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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Kandinsky e a comunicação intersubjectiva.
 

‘Os meus livros ‘Do Espiritual na Arte’ e ‘O Cavaleiro Azul’ tinham por objectivo principal despertar as faculdades de viver o espiritual nas coisas materiais e abstractas que nos permitem viver experiências infinitas e necessárias para o futuro.’, Wassily Kandinsky
 

A partir de 1909, Wassily Kandinsky (1866-1944) começou a dividir os seus quadros em três grupos: ‘Impressões’, com referência ainda a um modelo naturalista; ‘Improvisações’, que reflectiam emoções espontâneas; e ‘Composições’, que diziam respeito a um grau mais elevado e mais complexo, alcançado após longos trabalhos preparatórios.

Kandinsky acredita que a arte nasce de uma necessidade interior, do conteúdo – só é autêntica se possuir uma ressonância imensa e apenas subsiste se tiver uma alma (conteúdo) no seu corpo (forma). Para Kandinsky, é importante saber se a forma surgiu de uma necessidade maior e mais profunda, porque cada obra encerra toda uma vida. Em ‘Do Espiritual na Arte’, Kandinsky explica que toda a forma tem um conteúdo intrínseco próprio – não um conteúdo objectivo ou de conhecimento (como aquele que permite conhecer e representar o espaço através de formas geométricas), mas sim um conteúdo-força, uma capacidade de agir como estímulo psicológico. A leitura da tese de Wilhelm Worringer, ‘Abstraktion und Einfühlung’ (1907) veio fortalecer ainda mais esta ideia, de que a arte não necessita de um motivo figurativo – mas sim de uma orientação fortemente espiritualista e assim poder contestar o fundamento racionalista e implicitamente realista, por exemplo do cubismo (porque, para Kandinsky o cubismo era um processo que ainda queria conservar a materialidade aparente das coisas). Kandinsky defende que a esfera da arte se distingue nitidamente da esfera da natureza e que a determinação das formas artísticas depende exclusivamente de impulsos interiores. Kandinsky interessava-se por teorias ocultas, leu continuamente obras de Rudolf Steiner e Helena Petrovna Blavatsky. Mas interessou-se principalmente pela música e pela arte teatral contemporâneas.

Giulio Carlo Argan em ‘Arte Moderna’ (2002), argumenta que, para Kandinsky, a categoria do significante (forma material que origina o signo) é incomensuravelmente mais ampla e mais aderente à realidade da existência do que a categoria do racional. Kandinsky deseja, por isso, uma comunicação intersubjectiva, de homem para homem, sem intermédio do objecto ou da natureza. E Argan continua ao confirmar que uma forma é significante por assumir um significado, todavia não se torna significante a não ser na consciência de quem a percebe. O espiritual é o não-racional, é a totalidade da existência, na qual a realidade psíquica não se diferencia da realidade física. O signo é algo que nasce de um impulso profundo e portanto é inseparável do gesto. Segundo Argan, Kandinsky deseja sobretudo remeter-se a um estágio inicial de pura intencionalidade. E assim, produzir impressões que interessam ao sujeito, não pelo modo de representarem objectos, mas pela existência maior de se constituírem através de extâses e movimentos, tensões e distensões. E é justamente a condição existencial do homem primitivo, a que Worringer se refere, que mais importa para Kandinsky – uma existência que recebe imagens incoerentes da realidade, a partir das quais deduz imagens conceptuais que orientam um mundo de fenómenos que parece agitado, caótico e incognoscível. Estabelece-se assim uma continuidade entre o não objectivado e o não subjectivado. Kandinsky vai além do episódio psíquico, toca na condição primária do ser. A expressão gráfica da condição primária e essencial da existência é uma maneira de tomar consciência dela e assim tomar consciência de toda uma realidade que escapa à consciência (ordem racional dos fenómenos). A arte, então para Kandinsky, é a consciência de algo que de outra forma não se teria consciência – e permite ampliar a experiência que o homem tem da realidade e abrir novas possibilidades. Uma obra de arte não é uma transmissão de formas mas sim de forças: é a existência do artista que se liga directamente à dos outros (modo estético=modo de existir).

Segundo Kandinsly, na mente da sua época pesava o materialismo. Kandinsky, juntamente com outros pensadores e filósofos do seu tempo, partilhava o sentimento da mudança dos tempos, bem como a convicção de que a humanidade necessitava de uma introspecção espiritual. Após a leitura do clássico teosófico ‘As Forma do Pensamento’ de Annie Besant e C.W. Leadbeater (1908), Kandinsky foi incitado a apresentar formas luminosas cercadas por uma aura – para ele, tratava-se da representação visual do espiritual em cores e formas abstractas. Kandinsky tentou assim encontrar os fundamentos da relação, interior e secreta, entre o estímulo da cor e a reacção psicológico-espiritual sobre o espectador. Para Kandinsky a representação de conflitos, de ordem pictórica é o tema central a que se dedica. O objectivo da criação não é assim a procura pela harmonia das cores, mas sim a representação do antagonismo provocante entre os contrastes – como acontece, por exemplo, no Quadro com Arco Preto. Acreditava na possibilidade das cores conseguirem projectar todas as áreas de experiência e de conhecimento do homem.

 

‘A vida espiritual, à qual a arte também pertence, traduz-se por um movimento complexo mas límpido, para cima e para a frente, e que se pode reduzir a um simples elemento. É o próprio movimento do conhecimento. Qualquer forma que adquira, conserva sempre o mesmo sentido profundo e a mesma finalidade.’, Kandinsky

 

Kandinsky diz que para o criador, que quer exprimir o seu universo interior, a imitação das coisas da natureza não deve ser um fim em si mesma. Logo que transpareça, a experiência íntima do artista e o poder emotivo que a torna comunicável com os outros, a arte inicia o caminho que lhe permite reencontrar o que havia perdido – o objecto da sua busca já não é o objecto material concreto, mas o seu próprio conteúdo, a sua essência e a sua alma.

 

Ana Ruepp

SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Sissi (Foto E. Rabending, 1867).

 

6. DE FRANCISCO JOSÉ A SISSI 

 

          Feri-te sem querer e não pretendo,

          sequer, de ti obter qualquer perdão:

          se ofensa houve, foi sem intenção;

          ou te sentes magoada não o sendo...

 

          Não sei se sentes ou te queres só,

          só sei querer-te bem e não consigo

          descanso nem perdão para comigo,

          no aperto rijo e fixo deste nó...

 

          Em gesto repetido a minha mão

          te entrega a flor primeira que te dei

          no baile em que foi teu meu coração...

 

          Amei-te por seres tão livre e viva

         -  eu que era só imperador e rei -

          e assim te guardei, mesmo fugitiva...

         

Imaginei este soneto em resposta a um poema que Sissi escreveu em Ischl - estância de veraneio da família imperial austríaca - em 1866, treze anos depois do baile em que o fado ditou o destino da que era então uma menina de dezasseis anos. O acontecimento é longamente relatado em carta, ao seu ministro, do embaixador de Napoleão III junto da corte de Viena de Áustria, de que aqui traduzo um passo:

Para a noite da chegada do Imperador, a arquiduquesa Sofia (mãe de Francisco José) reuniu algumas pessoas da sociedade de Ischl, para oferecer a seu filho a distracção de um baile improvisado. As princesas da Baviera foram naturalmente convidadas. O Imperador mostrou pressa em acorrer ao serão, e convidou a mais nova (Sissi) para a contradança que termina todos os bailes vienenses e na qual é costume o cavalheiro oferecer um raminho a outro par do que o seu. O Imperador deu a flor à sua prima. Esta derrogação aos usos espantou todos os assistentes. Mal nos tínhamos retirado quando o Imperador declarou a sua mãe que era Isabel a sua escolha final, que a desposaria ou não se casaria. Acrescentou que queria que a jovem princesa fosse consultada, mas não influenciada. E que esperaria vinte e quatro horas pela resposta. Resumo a complexidade da situação decorrente - e o prenúncio de duas trágicas peregrinações interiores - registando três reacções circunstantes ao sim, por escrito, que Isabel da Baviera confiou a sua futura sogra. Às oito da manhã de 19 de Agosto de 1853, a arquiduquesa Sofia recebe o bilhete de Sissi e entrega-o ao filho...e este corre para a residência da futura sogra dele e abraça efusivamente a sua prometida; antes, ao receber o pedido, a futura imperatriz teria exclamado "como poderia não amar esse homem? mas que ideia pensar em mim, que sou jovem e insignificante! farei tudo o que puder para felicidade dele, mas serei capaz?" ; Sofia ia repetindo a quem quisesse ouvi-la que "ninguém manda passear um Imperador de Áustria!". Isabel nunca aceitaria de bom grado a interferência de uma sogra autoritária na sua vida familiar, e terá sentido a obrigação da consumação do matrimónio como uma violação legal e politicamente necessária. Tentará, com Francisco José, escapar à primeira e recuperar a segunda por um amor vivido a dois. Interessar-se-á por causas sociais e políticas, procurará na natureza, na equitação, em viagens que configuram longas separações, esquecer o que a magoa. Terá muitos admiradores e apaixonados, não cometerá adultério algum. Representava os homens como burros, mas guardou sempre - como burro primeiro e lindo do seu coração  -  o imperador Francisco José.

Traduzo livremente o poema de Sissi que acima referi:

 

          Deixa-me só, deixa-me sozinha,

          nada me será doravante melhor:

          É impossível tudo ter,

          e eu não me contento de restos.

          Talvez te amasse demais

          e não soubesse esconder-to.

          Tornaste-me mortalmente triste,

          mas não te lo levo a mal,

          sempre me acolheste e mimaste...

          Tinhas um fim em vista

          e quando lá chegaste,

          deixaste-me partir:

          já te não servia.

          Ponho-me firmemente a caminho.

          Voltarei um dia?

          Talvez então te diga

          as mágoas amargas que me deste...

Os poemas de Sissi foram publicados pela Osterreichische Akademie der Wissenschaften, e os seus direitos de autor revertem a favor do Alto Comissariado para os Refugiados, à frente do qual está o português António Guterres.

 

Camilo Martins de Oliveira

PORVENTURA VERSOS

15.

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Meu menino, não me fujas

Que a guerra é perto

Tento refrear o passo, mas acredita

A força é dura, falo daquela que me leva

E a ti ao colo

 

Meu menino que exército se atreve

A separar-nos

A quebrantar lágrimas e abraços

 

O que farás tu se o mais potente te leva de mim

E eu solta te poderei ver correr mais do que certamente

Corríamos os dois enlaçados?

 

Meu menino, ata-me a ti

 

Já só te sigo, e mesmo que não me esperes

Ou aguardes, há guerra

 

Guerra muita na mágoa de não seres

O santo banhado de riso, alegria e ternura

Por quem minha vida se desfez e se fez dura

No ser e no parecer tua e tu meu

 

E qual dos dois o vencedor

Menino?

Que nesta guerra tudo se desfaz

E sente-se a faminta ternura

Mimoso o choro

Chantagem no afago

Julgados e experimentados nos juízos

E desta arte conforme ambos somos

 

Meu menino, não me fujas

Que a guerra orna

O eterno afecto

 

Lá por onde vai gente

E fio

Notícia inteira

Daquela que ainda

Não sabes

 

Teresa Bracinha Vieira

2015

 

16.

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Recebe de mim

Sem falta, meu olhar

Submisso no poder até quando

Dando-me de ti virei influída

Para descobrir o jeito

Que a unida esfera nos tem

Em leito de terra e mar

Segredo que se chama

Amor

 

Teresa Bracinha Vieira

2015

ATORES, ENCENADORES (XI)

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HOMENAGENS A UM GRANDE ATOR E A UMA GRANDE ATRIZ

Nos anos 60, inauguraram-se em Lisboa dois teatros em homenagem a dois grandes nomes do teatro português. O que está longe de ser inédito, mas merece destaque pela quase simultaneidade mas sobretudo pela referenciação dos artistas homenageados. Referimo-nos ao Teatro Villaret, iniciativa de Raul Solnado, que o fundou em 1964, e ao Teatro Maria Matos, este de 1969, num conjunto que envolve ainda um cinema e um hotel.

Vejamos um e outro caso.

O Teatro Villaret foi inovador pela rentabilização do espaço. Projetado pelo arquiteto Trindade Chagas com decoração de Daciano Costa, é o primeiro teatro de bolso, digamos assim, construído em Portugal: ocupa a cave de um prédio. O próprio Solnado o dirigiu durante alguns anos e desde logo marcou o espetáculo inaugural com uma adaptação modernizante do “Inspetor Geral” de Gogol. 

Falaremos de Raul Solnado noutro artigo. Mas esta evocação permite referenciar outras manifestações de espetáculo, no sentido mais abrangente do termo, conduzidas por Solnado no próprio Teatro Villaret. E citamos designadamente a partir de 1969 a realização e transmissão pela RTP do celebérrimo programa ZIP-ZIP e desde logo, na estreia, a entrevista com Almada Negreiros, que constituiu uma verdadeira lição televisiva: inesquecível, na verdade, o dialogo com Almada e a comunicabilidade da entrevista, numa época em que tais tipos de “espetáculo” no mais nobre sentido do termo, não eram comuns na televisão - e sobretudo naquele registo profundo mas extremamente acessível…E também no Teatro Villaret se efetuou, em 1965, a ultima intervenção de Maria Barroso como atriz (“Antígona” de Anouilh).

O Teatro foi depois dirigido por Artur Ramos, por Vasco Morgado e incidentalmente em desdobramento do  Teatro Nacional de D. Maria II. De 1965 a 1968 recebeu a Companhia Portuguesa de Comediantes, que encenou peças de Tenessee Williams e outros autores sobretudo norte-americanos, mas também o “António Marinheiro- o Édipo de Alfama” de Bernardo Santareno.

 O Teatro Villaret continua, até hoje, em plena atividade, numa linha eclética quase sempre de qualidade.

Ora, nestes termos, nada mais justo do que a homenagem a João Villaret (1913-1961), notável tanto no teatro declamado como na revista e na televisão – aí, mantendo durante longo período um programa de declamação de poetas portugueses contemporâneos.

 Fica na história do espetáculo em Portugal o seu talento e sobretudo a adaptabilidade a géneros e estilos diversos. Cita-se particularmente o seu envolvimento nos Comediantes de Lisboa, companhia que, de 1944 a 1950, renovou o repertório e o espetáculo teatral, sob a direção de Francisco Ribeiro: lembra-se, sobretudo o personagem Tatinho do “Baton” de Alfredo Cortez.

Esteve no teatro de revista desde o final dos anos 30 até 1959 e integrou em 1952 o elenco da primeira revista do Teatro Monumental -  “Lisboa Nova” de Fernando Santos, Almeida Amaral de Frederico Valério: são espetáculos ainda hoje evocados pela qualidade, e pelo elenco que reunia a jovem Laura Alves, Eugénio Salvador, Aida Batista, Teresa Gomes…   

 E recorda-se, no cinema, a curiosíssima intervenção de um personagem mudo em “O Pai Tirano” de Lopes Ribeiro ou o D. João III do “Camões” de Leitão de Barros, ou ainda no “Frei Luís de Sousa” e em  “O Primo Basílio” de António Lopes Ribeiro, esta em 1959.

Mas vejamos agora o Teatro Maria Matos. Inaugurado em 1969, Teatro Municipal, segundo projeto dos arquitetos Aníbal Barros da Fonseca e Adriano Simões Tiago, integrando um cinema e um hotel, estreou-se com o “Tombo no Inferno” de Aquilino Ribeiro. Viria depois a funcionar, dirigido por Artur Ramos, como uma espécie de desdobramento de companhias ligadas à RTP.

Em 1974, designadamente, encenou-se lá a ultima peça de Bernardo Santareno “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, a que se seguiu uma série de textos dramáticos de autores portugueses, que antes não seria possível encenar: por exemplo “Legenda do Cidadão Miguel Lino” de Miguel Franco, ”O Encoberto” de Natália Correia, e adaptações de Eça (“A Relíquia”) ou de Manuel da Fonseca (“Seara de Vento”).

Maria Matos (1890-1952) merece bem a evocação. Foi atriz desde 1907 e a partir de 1913 fundou com o ator Mendonça de Carvalho, seu marido, uma companhia que na época marcou uma renovação de qualidade no teatro português. Foi professora do Conservatório desde 1940, nas cadeiras de Arte de Dizer e de Estética Teatral – e como tal antecessora de Gino Saviotti, o qual, nessa qualidade, foi já aqui foi evocado. Fez cinema, mas sobretudo, repita-se, marcou gerações de artistas e espetadores, ao longo de uma longa e qualificada carreira teatral.

E foi também dramaturga acidental, com três comédias: “Direitos do Coração”,  “A Tia Engrácia” 81936) e “Escola de Mulheres” (1937).

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Foto do arquivo de Osório Mateus

 

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

 

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The Greek lottery, 2015

Sinto-me um pouco ateniense! Desde ontem que sintonizo as notícias sobre o Greece bailout que virão de Brussels, com a sagesse de Mr Nelson Mandela presente. Só homens e nações livres negoceiam. Que a prisoner cannot enter into contracts é uma das lições que Rolihlahla retira da longa detenção em Robben Island como preso político do Apartheid.

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Meanwhile, o Chanchellor of The Exchequer adverte contra severos e imprevisíveis efeitos para a economia mundial em caso do afastamento helénico da Eurozone. — Chérie, rien de nouveau sous le soleil! O London Mayor aparece em sintonia. Mr Boris Johnson apela em plena campanha eleitoral a que se apresse o referendo acerca do in/out do UK na European Union. — Well, a cracked bell can never sound well. Com a guerra na Ukraine teoricamente interrompida por momentos, o terrorismo está para ficar na ementa diária. Um lobo solitário repete em Copenhagen o duo de ataques parisienses, disparando indistintamente contra uma sinagoga e um café que debate a liberdade de expressão. O culto Isis decapita um grupo de cristãos egípcios. A anarquia alastra nesse very dark place em que se transforma o South Mediterranean.

Frozen weather, with hats hold on’ wind alert and amazing aurora borealis at North Cumbria. Também technicolor continua a reunião do Eurogroup plus UK que debate a situação grega entre três bicudos cenários: (1) tudo ficar igual em novo europrograma de resgate financeiro a um país cuja dívida soberana ascende já a 174%; algo substantivo mudar no plano de reformas de uma nação com taxa de desemprego nos 25,6%; e (3) a Grexit, capaz de lançar mais que os helénicos para espaço desconhecido. Por aqui, aceitam-se apostas a 10 dias do fecho a Athens das linhas de crédito externo. 

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Diverso ocorre em Ireland, decerto alheia a eterno conselho de um nada prudente Mr Wilde — A man can't be too careful in the choice of his enemies. Assim: Mr Brendan Howlin, Minister for Public Expenditure and Reform, afirma publicamente famoso apoio if de Dublin a lançamento de fumo branco em Brussels. “We want Greece to succeed. We want Greece to remain in the euro. But it has to be done obviously within the framework of the laws that govern the euro.” A City, porém, discute a falta de gravata do Greek finance minister TRH Mr Yanis Varoufakis.

Identicamente animada anda a doméstica campanha eleitoral para a doce Westminster bubble. O debate agudiza o tom sempre que se dualiza em benévola iniciativa privada versus malévola ação pública. A tempestade de areia fiscal gerada na esteira do HSBCgate a todos amachucou, com os líderes dos big parties entretidos em acusações mútuas quanto a sugeridas habilidades de cada qual para escapar ao pagamento de impostos e financiar as atividades políticas. Momento alto desta contenda surge com o pedido de recibo na aquisição de bens e serviços, mesmo que de baixo valor. Daqui resulta valiosíssima, senão vital informação para o eleitor acerca do Shadow Chancellor of the Exchequer: identifica-se a window cleaner de Mr Ed Balls. A bissetriz das sondagens insiste na posição relativa dos candidatos à gestão dos public affairs, mas os Ukkipers estão em queda: Labour – 34%; Conservatives – 33%; Ukip – 14%; Liberal Democrats – 7%; e Greens – 7% (Ashcroft/IpsosMori/Opinium/Populus/YouGov). Faltam 78 dias para as general elections.

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O último adeus a The Rt Hon Martin Gilbert CBE acontece a west of Jerusalem, na Secção Britânica do Beit Shemesh. Churchillian entre os churchillians, oxoniano, o great scholar nascido na London de 1936 parte aos 78 anos e lega fluentes páginas sobre a história do XX century. A par dos seis volumes biográficos e dos milhares de documentos de Sir Winston que organiza como official Biographer, destaque para as suas análises sobre a II World War em torno do Holocaust e das Roots of Appeasement. Mais discreta, mas igualmente influente é a atividade política iniciada no Intelligence Corps. Justo epitáfio lhe faz The Churchill Centre. — Sir Martin Gilbert's vast and wide-ranging contributions to history have left us an eternal legacy that vividly and brilliantly link the past to the future. We are blessed to have had this great man in our lives.

St James, 17th February

Very sincerely yours,

V.

LUÍSA DACOSTA – EDUCAÇÃO E JUSTIÇA

Por Guilherme d’Oliveira Martins

Luísa Dacosta (1927-2015)

Luísa Dacosta (1927-2015) era uma militante da educação, da escrita e da dignidade humana.
Encontrei-a primeiro na escrita, incisiva, clara sentida. Lembramo-nos do livro inaugural «Província» (1955) com ilustrações de Carlos Botelho. Depois conheci-a melhor como educadora, como apaixonada da aprendizagem dos mais jovens. Lembro-me do seu entusiasmo na cooperativa Árvore a falar-me da sua paixão de sempre – escrever para ir ao encontro dos outros, para sensibilizar, para motivar, para dizer como vale a pena a vida.
Nunca esqueceu como as mulheres de A-Ver-o-Mar a ensinaram a lutar contra a injustiça, a indiferença e o sofrimento.
Desde muito jovem Luísa Dacosta considerou que a escrita era um modo de lutar contra as injustiças e a indiferença. Para si a esperança obriga a combater, a denunciar, a compreender que temos de ter os olhos abertos para ver os outros que sofrem e precisam do nosso cuidado e da nossa atenção. A isso chamava responsabilidade.
Para si o diálogo com os alunos era fundamental. Quantas vezes, quando saía da sala de aula, dizia que era ela quem mais tinha aprendido.
Cronista, romancista, contista, foi sobretudo uma cidadã educadora que as Correntes d’Escritas homenagearam em 2011 e que recebeu o Prémio Vergílio Ferreira.
Além de tudo o mais era uma apaixonada por Portugal e pela nossa cultura, sobre a qual escreveu páginas inesquecíveis.

A VIDA DOS LIVROS

 

 

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De 16 a 22 de Fevereiro de 2015

Saudamos especialmente a chegada ao cardinalato de um Amigo do Centro Nacional de Cultura. D. Manuel Clemente é um antigo membro do CNC, mantendo-se nessa qualidade, apesar das grandes responsabilidades eclesiásticas assumidas nos últimos anos. Como historiador e defensor do património cultural, participou e apoiou múltiplas iniciativas do Centro, nunca tendo deixado de corresponder às solicitações que lhe foram feitas, em especial na defesa, divulgação e salvaguarda da História e do património religiosos, no que contou com o apoio inesquecível do saudoso D. Tomaz Nunes, que não esquecemos.

D. Manuel Clemente

UM GRANDE JÚBILO

É um grande júbilo podermos contar com um novo Cardeal português na Cúria. E, como afirmou o Papa Francisco, não se trata de uma honra, mas de um reconhecimento e de uma responsabilidade. É esse serviço que devemos invocar, como sinal para o futuro. Num tempo de incertezas são os sinais de justiça que devem ser invocados. E é de bom augúrio que o novo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel, faça do seu programa pastoral uma caminhada sinodal, considerando a importância fundamental da colegialidade, da partilha de responsabilidades e da convergência comunitária. Esse é o caminho que tem de ser prosseguido com muita exigência.

PENSAR PORTUGAL E OS PORTUGUESES
Importa recordar o muito que o novo Cardeal tem pensado sobre Portugal e os portugueses. E é bom que oiçamos essa reflexão e que lhe possamos dar sequência. «O povo português naquilo que vai fazendo, que vai perdendo, que vai ganhando, mostra uma grande capacidade de se refazer» (diz D. Manuel). «Não digo que seja um caso único, mas é um caso muito interessante. Não é por recorte geográfico (não temos nenhum, estamos integrados nessa grande unidade que é a Península Ibérica). Nem por recorte étnico (que também não temos, somos uma grande mescla de aportações, daqui e dacolá). Do ponto de vista genético, não temos grande originalidade. Nem do ponto de vista dos recursos naturais (também não tivemos nada por aí além). Nada nos fadava para sermos uma entidade autónoma e tão resistente ao longo de tantos séculos». Nesta entrevista a Anabela Mota Ribeiro («Jornal de Negócios», 2012), D. Manuel Clemente faz como os homens da Igreja que se não limitam a revisitar fórmulas gerais e conhecidas, procurando tirar as lições necessárias da história imediata. Trata-se, sim, de nos refazermos a partir de quem somos realmente. Sentimos ecos das palavras dos Padres António Vieira e Manuel Bernardes, que se centraram na realidade de carne e osso, de quem somos, nem povo escolhido nem povo enjeitado, nascidos neste rincão ou espalhados no mundo, perdendo ou ganhando, vocacionados para as várias moradas que se nos vão oferecendo…

REENCONTRARMO-NOS FORA DAQUI…
«Temos uma nacionalidade assumida em termos de sentimentos básicos e de mitos coletivos. Facilmente nos reencontramos às vezes fora daqui». Quando encontramos alguém no estrangeiro, português, «imediatamente estamos a contar histórias comuns, como se fossemos da mesma família». E é este sentido de proximidade, de familiaridade, de convivialidade que devemos aprofundar, no sentido em que a nossa cultura se foi enriquecendo também pelas raízes cristãs. Espalhados pelo mundo, procuramos que a cultura da paz seja vivida de facto. Jaime Cortesão falou do papel fundamental do franciscanismo no nosso humanismo universalista. Agostinho da Silva invocou a nossa espiritualidade na utopia das festas do Espírito Santo e no culto da Senhora do Ó. Na magnífica tradução que Manuel de Lucena (que há pouco nos deixou) fez das «Moradas» de Santa Teresa de Jesus, encontram-se tantas realidades e preocupações que nos são familiares, explicando Teresa de Jesus «o que pensa que Nosso Senhor quer ao fazer à Alma tão altas mercês e como é preciso que Marta e Maria andem sempre juntas», sendo muito proveitoso». E em vendo a cultura contemporânea, percebemos bem como esta compreensão nos pode levar ao entendimento de quem somos na relação com os outros…

O QUE PORTUGAL TEM DE MELHOR…
D. Manuel Clemente tem insistido na necessidade de compreender que a suposta “capacidade de adaptação” dos portugueses não pode fazer-nos esquecer as nossas próprias raízes e especificidades. Uma coisa é a capacidade de nos enriquecermos em contacto com os outros, outra diferente é descaracterizarmo-nos… E recorda que “as leituras providencialistas da história portuguesa são tão antigas como a própria nacionalidade”. Basta percorrermos a nossa cronologia para vermos a ilustração disso: Ourique, Aljubarrota, o compromisso de Vila Viçosa depois de 1640, Fátima…E, sem abusivas intromissões ou confusões, do que se trata é de entender o seguinte: “quando a nossa consciência comunitária venceu em Aljubarrota as leis da sucessão senhorial e se manifestou na geografia da expansão e na arte dos painéis de S. Vicente, também a história de Portugal começou a buscar em Deus a chancela que o nosso primeiro rei procurara mais prosaicamente no reconhecimento papal” (v. «1810 – 1910 – 2010 – Datas e Desafios», Assírio, 2009). «O que Portugal tem de melhor são os portugueses. E isso não desilude. Não desiludiu na minha infância dos anos 50 e continua a não desiludir hoje. O português é um tipo excelente». Não. Não é para autocomprazimento que isto se lembra. É como sentido de responsabilidade e de caminho, com exigência e determinação. Nem melhores nem piores do que outros. Somos nós mesmos! Com limitações e tentações, com excessos e falhas. Santo António teve de ir pregar aos peixes, porque lhe virámos as costas. E, em momentos cruciais, lá fomos percebendo que era para nós que ele ia falando, cuidando das diferenças dos peixes, grandes e pequenos, dóceis ou agressivos, vorazes e vítimas… E voltando à relação entre Marta e Maria – é esse o grande apelo deste tempo e de sempre. Contemplação e ação! Reflexão e intervenção! Glória e Justiça! No momento em que D. Manuel recebe o barrete cardinalício e prossegue a sua caminhada pastoral, é tempo de saudar as dimensões cívica e religiosa… Como diz o Salmo 36, base do lema de D. Manuel: «in lumine tuo videbimus lumen».


Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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Minha Princesa de mim:
 

Diz-se que a idade é um peso, cabelo branco e saudade. Pois fica sabendo que o que mais me dói na idade, não são lembranças, nem desgostos presentes, nem as cãs com que o tempo me vai pintando o pelo escasso. Nada disso, nem sequer qualquer embaraço de mim. É o esquecimento de nós, do corpo contínuo que somos, antes, agora e depois. Todos nós, inevitavelmente juntos, tão ontologicamente solidários que já não existimos quando olvidamos a presença uns dos outros, nem fomos se já perdemos o nosso rasto, nem seremos se não quisermos encontrarmo-nos. Ao escrever-te isto, não sei se mesmo tu me entenderás, e até já receio que ninguém mais possa entender-me... Fui educado para português, eu  que, pelo nascimento, tinha mais de metade de mim vinda de tantas outras pátrias europeias. Talvez por isso  -  e por ter passado o mais da minha vida por esse mundo quase todo  -  facilmente me eduquei para europeu. Não por qualquer gosto que tivesse em tecno-normalizações ou outras serializações. Mas talvez por ser ainda - vetusto e atrasado  -  um homem da Renascença. Afinal, desde pequeno que o tentara ser, era o meu modo de sobrevivência, tive de aprender a ser tudo com todos, a minha cultura não era só portuguesa, nem tampouco poderia ser um disfarce mal traduzido, era necessariamente a interpelação de ambientes vários, através das pessoas que os habitavam e que, por força do fado, eram meus parentes. Nem sempre foi fácil, menos ainda nessa idade em que crescemos muito e depressa, e vertiginosamente bailam as referências à nossa volta. Foi sempre gratificante, porque aprendi a amar, no sentido em que, quiçá, o amor é mais verdadeiro: como atitude de abertura, esforço de entendimento, vontade de querer bem sem nos deslumbrarmos nem trairmos.  Também tive, talvez inconscientemente, de criar defesas : desde muito novo, dessa idade em que, tornando-nos mais densos e duros, nos vamos fazendo adultos, reforcei-me com uma aversão impiedosa à hipocrisia, sobretudo a essa supina forma da estupidez que é o disfarce em convencionalismos correctos.  E, hoje ainda mais, não tenho dúvida de que essa recusa do risco da contestação  -  que é  falta de esforço e honestidade intelectual - é a raiz de todas as intolerâncias. Impede-nos de sair de nós, do nosso meio de convicções não interpeladas (e, apenas, pelo seguro, convencionalmente entendidas com as do nosso "grupo"), para irmos ao encontro dos outros, dos que são diferentes... E, afinal, também ao encontro de nós mesmos, tantas vezes contraditórios... Vivi décadas no meio de gente não cristã, que praticava outras religiões, falava outras línguas, e se referia a usos e costumes, a filosofias e passados históricos que eu não conhecia. Curiosamente  -  sem mérito próprio, talvez só por sempre ter sido forasteiro  -  nunca me senti estranho, nem contrariado, nem adverso. Pratiquei sempre a minha religião católica, partilhei com todos a minha fé e a minha cultura. Até me senti  - quantas vezes! - mais próximo da minha tradição cristã quando entendia melhor, e partilhava, o modo como "eles" rezavam do que, de regresso a Portugal, na monotonia, tão invariavelmente apertada , das nossas igrejas. E quase todas as noites, quando me recolho e rezo e lembro de Jesus, me surge a figura do padre Sérgio de Laugier de Beaureceuil, que era conde e se fez frade dominicano francês, de que já te falei. Estudou árabe e literatura islâmica e, depois do Cairo e do Iraque, foi viver para Cabul, no Afeganistão, cuja universidade o convidara a aceitar a cátedra de mística persa, de que era especialista. Viveu por lá duas décadas, tinha a sua capela, onde, todos os dias, consagrava, na eucaristia, ao fim da tarde, o pão que lhe coubera daquele que, ao almoço, os seus alunos muçulmanos com ele tinham partilhado. Ainda hoje os seus discípulos falam dele. Morreu longe dali, mas ficou-lhe lá a alma, perto deles. Como o pão, que todos os dias pedimos. Esse que só Deus nos dá. Dou-te a mão, com umas migalhas em que cabe a alma toda.

 

(a) Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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Acerca do desenho na obra de Louis Kahn.


‘Na verdade, eu busco a essência das coisas.’,
Louis Kahn

Na procura do que a construção deseja ser, Louis Kahn (1901-1974) afirma espírito antes da função, definindo o seu ciclo criativo deste modo: 1.Desafio; 2. História (como precedente); 3. Natureza do Espaço (Essência); 4. Ordem (Forma); 5. Projeto; 6. Edifício (como resultado). (Tyng, 1997)

‘If the concept is wrong, the design almost falls in place (…). As you progress and develop, the form will be modified, and you should welcome this, because the concept will be so strong that you cannot destroy it.‘ , Louis I. Kahn, 1953

Kahn esclarece e faz valer as suas reflexões ao buscar a essência e a verdade da disciplina da arquitetura, ao instruir e transmitir uma apreensão subjetiva – pela sua experiência, pelo estudo exaustivo dos propósitos sociais modernos, pelo New Deal americano, pela vida do Homem em comunidade e pelas formas do passado (que estudou nas viagens que realizou à Europa em 1928-29 e em 1951-52). Kahn ao ensinar na Escola de Yale, a partir de 1947, clarificava igualmente as suas ideias ao partilhá-las por todo o mundo, em aulas e em conferências. (F. Galiano, 2001)

Louis Kahn repete constantemente a importância da ideia na conceção da arquitetura e a procura pela intenção e pela luz faz-se concretamente pelo desenho.

‘Lou was destined for greatness. His father, who at times worked as a stained glass artist and whose graceful script made him a valuable scribe, encouraged his son to draw…’ (Tyng, 1997).

Kahn assistia às aulas gratuitas, nas manhãs de sábado no Graphic Sketch Club e ganhou diversos prémios de desenho da sua cidade. Porém, decidiu abandonar o seu objetivo de estudar pintura na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Kahn impressionou-se com a disciplina da arquitetura –porque a cidade era, para si, o lugar onde o Homem, ao caminhar pelas ruas, podia descobrir o que fazer o resto da sua vida. (Brownlee, 1998)

Durante os anos 20, Paul Cret formou Kahn, na Universidade da Pensilvânia, no rigor da geometria da École des Beaux-Arts de Paris. E Kahn destacou-se pelos seus trabalhos em aguarela e nos desenhos à mão levantada, requisito então indispensável para os estudantes de arquitetura, assim como nas disciplinas de História da Arquitetura, Pintura e Escultura. A formação académica Beaux-Arts e a colaboração no gabinete de Paul Cret, entre 1929 e 1930, contribuíram para que Kahn superasse uma conceção da arquitetura puramente funcional e atendesse ao espiritual, à história, ao passado, à axialidade, à geometria (que potencializa a aproximação da forma à estrutura), à centralidade, à articulação e à hierarquia (Anne Tyng recorda ‘Lou always wanted a distinction between things.’ – a hierarquia espacial faz esquecer a planta livre, indeterminada, porque para Kahn cada elemento tem uma identidade e uma autonomia própria).

Para Kahn, desenho significa:

  • Apreensão do objeto exterior por parte do sujeito: Em 1928-29, durante uma viagem realizada à Europa, Kahn desenvolveu uma nova expressão do desenho, baseado em parte pela sua familiaridade com as correntes contemporâneas da arte norte americana. Desenhava as paisagens com grossos contornos. Quando pintava com aguarelas, o efeito era mais próximo dos pintores da american scene e sempre que aplicava a cor de forma plana, assemelhava-se à obra de Charles Demuth e Georgia O’Keeffe (Brownlee, 1998). Em 1951-52, a viagem de Kahn a Roma, à Grécia e ao Egipto confirmou a infiltração da arquitetura monumental como fonte de inspiração principal em trabalhos futuros. Kahn desenhava para materializar impressões concretas – ‘O arquiteto deve ter sempre um olho posto na melhor arquitetura do passado. A nossa arquitetura é insignificante comparada com a arquitetura romana, na qual se experimentaram com todas as possíveis variações da forma pura. Devemos reinterpretar a arquitetura de Itália em relação ao nosso conhecimento de construção e às nossas necessidades. Porém é muito gratificante tomar como ponto de partida as construções existentes, para ler, e modificar debaixo desta luz, as minhas próprias aproximações à criação de espaços.’ (Kahn, 1951 em Brownlee, 1998)
  • Concretização de ‘feeling’ (intuição, essência, reflexão sensível) transformado em ‘thought’ (medida, matéria, ordem, hierarquia): Para Kahn o desenho aproxima a essência da matéria. E permite que as propriedades mais profundas do objeto não se alterem, sempre que a forma é submetida a deformações programáticas. Feeling ao associar-se a Thought, através do desenho permite a realização da forma. Forma para Kahn, é assim a concretização de uma vontade de existência universal e eterna que estabelece o equilíbrio com o mundo natural, onde as leis não mudam e que implica uma hierarquia dos elementos e das funções. Kahn diz ‘Form has an existence, but existence does have mental existence so you design to make things tangible.’ O processo de projeto não pode, para Kahn, trair a essência do desenho inicial, que depende da capacidade intuitiva do arquiteto e da sua apropriação do programa. Os primeiros desenhos devem procurar representar o sentido de projeto, isto é, um número ilimitado de modelos e padrões, que põem em relação os vários elementos de projeto. As figuras padrão, correntemente trabalhadas por Kahn, são o quadrado, o triângulo e o círculo – figuras com autonomia geométrica, formas arquetípicas por excelência, associadas às construções clássicas.  
  • Ao trazer mais uma vez Louis Kahn, reforça-se a importância de criar espaços eternos (na profundidade da ideia e na concretização do projeto), contrariando a ideologia racional e funcional do movimento moderno, valorizando sim a arquitetura como reflexão sensível - ‘É necessário, portanto, considerar os requisitos da essência do ambiente que inspira a atividade do Homem.’(Kahn em ‘Conversas com Estudantes’)

Ana Ruepp

 

OLHAR E VER

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Papa Francisco em Istambul

 

16. RECONHECIMENTO

I - O Hürriyet, jornal de Istambul, por ocasião da recente visita do papa Francisco à Turquia, publicou um artigo assinado por Mustafá Akyol ("companheiro de caminhada monoteísta"), que começava assim: Caro papa Francisco: É como simples cidadão turco, e como muçulmano, que quero desejar-vos as boas vindas a Ankara, e partilhar convosco algumas reflexões sobre a Turquia, o islão e mesmo, se mo permitirdes, sobre a vossa missão. Não vos ensinarei nada de novo, se vos disser que o mundo muçulmano não está de boa saúde. Direi mesmo que nunca esteve tão mal... E depois de referir o subdesenvolvimento do mundo islâmico e o surto de fanatismos, contesta a tese laica de que é a religião a causa de todos esses males, dando como exemplo - disso não ser necessariamente verdadeiro - a evolução da Igreja Católica: Em dada época, um pouco como os militantes islamistas de hoje, ela lançava guerras santas contra os "infiéis" e castigava os "hereges". Mas hoje, é essa mesma Igreja Católica que abre sopas populares para os mais pobres e centros de cuidados infantis. A própria história da vossa fé  mostra que a religião pode pôr-se ao serviço do bem, mas também ao serviço do mal. A grande questão que hoje se coloca ao islão é portanto a seguinte: como bater em brecha ou converter esses fanáticos muçulmanos e tornar de  novo o islão num instrumento de paz, de liberdade e de caridade? Sobre isto, a vossa experiência e a evolução da doutrina católica podem revelar-se muito preciosas e permitir que os meus correligionários abram os olhos. O que o Vaticano II conseguiu nos anos 1960 foi extraordinário, para já não falar nos vossos admiráveis esforços para abrir as vossas comunidades aos ateus e aos homossexuais. É crucial para os muçulmanos (e talvez para os cristãos conservadores) compreender que essas decisões progressistas não vos desviam da vossa fé, mas, pelo contrário, vos permitem percorrer caminhos ainda inexplorados. Permiti-me, pois, exprimir-vos toda a minha gratidão pela vossa vontade de dialogar, ainda e sempre, com os muçulmanos. Sobretudo, não vos desencorajeis. A bonomia e bondade de Francisco, nosso irmão sénior, são fiel testemunho da alegria íntima da mensagem do evangelho de Jesus Cristo : a procura de Deus pelo amor fraterno. O cristão reconhece-se pela solicitude, pela abertura aos outros, pela partilha, pelo diálogo. E  neste sentido o cristianismo é profético, anuncia a comunhão universal na plenitude dos tempos.

 

II - Mas, presente na nossa actualidade, o que me tocou ainda, neste depoimento de um muçulmano, foi a referência explícita à modéstia e humildade do papa Francisco: pela simplicidade dos alojamentos onde se alberga, dos carros em que se transporta, do modo como se veste e anda entre a gente... Comoveu-me ler um muçulmano que confessa: Bem haja por nos lembrar que a grandeza de um homem não se mede pelo seu nível de vida, mas antes pela sua humildade. "Os últimos serão os primeiros" - dizia um Nazareno que ambos amamos - "e os primeiros serão os últimos"... E acrescento que não é só no estilo de estar que Francisco é, sem hipocrisia, e como ele mesmo diz, um pecador como os outros. É no modo como pede desculpa pelas infâmias pedófilas e as castiga, tal como pelos erros que, em nome de Deus ou da "sabedoria divina", a estrutura clerical e "oficial" da Igreja, em nome desta, infelizmente comete. E que tantos clérigos, ainda hoje, mesmo e ainda quanto ao passado, talvez por escassa inteligência ou demasiada hipocrisia (quem sabe?), teimam em não reconhecer : das perseguições e iniquidades inquisitoriais que assassinaram pessoas, até à negação de evidências científicas (descobertas da razão que Deus nos deu), como a do heliocentrismo. Falo desta, porque o processo de Galileu não foi apenas a coacção de um homem idoso à negação do que tinha racionalmente demonstrado .(O homem de razão e de fé desdisse e continuou pensando o que pensava, tal como muitos outros, incluindo religiosos professos e talvez o próprio papa Urbano VIII, que, por prudência, magnanimidade ou hipocrisia - quem conhece o coração dos homens? - sabiam que o sistema que conheciam era heliocêntrico e que o contrário era simplesmente pretender impor-se, à descoberta racional do mundo, uma narrativa mítica). Foram mais de três séculos de ridícula teimosia, em que eram postos, no Index dos livros proibidos, todos os escritos que defendessem a ideia de que a Terra gira à volta do Sol... De 1633 a 1992... (E não refiro os trabalhos de exegese bíblica, hoje reeditados, que, desde o sec.XVII, na senda de Richard Simon foram sendo feitos, nem "A Origem das Espécies" de Charles Darwin... Aquele clero ilustrado, que por cá hoje gozamos em muitos passos do nosso Eça, ainda anda por aí...). Foi preciso esperar que João Paulo II, já cansado, na última década do sec. XX, pedisse timidamente desculpa por uma aberração, que os doutos ignorantes "conservadores" (conservadores de quê?) iam reafirmando, orgulhosamente. Façamos votos de que seja mais humilde essa gente que teima em pensar que é seu direito falar pela Igreja toda, quando nem pela própria cabeça puxam. E a todos nos guarde Deus desse orgulho a que Camões chamava "a vã glória de mandar". Lá saberia ele porquê... 

 

Camilo Martins de Oliveira