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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (II)

Estátua do poeta António Ribeiro, o Chiado.JPG
Estátua do poeta António Ribeiro, o «Chiado».


O ESPETÁCULO NO PRÓPRIO TEXTO –  CAMÕES, CHIADO, JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS 

Nesta série de artigos, evocamos sobretudo os que fazem o espetáculo, a partir de textos expressos ou mesmo improvisados, mas suscetíveis de fixação e de expressão teatral. A referência específica  a atores profissionais inicia-se e desenvolve-se, como veremos em próximos artigos, ,  ao longo do seculo XIX mas  com grande relevância no século XX e até aos nossos dias : mas a partir do seculos XVI/XVII, os textos já muitas vezes definem, expressamente e diretamente, a sua dimensão de espetáculo.

Vejamos dois exemplos breves mas relevantes, quanto mais não seja pela qualidade e projeção dos autores respetivos.

E desde logo Camões. Tenho escrito que o teatro de Camões,  independentemente  de atingir a o nível e o significado incomparável de Os Lusíadas ou mesmo da Lírica, alem de breve - três peças – assume larga  projeção no contexto do teatro renascentista,  pela sua óbvia qualidade ~ou não fosse uma criação camoniana - e pelo próprio sentido “de espetáculo”, o que normalmente não é tanto sublinhado. Aliás é caso para dizer que “sentido de espetáculo”, no mais nobre e  qualificado alcance do termo, encontramos também na restante obra de Camões.

Só como mero exemplo, e são tantos ao longo dos 10 Cantos de Os Lusíadas, veja-se  a estrutura cénico -  dramática do episódio de Fernão Veloso inclusive  no contraste entre o trágico e o irónico  (Canto V- Estrofe 35):

«Disse  então a Veloso um companheiro/ (Começando-se todos a sorrir) : / “Olá Veloso amigo, aquele outeiro/ É melhor de descer do que de subir”/ Sim, é respondeu o ousado aventureiro; /Mas quando eu para cá vi tantos vir/ Daqueles Cães, depressa um pouco vim/ Por me lembrar que estáveis cá sem mim”.

Este episódio, repita-se, apresenta um conteúdo  em  si mesmo teatral, no sentido cénico e de espetáculo . Contem o diálogo, as indicações cénicas (“começando-se todos a sorrir” ) e a própria direção/ caracterização do personagem (“o ousado companheiro”) – e  ainda, a ironia e graça do texto,  que  contrasta com a situação em que se enquadra e até – mas não é caso único – com o incomparável sopro épico de Os Lusíadas.

 Mas vejamos agora o Auto de El-Rei Seleuco, representado entre 1543 e 1549. Para alem da genialidade do texto, ou não fosse de quem é, traz-nos a curiosidade de dramatizar uma representação do próprio Auto em casa de Estácio da Fonseca, Cavaleiro Fidalgo  de D. João III, almoxarife e recebedor das  aposentadorias da Corte. Um alto funcionário, diríamos hoje.

E o auto inicia-se com  o diálogo irónico do próprio Estácio com o seu moço-criado, acerca dos atores que iriam representar a  peça:
«Estácio – São já chegadas as figuras? / Moço – Chegadas são elas quase ao fim de sua vida./  Estácio_ Como assim? / Moço -  Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com frisa nem talão de sapato que saísse fora do couce. Ora viram aí uns embuçadetes e quiseram entrar por força: ei-lo arrancamento na mão: deram uma pedrada na cabeça do Anjo e rasgaram uma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não há de entrar até lhe não derem uma cabeça nova , nem o Ermitão até lhe não porem uma estopada na calça. Este pantufo se perdeu ali: mande-o Vossa Mercê domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheio/ Estácio – se ela fora outra peça de mais valia tu botares a consciência pela porta fora para a meteres em tua casa»…

Assim seria o chamado meio teatral no seculo XVI…

Ora, pela mesma época, entre 1545 e 1557,  escrevia António Ribeiro Chiado o seu Auto da Natural Invenção . E também aqui se recorre a uma cena de presentação na Corte ou na alta classe mercantil. Temos aqui também  o dialogo entre o dono da casa e o seu criado:

“Dono – Almeida!/ Almeida – senhor?/ Dono – Vem cá, vem cá!/ sabes se há –de tomar o porto/ hoje este auto, ou se é morto./ Almeida – E o autor onde está?/ Dono – Em casa de teu avô torto/ ou marmelo pela perna!/ Quem por rapazes governa/ sua casa é mais rapaz/ e  rapaz que tratos traz, / com quem a malícia inverna./ Que te mandei todo hoje?/ Almeida – Que mandou vossa mercê?/  Dono – Já nada, pois que assim é, /Não mande Deus que te noja»…

Já havia pois, nesta época, comediantes profissionais e companhias. Aliás Camões, no Rei Seleuco cita o Chiado,  quando o Escudeiro Ambrósio diz que “o Moço Lançarote (…)   uma trova, fá-la tão bem como vós ou como eu, ou como Chiado”.

E pela mesma época, Jorge Ferreira de Vasconcelos, na comédia Aulegrafia também cita Chiado e põe na boca do personagem D. Ricardo este elogio  ambíguo: “Em algumas cousas teve veia esse escudeiro”!

Termino com três citações.

Hernâni Cidade encontra nos Anfitriões de Camões uma “ternura que Plauto desconhece” (in Obras Completas de Camões vol.III); Clarice Berrardbnelli e Robnaldo Menegaz comparam a peça do Chiado com a de Camões, na convergência “de uma auto (B), dentro de um outro(A), mas enquanto Camões nos dá uma trama unida (…) o Chiado vai ao sabor da sua natural invenção traçando os fios e deixando as pontas soltas” (in Autos de António Ribeiro Chiado, ed. Rio de janeiro 1968); e Maria Odete Dias Alves assinala que Jorge Ferreira de Vasconcelos “povoa o palco de figuras portuguesas da sua época: é o ambiente de Quinhentos que vive nas suas paginas” (in A Linguagem dos Personagens de Jorge Ferreira de Vasconcelos  - U Coimbra 1972). 


DUARTE IVO CRUZ