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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OLHAR E VER

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The Muslim Jesus, Tarif Khalidi


15. NÃO SE DEIXE PARA AMANHÃ...

Sem que se possa falar de sincretismo religioso, é facto que, no decurso dos primeiros séculos do islamismo, designadamente os VII e VIII da nossa era, a coexistência, num espaço que se islamizava, de muçulmanos e cristãos (dos quais uns se convertiam, outros não) deu azo, não só ao convívio e à tolerância entre as pessoas, como ainda à abertura e recepção de tradições - orais e escritas, sobretudo de origem cristã, incluindo fontes apócrifas - pelos seguidores de Maomé. Aliás, já vários autores - árabes e europeus, muçulmanos e cristãos - recolheram e compilaram textos de narrativas e ditos, naquele tempo escritos em arábico, chegando mesmo a intitular a colectânea de Evangelho Muçulmano. Recorde-se que Jesus Cristo, e Maria sua mãe, são veneráveis figuras do Corão, que também se refere de modo distinto aos cristãos: Reconhecerás que aqueles que alimentam um ódio mais violento contra os fiéis são os judeus e os idólatras, e que os que estão mais dispostos a amá-los são os homens que se dizem cristãos: porque têm padres e monges, homens isentos de qualquer orgulho (Corão, 5, 85). E é conhecido aquele episódio da vida de Maomé que, aquando da conquista de Meca, encontrou na caaba uma imagem da Virgem com o Menino, que cobriu com um véu, ordenando então que todos os ídolos e imagens fossem destruídos, menos aquela...  Pessoalmente, gosto de conviver com a literatura cristã apócrifa, à qual, aliás, a piedade católica foi buscar muitas cenas e figuras que alimentam o riquíssimo imaginário da devoção popular, a começar pela maravilha cósmica do presépio. Eis, para mim, um modo de compreender melhor culturas em que se moveram  comunidades antigas, isto é, os crentes e a sua circunstância...  Mas só recentemente dei com literatura de Jesus na tradição árabe e islâmica, literatura essa que, como os textos apócrifos, foi sobrevivendo e sendo tolerada, e até estimada, muito embora não sendo canonicamente incorporada. Traduzo adiante alguns passos desse Evangelho Muçulmano, respigados do livro The Muslim Jesus, do professor Tarif Khalidi (Harvard University Press, 2001). Note-se bem que em ponto algum desses escritos se encontra ou pode inferir-se a natureza divina de Jesus Cristo. Este é, também aí, naturalmente, o Jesus corânico, grande entre os profetas, mas apenas um homem. Todavia, tal como se põem na boca de Jesus ensinamentos retirados do Corão, também surgem pensamentos e mensagens claramente transferidos dos evangelhos cristãos, donde se depreende que estes eram conhecidos e citados naquele universo islâmico, quiçá aceites e meditados em tudo o que não contrariasse os princípios da fé muçulmana. Esses ditos não datam necessariamente do convívio cultural e religioso dos primeiros séculos do islão, são também fruto de leituras mais tardias dos evangelhos cristãos, designadamente por pensadores e místicos familiares do sufismo islâmico. Abu Hamid Al-Ghazali (grande figura do pensamento islâmico do sec.XII), por exemplo, parece ter sido leitor do evangelho de S. Mateus, ao qual vai buscar a inspiração para muitos dos seus conceitos. Assim, podemos reconhecer neste seu texto a parábola do semeador: Cristo disse: "As sementes crescem numa planície, mas não no meio de rochedos. Assim, a sabedoria também desabrocha no coração de um homem humilde, mas não de um homem orgulhoso. Não vedes como o homem que levanta a cabeça para o tecto esmagará a sabedoria, enquanto aquele que baixa a cabeça a abriga e protege? Mas a meditação poderá circunscrever um texto evangélico num quadro dogmático islâmico, como neste dito sobre a agonia de Jesus no jardim das oliveiras: Jesus disse aos seus discípulos: "Rogai a Deus que torne a minha agonia - quero dizer a minha morte - fácil, pois acabei por ter tanto medo da morte que o meu medo da morte me tornou a morte familiar... O Islão não reconhece a natureza divina de Cristo, e nega que ele seja Filho de Deus : Deus não pode ter filhos. Longe da sua glória tal blasfémia! Quando Ele decide uma coisa, diz: Seja!  -  e ela é (Corão, 19, 36). Jesus, filho de Maria é, pois uma criatura, ainda que nascido, por vontade de Deus, da Virgem. No Corão, quando Maria apresenta o menino à sua família, que logo estranha o comportamento dela, ela só lhes diz que interroguem a criança que está em seu berço. E esta fala: Sou o servidor de Deus. Deu-me o Livro e constituiu-me profeta. Quis que fosse bendito por toda a parte ; recomendou-me a oração e a esmola, durante toda a vida. E que fosse piedoso para com minha mãe; e nunca permitirá que eu seja rebelde e abjecto. A paz estará comigo no dia em que nasci, no dia em que morrer e no dia em que ressuscitar (Corão, 19, 31-34). Já no sec.XII, o historiador sírio Abu al-Qasim ibn-Asakir regista : Maria disse : "Durante o período em que estava grávida de Jesus, de cada vez que alguém em minha casa me falava, eu ouvia dentro de mim Jesus a louvar Deus. E sempre que estava só, sem ninguém ao pé de mim, eu falava com ele e ele comigo, apesar de o trazer ainda no ventre." Lembra-nos a narrativa da visitação, e eis também a Maria que guardava todas essas coisas em seu coração... Abdala ibn al-Mubarak, no 2º século da era islâmica (sec.VIII da nossa) comentava os ditos do profeta (Maomé), mas também escrevia: Jesus disse : "Se for dia de jejum para algum de vós, que ele perfume a cabeça e a barba e limpe os lábios, para que ninguém saiba que jejua. O que der com a mão direita, esconda-o da esquerda. Se rezar, baixe o cortinado da porta, porque Deus prodigaliza o louvor como prodigaliza os meios de subsistência... E para terminar esta breve evocação de como os espíritos da paz se podem sempre encontrar, lembro o diálogo como dever nosso de cada dia de hoje. E cito novamente Al-Ghazali: Jesus diz : "A vida terrena compõe-se de três dias: um ontem que não controlas, um amanhã a que não sabes se chegarás, e um hoje que deverás utilizar o melhor possível...

 

Camilo Martins de Oliveira