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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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POESIA ÁRABE

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Al-Corão

3. AL-AKHTAL (630-710)
 

Poeta árabe cristão, viveu, como Djamil, que era muçulmano, já no islão dos Omíadas, tendo aliás sido considerado, pelo quinto califa daquela dinastia, ´Abd-al-Malik (685-705), o cantor da excelência dessa família reinante. Nascido numa tribo de beduínos nómadas, com a qual fazia as suas peregrinações ao santuário de São Sérgio, manteve-se sempre fiel a esse estilo de vida e à sua fé cristã, que toda a vida testemunhou por um crucifixo que trazia pendurado ao pescoço. Nada disso o impediu de gozar alguma boémia, apreciando bons vinhos e a companhia galante de cantadeiras. E era reconhecido como homem de bem, pessoa íntegra e fiel. Um dos seus elogios da dinastia Omíada reza assim:

      Grupo coeso em defesa do direito,

      aborrece as indecências verbais,

      foge a vergonha, e de paciência é feito

      o seu combate às coisas mais fatais.

      Sol de  inimizade será até quando

      recusarmos a sua direcção...

      Mas pela bondade se vai ilustrando,

      alto sol da humana condição!

Todavia, outros poemas, como o seguinte, dizem melhor o talento do poeta, o seu poder de observação, e sobretudo esse olhar realista e moralista, simultaneamente irónico e compassivo:


Um bêbado

      Abatido em combate pelo vinho

      a custo ergue a cabeça, bebe e berra,

      pesam-lhe os ossos, mexem de mansinho

      as juntas do seu corpo que se emperra...

      Sustemo-lo entre nós sempre tombando,

      arrastamos-lhe o corpo feito morto,

      alheio nem parece ir-se lembrando

      de que pensava e não andava torto...

      Colado ao chão, como se lapa fosse,

      levantá-lo é torná-lo mais pesado,

      levá-lo para o quarto, nem a couce,

      mas vai como lixo em saco arrastado.

A métrica "tawil" apresenta uma forma única do primeiro verso e três variantes do segundo. Neste poema, a rima era em "lu":  é claro que o reinventámos em português, procurando manter-lhe os propósitos.


Camilo Martins de Oliveira