A FORÇA DO ATO CRIADOR
Alison e Peter Smithson e o tecido urbano carregado de sentido.
‘We are thinking of architecture’s capacity to charge the space around it with an energy which can join up with other energies, influence the nature of things that might come...‘, Peter Smithson, 1999
Alison (1928-1993) e Peter Smithson (1923-2003) carregam os espaços vazios com sentido e com a densidade do pensamento, dando ao Homem a capacidade de aí desenvolver o seu intelecto, os seus talentos, os seus afectos e as suas sensibilidades. Através de esquemas desenhados transmitiam ideias de associação, uso, identidade, movimento e ordem. Concentraram o seu trabalho no tema do ‘espaço que fica entre’, falando do vazio que resulta entre os edifícios dispostos no território. Muitas vezes esquecido em termos de uso e ocupação, este espaço resulta simplesmente da disposição aleatória dos edifícios, não podendo ser considerado como vazio (no sentido positivo e generativo que Alison e Peter Smithson pretendem afirmar). Objectiva-se o vazio belo e ambíguo (possível de receber diversas interpretações) – o vazio como uma experiência sensível e essencial, que possibilita a criação, a expressão, um ritual e a simplificação – ‘the shock of nothing…’.
Alison e Peter Smithson com a produção de uma obra teórica especulativa (‘Urban Structuring: Studies of Alison and Peter Smithson’, 1967, ‘Without Retoric: An Architectural Aesthetic, 1955-72’) abriram a arquitectura às ciências sociais, à época do consumo e à arte. Os propósitos sociais afirmam-se através da supremacia da permissa ‘House, Street, District, City’ em detrimento de ‘Habiter, Travailler, Cultiver le Corps et L’Esprit, Circuler’. Em 1953, no CIAM de Aix-en-Provence os Smithsons revelam o conceito de ‘Streets in the sky’ – ‘Streets will be places… identifying man with his house and his street’ e pretendem também tornar a arquitectura particular a uma topografia, a um clima, a um lugar, a uma actividade e a uma pessoa. O consumo Pop torna-se forma no desenvolvimento do projecto da ‘House of the Future’, a casa modelo concretizada para a exposição ‘Daily Mail Ideal’, em 1956. E a abertura da arquitetura à arte acontece através do facto dos Smithsons serem co-fundadores do Independent Group (com Nigel Henderson e Eduardo Paolozzi) na ICA em Londres. Os Smithsons, ao colaborarem com o fotógrafo Nigel Henderson para a grelha CIAM 1952-53 e mostrando a vida comunitária de Bethnal Green, constituem pela primeira vez as noções de identidade e associação. Esta colaboração permitiu aos Smithson alicerçar ideias até 1965.
Para os Smithsons ‘os espaços que ficam entre’ deveriam promover conectividade, identidade e associação. A transformação do tecido urbano é pois urgente. Em 1953, na conferência CIAM, Alison e Peter Smithson atacaram as décadas do velho dogma da zonificação das cidades, proposto por Le Corbusier na Carta de Atenas – onde cada cidade é pensada de acordo com áreas especificas para habitar, trabalhar, circular e cultivar o corpo e o espírito. A cidade idealizada pelos Smithsons deveria sim combinar as diversas actividades numa mesma zona. E propunha habitação, não em altura, mas construída com ‘streets in the sky’, encorajando assim os residentes ao sentido de pertença e de vizinhança (‘Belonging' is a basic emotional need – its associations are of the simplest order. From 'belonging'- identity- comes the enriching sense of neighbourliness. The short narrow street of the slum succeeds where spacious redevelopment frequently fails.’, Team X)
Alison e Peter Smithson, como fundadores do Team X lideraram a última conferência dos CIAM, em 1956. Os Smithson receavam a criação de uma paisagem urbana hostil à harmonia social. Seduzidos pela obra ‘Architectural Principles in the Age of Humanism’, do historiador Rudolf Wittkower, os Smithson acreditam numa arte feita à escala do Homem e não a favor de uma preocupação transcendental de procura pela geometria pura, baseada nos valores absolutos da arquitectura sagrada. Interessa sim apreender e explicar como se processa um projecto de arquitectura à escala urbana e como abrir buracos na cidade. Os Smithsons trabalham a favor de uma sociedade meritocrática, isto é por um sistema de igual oportunidade, competitivo que privilegia a demonstração de talentos e de capacidades, onde a posição social e o poder político são muito pouco determinantes.
Ora, os Smithsons procuraram definir um espaço urbano cheio de expressão, porque em cada cidade existe por definição um padrão específico e um modelo de associação único para cada pessoa, para cada lugar e para cada tempo.
Ana Ruepp
