Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O Edifício e a Rua: Nuno Teotónio Pereira e o ‘Franjinhas’

O Edifício e a Rua: Nuno Teotónio Pereira e o ‘Franjinhas’ (1965-71)

‘Eu sempre fui na linha de uma evolução, duma evolução do movimento moderno, uma superação mas sem rejeitar as suas raízes. A arquitetura que vou fazendo é mais fácil classificá-la como neomoderna e nunca pós-moderna.’, entrevista a Nuno Teotónio Pereira em 11.07.2008

Embora rotulado pelo Diário Popular na lista dos mamarrachos, por ‘Franjinhas’, o edifício de escritórios na Rua Castilho que surgiu num lote de gaveto, corresponde a uma inovadora solução para um recente programa de edifícios na cidade de Lisboa – que ao longo dos anos sessenta foi invadida por anónimos edifícios de escritórios.

Nuno Teotónio Pereira ao dilatar a Rua Braamcamp fez com que fosse possível chegar à Rua Castilho através de um percurso urbano alternativo. O espaço público entra pelo edifício e valoriza-se assim o urbano. A rua que atravessa o conjunto permite desenhar espaços de passagem, de distribuição e de permanência. Nuno Teotónio Pereira procura pela densidade de significado ao pensar exaustivamente nas relações entre o interior e o exterior – ao fragmentar e ao responder a singularidades e a particularidades de um contexto específico.

Seguindo a ideia de que todo o edifício deve de fazer cidade, para que haja verdadeiramente arquitetura (Portas, 2007), a solução encontrada por Teotónio Pereira potencia de facto uma forte relação com o espaço público. Ao reafirmar-se a presença da rua como espaço importante de passagem, de encontro e de comunicação, Teotónio Pereira permite que a linguagem moderna se adapte assim ao lugar e à cidade.

Só através da introdução do espaço público na vida interior do edifício é possível obter um projeto ancorado e ancorante – um dos objetivos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962-69) era também de fazer pertencer o edifício à malha através da introdução de uma rua que cruza e que intersecta o lote, a favor de uma continuidade. E o ‘Franjinhas’ é feito na continuação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ao valorizar a relação com o espaço público.

As ruas por dentro do edifício ‘Franjinhas’, ligadas por escadas e definidas por galerias, conseguem fazer parte natural do percurso pedonal e permitem a extensão do passeio a vários níveis (um interior mais baixo e outro exterior intermédio, pré-existente, e ainda outro superior).

‘Na parte inferior: lojas de comércio, resolvemos potenciar essa relação com a rua. Em vez do rés-do-chão para lojas abrimos desníveis, como se entrasse num prédio, fazendo a rua entrar no edifício. Criar uma maior frente para efeitos comerciais. Uma coisa que de pois veio a desaparecer. Temos aqui um rés-do-chão elevado que é o da entrada, uma sobreloja. Quisemos levar tão longe essa ideia de fazer a rua entrar no prédio que tínhamos umas escadas que foram demolidas, que ainda se vêm. Tinha duas entradas, subia-se para o rés-do-chão. Era um grande café, restaurante.’, Nuno Teotónio Pereira, 2008

O edifício faz-se pelo interior, pelas singularidades, pela maneira como se trabalha no escritório, pela maneira como entra a luz. Quanto maior é a especificidade do programa, mais particular e singular se pode tornar o objeto construído, que não deve só obedecer a regras de racionalização e de sistemas de estandardização. Interessa agora valorizar o momento real em que a obra é produzida.

‘É muito importante fazer a arquitetura de dentro para fora em vez de ser a imagem a trabalhar o interior.’ (Nuno Teotónio Pereira, 2008)

Os primeiros três pisos são dedicados ao comércio e estabelecem contacto direto com o desenvolvimento da rua. Nos restantes seis pisos estão colocados os escritórios de planta livre. Foi prevista uma sala de condomínio no terraço.

As palas, que dão o nome ao edifício, não têm uma função ornamental. Foram pensadas, desenhadas e feitas com base em estudos de laboratório, à escala natural, de modo a permitir a entrada da luz do sol de forma mais controlada e a oferecer fragmentos de paisagem a quem está no interior.

‘Começámos a pensar nas pessoas que passavam ali a maior parte do dia a trabalhar sentados e pensámos na gestão da luz. Queríamos uma coisa arejada. Não podia ser uma janela aqui outra ali. Então pensou-se nessas placas para evitar o sol, que não fossem no plano da fachada mas projetadas para fora, para aumentar a dimensão do espaço interior.’, Nuno Teotónio Pereira, 2008

Nuno Teotónio Pereira afirma a persistência em encontrar um efeito de janela para uma fachada de vidro corrido – Ao pensar nessas placas vemos que são boas porque de certa maneira permitem a pessoa libertar-se daquela paisagem sempre igual todos os dias, dos prédios sempre iguais. Por outro lado também é preciso ter contacto visual com a rua. Olhar para a rua, para se distrair um bocado. Criou-se uma coisa que eu chamei o efeito de janela.’ (Nuno Teotónio Pereira, 2008). A solução das palas é a mais adequada, protegendo também quem utiliza a varanda. As palas ao intersectarem a fachada de vidro criam uma espécie de prateleira revestida a azulejo e que reflete a luz do sol, deixando que a iluminação do espaço de trabalho tenha a mesma intensidade quer para quem trabalhe junto à fachada quer para quem trabalhe no fundo da sala.

A singularidade do ‘Franjinhas’ reside assim na penetração do contexto, que traz profundidade à fachada (porque no sítio das ruas interiores não existem palas), na escolha do betão à vista, nas palas projetadas, no efeito de janela e no remate expressivo da cobertura.


Ana Ruepp