POESIA ÁRABE

Grande Mesquita de Kairouan (Tunísia)
1. ´ADI IBN ZAYD
Desconhece-se a data de nascimento de ´Adi ibn Zayd, situa-se a da sua morte em 604. Era um cristão árabe pré-islâmico, poeta na corte do rei de Hira, capital dos Lakhmidas, vassalos dos Persas Sassânidas, e centro cristão, maioritariamente nestoriano, situado nas margens do Eufrates, onde se cultivava um dialecto árabe evoluído e literário. Este poema segue a métrica "ramal", de verso ornamentado, que não se reproduz em português. Assim, embora perdendo o ritmo e a rima árabe, procurei acentuar o vivo sentimento da efemeridade, condição humana.
Vedes, vós que passais, estes túmulos?
Cavaleiros que vos esforçais
para sobre o chão apressar
o passo das vossas montadas
cujos pés na areia
surdamente se enterram :
fomos nós, como vós,
apressados viajantes,
e vós, como nós,
um dia chegados
ao termo da viagem,
em túmulos vos deitareis...
Muitos outros cavaleiros
pararam neste lugar e alegres
beberam o vinho puro
com clara água misturado.
Foi-se a manhã
e veio a hora
em que o sol é todo brilho...
O século os escolheu
para brinquedos do seu descuido,
e desapareceram...
Com os homens todos
assim se comporta o século
e sem fim os leva
de um a outro estado...
As duas rimas deste poema, em árabe, são em ûn e âli , conforme o texto publicado em Beirute, que serviu para as versões, em prosa, francesa e inglesa, onde me inspirei, procurando ser fiel ao poema original - que imaginei? - por um esforço de "transmigração" ou, melhor talvez, de procura de comunhão. Vale o que vale, mas foi-me gratificante.
Camilo Martins de Oliveira