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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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OLHAR E VER

Papa Francisco em Istambul.JPG
Papa Francisco em Istambul

 

16. RECONHECIMENTO

I - O Hürriyet, jornal de Istambul, por ocasião da recente visita do papa Francisco à Turquia, publicou um artigo assinado por Mustafá Akyol ("companheiro de caminhada monoteísta"), que começava assim: Caro papa Francisco: É como simples cidadão turco, e como muçulmano, que quero desejar-vos as boas vindas a Ankara, e partilhar convosco algumas reflexões sobre a Turquia, o islão e mesmo, se mo permitirdes, sobre a vossa missão. Não vos ensinarei nada de novo, se vos disser que o mundo muçulmano não está de boa saúde. Direi mesmo que nunca esteve tão mal... E depois de referir o subdesenvolvimento do mundo islâmico e o surto de fanatismos, contesta a tese laica de que é a religião a causa de todos esses males, dando como exemplo - disso não ser necessariamente verdadeiro - a evolução da Igreja Católica: Em dada época, um pouco como os militantes islamistas de hoje, ela lançava guerras santas contra os "infiéis" e castigava os "hereges". Mas hoje, é essa mesma Igreja Católica que abre sopas populares para os mais pobres e centros de cuidados infantis. A própria história da vossa fé  mostra que a religião pode pôr-se ao serviço do bem, mas também ao serviço do mal. A grande questão que hoje se coloca ao islão é portanto a seguinte: como bater em brecha ou converter esses fanáticos muçulmanos e tornar de  novo o islão num instrumento de paz, de liberdade e de caridade? Sobre isto, a vossa experiência e a evolução da doutrina católica podem revelar-se muito preciosas e permitir que os meus correligionários abram os olhos. O que o Vaticano II conseguiu nos anos 1960 foi extraordinário, para já não falar nos vossos admiráveis esforços para abrir as vossas comunidades aos ateus e aos homossexuais. É crucial para os muçulmanos (e talvez para os cristãos conservadores) compreender que essas decisões progressistas não vos desviam da vossa fé, mas, pelo contrário, vos permitem percorrer caminhos ainda inexplorados. Permiti-me, pois, exprimir-vos toda a minha gratidão pela vossa vontade de dialogar, ainda e sempre, com os muçulmanos. Sobretudo, não vos desencorajeis. A bonomia e bondade de Francisco, nosso irmão sénior, são fiel testemunho da alegria íntima da mensagem do evangelho de Jesus Cristo : a procura de Deus pelo amor fraterno. O cristão reconhece-se pela solicitude, pela abertura aos outros, pela partilha, pelo diálogo. E  neste sentido o cristianismo é profético, anuncia a comunhão universal na plenitude dos tempos.

 

II - Mas, presente na nossa actualidade, o que me tocou ainda, neste depoimento de um muçulmano, foi a referência explícita à modéstia e humildade do papa Francisco: pela simplicidade dos alojamentos onde se alberga, dos carros em que se transporta, do modo como se veste e anda entre a gente... Comoveu-me ler um muçulmano que confessa: Bem haja por nos lembrar que a grandeza de um homem não se mede pelo seu nível de vida, mas antes pela sua humildade. "Os últimos serão os primeiros" - dizia um Nazareno que ambos amamos - "e os primeiros serão os últimos"... E acrescento que não é só no estilo de estar que Francisco é, sem hipocrisia, e como ele mesmo diz, um pecador como os outros. É no modo como pede desculpa pelas infâmias pedófilas e as castiga, tal como pelos erros que, em nome de Deus ou da "sabedoria divina", a estrutura clerical e "oficial" da Igreja, em nome desta, infelizmente comete. E que tantos clérigos, ainda hoje, mesmo e ainda quanto ao passado, talvez por escassa inteligência ou demasiada hipocrisia (quem sabe?), teimam em não reconhecer : das perseguições e iniquidades inquisitoriais que assassinaram pessoas, até à negação de evidências científicas (descobertas da razão que Deus nos deu), como a do heliocentrismo. Falo desta, porque o processo de Galileu não foi apenas a coacção de um homem idoso à negação do que tinha racionalmente demonstrado .(O homem de razão e de fé desdisse e continuou pensando o que pensava, tal como muitos outros, incluindo religiosos professos e talvez o próprio papa Urbano VIII, que, por prudência, magnanimidade ou hipocrisia - quem conhece o coração dos homens? - sabiam que o sistema que conheciam era heliocêntrico e que o contrário era simplesmente pretender impor-se, à descoberta racional do mundo, uma narrativa mítica). Foram mais de três séculos de ridícula teimosia, em que eram postos, no Index dos livros proibidos, todos os escritos que defendessem a ideia de que a Terra gira à volta do Sol... De 1633 a 1992... (E não refiro os trabalhos de exegese bíblica, hoje reeditados, que, desde o sec.XVII, na senda de Richard Simon foram sendo feitos, nem "A Origem das Espécies" de Charles Darwin... Aquele clero ilustrado, que por cá hoje gozamos em muitos passos do nosso Eça, ainda anda por aí...). Foi preciso esperar que João Paulo II, já cansado, na última década do sec. XX, pedisse timidamente desculpa por uma aberração, que os doutos ignorantes "conservadores" (conservadores de quê?) iam reafirmando, orgulhosamente. Façamos votos de que seja mais humilde essa gente que teima em pensar que é seu direito falar pela Igreja toda, quando nem pela própria cabeça puxam. E a todos nos guarde Deus desse orgulho a que Camões chamava "a vã glória de mandar". Lá saberia ele porquê... 

 

Camilo Martins de Oliveira