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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A monótona decepção da felicidade

 

O consumo, o fabrico em série da frivolidade, a elegância desprovida, os insípidos paladares dos pratos confeccionados, os entediantes programas de televisão, a vida pobre em satisfações positivas, a aquisição de dinheiro enquanto força substitutiva à vida cultural, a inaptidão para a alegria discreta do amor, a redundância das festas tidas por apelativas, o cultivo do sentimento hipócrita, a era do vazio no seu esplendor. Eis o espírito da época.

Assim se vive o tempo da alma não duradoura por gasta no comer e no beber, e substituída de novo por uma outra via, a das tendências que se manifestam nos comportamentos colectivos, nos períodos das paixões públicas de existências puramente egoístas.

A regulamentação “cool” das relações humanas, aceite e vendida e comprada, como um turismo da suposta comunicação, faz parte da sociedade de consumo que transformou, por completo, a noção de cultura, num mundo onde tudo tem de ser rentável, até a vingança da destruição do ser amado, por aquele que diz amá-lo.

A própria decepção face às «coisas» tem mais de superficial do que de profundo. De resto, a maior insatisfação resulta, não de um excesso de conforto, mas do hipoconsumo e das privações que ele acarreta.

A desafeição é uma ideologia dominante que segue o seu curso numa mão vazia de sentimentos utilitários, que, mesmo que se reconheçam iguais ao prazer de adquirir um objecto, aguardando dele um conforto suplementar e nada mais, atribui-se a todos, a falsa chave da felicidade que pressentem poder evitar a decepção abissal dos outros e de si próprios.

No termo da história, o pseudo-prazer, negligenciou o seu não poder fornecer novidades e satisfações reais. De mão dada com o inimigo apto à excitação e à estimulação de tudo o que se propagandeia dar prazer, surge o triste mundo da não-alegria, perto, tão perto que é dentro de cada um sua morada. Assim, vendem-se estilos de vida como produtos únicos à satisfação das sociedades desorientadas. As estruturas da lógica desta modernidade, funcionam como vectores de unificação, tendencialmente planetária, numa cultura-mundo, de tal modo que se formos à China encontraremos cidades similares às europeias, numa mercantilização extrema da cultura e de novas hierarquias com iguais designers, publicitários e criativos que glorificam a marca que envolve um produto sufocado e parco de energias.

A cultura do imaginário e do valor levam a que o consumidor dos bens de luxo, para marcar claramente a sua diferença, aposte na marca que supere as marcas populares que absorveram um conceito popular de luxo.

 

A deficiente faculdade do encontro ou a comunicação sem resposta, produz um autismo generalizado de entendimento com diferentes caminhos de viver a vida. A relação social abstracta impede qualquer forma de reciprocidade entre os seres. De resto, a televisão é a grande garantia de as pessoas já não se falarem, de ficarem definitivamente isoladas face à palavra sem resposta.

As redes das novas tecnologias da informação substituíram a antiga vida, pelas interacções virtuais, aumentando a solidão e afastando o café de bairro, a visita aos museus, um sentar à beira-sol antes de se entrar para o cinema. Nenhum sms se cansa de ser enviado, e afinal nada disto deve suprimir necessariamente o conviver com o mundo, o estar com os amigos e sentir-lhes a voz. Mas o desejo de sair, e ver pessoas, só por si, não leva a crer que no futuro ,estaremos mais juntos de quem queremos que da nossa vida faça parte em rumo diferente.

Também se afirma que os indivíduos melhor equipados com as novas tecnologias, são os que mais gostam de conviver face a face, mas, ao que se sabe, na generalidade, não será por uma sociabilidade selectiva, mas tão só alargada. Os efémeros 30 amigos que se afirma ter para nunca se confrontar consigo próprio e só, geram empatias com milhentas formas de indiferença amigável e de desconhecimento do cerne de si.

Entretanto, o amor continua a ser colocado num pedestal e a comunicação social encarrega-se de o continuarmos a consumir quer como esperança, quer como danoso ao progresso da desconfiança, novo pilar entre o homem e os outros; entre o homem e ele próprio.

E ainda assim, queremos crer, que as núpcias das raízes do pensamento se debatem contra a monótona decepção da felicidade. Recordemos Maurice Blanchard «Il faut d’abord choisir le point exact d’où l’on doit partir. Le reste importe peu. Pas la flèche, mais l’oiseau.»

 

M. Teresa Bracinha Vieira

NORBERTO BARROCA COM O GRUPO FERNANDO PESSOA NO BRASIL

 

Voltamos à fotografia do Grupo Fernando Pessoa no Brasil. E vemos, na última fila o ator e então futuro arquiteto Norberto Barroca.

Recorde-se qua a tournée brasileira efetuou-se em 1962. Mas a integração de Norberto Barroca no Grupo Fernando Pessoa vinha da fundação, cerca de 1960, e prossegue em ligação com o CNC e a Casa da Comédia, como aqui temos dito.

Barroca licencia-se em arquitetura no final dos anos 60 e reparte a sua atividade entre as duas expressões profissionais e artísticas, que aliás tanto têm a ver entre si. Mas já em 1967 se tinha estreado precisamente na Casa da Comédia, como encenador, na adaptação das “Noites Brancas” de Dostoievski. E dois anos depois recebe o Prémio da Imprensa com “Fando e Lis a Caminho de Tar” de Fenando Arrabal, à época autor praticamente desconhecido entre nós – foi, segundo creio, a primeira peça levada à cena em Portugal.

Será interessante referir que Arrabal é um dramaturgo espanhol que escreveu em francês… Em qualquer caso, o historiador Jesus Maria Barrjón Muñoz diz que, “ com Fando e Liz, Arrabal aproxima-se da conceção do absurdo de Becket: os dois personagens, envoltos numa relação de amor e destruição, caminham para Tar, onde nunca chegarão, como tampouco nunca chega o tal Godot da obra de Becket” (in “Historia del Teatro Espanõl”, vol. II, 2003).

 E seja-me permitido referir que em Novembro de 1969, escrevi, a propósito deste espetáculo, que “ Tar é a terra prometida, a solução dos males, a clareza e a paz. Os personagens de Arrabal arrastam-se nas longas horas de um dia, mas voltam ao mesmo sítio. Tar é inacessível a quem não quer nem crê”. E também referi “a direção e encenação de Barroca, seu carater ritualístico, seu lirismo inocente mas terrível”… E salientei ainda Manuela de Freitas, também elemento do Grupo Fernando Pessoa, como iremos ver em próximo artigo.  

Norberto Barroca estudou teatro em Londres e seguiu para Moçambique, onde conciliou as duas áreas profissionais – teatro e arquitetura - tendo desenvolvido no teatro uma atividade em colaboração com Malangatana. De regresso, prossegue uma carreira profissional no teatro, em inúmeras companhias, alternando o experimentalismo teatral com o exercício das duas profissões e percorrendo assim diversos grupos e companhias, como o TNDMII e, durante cerca de 10 anos (1998-2009), o Teatro Experimental do Porto.

E será na Marinha Grande que Norberto Barroca desenvolverá uma faceta original da sua carreira, criando peças e espetáculos de expressão nacional/local – designadamente “O 18 de Janeiro de 1934 – Movimento Revolucionário dos Vidreiros”, mas também “Uma Obragem do Seculo XVIII” e “Marquês de Pombal – O Rei”.

 

Duarte Ivo Cruz

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