outros sou responsável perante Deus. Olho para dois postais que nunca tinha visto juntos: comprei-os, um no Guggenheim Museum, em New York, outro no Museu da Cidade de Kobe, no Japão, com um intervalo de vinte anos. O de New York reproduz um Picasso de 1900, o Moulin de la Galette; o de Kobe, sensivelmente contemporâneo, é O Baile, de Hashimoto Chikanobu. Diferentemente iluminados, respondendo também a conceitos e preconceitos, ou a destemores e temores éticos e estéticos diversos, um no outro se reconhecem. Lembrado do japonisme na Paris de 900, e da moda ocidental no porto aberto de Kobe, com as suas gravuras coevas... Não sei quem copia quem, nem se alguém copia... Só Deus sabe. E fico assim feliz, recitando a oração com que, todas as noites, resumo o dia e a vida: In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum... What else? Assim fica a minha mão na tua.

 

                Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira 

A Força do Ato Criador

 


Mira Schendel, o corpo e a alma

 

‘You don’t have to paint what you see, not even what you feel, but only what lives inside us…’, Mira Schendel

 

Mira Schendel (1919-1988) começou a pintar aos trinta anos, e fê-lo furiosamente (‘I started painting in Brazil. Life was very hard, I had no Money to pay for paint, but I bought cheap materials and painted passionately. It was a matter of life and death.’, Mira Schendel, 1981). Já vivia em Porto Alegre. Autodictaticamente, começou por pintar naturezas mortas, melancólicos retratos, interiores e composições arquitectónicas onde a assimentria adquiria alguma importância.

Mira apresentou, desde logo, um corpo de trabalho que se desenvolvia em várias direcções. Por um lado caminhava para uma depuração formal onde descrevia espaços e paisagens de grande amplitude; por outro mostrava um interesse por trabalhos manuais demorados, como se verifica na série dos ‘Bordados’ e na série das ‘Droguinhas’ (mais relacionados talvez com o universo doméstico, pois no final dos anos 50 Mira teve uma filha e trabalhava sobretudo em casa); e ainda se afirma o trabalho que faz ao usar letras e palavras sobre uma matéria quase ausente – o papel de arroz japonês, as placas de acrílico e o papel vegetal.

Em meados dos anos 50, São Paulo experienciava um boom cultural e financeiro. Mira não se interessava pelos círculos intelectuais emergentes, preferia dar antes valor a amizades selectivas e intensas que incluíam o físico teórico Mário Schenberg, o filósofo Vilém Flusser, o psicanalista, poeta e critico Theon Spanudis e o poeta concreto Haroldo de Campos. Mira interessava-se por discussões relacionadas com a ciência, a filosofia e a religião – questões sobretudo relacionadas com a busca pela verdadeira essência da vida, da existência, do ser, do vazio e do infinito. Mira era uma mulher verdadeiramente intelectual, confirma Tanya Barson, a curadora da exposição que esteve patente de Outubro a Janeiro na Tate Modern e que agora está em Museo de Serralves no Porto.

 

O trabalho de Mira Schendel é assim ao mesmo tempo corpo e alma.

 

Corpo

Os processos de fora do corpo de Mira Schendel participam na produção da sua obra – verificado sobretudo ao escolher pintar paisagens, fachadas, geladeiras e bordados e também ao entrançar o papel em ‘Droguinhas’.

É sempre visível, no seu trabalho, a presença da mão humana – mesmo nas composições de caracter mais geometrizante, as telas têm textura e espessura, as pinceladas vêem-se (‘..the texture, is always there (…) I would never make a completely smooth painting.’). As questões formais/visuais não interessam tanto a Mira – a abstracção que aparece geomérica tem origem em paisagens e fachadas que estiliza, tentando relacionar o corpo com os espaços que habita.

A matéria que aplica sobre as telas (seja ela óleo, tempera, gesso, latex ou aguarela); a presença do gesto precário; a subtileza dos traços finos feitos à mão; as letras e as palavras que surgem sobre o papel de arroz, dentro das placas acrílicas e nos livros – todos estes elementos mostram que a sua abstracção é de facto, de natureza diversa. A procura pela depuração está sobretudo ligada a preocupações ontológicas.

 

Alma

‘Esta é uma tentativa de mostrar ‘o lado atrás’ da transparência está na sua frente e que ‘o outro mundo’ é este.’, (Diário, 1969).

Os processos de dentro do corpo de Mira também participam na fisicalidade da sua obra. O vazio no seu trabalho representa silêncio e espírito. É o nada inerente à existência humana – uma experiência intima, próxima e incomensurável.

Na série ‘Monotípias’ o desenho é frágil – obedece a um processo de decalque (onde usava óleo e talco) totalmente concebido por Mira. Letras e palavras flutuam em diversas línguas onde se exprimem delicadamente conceitos profundamente filosóficos – como se verifica na utilização de três conceitos diferentes de mundo [mitwelt (mundo social), umwelt (mundo físico/ambiente) e eigenwelt (mundo interior)].

A introdução da transparência através da utilização do papel de arroz japonês e das placas de acrílico, onde se vê em simultâneo a frente e o verso, são para Mira uma tentativa de imortalizar o fugaz e em dar significado ao efémero. A transparência revela-se aqui como uma existência imaterial (que contrasta com a opacidade das suas telas), que elimina o tempo e o espaço e faz uma aproximação do que está para além. A estrutura da consciência do ser passa a ser fluida. E também trás à memória o conceito de ‘Obra Aberta’, introduzido por Umberto Eco no início dos anos sessenta – onde se admite a noção de que objecto artístico é múltiplo, e infinitamente interpretável, sendo capaz de receber de cada uma das personalidades interpretantes o seu modo de ver, de pensar, de viver e de ser. E de facto, Mira através das Monotípias, dos Objectos Gráficos, dos Toquinhos e logo do não palpável produz objectos capazes de ser partes totais do sujeito que frui. As letras flutuam ‘…numa cósmica poeira de palavras’ (Haroldo de Campos) e desenham espirais – a espiral também aparece nos cadernos de Paul Klee como sendo uma figura matemática de elevada importância, porque representa um movimento continuo e perpétuo no tempo e no espaço. E Mira questionava incessantemente a materialidade da obra de arte. A ideia de eternidade e de espiritualidade corporizavam sempre os objectos que produzia.

 

Ana Ruepp

Tradições e misturas perigosas..

 

Minha Princesa de mim:

 

Vê-me tu bem, aqui em Kyoto, onde continuo a estar, lendo e misturando tudo, do Japão às Arábias, e mais o Tenno (imperador descido do céu) com o Papa, todos esses sonhos, projectos, manias, intenções, sistemas políticos e credos religiosos, diferentemente tão parecidos, aparentemente tão diferentes... Quiçá coincidentes no tempo, mas tão longínquos no espaço e na comunicação, comungantes em essências, talvez, divergentes nas representações... Penso sinto, como sabes, que nada inventamos, serei platónico, não sei. Nem me encantam ou preocupam as muitas reclamações de posse da "Verdade", que por aí sempre têm andado. Passeiem-se, fico bem. Irritam-me, por vezes, aí sim, quando se tornam militantemente exclusivas do sentimento dos outros, assim incapazes de ver "Aquele que é tudo em todos", encerrando, portanto, a porta ao diálogo. A tradição da minha fé diz-me que os homens todos foram criados à imagem e semelhança de Deus. O antropólogo que não sou procura sempre essa imagem nos outros, como retrato meu feito, noutro dia, pelo mesmo pintor. Paleontólogo que era, Pierre Teilhard de Chardin, já próximo do fim dos dias em que por cá andou, vai buscar o título de um romance do Graham Greene, The Heart of the Matter, para uma das suas últimas obras, Le Coeur de la Matière, explicando: O título de Graham Greene convir-me-ia maravilhosamente (mas com um sentido totalmente diferente) para um ensaio que sonho escrever já há uns tempos, com um nome que me ocorre em inglês mas é intraduzível em francês: The Golden Glow (isto é, a aparição de Deus, fora de e no Coração da Matéria)... E em epígrafe escreverá: No coração da Matéria, / Um Coração do Mundo, / O Coração de um Deus. E a sua derradeira obra escrita, Le Christique, dá à respectiva introdução o título de A Amorização do Universo, e, à conclusão, o de Terra Prometida, que começa assim: A Energia fazendo-se Presença. Aqueles que se fecham em deus ou deuses que pretendem possuir em conceitos, normas, ritos, imagens e estátuas que respeitam ou veneram, poderão fazê-lo. Desde que não se esqueçam -- e muito menos desdenhem, ataquem ou persigam -- outras devoções. É humano o erro. É divino o universal apelo do coração de Deus. Esse é católico. E eu sou católico porque acredito que Deus chama todos. E que essa vocação de Deus, Jesus claramente a disse: Amai-vos uns aos outros. Hoje, aqui em Kyoto, penso em Roma. Melhor diria na Roma, nessa que o Apocalipse de S.João descreve como mulher blasfema, com sete cabeças e dez cornos... Na sua fronte estava inscrito um mistério: Babilónia magna mãe das prostitutas da terra. E a meus olhos essa mulher se embebedava do sangue dos santos e do sangue dos mártires de Jesus. Um deles teria sido Pedro, nos anos 60 da nossa era, talvez um dos muitos crucificados e queimados como tochas ardentes a iluminar os jardins de Nero, como conta Tácito, que acrescenta: Mesmo que essa gente fosse culpada e merecesse o maior rigor, tínhamos, afinal, piedade deles, ao perguntarmo-nos se os eliminavam, não tendo em vista o interesse público, mas tão somente a satisfação da crueldade de uma só pessoa... Há nesta frase uma questão que me arrepia: sentimos pensamos o horror desumano da "eliminação" do outro, que nos repugna, e pensamos sentimos que talvez o interesse público a possa justificar...Mas logo tememos que a crueldade da medida tenha a dimensão do demónio em nós... Penso muitas vezes que a representação da Justiça, de olhos vendados e balança na mão, nem sempre terá reflectido a procura da equidade -- ou do equilíbrio da misericórdia -- mas mais nos terá ameaçado com o rigor da cegueira que vai condenar quem não terá percebido, na sua efémera, necessária, circunstância, um princípio qualquer que, por igualmente fugaz que seja, os poderes então instituídos pretendem afirmativo, imperativo e eterno. Estou hoje em maré divagante, não enche nem baixa. Tomado de muitos pensamentos, inumeramente sentidos. Cabeça e coração andam por aí às curvas, de braço dado. E eu assisto e vejo o que vêem, atrás e adiante, deste lado e do outro. Penso nas duas linhagens mais antigas do mundo, ambas tendo em comum a permanência pela sucessão e uma origem que se afirma de vínculo divino: a tradição imperial japonesa que se pretende descender da deusa solar Amateratsu; e o papado, ou sucessão apostólica de S.Pedro, primeiro bispo de Roma. A esmagadora maioria dos imperadores nipónicos pouco ou nenhum governo político exerceu, mas foi milenarmente preservando o mito fundador da ascendência divina do povo japonês, simbolizando e garantindo a sua unidade. A tal ponto que mesmo os americanos vencedores da Guerra do Pacífico, em 1945,entenderam dever poupar o imperador Showa (Hirohito) à destituição e ao juízo de tribunais de guerra. Outros foram condenados em vez dele... Pelo seu lado, muitos papas sonharam ou pretenderam exercer poderes temporais, mas o filtro do tempo histórico foi colocando na perspectiva cristã e evangélica pretensões mundanais... As primeiras tentações surgem no sec.IV, na sequência da conversão de Constantino, que percebera como o império romano, minado por lutas intestinas e externamente ameaçado pelos bárbaros, poderia encontrar no cristianismo um princípio e uma força de unificação política e religiosa. Aliás, fez questão em conservar o seu título pagão de Pontifex Maximus que, até hoje, muitos papas não desdenharam usar. Mas o imperador nunca foi nem bispo de Roma, nem papa, e morreu baptizado no seio da heresia ariana. De qualquer modo, a tal besta do Apocalipse, a nova Babilónia, Roma, tornar-se-ia, por ter sido destino e lugar do martírio de S. Pedro e S. Paulo, a sede visível da Igreja invisível. Ao papa S. Leão Magno, que salvou a Cidade Eterna dos hunos de Átila, se deve talvez a formulação que resume num conceito perene todas as discussões anteriores sobre a natureza teológica da Igreja e do papado. Antes dele, já o papa Bonifácio, dirimindo, em carta aos bispos de Tessália, em 420, questões relativas à solução adequada de divergências doutrinais, afirmara: Institutio universalis nascentis Ecclesiae de beati Petri sumpsit honore principium in quo regimen ejus et summa consistit. Ex ejus enim ecclesiastica disciplina per omnes Ecclesias fonte manavit. Ou seja: o nascimento e a instituição da Igreja universal tem a sua origem no magistério de S. Pedro, onde está o seu governo e o seu resumo. E dele brota, como de uma fonte, qualquer disciplina eclesiástica para todas as Igrejas. O dominicano frei Yves Congar, o grande eclesiólogo do concílio Vaticano II, escreve: Para S. Leão, o cargo pastoral está repartido ("multique pastores"), mas permanece um e, nesse sentido, colegial: mas de tal modo que, nessa unidade orgânica, o sucessor de Pedro é sempre caput, princeps, fons, chefe, primeiro, fonte. Há aí, portanto, simultaneamente, monarquia e colaboração. De facto, os papas do Séc.V falam amiúde em termos de "colégio"; concebem o seu primado como presidência de uma Comunhão única e universal, como o cargo de fortalecer os seus irmãos. Mas essa presidência é coisa diferente duma situação de "primus inter pares", porque, embora entre os apóstolos (os bispos) seja comum a dignidade, existe todavia uma "discretio potestatis". O colégio hierarquiza-se pelo esquema cabeça-corpo ou membros. Na verdade, este esquema e este conceito orgânico da Igreja como sociedade-corpo no sentido jurídico do termo, constituem a base de toda a eclesiologia romana. Os papas falam da unidade da Igreja e da comunhão das Igrejas, da catolicidade, da Igreja-Esposa, Corpo de Cristo, povo sacerdotal. Mas a sua preocupação dominante, a sua contribuição própria, consistem na apresentação desse corpo como uma realidade orgânica, onde eles, sucessores de Pedro, ocupam o lugar de cabeça visível, de modo que toda a vida do corpo depende deles. É a concórdia com a cabeça que assegura a concórdia entre os membros e, portanto, a unidade de todo o corpo. A essência desta visão da Igreja e do Papado permaneceu até hoje, ultrapassando desvios episódicos, ou tentações de exercício de poder temporal. À pretensão latente de uma juriditio civitatis, impôs-se uma visão da relação da Igreja com o temporal mais antropológica e próxima dos Padres da Igreja: a consciência dos fiéis, formada na Igreja, aceita a laicidade das estruturas mundanais, que não têm de ser clericalmente sacralizadas, mas sim consagradas por uma humanização segundo Deus. Ao Papa, sucessor de Pedro e príncipe (ou primeiro) dos apóstolos, cabe a missão de fortalecer a fé e a unidade dos fiéis, que estão em diálogo contínuo com o mundo. Daí a importância de uma persistente abertura aos outros, atenta aos sinais dos tempos. No Japão, a linhagem imperial que, de acordo com as Nihon Shoki (crónicas do Japão) se teria iniciado em 660 a.C., pelo imperador Jimmu, é, mais do que uma de chefes de Estado, a sucessão de sumos pontífices do mesmo sangue, como princípios unificadores da nação nipónica. Hoje ainda, no seu palácio, o imperador do sol nascente procede, em cada ano, à plantação ritual do arroz que, como sabes, é o pão essencial do seu povo. O professor Hiraizumi Kiyoshi, nacionalista, que se demitiu da Universidade Imperial de Tokyo a 15 de Agosto de 1945,aquando da rendição do Japão, escreve na sua História do Japão: A Bíblia consiste no Antigo Testamento e no Novo Testamento. Aqui "testamento" significa promessa; por outras palavras, a Bíblia é o registo das promessas feitas entre Deus e o homem. No Japão, o Eterno Decreto de Amaterasu Ômikami foi uma promessa como essa, e foi feita para muitas gerações. E noutro passo afirmará: O princípio do povo Japonês vem desde a antiguidade. A sociedade deveria ter sido dispersa e irregular, sem qualquer propósito único. Mas quando veio a unificação para lhe dar, sob uma vontade singular, o propósito da sua responsabilidade face às outras nações, teve lugar a fundação da nação. Há quem diga que os Japoneses são uma raça mista. Os Japoneses incorporam bem os outros, e por isso terão aceite outros povos e miscigenado. Mas o seu fulcro central, a fonte principal de vigor, é de carácter distinto. Esta vocação para o encerramento étnico e político, ainda que invocando um fundamento religioso, não impediu o proselitismo budista, importado da China e da Coreia no sec.VII, de formar, com o shintoísmo indígena uma prática religiosa sincrética. E mesmo as perseguições que marcaram o fim do século cristão ou português, na primeira metade do sec.XVII, terão sido talvez motivadas mais por razões de ordem política do que pela aversão cristã ao sincretismo. A tradição que, durante muitos séculos, esvaziou o pontificado imperial de poder político concreto e da consequente prática governativa, terá mantido o Império do Sol Nascente em estado de seclusão. Com a restauração Meiji (1868), porém, organizou-se o Estado como monarquia europeia, com a ideia inerente de que uma nação forte e moderna tem missão "civilizadora": donde a consequente colonização da Coreia, a invasão de território chinês e, finalmente, a trágica guerra pan-asiática. Para fortalecer a autoridade interna e a projecção expansionista, foi-se acentuando o carácter divino e o poder teocrático do Tenno. Vês, Princesa? Há ideias, desejos e práticas que não se devem misturar. A César o de César a Deus o de Deus. E à consciência o sentido de si e dos outros. Dou-te a mão.

 

Camilo Maria