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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OLHAR E VER

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Niall Ferguson 

 

11. CABEÇA NO MURO E MURO NA CABEÇA
 

Há muros que estão na cabeça das pessoas, construções mentais ou barreiras emocionais. Mais ou menos teimosias ou  fobias ou receios, nem precisam de uma correspondência física. Mesmo esta nem sempre é obra das mãos dos homens: o mar Mediterrâneo, por exemplo - como todos os dias vemos entre o Magrebe e a Ibéria, ou entre a Líbia e a Itália - é uma barreira natural em que se afundam milhares de vidas humanas, na água, na fome ou na exaustão. Que fazemos nós por elas? Onde está a sua perdição? Num mar também diariamente cruzado por iates e cruzeiros de luxo, ou na distracção, negligência ou oposição das nossas cabeças? Não serão estes muros mais intransponíveis e cruéis - ao ignorarem o drama angustiante de corações que anseiam por uma mão fraterna - do que as impávidas muralhas de Adriano na Escócia ou do Celeste Império na China? Nas nossas cabeças se levantam os muros maiores, e é só aí que os poderemos abater. Definem a separação radical entre mim e o outro, pior ainda, dividem-me ontologicamente, fazem de mim outro ser, visto que yo soy yo y mi circunstancia... A minha essência só existe com os outros, sou um ser em relação. No seu Visconde cortado ao meio, Ítalo Calvino imagina um nobre guerreiro que um golpe de espada dividiu em dois, o cavaleiro bom e o cavaleiro mau, ambos tendo de perceber que, afinal, são inseparáveis. Nesta vida, o bom é inseparável do mau, é impossível varrermos "bondosamente" a miséria dos outros para debaixo do tapete. Tal como a prática da virtude, o progresso moral, não se consegue por separação ou eliminação, mas é necessariamente um esforço de conversão, de transformação, de misericórdia. Sabiamente, Sto. Agostinho chamou ao seu tratado sobre a cidade do mundo e a de Deus A Cidade de Deus, porque, sendo a melhor, para ela nos devemos conduzir a partir da outra. Com Jesus Cristo aprendemos  -  ou deveríamos aprender  -  que não é o que entra em nós que é impuro, mas o que de nós sai, e que o pecado não é essencialmente o acto em si, mas o pensamento dele. Ao longo da minha vida, por todos os continentes encontrei condomínios que são bairros inteiros, cidadelas erguidas até no seio das cidades, protegidas por cercas e acessos controlados ( mesmo manu militari ), estabelecendo, no espaço físico que poderia ser convivial, a separação entre seres da mesma humana condição, só porque não se conseguiu pensar doutra maneira sobre a organização de sociedades que - sobretudo pela injustiça, soberba ou ostracismo - estão desestabilizadas por ameaças e receios, e se reduziram à incapacidade de diálogo. Quantos de nós pensarão, por exemplo, que o medo hoje sentido face a uma possível invasão de ébola, se deve ao facto dessa epidemia provir de um vírus descoberto, por médicos europeus, há quarenta anos, sem que nada se tenha feito para o debelar, pois estava circunscrito a regiões africanas habitadas por gente que ignorávamos? E que foi a "santa" Inquisição, senão uma muralha, tal como as teses e motivações defendidas por "fundamentalistas" islâmicos, ou essa distorção da História que membros de partidos comunistas europeus pretendem divulgar, a de que a queda do muro de Berlim foi uma anexação da RDA pela nazi-fascista RFA, e um atentado contra o progresso socio-económico e político de um bloco soviético cheio de liberdade e bem estar? Acabamos assim por bater com a cabeça no muro. Por preconceito ideológico ou social, e sempre que a protecção de privilégios, sem consideração pelo bem comum nem o interesse geral, ou a propensão para a apropriação exclusiva da razão levarem de vencida a obrigação elementar de olhar e ver, de escutar os outros. Como bem diz o papa Francisco: o mundo precisa de pontes, e não de muros. E, para falarmos de reformas indispensáveis ao bom funcionamento, presente e futuro, do sistema económico e financeiro, tendo em vista a justiça e inclusão social, torna-se cada vez mais difícil aceitar que, por força do dinheiro e dos falsos mercados, se adiem medidas de contenção ou eliminação de excessos remuneratórios (a mais e a menos), especulação bolsista, acumulação e vagabundagem do capital, etc., em prejuízo de adequada protecção da concorrência, da igualdade de oportunidades, da dignidade do trabalho e das famílias, da assistência aos desvalidos, da transparência dos estatutos e das transacções... A prevalência do dinheiro ganho enquanto lucro como primeiro, ou mesmo único, critério da justiça e eficiência dos desempenhos humanos e sociais, é outro muro, não só de separação e exclusão de multidões de pessoas, mas contra o progresso das comunidades, cujo futuro - há hoje disso inúmeros sinais dos tempos que atravessamos - se não for solidário e justo, será conflituoso, quiçá caótico. No seu livro «Civilisations» - que nos interroga sobre esse "domínio" universal do "ocidente", as razões dessa "hegemonia" e as hipóteses de enfraquecimento e decadência - o historiador escocês Niall Ferguson enumera os factores da ascensão primeiramente europeia e, depois, norte-americana: concorrência, ciência, propriedade, medicina, consumo e trabalho. A concorrência vem à frente, posso concordar, a emulação é estimulante, mas requer um espaço de liberdade de iniciativa e de igualdade de oportunidades. Será que a dominação dos capitalismos hodiernos, pouco transparente e muito incontrolada, favorece a saúde e os benefícios da concorrência democrática? Ou não será o "liberalismo" bárbaro um factor de limitação das liberdades? Mais um muro... Vindo da Europa de Leste - que, contrariamente ao que dizem comunistas serôdios ou do que se vangloriam capitalistas triunfantes, foi a força que finalmente empurrou a cortina de ferro e o muro de Berlim  - João Paulo II chamou os homens de boa vontade a vencer o medo. E não pensava só na libertação dos que o domínio soviético sujeitava, mas já também no empreendimento das reformas pela justiça e a paz, em que o papa Francisco tanto tem insistido.

 
Camilo Martins de Oliveira