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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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R. M. Schindler e a construção do declive.
 

‘The space house as a space form becomes a part of the room formed by the lot, the surroundings, contours, and the firmament.’, R. M. Schindler
 

Entre 1920 e 1960, Los Angeles foi palco de experimentações construtivas excepcionais. O denominador comum foi o declive.

Frank Lloyd Wright (1867-1959), Rudolph Michael Schindler (1887-1953) e Richard Neutra (1892-1970) desenvolveram novas relações entre o objecto construido e o sítio declivoso e transportaram valores modernos, interrogando a sua relação com o terreno (as fundações, a implantação e o encaixe). O sítio não foi só entendido como um problema a resolver, foi material de teorizações e foi gerador morfológico e tipológico.

O encontro entre o sítio e o objecto é uma das preocupações mais importantes. É o arquitecto que decide se o declive é ou não tema de estudo e possibilita a coordenação entre o natural e o humano.

Los Angeles é composta por planícies e montanhas declivosas – a zona residencial, por excelência, situa-se sobre a cidade. A zona alta da cidade densificou-se a partir dos anos 50. A opção de construção nas zonas mais declivosas teve origem, nos anos 20, na classe intelectualizada e artística da sociedade – disposta a uma arquitectura de cariz modernista. Arquitectos como F.L. Wright ou outros vindos da Europa (como Schindler e Neutra) desenvolveram variações numa gramática ainda recente. Rudolph Schindler e Richard Neutra trabalharam com Wright. Wright colocou em relação directa o Homem e a natureza: a plástica das suas formas é desenvolvida pelos motivos e materiais do local. Ora, a premissa do espírito do lugar, desenvolvida por F. L. Wright – em que o projecto não nasce de uma teoria abstracta sobre o espaço, mas sim da realidade física e específica do local – inspirou R.M. Schindler. Com Schindler as construções em zonas declivosas perderam a estrutura, o betão e a ideologia social para dar lugar à dimensão atmosférica.

Em Los Angeles, os arquitectos e os seus clientes desenvolveram uma espécie de estética do terreno – a mais valia arquitectónica estabeleceu-se pela situação do edifício (vista e isolamento). Quanto mais hostil o terreno for (e as pendentes poderiam atingir os 40 graus), menos dispendioso o terreno e mais aptidão formal e técnica teria o arquitecto. A importante variável deste processo construtivo é a implantação no declive. Existem inúmeras possibilidades de implantação do edifício a diferentes alturas. Foi Wright que estabeleceu a diferença entre construir in e on the hill, com o projecto ‘hill house’ – o objecto arquitectónico situa-se no declive, participando da sua circunstância geológica e no seu movimento natural. O sítio não é um constrangimento à arquitectura. O projecto é assim, neste caso, um desenvolvimento geológico.

R.M. Schindler considerava o declive como um local privilegiado para a experimentação, acreditando que o edifício é um sólido em movimento num plano inclinado (o declive é assim considerado um movimento descendente em que a arquitectura pode parar, amplificar ou contrariar). O objecto construído não pode ser reduzido a um simples paralelepípedo – essa simplificação nega qualquer esforço em construir a configuração da inclinação. Schindler pensava no sítio em termos dos seus elementos atmosféricos (ar, luz e espaço) e das suas propriedades físicas.

Os projectos de Schindler conciliam dois sistemas: o sistema vertical, que estuda o espaço que existe entre o terreno e o objecto (neste sistema os objectos podem estar completamente colados ao chão, suspensos ou a pairar); e o sistema dos movimentos, que aborda os efeitos produzidos por um volume no declive – o objecto pode poisar simplesmente no terreno; pode acompanhar gradualmente o ângulo; ou pode apresentar um movimento contrário à inclinação. Por exemplo a Wolfe House (1928) concretiza o conceito de balacing, porque o seu volume decorre do contacto da luz e da suspensão das camadas. Em Walker House (1936) verifica-se o conceito de cascade e o seu volume varia entre  conceitos como imersão, desajustar, desdobrar, esticar e deslocar (lateral, frontal e convulsivamente). A Van Patten House (1936) actualiza o conceito de countermotion e demonstra que o volume ao contactar o terreno pode ser desacelerado, formar uma ligação ou ponte e pode ainda evitar precipitação e queda.

Em 1949, Schindler elaborou uma série de notas, para a Santa Barbara University Archives, onde estabeleceu uma tipologia para as diferentes formas de colocar o edifício no declive. Sistematizou assim o seu trabalho sucessivo (desenhou cerca de cem edifícios em Los Angeles) e formulou uma teoria para a sua prática. Construiu e justificou as formas dos seus projectos, possibilitando o seu uso sistemático, tipológico e standartizado. Elaborou a sua teoria formal e permitiu a industrialização de um processo complexo e importante para a afirmação do modernismo internacional – a construção em zonas declivosas.

 

Ana Ruepp

OLHAR E VER

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Niall Ferguson 

 

11. CABEÇA NO MURO E MURO NA CABEÇA
 

Há muros que estão na cabeça das pessoas, construções mentais ou barreiras emocionais. Mais ou menos teimosias ou  fobias ou receios, nem precisam de uma correspondência física. Mesmo esta nem sempre é obra das mãos dos homens: o mar Mediterrâneo, por exemplo - como todos os dias vemos entre o Magrebe e a Ibéria, ou entre a Líbia e a Itália - é uma barreira natural em que se afundam milhares de vidas humanas, na água, na fome ou na exaustão. Que fazemos nós por elas? Onde está a sua perdição? Num mar também diariamente cruzado por iates e cruzeiros de luxo, ou na distracção, negligência ou oposição das nossas cabeças? Não serão estes muros mais intransponíveis e cruéis - ao ignorarem o drama angustiante de corações que anseiam por uma mão fraterna - do que as impávidas muralhas de Adriano na Escócia ou do Celeste Império na China? Nas nossas cabeças se levantam os muros maiores, e é só aí que os poderemos abater. Definem a separação radical entre mim e o outro, pior ainda, dividem-me ontologicamente, fazem de mim outro ser, visto que yo soy yo y mi circunstancia... A minha essência só existe com os outros, sou um ser em relação. No seu Visconde cortado ao meio, Ítalo Calvino imagina um nobre guerreiro que um golpe de espada dividiu em dois, o cavaleiro bom e o cavaleiro mau, ambos tendo de perceber que, afinal, são inseparáveis. Nesta vida, o bom é inseparável do mau, é impossível varrermos "bondosamente" a miséria dos outros para debaixo do tapete. Tal como a prática da virtude, o progresso moral, não se consegue por separação ou eliminação, mas é necessariamente um esforço de conversão, de transformação, de misericórdia. Sabiamente, Sto. Agostinho chamou ao seu tratado sobre a cidade do mundo e a de Deus A Cidade de Deus, porque, sendo a melhor, para ela nos devemos conduzir a partir da outra. Com Jesus Cristo aprendemos  -  ou deveríamos aprender  -  que não é o que entra em nós que é impuro, mas o que de nós sai, e que o pecado não é essencialmente o acto em si, mas o pensamento dele. Ao longo da minha vida, por todos os continentes encontrei condomínios que são bairros inteiros, cidadelas erguidas até no seio das cidades, protegidas por cercas e acessos controlados ( mesmo manu militari ), estabelecendo, no espaço físico que poderia ser convivial, a separação entre seres da mesma humana condição, só porque não se conseguiu pensar doutra maneira sobre a organização de sociedades que - sobretudo pela injustiça, soberba ou ostracismo - estão desestabilizadas por ameaças e receios, e se reduziram à incapacidade de diálogo. Quantos de nós pensarão, por exemplo, que o medo hoje sentido face a uma possível invasão de ébola, se deve ao facto dessa epidemia provir de um vírus descoberto, por médicos europeus, há quarenta anos, sem que nada se tenha feito para o debelar, pois estava circunscrito a regiões africanas habitadas por gente que ignorávamos? E que foi a "santa" Inquisição, senão uma muralha, tal como as teses e motivações defendidas por "fundamentalistas" islâmicos, ou essa distorção da História que membros de partidos comunistas europeus pretendem divulgar, a de que a queda do muro de Berlim foi uma anexação da RDA pela nazi-fascista RFA, e um atentado contra o progresso socio-económico e político de um bloco soviético cheio de liberdade e bem estar? Acabamos assim por bater com a cabeça no muro. Por preconceito ideológico ou social, e sempre que a protecção de privilégios, sem consideração pelo bem comum nem o interesse geral, ou a propensão para a apropriação exclusiva da razão levarem de vencida a obrigação elementar de olhar e ver, de escutar os outros. Como bem diz o papa Francisco: o mundo precisa de pontes, e não de muros. E, para falarmos de reformas indispensáveis ao bom funcionamento, presente e futuro, do sistema económico e financeiro, tendo em vista a justiça e inclusão social, torna-se cada vez mais difícil aceitar que, por força do dinheiro e dos falsos mercados, se adiem medidas de contenção ou eliminação de excessos remuneratórios (a mais e a menos), especulação bolsista, acumulação e vagabundagem do capital, etc., em prejuízo de adequada protecção da concorrência, da igualdade de oportunidades, da dignidade do trabalho e das famílias, da assistência aos desvalidos, da transparência dos estatutos e das transacções... A prevalência do dinheiro ganho enquanto lucro como primeiro, ou mesmo único, critério da justiça e eficiência dos desempenhos humanos e sociais, é outro muro, não só de separação e exclusão de multidões de pessoas, mas contra o progresso das comunidades, cujo futuro - há hoje disso inúmeros sinais dos tempos que atravessamos - se não for solidário e justo, será conflituoso, quiçá caótico. No seu livro «Civilisations» - que nos interroga sobre esse "domínio" universal do "ocidente", as razões dessa "hegemonia" e as hipóteses de enfraquecimento e decadência - o historiador escocês Niall Ferguson enumera os factores da ascensão primeiramente europeia e, depois, norte-americana: concorrência, ciência, propriedade, medicina, consumo e trabalho. A concorrência vem à frente, posso concordar, a emulação é estimulante, mas requer um espaço de liberdade de iniciativa e de igualdade de oportunidades. Será que a dominação dos capitalismos hodiernos, pouco transparente e muito incontrolada, favorece a saúde e os benefícios da concorrência democrática? Ou não será o "liberalismo" bárbaro um factor de limitação das liberdades? Mais um muro... Vindo da Europa de Leste - que, contrariamente ao que dizem comunistas serôdios ou do que se vangloriam capitalistas triunfantes, foi a força que finalmente empurrou a cortina de ferro e o muro de Berlim  - João Paulo II chamou os homens de boa vontade a vencer o medo. E não pensava só na libertação dos que o domínio soviético sujeitava, mas já também no empreendimento das reformas pela justiça e a paz, em que o papa Francisco tanto tem insistido.

 
Camilo Martins de Oliveira

NATÁLIA CORREIA

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“Contos inéditos e crónicas de viagem” chega até nós em 2005 pela Editora A.M. Pereira na sequência da edição sistematizada da obra inédita de Natália.

Em 3 partes nos surge o “Filme Tragicómico da Vida das Praias” e justamente na III parte, Natália Correia escreve assim:

Faltam apenas minutos para o comboio chegar. Mãe e filha, em sua trágica saída de sandeiros, abandonam finalmente o campo de batalha matrimonial. Verdadeiros soldados vencidos levam, a pobre mãe mais um espinho cravado em seu coração dilatado pela dor; a filha, maldizendo aquele atrevido com quem perdera o melhor do seu tempo, arrasta a heróica resignação dos vencidos mas não convencidos.

O comboio chega e parte em seguida.

Lá longe, na estação da grande cidade, um pobre homem, bacilo duma repartição anónima irá esperá-las. Os seus olhos inquietos pousar-se-ão nos da mãe, numa muda interrogação: arrumada, a nossa filha?

Não. Não foi ainda desta vez. E ei-los a caminho de casa, quartel-general do seu sonho desmantelado, ei-los de novo na luta diária e persistente de reunir as pedras daquele «puzzle» de quimera.

Que saudades Natália! , e como bem referiste a seu preciso tempo, tinha chegado « a hora romântica dos deuses nos pedirem desobediência», e que mais não fosse pois que

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

 

A tua palavra sempre tornou audível o silêncio, a tua luta, testemunho de várias almas numa única não morará na morada dos esquecidos. Ao alto, ao alto na galeria dos atentos, sempre o teu perfil.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2014

ATORES, ENCENADORES (II)

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Estátua do poeta António Ribeiro, o «Chiado».


O ESPETÁCULO NO PRÓPRIO TEXTO –  CAMÕES, CHIADO, JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS 

Nesta série de artigos, evocamos sobretudo os que fazem o espetáculo, a partir de textos expressos ou mesmo improvisados, mas suscetíveis de fixação e de expressão teatral. A referência específica  a atores profissionais inicia-se e desenvolve-se, como veremos em próximos artigos, ,  ao longo do seculo XIX mas  com grande relevância no século XX e até aos nossos dias : mas a partir do seculos XVI/XVII, os textos já muitas vezes definem, expressamente e diretamente, a sua dimensão de espetáculo.

Vejamos dois exemplos breves mas relevantes, quanto mais não seja pela qualidade e projeção dos autores respetivos.

E desde logo Camões. Tenho escrito que o teatro de Camões,  independentemente  de atingir a o nível e o significado incomparável de Os Lusíadas ou mesmo da Lírica, alem de breve - três peças – assume larga  projeção no contexto do teatro renascentista,  pela sua óbvia qualidade ~ou não fosse uma criação camoniana - e pelo próprio sentido “de espetáculo”, o que normalmente não é tanto sublinhado. Aliás é caso para dizer que “sentido de espetáculo”, no mais nobre e  qualificado alcance do termo, encontramos também na restante obra de Camões.

Só como mero exemplo, e são tantos ao longo dos 10 Cantos de Os Lusíadas, veja-se  a estrutura cénico -  dramática do episódio de Fernão Veloso inclusive  no contraste entre o trágico e o irónico  (Canto V- Estrofe 35):

«Disse  então a Veloso um companheiro/ (Começando-se todos a sorrir) : / “Olá Veloso amigo, aquele outeiro/ É melhor de descer do que de subir”/ Sim, é respondeu o ousado aventureiro; /Mas quando eu para cá vi tantos vir/ Daqueles Cães, depressa um pouco vim/ Por me lembrar que estáveis cá sem mim”.

Este episódio, repita-se, apresenta um conteúdo  em  si mesmo teatral, no sentido cénico e de espetáculo . Contem o diálogo, as indicações cénicas (“começando-se todos a sorrir” ) e a própria direção/ caracterização do personagem (“o ousado companheiro”) – e  ainda, a ironia e graça do texto,  que  contrasta com a situação em que se enquadra e até – mas não é caso único – com o incomparável sopro épico de Os Lusíadas.

 Mas vejamos agora o Auto de El-Rei Seleuco, representado entre 1543 e 1549. Para alem da genialidade do texto, ou não fosse de quem é, traz-nos a curiosidade de dramatizar uma representação do próprio Auto em casa de Estácio da Fonseca, Cavaleiro Fidalgo  de D. João III, almoxarife e recebedor das  aposentadorias da Corte. Um alto funcionário, diríamos hoje.

E o auto inicia-se com  o diálogo irónico do próprio Estácio com o seu moço-criado, acerca dos atores que iriam representar a  peça:
«Estácio – São já chegadas as figuras? / Moço – Chegadas são elas quase ao fim de sua vida./  Estácio_ Como assim? / Moço -  Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com frisa nem talão de sapato que saísse fora do couce. Ora viram aí uns embuçadetes e quiseram entrar por força: ei-lo arrancamento na mão: deram uma pedrada na cabeça do Anjo e rasgaram uma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não há de entrar até lhe não derem uma cabeça nova , nem o Ermitão até lhe não porem uma estopada na calça. Este pantufo se perdeu ali: mande-o Vossa Mercê domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheio/ Estácio – se ela fora outra peça de mais valia tu botares a consciência pela porta fora para a meteres em tua casa»…

Assim seria o chamado meio teatral no seculo XVI…

Ora, pela mesma época, entre 1545 e 1557,  escrevia António Ribeiro Chiado o seu Auto da Natural Invenção . E também aqui se recorre a uma cena de presentação na Corte ou na alta classe mercantil. Temos aqui também  o dialogo entre o dono da casa e o seu criado:

“Dono – Almeida!/ Almeida – senhor?/ Dono – Vem cá, vem cá!/ sabes se há –de tomar o porto/ hoje este auto, ou se é morto./ Almeida – E o autor onde está?/ Dono – Em casa de teu avô torto/ ou marmelo pela perna!/ Quem por rapazes governa/ sua casa é mais rapaz/ e  rapaz que tratos traz, / com quem a malícia inverna./ Que te mandei todo hoje?/ Almeida – Que mandou vossa mercê?/  Dono – Já nada, pois que assim é, /Não mande Deus que te noja»…

Já havia pois, nesta época, comediantes profissionais e companhias. Aliás Camões, no Rei Seleuco cita o Chiado,  quando o Escudeiro Ambrósio diz que “o Moço Lançarote (…)   uma trova, fá-la tão bem como vós ou como eu, ou como Chiado”.

E pela mesma época, Jorge Ferreira de Vasconcelos, na comédia Aulegrafia também cita Chiado e põe na boca do personagem D. Ricardo este elogio  ambíguo: “Em algumas cousas teve veia esse escudeiro”!

Termino com três citações.

Hernâni Cidade encontra nos Anfitriões de Camões uma “ternura que Plauto desconhece” (in Obras Completas de Camões vol.III); Clarice Berrardbnelli e Robnaldo Menegaz comparam a peça do Chiado com a de Camões, na convergência “de uma auto (B), dentro de um outro(A), mas enquanto Camões nos dá uma trama unida (…) o Chiado vai ao sabor da sua natural invenção traçando os fios e deixando as pontas soltas” (in Autos de António Ribeiro Chiado, ed. Rio de janeiro 1968); e Maria Odete Dias Alves assinala que Jorge Ferreira de Vasconcelos “povoa o palco de figuras portuguesas da sua época: é o ambiente de Quinhentos que vive nas suas paginas” (in A Linguagem dos Personagens de Jorge Ferreira de Vasconcelos  - U Coimbra 1972). 


DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

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The Christmas truces, 1914

A guerra já deveria ter terminado por estas semanas, segundo a leitura de muitos dos políticos que a haviam decidido nas chancelarias continentais. Ao invés, em 1914 December, a escalada de violência espraia-se e a mobilização geral divide as famílias por toda a Europe.

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 Nos dias 24 e 25, progressivamente, canhões e espingardas silenciam-se. Ecoam cânticos de Natal em diversas pautas. Ao longo das 27 milhas da Western Front, tropas alemãs e britânicas confraternizam à volta de adaptadas árvores natalícias. Apertos de mão humanizam o momento. — Chérie, ce la est aussi notre nature! Muitas teorias explicam a Christmas truces da First World War. Uns inclinam-se para o alto desconforto vivido nas invernosas trincheiras. Outros para a baixa animosidade existente no arranque das hostilidades que ceifam toda uma geração. — Hmm! Peace at Wolf Wall. O inesperado armísticio na primeira guerra global contrasta com a triste ementa de terror servida por estes dias à volta da terra. Sidney vive 16 longas horas de sequestro num café, que termina com três mortos, dois reféns colhidos a tomar o café da manhã mais um louco apanhado na fantasia de uma Jihad privada. No remoto Pakistan, em ataque taliban, uma escola de Peshawar é massacrada e 126 crianças são assassinadas por dito crime da educação.

Cloudy, rainy and cold weather prepara nova Christmas season, desta feita com os aeroportos mais caóticos que o usual. À intensidade do tráfego somam controlos aéreos atempadamente impedidos de se modernizarem pela austeridade.

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Westminster fará algures as contas aos prejuízos de desasisada poupança ditada pela ideologia. Já há 100 anos Britain move man of good will. O país diligencia uma mais veloz distribuição das muitas cartas dos soldados. A British Expeditionary Force dobra as amenidades. Private Mullard, do London Rifle Brigade, descreve aos seus o Natal na Flanders: "We heard a band in the German trenches, but our artillery spoilt the effect by dropping a couple of shells right in the centre of them." Também o General Walter Congreve estreita distâncias em missiva à esposa redigida no Xmas Day. “Darling dear – as I cannot be with you all, the next best thing is to write to you for so I get closer."

O milagre que então ocorre na No man's land, entre inimigos beligerantes, é descrito neste epistolário. A morte vive aqui, travestida de balas, artilharia e nuvens de gás venenoso. As tréguas cedo são ilustradas nas páginas do The Illustrated London News, entre outros, muitos até questionando a sua veracidade. Mas as cartas militares conservam a reflexão futura. Os Archives at Staffordshire County Council guardam agora as palavras escritas pelo General Congreve, aliás um dos distintos militares que recebe a Victoria Cross na sangrenta Great War. Do British Headquarters sito em Neuve Chapelle (Northern France), o relato pertence-lhe: "We have had a “seasonable weather” day – which means sharp frost & fog & never a smich of sun. I went to church with 2 of my battalions in an enormous factory room & after lunch took down to the N. Staffords in my old trenches at Rue du Bois Mother’s gifts of toffee, sweets, cigarettes, pencils, handkerchiefs & writing paper." O oficial cruza-se ali com algo maior: "There I found an extraordinary state of affairs – this a.m. a German shouted out that they wanted a day’s truce & would one come out if he did; so very cautiously one of our men lifted himself above the parapet & saw a German doing the same."
O centenário da primeira guerra global marca indelevelmente o ano que agora finda. Terão os decisores e os povos aprendido as lições do pesado legado histórico? Olhando em volta dir-se-á ser pouco provável. Ainda assim, a memória de 1914 acalenta algo fundo na memória europeia. — Dear and kind reader, Happy Hollidays and a Happiest New Year 2015.


St James, 16th December

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS


De 15 a 21 de dezembro de 2014.

Publicamos hoje o resultado de uma investigação inédita sobre a identificação e cronologia das refeições dos chamados «Vencidos da Vida» (publicada em primeira mão pelo JL, na passada semana), graças à consulta do jornal «O Tempo», dirigido por Carlos Lobo d’Ávila (coleção da Biblioteca Nacional de Portugal). Foi, assim, possível chegar à identificação correta das datas em que o célebre grupo se encontrou, pondo termo às dúvidas existentes.

imagem.JPGDa esquerda para a direita: Sabugosa, Soveral, Mayer, Ficalho, Junqueiro, Ramalho, Lobo d’Ávila,
Pindela, Eça de Queiroz e Oliveira Martins. Foto de 2 de maio de 1889, tirada por Augusto Bobone,
no jardim da casa de Bernardo Pindela, onde decorreu um almoço.


UMA BOA OPORTUNIDADE

Um dia destes, uma investigadora de questões de moda fez-me chegar a pergunta sobre onde estaria o original da fotografia dos «Vencidos da Vida» tirada em casa de Bernardo Pindela (depois Conde de Arnoso), na Rua de S. Domingos, à Lapa, em que dez dos onze membros do grupo se encontram de pé e alinhados, podendo-se apreciar as respetivas indumentárias. Sempre conheci duas outras fotografias tiradas nesse almoço do grupo, uma das quais ainda se encontra na posse de meu Pai, tendo pertencido a Oliveira Martins. A primeira vez que vi a reprodução da imagem que me era referida foi em setembro de 1983, graças a Guilherme de Castilho, na sua edição da «Correspondência de Eça de Queiroz». Devo esclarecer que o escritor referia tratar-se de uma fotografia pouco conhecida, reproduzindo-a de um recorte de revista. Até hoje nunca a vi o original, e na última edição da Fotobiografia de Eça, o meu amigo arquiteto Campos Matos conseguiu uma boa digitalização da mesma. Tive, no entanto, oportunidade para verificar haver falta de informação sobre o momento em que a referida fotografia foi tirada, pelo que vou procurar arrumar ideias sobre o dia provável em que a fotografia foi tirada, e sobre a razão de ser do suposto «vencidismo», que se desenvolveu como mito, criticado desde muito cedo pelos próprios intervenientes do grupo.

A CRONOLOGIA
Mas vamos às refeições, na maior parte dos casos jantares. Sigamos a sua cronologia. Os convivas iniciais teriam sido os parlamentares das duas câmaras – Ficalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d’Ávila e António Cândido Ribeiro da Costa. O primeiro de todos os ágapes foi no restaurante Tavares e seguiu-se ao discurso do Conde de Ficalho na Câmara dos Pares de 28 de junho de 1888, em que se denunciava a inaceitável paralisia da vida política. Logo em julho de 1888, Oliveira Martins, nas colunas de «O Repórter»: perguntava: «Por que não haverá um jantar semanal, um jantar alegre e até um bom jantar, a carta constitucional de um partido novo?». Mas, a que se deve a designação de «Vencidos da Vida»? O autor de «Os Filhos de D. João I», ao ouvir, nesses dias, o seu vizinho do terceiro andar da Calçada dos Caetanos, Ramalho Ortigão, ler uma descrição sobre a voga parisiense dos jantares, achou que podia usar o exemplo. À semelhança do caso então referido da Villa de Médicis - «les uns glorieux, les autres battus de la vie» - eis que o historiador considera ser uma boa ideia para o novo grupo: Vencidos da Vida… Aos parlamentares, seguiram-se os literatos (Ramalho, Eça de Queiroz e Junqueiro) e depois os palacianos, próximos do Príncipe D. Carlos (Bernardo Pindela, Sabugosa, Soveral e Mayer). Esclareça-se que é o grupo alargado que está em causa, nos jantares de 1889. E é o «Tempo», jornal de Carlos Lobo de Ávila, que nos permite fazer o seu elenco. Em 16 de fevereiro de 1889, juntam-se oito em casa de Bernardo Pindela (Ficalho, Sabugosa, Ramalho, Oliveira Martins, António Cândido, Carlos Mayer e Lobo de Ávila). Em 11 de março, há jantar no Hotel Braganza. A 20, «os vencidos» encontram-se no mesmo hotel para acolher Luís de Soveral, chegado de Londres, onde era 1º secretário da Legação portuguesa. Em 26 de março, ainda no Braganza, recebem Eça de Queiroz, vindo de Paris, tendo Guerra Junqueiro justificado a falta, por se encontrar no Minho, com o envio dois alexandrinos. Em 29, foi a vez de Carlos Mayer oferecer jantar em sua casa, a que também não compareceu Junqueiro… Neste caso, houve música, tendo Ramalho e António Cândido tocado rabeca e todos seguido para o S. Carlos, onde se cantava o «Otelo» de Verdi. Mas voltemos à lista: a 10 de abril, encontraram-se no Tavares e no dia 2 de maio regressaram a S. Domingos, à Lapa, para almoçar na casa de Bernardo Pindela. Na semana seguinte, a 9, o regenerador António Serpa Pimentel foi convidado pelo grupo, no Braganza (o que causou grande vozearia e especulação política). No dia seguinte, Jorge O’Neill convidou para sua casa, tendo faltado Junqueiro, Pindela e Cândido. Em 14 de maio, houve jantar em casa do Conde de Valbom, com a presença de Junqueiro, Eça e Oliveira Martins, Pindela e Alberto Braga. A 17 de maio, celebraram-se os 29 anos de Carlos Lobo de Ávila, em casa de seu pai, o Conde de Valbom, onde foi cantado, com versos de Sabugosa, o hino humorístico do grupo, com música da «Rosa Tirana». Por fim, a 21 de maio, houve novo jantar em S. Domingos, à Lapa, a que faltaram Ficalho e Sabugosa. Esta é a lista coeva, tudo apontando, assim, para que tenha sido 2 de maio de 1889 o dia em que o fotógrafo Augusto Bobone (1852-1910) realizou as fotografias que chegaram até nós, nas quais apenas falta António Cândido. Há, pois, só uma fotografia, realizada em estúdio, com a equipa completa dos onze membros, de que não temos indicação quando foi realizada em 1889.

ÚLTIMOS JANTARES: VENCIDOS OU VENCEDORES?
Eça referirá ainda um «jantar de Vencido» em Paris com Luís Soveral, na Maison d’Or, com bacalhau, após o que foram, com o Príncipe D. Carlos, visitar a Torre Eiffel, em 27 de agosto de 1889. E António Cândido dirá, em entrevista a Gomes Monteiro (ABC, 16.3.1922): «Oh! Os Vencidos da Vida! – como isso vai distante. (…) A ideia da formação do grupo surgiu um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares, na rua Larga de S. Roque. Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram e, pouco depois, o Conde Sabugosa compunha uns versos que, com música da Rosa Tirana constituíam o hino do nosso grupo. (…) Soltando sempre as suas gargalhadas espirituosas e cáusticas continuavam a fazer servir jantares elegantes em que se chegou a gastar dezoito vinténs de pão e bacalhau e dezoito mil réis de champanhe…». E a «águia do Marão» lembrava ainda o jantar de despedida, oferecido a Antero de Quental, de finais de maio de 1891, no Tavares… «Pobre amigo! Parece-me estar a vê-lo… No seu olhar melancólico e profundo, em que se adivinhava a nostalgia do Além, pairava já a visão da morte que tão tragicamente o arrebataria. Pobre Antero!»… Sabugosa (lembrado por Silva Gaio) disse que o «vencidismo» era difícil de classificar. «Foi um estado de espírito originado de afinidades já existentes e das que uma convivência delas nascida, mais avolumou e multiplicou». E Eça recordou que os detratores talvez se irritassem pelo facto de se chamarem a si Vencidos «aqueles que para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores». Este, no fundo, é o grande tema. A cultura portuguesa do século XX foi profundamente marcada por esses homens que se chamaram de vencidos criticamente por causa daquilo que Eduardo Lourenço sintetizou: «interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero e de parte da sua geração, para saber se ainda éramos viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência». Daí Unamuno ter considerado esse o nosso século de ouro. Não poderia haver fatalismo, mas sim sentido crítico, para que os mitos não se tornassem bezerros de ouro.

 

© Direitos reservados. Centro Nacional de Cultura.
Guilherme d’Oliveira Martins.

OLHAR E VER

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Muro de Berlim

 

10. MURO

Recentemente, o Süddeutsche Zeitung, de Munique, publicava um artigo assinado por Verena Mayer que, a dado passo, depois de referir como o célebre Muro, qual Madona de Berlim, atrai hoje ainda milhares de turistas, escrevia: Mas há os que moram cá, os Berlinenses. A maioria deles quis sempre desfazer-se do Muro, quer do que existia realmente, quer daquele - tantas vezes evocado - que persistia nas cabeças. Isso fez do Muro de Berlim uma curiosidade complexa, para não dizer um monumento dialéctico. Esse estigma, que se devia imperativamente destruir e remeter para o cemitério da História, é hoje uma atracção turística apreciada e cuidadosamente tratada... Talvez por essa contradição, que torna, diz nos a autora do artigo, o Muro numa curiosidade complexa, me ocorreu a disputa secular - entre exegetas muçulmanos do Corão - sobre a interpretação do versículo  257 da segunda surata (a da Vitela) : Nada de violência em matéria de religião. A verdade já se distingue bem do erro. Para todos esses teólogos do Islão, penso eu, não há salvação possível fora da fé islâmica. Mas o castigo reservado aos infiéis, para muitos deles, está nas mãos de Deus, que conhece os corações. E parece-me natural que o livro da revelação islâmica, contemporâneo de um movimento arábico que, condenando os ídolos, apela à união de um povo pela sua conversão ao Deus único, ele próprio se interrogue sobre a fé de muitos membros desse mesmo povo - incluindo de etnia árabe - que eram judeus ou cristãos (versículo 78 da terceira surata) : Diz : acreditamos em Deus, no que nos enviou, no que Ele revelou a Abraão, Ismael, Jacó e às doze tribos; acreditamos nos livros santos que Moisés, Jesus e os profetas receberam do céu ; não pomos diferença alguma entre eles, submetêmo-nos à vontade de Deus. E logo a seguir responde (?) o versículo 79 : Quem quiser outro culto que a submissão a Deus (Islão), esse culto não lhe será aceite, e ele será, no outro mundo, do número dos infelizes. Levanta-se assim um muro a separar fiéis e infiéis. Mas o versículo 28 da surata XVIII (A Caverna) diz claramente: A verdade vem de Deus : quem quiser crer, creia, quem quiser ser infiel, seja! Pela nossa parte (Alá), preparámos para os ímpios um fogo que os rodeará de suas paredes. A separação final, só Deus a decidirá, para a outra vida. Nesta presente, as diferentes escolas de pensamento islâmico, desde os muatazilitas do sec. VIII que, sob os primeiros califas abássidas, por influência do  pensamento helénico, privilegiavam o raciocínio lógico, foram concordando em que, sendo ela o tempo da provação, faria mais sentido aceitar a liberdade religiosa dos infiéis, designadamente os "do Livro", quando muito submetendo-os ao tributo devido pela sua condição de dhimi, a djezia. E houve bastante tolerância, como regra, nos califados e reinos muçulmanos, bem como no Império Otomano. Nos nossos dias, curiosamente, talvez pela desilusão e ressentimento consequentes à decadência árabe e à queda daquele império, que colocaram os muçulmanos da bacia do Mediterrâneo sob domínio ou influência da cristandade europeia, melhor dito, das potências ou do pensamento ocidental, a reacção islâmica espraiou-se desde vários polos de reflexão sobre o islão e a modernidade até à reafirmação da vocação necessariamente universalista e dominadora do Islão. Um dos pensadores mais influentes das correntes radicais do islamismo político, como a Fraternidade Muçulmana, o egípcio Sayid Qarb (1906-1965), defendeu precisamente que, pela sua evidente verdade, o islão não tinha nem devia convencer pela coacção. Mas... -  como explica, na sua A History of the Arab Peoples, Albert Hourani, árabe e católico, professor no St. Antony´s College da Universidade de Oxford  - para Qarb, o caminho para uma verdadeira sociedade islâmica, começa na convicção individual, transformada em imagem viva no coração e corporizada num  programa de acção. Os que aceitarem este programa formarão uma vanguarda de dedicados combatentes, usando todos os meios, incluindo a jihad, que não devem todavia ser tomados até que os combatentes tenham atingido pureza interior, mas que devem ser depois prosseguidos, se necessário, não apenas para defesa, mas para destruir toda a adoração de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impedem os homens de aceitar o Islão... O mesmo Sayid Qarb afirmava assim como o ocidente já não tem os valores indispensáveis à nova civilização material: A liderança do homem ocidental no mundo humano está a chegar ao fim, não porque a civilização ocidental esteja materialmente falida ou tenha perdido a sua força económica ou militar, mas porque a ordem ocidental já desempenhou o seu papel e não mais possui o capital de valores que lhe conferiram predominância... A revolução científica já não conta, nem o nacionalismo e as comunidades territorialmente limitadas, que no tempo dele cresceram... Chegou a vez do Islão. Mas outros pensadores antes se debruçaram sobre a capacidade de resposta daquele ao mundo contemporâneo. O sírio Sadiq Jalal al-Asm defendeu que, sendo impossível considerar verdadeiras todas as afirmações do Corão sobre o mundo e a vida, ele devia ser esquecido em qualquer discurso científico ou filosófico, até por pretender ser, por definição, a própria palavra de Deus e, afinal, não acertar sempre. Outros, como o tunísio Hisham Djait, já pedem uma separação menos radical da sociedade e da religião : Somos pelo laicismo, mas por um laicismo que não seja hostil ao Islão, e não vá buscar a sua motivação a sentimentos anti-islâmicos. Na nossa angustiada jornada temos preservado a própria essência da fé, uma profunda e desenraizável ternura por esta religião que iluminou a nossa juventude e foi o nosso primeiro Guia para Deus e a descoberta do Absoluto... O nosso laicismo tem os seus limites no reconhecimento da relação essencial entre o estado, certos elementos de conduta social e moral, a estrutura da personalidade colectiva e a fé islâmica, e no sermos pela manutenção dessa fé e pela sua reforma. A reforma não deve ser feita em oposição à religião, deve ser feita simultaneamente pela religião, na religião e independentemente dela (em "La personnalité et le devenir arabo-islamiques", Paris,1974). Afinal, o que encontramos neste texto é um apelo à tradição, tal como ela deve ser entendida e praticada, para que não haja muro entre o nosso presente e o nosso passado, entre a nossa fé e a dos outros como estigma de separação e condenação. Num mundo em que é cada vez mais impossível ignorarmos os outros como notícia de existência próxima, somos todos chamados a dar o passo fraterno de João Paulo II e Gorbatchev, que destruiu a "cortina de ferro", e de que o derrube do "muro de Berlim"  se tornou símbolo. Curiosamente, no país em que a "metade soviética" tinha na altura um líder (Honecker) que era, afirmativamente, o maior adversário de Gorbatchev na Europa de Leste… Na instabilidade em que hoje vivemos, infelizmente, o medo do outro, ou simplesmente o ódio e o incontrolado desejo de assentar poderes enclausurados em nome de hipotéticas seguranças, não só tem levado a conflitos e intervenções bélicas, como fez proliferar, por esse mundo fora, a imposição de muros por várias partes construídos. Se a queda do de Berlim, em 1989, marca uma ligeira baixa e curta estabilização do seu número total (então em cerca de 15), posteriormente, sobretudo a partir dos atentados de Setembro de 2001, ele cresce em flecha e atinge os 60 este ano. Invocando o necessário controlo de fluxos migratórios, a protecção contra ataques terroristas, a contenção de conflitos armados ou de tráfegos de drogas, ergueram-se barreiras físicas entre Israel e a Síria, Líbano, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Egipto e Jordânia, entre a Índia e o Paquistão, Birmânia e Bangladesh, o Irão e o Afeganistão, entre emiratos árabes, a Arábia Saudita e outros, em Chipre, Kazaquistão e  Uzbequistão, entre os EU da América e México, Marrocos e Saara Ocidental, enclaves espanhóis em Marrocos, África do Sul, Moçambique, Zimbabwe e Bostwana, Irão e Iraque, a Turquia e Bulgária e Grécia, e mais ainda, sem falar nas extensões e novidades previstas... O Muro ubíquo, esse está no pensarsentir dos homens, sempre que o enfraquecimento das tradições de valores de uma civilização leva as sociedades à xenofobia e à agorafobia. Temos de aprender a lidar, democraticamente  ou, melhor dizendo  -  para lembrar a palavra de ordem de João Paulo II  - solidariamente, com a globalização, num mundo complexo, cheio de mágoas da História e de injustiças presentes. Para animar a reflexão, deixo a resposta da canadiana Elisabeth Vallet, professora na Universidade de Québec e autora de Borders, Fences and Walls -  State of Insecurity? a uma pergunta feita pelo Courrier International "Porque é que montou um programa de investigação global sobre os muros?"): Os muros pareciam ser uma resposta a um mundo que tinha evoluído e ao qual tomávamos o pulso porque o 11 de Setembro de 2001 tinha acontecido. A novidade era que as democracias se muravam. O fenómeno tornava-se global precisamente quando tínhamos passado uma década a falar de um mundo sem fronteiras. Em 2007 conseguimos um financiamento para a investigação e reunimos um grupo de quase todos os que estudam os muros fronteiriços. A nossa hipótese era a de que o 11 de Setembro tinha literalmente gerado uma crispação identitária que se manifestou com a construção de muros. A nossa intuição inicial estava errada. Surgiu então a ideia de que a globalização aberta era um embuste e que a maioria das pessoas sofriam mais as consequências da globalização do que dela beneficiavam. E assim se inscrevia o muro numa lógica de roda dentada. Queiramos que a globalização se vá fazendo pela solidariedade.


Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Arte povera e a experiência primária do real.
 

‘The commonplace has entered the sphere of art. The insignificant has begun to exist. Physical presence and behaviour have become art. They eliminate from their inquiry all which may seem mimetic reflection and representation or linguistic custom in order to attain a new kind of art.’, Germano Celant In ‘Arte povera – Im spazio’, 1967
 

No final da década de 1960, assistiu-se à desmaterialização do objecto da arte, isto é, a arte não precisa mais ter uma forma física para ser arte. Palavras como conceito, sistema, abertura, estrutura, processo, situação, informação, público e sociedade tinham particular importância na produção da arte. O trabalho do artista deve então ser feito a partir da própria situação real – podendo o fruidor intervir nessa situação e até mesmo alterá-la. Não existe mais o culto do objecto isolado. Não existe mais uma cultura universal, aceita-se trabalhar com novas e diversas realidades.  

Ora, em resposta à Pop Art e ao minimalismo surge em Itália um grupo de artistas (como por exemplo Giuseppe Penone, Michelangelo Pistoletto, Mario Merz e Marisa Merz) que reclama por uma produção de objectos de arte capaz de contrariar a ideia de riqueza, de poder, trabalhando contra a ordem tecnológica do mundo, contra a produção industrial na arte. A Arte Povera é um fenómeno que surge associado à recusa do artista em ser artista. O artista não deve fazer uma obra de arte porque a obra de arte é um objecto e numa sociedade de consumo é mercadoria associada à riqueza e ao poder. O artista não é um produtor mas um indivíduo dedicado à projecção independente da actividade humana (Christov-Bakargiev: 1999). O artista agora interessa-se pelo presente e pelo homem real. (Argan: 1992)

Ao ser arte do presente tem de ser um acontecimento integrado numa realidade próxima e reconhecível, envolvendo directamente o público em situações enigmáticas e desconcertantes. O artista e o fruidor passam a ser em simultâneo espectador-actor.

Na expressão de Germano Celant o lugar-comum entra na esfera da arte, o insignificante começa a existir, a presença física e o comportamento tornam-se arte. (Christov-Bakargiev: 1999)

O grupo Arte Povera está sobretudo interessado em descobrir intersecções entre a arte, a vida, a natureza e a cultura. É um fenómeno que se manifesta ora conceptual, ora sensual, literal ou metafórico, poético. É um processo do presente, que aceita a contradição, a complexidade, a abertura, a fluidez e a subjectividade. Os artistas não rejeitam totalmente as técnicas tradicionais – até porque esta batalha já tinha sido programada por uma geração anterior com Yves Klein e Piero Manzoni.

A Arte Povera traz de volta à sociedade acontecimentos essenciais (como a vida e a morte). E é pobre no sentido em que reduz o objecto artístico ao elementar, através de gestos e proposições áridas – é por isso um fenómeno anti-intelectual, como se pretende-se atingir um estado poético a partir dos meios mais simples (Christov-Bakargiev: 1999, p.20). A experiência que cada pessoa tem do mundo torna-se essencial, implicando uma libertação gradual de preconceitos, regras e normas da linguagem da representação e da ficção que impedem uma ligação simples e significativa do eu com o mundo. A Arte Povera não dispõe de uma técnica própria e não procede a uma selecção de materiais artísticos mas utiliza tudo o que constitui matéria da realidade mundana manufacturada (néones, vidros, panos, tubos) ou matéria orgânica (vegetais, animais vivos, madeira, terra, fogo, água) ou ainda nem mesmo utiliza material algum, tomando como tal o ambiente, as condições do aqui e do agora ou até mesmo a pessoa física do artista. Não se pretende descobrir a relação entre o natural e o artificial, mas sim entre estruturas idênticas como natureza e cultura. A arte passa a ser autêntica e espontânea, passa a ser uma experiência real, vivida directamente, primária e não mediada através de uma representação (figurativa ou abstracta), ideologia ou de uma linguagem codificada. A energia da experiência primária pretende corresponder por um lado a forças físicas básicas da natureza (como a gravidade e a electricidade), por outro lado corresponder a elementos fundamentais da natureza humana (como vitalidade, memória e emoção).

A crítica como meio credível para descodificar e avaliar o fenómeno artístico é rejeitada e antes substituída por comentários ou entrevistas aos artistas. O que interessa na Arte Povera é maximizar a experiência universal e individual com o mínimo de linguagem. É portanto uma arte pública porque se alimenta da interacção directa e concreta do Homem com o seu contexto cultural e ambiental. (Christov-Bakargiev, 1999)

Ana Ruepp

POESIA ÁRABE

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Al-Corão

3. AL-AKHTAL (630-710)
 

Poeta árabe cristão, viveu, como Djamil, que era muçulmano, já no islão dos Omíadas, tendo aliás sido considerado, pelo quinto califa daquela dinastia, ´Abd-al-Malik (685-705), o cantor da excelência dessa família reinante. Nascido numa tribo de beduínos nómadas, com a qual fazia as suas peregrinações ao santuário de São Sérgio, manteve-se sempre fiel a esse estilo de vida e à sua fé cristã, que toda a vida testemunhou por um crucifixo que trazia pendurado ao pescoço. Nada disso o impediu de gozar alguma boémia, apreciando bons vinhos e a companhia galante de cantadeiras. E era reconhecido como homem de bem, pessoa íntegra e fiel. Um dos seus elogios da dinastia Omíada reza assim:

      Grupo coeso em defesa do direito,

      aborrece as indecências verbais,

      foge a vergonha, e de paciência é feito

      o seu combate às coisas mais fatais.

      Sol de  inimizade será até quando

      recusarmos a sua direcção...

      Mas pela bondade se vai ilustrando,

      alto sol da humana condição!

Todavia, outros poemas, como o seguinte, dizem melhor o talento do poeta, o seu poder de observação, e sobretudo esse olhar realista e moralista, simultaneamente irónico e compassivo:


Um bêbado

      Abatido em combate pelo vinho

      a custo ergue a cabeça, bebe e berra,

      pesam-lhe os ossos, mexem de mansinho

      as juntas do seu corpo que se emperra...

      Sustemo-lo entre nós sempre tombando,

      arrastamos-lhe o corpo feito morto,

      alheio nem parece ir-se lembrando

      de que pensava e não andava torto...

      Colado ao chão, como se lapa fosse,

      levantá-lo é torná-lo mais pesado,

      levá-lo para o quarto, nem a couce,

      mas vai como lixo em saco arrastado.

A métrica "tawil" apresenta uma forma única do primeiro verso e três variantes do segundo. Neste poema, a rima era em "lu":  é claro que o reinventámos em português, procurando manter-lhe os propósitos.


Camilo Martins de Oliveira

"UM DEMÓNIO CRÍTICO E IRÓNICO".

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Falar de cultura em tempos de crise não pode significar uma fuga à realidade. Estamos no centro das preocupações fundamentais que devem situar-se na ordem do dia da cidadania ativa. É a democracia que está em causa – num tempo em que a «legitimidade do exercício» se tornou mais importante do que nunca. É preciso encontrarmos caminhos para que a confiança e a coesão social, a verdade e a justiça sejam sentidas pelas pessoas. De que estamos a falar? Antes do mais, de um triângulo envolvendo Educação, Ciência e Cultura. A ligação entre as três realidades é fundamental. Sem o valor da aprendizagem e a capacidade de transformar a informação em conhecimento, sem ideias claras e distintas, sem o trabalho e a exigência, não combateremos a mediocridade. É uma questão de sobrevivência. O sentido crítico, a investigação e a experiência, a cooperação científica, a avaliação, a relevância e a comparação internacional são caminhos contra a irrelevância. Sem a ligação entre as Humanidades e a investigação científica, sem o diálogo entre as artes e o conhecimento, sem a defesa do património histórico, sem atenção à contemporaneidade, não haverá desenvolvimento humano digno desse nome. 

 

Não se caia na tremenda armadilha do «fatalismo do atraso» ou da condenação de tudo o que se fez. Sempre que nos acomodámos decaímos. Se avançámos na educação e formação temos de prosseguir, percebendo que nunca há conhecimentos a mais. Nos últimos quarenta anos, progredimos bastante – mas importa continuar, com exigência redobrada, já que o mundo não esteve à nossa espera. Precisamos de pôr os olhos no que de melhor se faz noutros países – apostando na colaboração e no intercâmbio, com aproveitamento dos nossos jovens que partem, e que serão auxiliares preciosos para uma internacionalização de qualidade. A nossa inserção na União Europeia deverá, por isso, ser proactiva e não meramente defensiva. Daí que as saídas económicas, o rigor financeiro público, o governo económico europeu e o desenvolvimento sustentável com justiça distributiva obriguem a valorizar a qualidade da democracia e a criação cultural. E temos de insistir na importância das Humanidades, não fechadas nos salões, mas capazes de compreender os caminhos novos do pensamento e da ciência. 

Ao entrar na celebração dos setenta anos de vida (!), o Centro Nacional de Cultura (CNC) tem procurado ser fiel ao espírito dos seus principais artífices: Sophia e Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva ou José-Augusto França. Importa compreender o que um dia disse Vasco Graça Moura sobre o facto de o CNC fazer duravelmente o que tantas vezes o Estado não consegue. Lembremo-nos da Convenção do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural, da experiência pioneira das rotas culturais, do património imaterial da UNESCO, do «Poems from the Portuguese», do «Disquiet», dos «Portugueses ao Encontro da sua História» (de que «Na Senda de Fernão Mendes», Gradiva, 2014, é uma memória breve)… Isto, sem falar da importância do teatro de Fernando Amado e Almada Negreiros, da Casa da Comédia, de António José Saraiva, de Eduardo Lourenço, da tradição de «O Tempo e o Modo» e de «Raiz e Utopia»… De facto, a cultura não se confunde com jogos florais. Obriga a pôr a cidadania e a dignidade humana em lugar primeiro, e a garantir que o poder democrático prevaleça sobre os interesses económicos. Precisamos de apostar na qualidade e na justiça, por isso Bobbio falou-nos da liberdade igual e da igualdade livre. Como disse Eduardo Lourenço: «a cultura – mesmo a mais excitante – não é um fim em si mesma. Precisamos de um demónio crítico e irónico para nos ajudar a viver com menos delírio e euforia…» («A Nau de Ícaro», 1999). Em tempo de crise, falar de cultura, de ensinar e aprender e da investigação científica, a serio, é procurar, no fundo, caminhos de Renascença…

 

Guilherme d’Oliveira Martins