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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

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The electoral uncertainty, 2015

O Conservative Party é o partido dos ricos? E será o líder do Labour o Vladimir Ilytch Ulyanov que o United Kingdom nunca até hoje produziu? Estas são algumas das lancinantes angústias que perpassam o debate eleitoral, quando as sondagens apontam para um empate técnico entre os dois grandes candidatos ao Number 10. — Chérie, bon marché tire agent de bourse!

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 Acrescido protagonismo ganha o charmoso governador do Bank of England. Mr Mark Carney discursa em Dublin (Irl) sobre “how the euro area could act to avoid another lost decade.” Identificando uma dívida gerada pelo trabalho de toda uma geração, na mala dos remédios integra a definição de um plano europeu que concilie as reformas estruturais com maior partilha de riscos e mecanismos de gestão da soberania fiscal. — Hmm. One should mind one's own business. As nuvens da Eurozone conquistam especial visibilidade com a vinda a alva London do novo ministro grego das finanças. Mr Yanis Varoufakis visita a City e o Chancellor of the Exchequer no No. 11. TRH George Osborne MP vê a crise helénica como “the greatest risk to the global economy.” Já Aberdeen (Scot) clama por a "City Deal," a fim de cumprir com as obrigações financeiras face à queda livre das suas receitas petrolíferas.

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 It is snowing, it is snowing / Falling down, falling down. / Winter winds are blowing / Drifts are slowing growing / All around, all around. Dias brancos e curtos por cá, pois; frios, com alabastrino sleet a cair dos céus e a mapear esteticamente as pegadas dos londoners. A temperatura aquece, porém, temas eleitorais ligados aos living standards caros ao candidato trabalhista a Downing Street, o honorável Miliband agora pintado nalguns quadrantes ora como um líder incapaz, ora como um impenitente red em vésperas de um novo 1917. A campanha para Westminster ganha até vapor com duas troantes controvérsias nele centradas. O Labour Party é acusado de anti-businness por membros da alta elite industrialista (tipo Boots) e simultaneamente é desafiado pelos media a esclarecer posições quanto à kriptonite nacional do voto jovem chamada… tuition fees.

Com mais pesados efeitos que o processo revolucionário de vilificação em curso, contudo,  são as altas faturas das companhias de serviços, a cobrar mensalmente nas carteiras de famílias e de empresas subtil leveza dos reguladores. Também o fracking debate espalha um manto de preocupação no voto das comunidades rurais, obscuros que são os impactos desta fonte alternativa de energia e de entusiasmo do Tory Prime Minister Mr David Cameron. Meanwhile, e sempre pragmática nas mais difíceis decisões, a House of Lords aproveita já o 2015 Winter para aperfeiçoar a paleta dos Renewable Heat Incentive Schemes e assim aplacar o esforço adicional nas bolsas. A poll of polls persiste em apresentar interessantíssima grelha de posições: Labour – 34%; Conservatives – 33%; Ukip – 15%; Liberal Democrats – 7%; e Greens – 7% (Ashcroft/Opinium/Populus/YouGov). 

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Uma nova biografia sobre our next rightful King agita outras águas. A monarquia revisita inconfidências vindas dos círculos pessoais da Clarence House em Charles. The heart of a king, um título de Mrs Catherine Mayer. A obra retoma a neverending story dos casamentos de HRH Prince of Wales com Lady Diana Spencer e The Duchess Camilla Parker Bowles, a começar nas dúvidas suscitadas pelo primeiro até à chegada ao altar. A atrair a atenção do The Times ao Daily Telegraph estão fartos detalhes de rivalidades cortesãs tais, que o palácio do The Mail está rebatizado como Wolf Hall. — Well. All good things come to he who waits.

 

St James, 3rd February

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

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De 2 a 8 de fevereiro de 2015.

 

A realização do Dia de Ramalho Ortigão, graças à parceria entre o Centro Nacional de Cultura e o Centro Cultural de Belém, constitui uma oportunidade significativa para recordarmos, no ano no centenário da morte do escritor, uma importante referência da cultura do final do século XIX, que participou ativamente num dos movimentos mais fecundos da história portuguesa.

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FIGURA INESPERADA
José Duarte Ramalho Ortigão (1836-1915) é uma das figuras mais inesperadas no grupo intelectual que pontuou em Portugal no final do século XIX. Antes do mais, não pertence à chamada geração de 1870, até por motivo de idade, mas também por formação ideológica. Neste ano, em que também se celebram 150 anos da «Questão do Bom Senso e do Bom Gosto» (1865), não se esquece que o escritor terçou armas pelo grupo romântico, em defesa do velho mestre Castilho. Lembramo-nos, aliás, do episódio da Arca de Água em que, no Porto, se defrontou em duelo com o chefe de fila dos iconoclastas, Antero de Quental. No entanto, Ramalho foi professor de José Maria Eça de Queiroz, conheceram-se e fizeram uma amizade durável, e esse facto, associado a terem colaborado na escrita, aproximou Ramalho do célebre grupo que emblematicamente tirou uma fotografia, que vale mil programas, no Palácio de Cristal do Porto, pensando nos cães de um leque, para oferecer a D. Emília, noiva de José Maria. Mais do que por motivos racionais, Ramalho Ortigão inseriu-se naturalmente no grupo de jovens que se propunha com novas ideias pôr o país ao ritmo do mundo civilizado.


LIBERTAR-SE DAS AMARRAS…
Com mais ou menos romantismo, Ramalho, compreendeu muito bem que as ideias fluem, nunca param, e que a qualidade do grupo e das suas ideias valia indiscutivelmente a pena. E não esqueçamos o escritor no desempenho das funções de Diretor da Biblioteca da Ajuda, seguindo os passos do velho Alexandre Herculano (e em bom rigor também os de Garrett), sendo verdade que os dois maiores mestres do nosso Romantismo foram sempre especialmente considerados pelos novos das Conferências do Casino Lisbonense! De Garrett, sabe-se que foram as «Viagens» que despertaram a veia literária de José Duarte. E as raízes têm nele uma muito especial função: «o que tenho de bom, física e moralmente, se alguma coisa boa tenho, devo-o às fortes e sadias convivências da minha infância nessa bendita casa de Germalde…». Depois, passou por Coimbra e não se tornou bacharel, tornando professor de Francês no colégio da Lapa… Cultivava um certo dandismo e era assumidamente conservador. Mais do que teorias interessava-lhe saber olhar. No caso do «Bom Senso»… defendera o velho Castilho e acusara Antero, conseguindo descontentar todos, por não ser suficientemente claro na defesa do romantismo gasto. Cansado do Porto, vem para Lisboa como oficial da Academia das Ciências, e não mais deixará a capital. Começa a colaboração com o jovem Eça. «O Mistério da Estrada de Sintra» é escrito a duas mãos. É uma experiência folhetinesca, onde se nota o desatar das amarras românticas de Ramalho. Mas o que dirão os dois autores? «Romance execrável (…) porque nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr, e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar…». É uma autocrítica inteligente de quem sabia da poda. Se Ramalho não é protagonista das Conferências Democráticas, é testemunha e cúmplice, pois «uma campanha alegre» é o abrir de portas, o dar direito de cidade a esse grupo excecional dominado por Antero - «cabeça verdadeiramente enciclopédica, um dos mais sólidos e profundos entendimentos que tem produzido este século, era como a lógica viva daquele foco intelectual». E como podia o pacato portuense compreender esse movimento estuante de energia? «Aos vinte anos é preciso que alguém seja estroina nem sempre para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite. Para se ser ponderado, correto e imóvel há tempo de sobra na velhice»… Eça e o seu amigo Ramalho vão usar a verve crítica para apresentar as fragilidades da pátria e a necessidade de uma reforma. O tom de ambos é diferente, isso é particularmente óbvio quando José Maria parte para Havana e deixa o encargo ao amigo de manter a tarefa de farpear. Ao tom demolidor de um contrapõe-se o pendor pedagógico do outro, mas em ambos há poucas contemplações – o que não agradava especialmente às velhas gerações liberais, que se achavam postas em causa (lembremo-nos do que se disse também de «Portugal Contemporâneo»). Sobre a escrita, o mestre Camilo não tem dúvidas: «Você está escrevendo de modo que eu não leio mais ninguém em português». Os dezassete anos de «As Farpas» constituem um acervo fundamental para se compreender as fragilidades da sociedade nos mais diversos capítulos, mas Ramalho representará a atitude que será, no essencial, para o que Unamuno designou como a idade de ouro da cultura portuguesa, a capacidade de recusa de estarmos condenados a ser pouco relevantes. E, com o tempo, sente-se essa força crítica, que se desvanecerá de algum modo no fim do século com as mortes de Antero, Oliveira Martins e Eça. E se falo de sentido crítico, devo recordar o apoio de Ramalho Ortigão a Rafael Bordalo Pinheiro no «Álbum das Glórias» e no «António Maria». Ao lado de Guilherme de Azevedo (João Rialto), sente-se a presença de João Ribaixo, que é naturalmente a inconfundível Ramalhal figura.

 
UM PIONEIRO EM VÁRIOS DOMÍNIOS
Literariamente, Ramalho é ele mesmo. Situa-se na melhor tradição garrettiana, com o toque próprio da linguagem naturalista, a caminho do simbolismo. Como os melhores, nunca se submeteu a cânones escolásticos, não se deixando prender pelos ademanes das correntes decaídas. Os livros de viagens constituem um sinal de atenção ao mundo. Olha a sobranceria da pérfida Albion, dá-nos em «A Holanda» uma verdadeira obra de arte, onde lembra que «a fórmula naturalista da arte moderna acha-se inteiramente enunciada depois de duzentos anos na obra dos pintores holandeses». E é em viagem em Veneza que tem a notícia da morte do «mais amado, o mais fiel, o mais honrado companheiro da melhor parte da minha vida» - o seu querido José Maria… No tocante à Arte Portuguesa e ao património cultural, Ramalho foi pioneiro. Não importa que não tenha sido um especialista ou um estudioso. Foi o melhor divulgador. Mesmo assim sob o pseudónimo Simplício Feijão (1884) disse que a arte não poderia contentar-se em ser simples teoria do gosto, devendo ser análise objetiva da obra e do fenómeno artístico… «Eu em vez de crítico de arte sou apenas um simples e modesto artista da crítica, sou um comunicador de impressões pessoais, um viandante que passa, através do seu tempo, contando coisas que viu e dizendo os sentimentos que algumas dessas coisas lhe inspiraram». E isso foi fundamental. Como tinha acontecido na velha revista «Panorama» no tempo de Herculano, Ramalho Ortigão tornou-se um defensor ativo do que designaremos como património material e imaterial, contra a degradação e o mau gosto. Seguindo as pisadas do mestre Joaquim de Vasconcelos propôs a realização de estudos, de inventários, de planos de salvaguarda. Chamou a atenção para a janela do Convento de Cristo de Tomar ou para a pintura de Nuno Gonçalves e antecipou a importância do Turismo («Praias de Portugal», «Banhos de Caldas e Águas Minerais»…). Nos últimos anos, sente a falta de quem tivera por companheiros, mas o sentido geral da sua obra estava traçado. Não o esquecemos!

 

Guilherme d'Oliveira Martins

SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Isabel de Portugal por Ticiano

INTERVALO


Galla Placídia Augusta tem, na história da gente real, uma grandeza tão mítica como a de Dido, rainha de Cartago, que Eneias desprezou para ir fundar Roma... Ou talvez maior, precisamente por ter sido real, no tempo e no modo, o seu sonho, o seu esforço, a sua coragem e devoção. Filha de Teodósio Magno, será  por essa linhagem imperial - que sempre estimou acima de tratações, sucessos e desaires - filha e irmã, mulher de imperadores... e afinal mãe, só por essa linha de fidelidade, do último imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III, morto assassinado em 455. Digo-o último, sim, porque todos os outros que se foram registando depois, até Rómulo Augusto, destituído em 476, data "oficial" do fim de tal Império, foram surgindo de manobras, crimes e intrigas, sucessivas tentativas vãs de  aguentar uma aparência de estado, já sem soberana linhagem nem a Virtus romana... Galla tinha duas forças: a do carácter teimoso e resoluto, e a da sua profunda fé e devoção cristã. Esta tê-la-á ajudado a aceitar casar-se com o visigodo Ataulfo e o romano Constâncio, e ainda a tratar e contratar com rivalidades romanas e ameaças bárbaras. A pertinácia, o faro político, ou sentido de Estado e permanência, lhe terão ditado o raciocínio e as decisões. O que, sempre, sempre, mais me tocou nessa história, eivada de intrigas e banalidades políticas, foi a possivelmente única vitória final de Galla Augusta: ela já não assistiu ao fim atroz do imperador seu filho, e fora antes finalmente inumada em Roma (junto a seu pai, é certo e significativo) , em vez de repousar no mausoléu que para si mandara edificar (e ainda hoje existe) em Ravena (na altura capital do Império).  Mas, ainda que a título póstumo, viu a vitória do dogma da hipóstase das duas naturezas de Cristo, divina e humana, reunidas numa só pessoa, defendido pelo seu amigo, o papa Leão Magno ( que salvou Roma de Átila), no concílio de Calcedónia, em 451, um ano após a sua morte. Refiro este episódio da história teológica, porque Galla Augusta viveu com a obsessão da compatibilidade do divino e do humano, e vendo na pessoa de Jesus Cristo o sinal de Deus para o devir do Império Romano, a união da cidade dos homens com a cidade de Deus...  Foi essa também a obsessão de Jerónimo Savonarola. Nenhum deles, com mil anos de distância, teria, penso eu, visões teocráticas da sociedade política. Tinham, isso sim, uma entranhada fidelidade, muito íntima, ao sentido da legitimidade. Para Galla Placídia, Roma deveria acolher, tratar, federar-se até, com os bárbaros que a cercavam e penetravam, desde e para que mantivesse a unidade que a linhagem imperial garantia, e que a fé nova do império, o cristianismo que o papa representava, necessariamente consagrava. Para frei Jerónimo, não havia outra linhagem que não a vontade democrática (que afrontava e tinha expulso de Florença a tirania dos Medici, e questionava os usos, abusos e costumes do papa Borgia, Alexandro VI),  cabendo aos profetas lembrar ao povo a justiça que Deus de todos nós espera e reclama.  Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença : a época e a circunstância, a categoria social, a inspiração das ideias e desejos, a motivação dos actos. E, todavia, passa por eles o mesmo sopro. Que lhes segredou que, se não houver fidelidade e abertura, rectidão e justiça, muito se poderá perder e talvez tudo, ou quase, esteja errado. A princesa morreu sem violência, só previu o que iria acontecer ao seu império, ao seu sonho e dinastia. O dominicano foi finalmente enforcado e queimado em praça pública. E, para que o povo não guardasse relíquias do profeta, lançaram ao rio Arno as suas cinzas. Menos de um século depois, Lutero proclamava, em revolta e oposição a Roma e a muitos príncipes, a reforma protestante que, profeticamente, Savonarola, pressentira crescendo no coração dos povos, mas ignorada por quem, como dever primeiro, deveria escutar os outros... Há quem teime em servir Quem (e cá me lembro do Quem do "Ano da morte de Ricardo Reis") não possa morrer, como disse Sophia na sua "Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal" : Nunca mais a tua face será pura, limpa e viva, nem o teu andar se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer... Cito de cor  -  da memória do coração  -  ocorreu-me esse poema lindíssimo ao pensar em Carlos V. Creio que este imperador, mais ainda do que o Duque de Gandia, que o servia, e à imperatriz, poderia ter assim sentido a morte de Isabel de Portugal. Quiçá dois desastres íntimos  - daqueles que põem à prova qualquer fé  -  terão abalado Carlos de Habsburgo, e levá-lo a abdicar, para se retirar no mosteiro dos jerónimos de Yuste: a morte da mulher tão admirada e profundamente amada, e a incapacidade de consolidar uma aliança política e de fé, numa Europa que as desavenças entre católicos e protestantes dividiam, e o cerco otomano ameaçava... É certo que derrotou e fez prisioneiro Francisco I de França - o tal que, contra ele, tentou alianças com forças da Reforma e com os muçulmanos - mas o sonho que da cidade de Deus tinha era mais largo e magnânimo, para que todos vivessem em paz uns com os outros e com o Senhor de todos. Era hispano-austríaco, amorosamente casado com uma portuguesa, mas nascera na Flandres, percebia as razões dos movimentos da Reforma e as contra-razões de Roma... Talvez tenha começado a morrer à morte de Isabel, quando se sentiu tão só com o seu cansaço. Os sonetos nº. 3, 4 e 5, de amor mordido, são convívios com estas personagens. 

 

Camilo Martins de Oliveira

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