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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Papa Francisco
 

19. PRECONCEITO E PLURALIDADE - III
 

Mas se tanto falo na Igreja católica é sobretudo pelo facto de, hoje em dia, ela surgir, com a lucidez franca do seu Papa, como convite à conversão, à saída dos casulos em que estamos teimosamente metidos para o ar mais livre em que poderemos encontrarmo-nos e convivermos. Na verdade, também, e muito, nos deveremos libertar de preconceitos  no que se refere à confrontação com a nossa sociedade, economia e política, que insistimos em perspectivar, analisar e debater, em modos obsoletos, de "esquerdas" ou "direitas" ideológicas, sem nos darmos conta de que, de um como de outro lado, os manifestantes não olham para o porvir, mas se entrincheiram no que, para cada um deles, já foi... Pior ainda: nem se dão conta de que começam a ter de viver noutra circunstância. Imaginemos, por exemplo, o horror que resultaria de um regresso reforçado das nações europeias a preconceitos raciais e religiosos de antanho; ou, simplesmente, observemos os impasses económico e político (até à crise do próprio regime democrático, de que o abstencionismo crescente e a multiplicação de manifestações de rua são sintomas) a que nos conduziu a teimosia preconceituosa de discursos, à "esquerda" como à "direita", de um "marketing" político também já ultrapassado, e de políticas económicas cegas à globalização da nossa circunstância e sensibilidade social, porque obcecadas por teorias, quer de pretensa benevolência omnipotente dos mercados, quer de acumulação imponderada dos chamados direitos adquiridos. Entre os que esquecem ou escondem o flagelo do desemprego, a fuga de jovens e o consequente empobrecimento da sociedade em talentos e iniciativas, a injusta distribuição de rendimentos e o aumento de misérias, e os que reivindicam soluções incomportáveis num sistema que, precisamente, foi configurado por objectivos não humanistas de crescimento económico, de lucros e de salários, quantas propostas vão surgindo para correcção ou substituição do mesmo? A Europa em que hoje vivemos, por exemplo, não é a do sec.XIX, nem a de entre duas guerras, nem a do Plano Marshal ou a da guerra fria... Já não tem colónias, nem responde por impérios e, no seu próprio território, coabitam etnias e tradições diversas, culturas e religiões que dantes estavam lá fora... Para que essa coexistência seja pacífica e justa - e, porque não?, enriquecedora para todos -, teremos de nos interpelar pelos diálogos da nossa pluralidade, cada um fiel à essência da sua cultura própria e à verdade dos seus princípios, mas livre de preconceitos que excluam ou afastem os outros, e antes aberto ao acolhimento enquadrado por novas regras de convívio social. Talvez caiba lembrar aqui que também já passámos pela abolição da escravatura, pela instauração, por fases, do sufrágio universal, pela implantação de repúblicas, pela separação das Igrejas e do Estado, etc., etc. ... E que tudo isso foi permitido pela adopção de regras que os povos julgaram mais justas e adaptadas à descoberta mútua das diferenças e comum da dignidade. O nosso mundo está cada vez mais multipolar e, simultaneamente, mais interligado: por aí vão surgindo movimentos secessionistas, contestatários, transnacionais (basta percorrer o panorama político mundial, da Escócia ao "Podemos", da Catalunha à Jihad, das "primaveras árabes" às migrações de multidões). Mas também se acabou a "guerra fria" e a "pax americana", o chamado triunfo do capitalismo liberal engendrou novas potências e regimes económicos e financeiros muito mais claramente inspirados por objectivos de preponderância do que pelas vantagens da livre concorrência, e o poder da grande finança é cada vez mais incontrolável, ubíquo e determinante. Impõe-se urgentemente, para bem de todos, a necessidade de uma revisão da organização e funcionamento das organizações internacionais, tal como a de uma normalização crescente das normas de direito económico e financeiro, do trabalho, e das relações internacionais. Só a partir de tal esforço de actualização-política e jurídica - das instituições e regimes em que vivemos será possível garantirmos a devida protecção da dignidade e dos direitos das pessoas humanas, todos os dias ofendidos. Mas chego eu assim ao ponto da minha questão: será que  o corajoso esforço da Igreja impulsionada pelo papa Francisco, no sentido de se discutir o preconceito, e de se abrir diálogo e debate com o povo, considerando-o e responsabilizando-o, conseguirá singrar e, também, não ficar só? Ou será que andamos a promover aparências e proteger interesses estabelecidos e medrosos, isto é - e peço desculpa do neologismo - conservâncias? Sempre tive pena dos árbitros do ténis, virando a cabeça para a esquerda e a direita, julgando se a bola caía dentro ou fora das linhas, nunca sonhando com um percurso invisível de vitória... O público estava ali e lá fora, eram múltiplos e enormes os sonhos. Batesse a bola fora ou dentro, batia onde batia, no chão, sempre. E, de modo diferente, sempre também, em cada coração. Não deixemos que desencantos e incertezas nos conduzam ao desespero e à submissão da razão e do direito a algo que não seja racional e justo.

 

Camilo Martins de Oliveira