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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Morfologia, Tipologia e Forma Urbana.

‘O espaço é algo em que o que se deixa é tão importante como o que se preenche.’, Fernando Távora, 1962

 

É essencial, reforçar a ideia de que a cidade como sendo constituída por momentos materiais e não materiais (preenchidos e não preenchidos), apresenta tempos de duração diversos. Conhece-se na cidade a perenidade do espaço público e a perecividade do edificado. Porém, os dois momentos são indissociáveis e sempre que um absorve ou domina o outro verifica-se um desequilíbrio. A capacidade receptiva do projecto urbano às interpretações que se sucedem no tempo permite a convivência entre a regra e a excepção, entre sistema e forma, entre morfologia e tipologia.

Morfologia e Tipologia apresentam-se, assim como conceitos complementares. Por um lado, morfologia associa-se à forma da cidade, é espaço não construído e tem a função de referenciar os elementos construídos. Por outro lado, tipologia associa-se à forma do edifício, é espaço edificado e lê-se como sendo a excepção. Os termos complementam-se, pois não há forma urbana sem a forma do edifício.

Na reconstrução Pombalina da Baixa Lisboeta os dois conceitos (Morfologia/Tipologia) foram satisfeitos simultaneamente para cumprirem o requisito de construção rápida e eficaz no tempo, resistiu às mudanças políticas imediatas, porém demorou cem anos a concretizar-se. Tanto a Baixa como as Avenidas Novas foram intervenções urbanas determinadas por regras de vivência do espaço público.

Já no plano das Avenidas Novas determina-se o espaço público sem concretizar o edificado que o conforma – alternam-se e convivem tranquilamente moradias e blocos. O plano das Avenidas Novas associa-se a um sistema flexível, onde morfologia e tipologia constituem-se independentes. Estes dois exemplos traduzem a cidade da quadrícula, que coordena duas direcções, reduz distâncias, permite linearidade das ruas e economia de deslocação e construção.

No projecto urbano não é possível definir tudo num tempo simultâneo. A proposta faz-se, sim, através do tempo, por isso, é essencial garantir a concretização de uma ideia estrutural – o espaço público é mais duradouro, é estrutura, é aquilo que fica; o edificado é entidade temporal, muito variável. A certeza urbana, para que dure, tem de ser morfológica. As incertezas no projecto urbano verificam-se não só nos edifícios como também nos usos associados ao espaço público. Fica então a dúvida se a estrutura basilar de uma cidade se deve associar somente ao traçado das ruas e aos alinhamentos.

A passagem do quarteirão (associado à cidade tradicional) ao bloco modernista trouxe um espaço público mais abstracto, reduzido ao mínimo, onde as ligações entre as diferentes situações urbanas não são claras – reivindica-se mais liberdade formal aos edifícios, que agora se estabelecem independentes da configuração da infra-estrutura. Afirma-se a ideia de que o edifício faz a cidade e molda a vida da sociedade e o plano desaparece. No modernismo a luta pela liberdade de concepção individual é uma causa – só assim se pode permitir variar a forma e o tipo.

A cidade como sistema morfológico resiste às mudanças sociais. A cidade como sistema tipológico varia no tempo – aceita e absorve a vida estilisticamente diferente.

Sendo assim, concentremo-nos no exemplo concreto da Baixa Pombalina – e como se lê no livro ‘O Verdadeiro Mapa do Universo – Uma Leitura Diacrónica da Cidade Portuguesa’ de Nuno Grande (2002) a Baixa é paradigma da cidade do traçado. Este tipo de cidade traçado apresenta a associação entre a cidade ideal, na sua racionalidade e lógica e a cidade como instrumento político, determinante para organização da sociedade.

A reconstrução da Baixa Lisboeta, ocorrida em meados do séc. XVIII, possibilitou a aproximação aos ideais iluministas. Estes ideais objectivavam, igualmente, vontades e actuações urbanas – nomeadamente no que concerne ao reforço da higiene e do uso equitativo do espaço urbano. Era importante entender o espaço urbano de então como um bem público e não como um bem régio.

Na realidade o projecto, de Eugênio dos Santos, eleito para a reconstrução pretendia:

  1. Criar uma cidade de raiz sobre o velho tecido, relacionando-a com pré-existências;
  2. Desenhar grelha regular, rígida e simples, onde a tipologia depende da regra da morfologia. Define-se um sistema de espaços públicos e um suporte comum de infra-estruturas. Este traçado urbano está associado à retícula, geometricamente determinada, que representava a afirmação de uma ordem, de uma lógica, de uma rentabilidade económica e sobretudo enfatiza a vontade de permitir igualdade aos cidadãos (é reprodutível, indiferente aos gostos individualizantes, adaptável no tempo, viabilizador da circulação, do policiamento e da infraestruturação);
  3. Garantir longevidade à matriz de reconstrução;
  4. Estabelecer programa tipo-morfológico mínimo através da planta base dos quarteirões; do perfil tipo único da relação entre espaço público e privado; e de um conjunto de alçados-modelo (este último requisito reflecte a independência da fachada em relação ao seu interior);
  5. Determinar regra e alinhamento das formulações arquitectónicas totalitárias, independente do seu conteúdo funcional;
  6. Formular sistema reprodutível em outras cidades portuguesas ou de domínio português;
  7. Coordenar a cidade ideal com a cidade experimental, pragmática, programática e estratega.

A forma urbana não é, então, modelo puro, onde há domínio total sobre todas as componentes que constituem uma cidade, porém também não é sistema totalmente flexível, independente de modelos e tipos, definida apenas bidimensionalmente através de alinhamentos e funções.

 

Ana Ruepp

SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Greogory Peck e Susan Hayward (em David and Bathsheba)

 

17. DE DAVID A BETSABÉ

         

Riste, sorri-te, seduzimo-nos,

juntos traímos Urias e Deus

pecaste, pequei, foram meus e teus

os caminhos ímpios que seguimos... 

 

Rasguei as vestes, de cinzas cobri

a cabeça, a saudade da tua chama;

no chão frio esqueci a nossa cama, 

a Deus pedi perdão por mim, por ti...


Mas nem o miserere que cantei

nos sete dias em que só chorei

desviaram o Juiz do seu castigo:

 

não te roubou a mim, levou o fruto

do pecado por que eu pusera luto;

e assim já livre me deixou contigo...      

 

18. DE BETSABÉ A DAVID

 

Salomão foi resposta ao teu tormento

é filho nosso e da misericórdia...

De Deus nunca sabemos a concórdia:

é maior do que o nosso entendimento...

 

Pois Ele não tem prazer no sacrifício

nem de holocausto algum agrado tira

só o nosso coração lhe acalma a ira

ais por dor sentida que por suplício...

 

Para pedir perdão não ofereceste

anhos, perfumes, templos; só lhe deste

teu coração sofrendo como amigo...

 

Gritaste miserere!, bem sabendo

que era silêncio o grito que em crescendo

a Deus levou a dor que era contigo...

 

INTERVALO V

 

O segundo livro de Samuel, nos capítulos 11 e 12, conta-nos a história do pecado e da redenção de David e Betsabé. O adultério do rei com a mulher do seu general Urias, o Hitita, vem envolto em manha e crime: para gozar de Betsabé em seu leito, David envia Urias para a guerra. Quando este regressa, a mulher já está grávida do rei que, para iludir o marido enganado, por duas noites seguidas o manda deitar- com ela , entretanto já posta de volta em casa. O Hitita recusa-se a cumprir o acto, pelo que David decide enviá-lo de volta à guerra, mas de modo a que não escape à morte. Assim acontece. Segue-se o aviso severo e a ameaça de castigo divino, que o profeta Natã profere contra o rei. Este poderá ser perdoado - se fizer penitência - mas o filho que lhe nascer da amante morrerá certamente. David penitencia-se, na esperança ainda de salvar o filho. Mas, ao sétimo dia de penitência ritual, o menino morre. Iniciar-se-á então uma vida nova para o rei David que, de Betsabé, já sua mulher, terá o futuro rei Salomão. Sempre achei esta narrativa, no plano factual, mais mundana do que religiosa, mais leviana, mesmo no plano religioso, do que mística ou simplesmente edificante. Até ter atentado melhor no salmo 51 (50), atribuído, precisamente, a David, quando sofreu o arrependimento destes pecados:  Miserere mei, tem dó de mim, ó Deus, em tua bondade! E que a tua grande ternura apague o meu pecado... Lava-me, inteirinho, do meu mal e purifica-me da minha culpa... ...Cria, ó Deus, em mim, um coração puro...   ...Dá-me a alegria da tua salvação... ...Porque não tens prazer algum no sacrifício, nem queres holocaustos. O sacrifício a Deus é uma alma magoada; não desprezarás, ó Deus, um coração ferido, destroçado... O arrependimento é a responsabilidade que nos leva a uma conversão interior. O perdão de Deus não se compra.       

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE PALMO E MÃO IV

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Pedro,

Recebi a tua carta e li-a como quem lê a época de uma história que se iniciou misteriosa e amiga da profissão do poeta. E é grande a responsabilidade e é indefinida nestes essenciais. Sei que me entendes ou para ti o passado não fosse um idioma que se vai descodificando. Ainda assim, achei-te desconcertado, deslumbrado ainda, e desafortunado nessa depressão por esclarecer, quando afinal todas sempre se vão esclarecendo através das dúvidas.

Em primeiro lugar queria dizer-te que te leio no avião que me leva a Bogotá por uns dias, e que, o quadro que tão bem descreves do local onde estás, aqui, justifica que o envolva uma nuvem que conheça o Pai Nosso. Mas Pedro tudo ou quase tudo o que referes na tua carta merece uma selecção que te tranquilize. E essa selecção terá de ser feita por ti amoroso Pedro que congregado por tua mãe foste, e que de tanto espaço ela te dar, aperta a queixa do teu destino em lhe fugir. Julgo que a flor pequenina que referes estar no alpendre a dormir, se trata do teu filho, e essa relação, é também um verso de todos e de ninguém, com o qual não viajarias a Bogotá.

La Candelaria poderá ser um charmoso bairro de Bogotá e muito perto do museu de Botero onde verias a famosa versão boteriana da Mona Lisa. Contudo, não ignoras que os lábios gretam, sim, na pobreza aberta ao mundo do nosso tempo, e essa olha-nos nos olhos com verdade total, numa realidade tal que não há quem se não sinta confessado. E pergunto-te: manterias depois, a música do beijo que me envias no desejo de comigo viajares? ou és mero aspirante à condição do interpretar?, mas longe, longe do despertar total?

Como disse Schopenhauer, a única arte que poderia existir mesmo que não houvesse mundo seria a música. Assim Pedro não te reconcilies com uma paz genérica. Que mais te devo dizer?


Beijo

Isadora (para teu desafio Isa.)

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Por Teresa Bracinha Vieira

Junho 2015

OS HUMANOS E OS ANIMAIS

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I - A CAPACIDADE DE E PARA SOFRER E DE SENTIR

 

1. Na tradição ocidental dominante, o mundo existe para benefício dos seres humanos, que sobre ele exercem o seu domínio. Em desfavor desta posição de superioridade e de desigualdade, defende-se que todas as espécies de vida fazem parte do ecossistema global, pelo que a Declaração Universal dos Direitos Humanos constitui, juntamente com a Declaração Universal dos Direitos do Animal e a Carta da Terra, um ponto de partida para o modo segundo o qual todo o ser humano se deve relacionar com os outros, com os animais e a natureza. Coaduna-se com a visão ecologista de respeito pela natureza, com a regra de respeitar e tratar bem os animais. Se é degradante e condenável degradar a natureza, também o é a violência contra os animais. A defesa dos direitos dos animais é cada vez mais uma extensão da defesa dos direitos humanos, dado que defendendo-se aqueles que não têm capacidade de defender os seus próprios direitos, tem-se uma conduta humanista, beneficiando-se também os humanos. Indefesos e sem voz, os animais são o paradigma da vítima, continuando a luta pelos direitos dos humilhados e ofendidos, das minorias. Se é errado ser racista ou ter as mulheres como inferiores aos homens, também o é discriminar algumas espécies em favor de outras, sendo antiespecistas aqueles que não aceitam uma atitude de superioridade da espécie humana em relação às outras espécies animais, desaforo que têm por idêntico ao que no passado tiveram os brancos pelos negros ou os homens a respeito das mulheres. É uma tomada de consciência e uma atitude de solidariedade para com os não-humanos, tendo todos os seres sencientes o mesmo direito à vida, humanos e não-humanos, onde a capacidade de sofrer e de sentir é ponto de referência nuclear. 

2. Assim, na perspetiva de muitos, a capacidade de e para sofrer e de sentir é a caraterística essencial que dá a um ser o direito à consideração igualitária. A questão vital não consiste em saber se os seres humanos e não-humanos podem falar ou pensar, mas sim se podem sofrer. Uns e outros têm capacidade de e para sofrer. E reagem à dor, sentindo-a. A linha inexcedível não está na faculdade do discurso ou da razão, o que é exemplificado com animais adultos mais racionais e sociáveis que um recém-nascido de um dia, uma semana, um mês, ou de certos deficientes incapacitados. Mais se argumenta de que se o facto de algumas pessoas não serem da nossa raça não nos dá o direito de as explorar, tal como o facto de algumas serem menos inteligentes que outras não significa que os seus interesses tenham de ser ignorados, também o facto de certos seres não serem da nossa espécie não nos dá o direito de os explorar, assim como o facto de os animais serem menos inteligentes que nós não nos dá o direito de os ignorar. Atribuindo mais relevância aos interesses de membros da sua raça, aquando de um confronto entre os seus interesses e os de outra raça, os que assim pensam, diz-se, violam o princípio da igualdade, tendo havido tempos em que os de ascendência europeia não aceitavam, na sua maioria, que a dor fosse igual ou valesse tanto quando sentida, por exemplo, por índios, africanos ou escravos, como quando o era por europeus. Daí que os especistas atribuam maior peso aos interesses dos membros da sua espécie quando há um conflito entre esses interesses e os de outras espécies, uma vez que não aceitam que a dor sentida por cavalos ou ratos (não-humanos) seja igual ou tão má como a sentida por seres humanos. 
3. Por sua vez, o artigo 11.º da DUDA, de 1978, estabelece: “Todo o ato que implique a morte de um animal, sem necessidade, é um biocídio, isto é, um crime contra a vida”. Prescrevendo o art.º 14.º, alínea b): “Os direitos dos animais devem ser defendidos pela lei como o são os direitos do homem”. A aceitação e consagração de tais princípios são indicadores civilizacionais e morais, podendo também sê-lo em relação aos animais pela substituição do conceito animal coisa pelo de animal sensível. A necessidade de subtrair em definitivo os animais, como seres não-humanos, à categoria de coisas e máquinas e de alterar, entre outros, o art.º 202.º do Código Civil Português (noção jurídica de coisa), é tida como uma das tendências vanguardistas atuais, a ter acolhimento futuro na lei, baseado no pressuposto de que esta deve traduzir a consciência social de que é contemporânea. É inquestionável que esta posição influencia decisivamente a proteção de seres não-humanos, com a consequente transformação de condutas e paradigmas, como o exemplificam as tendências legislativas de o direito de propriedade sobre os animais não contemplar o serem vítimas de atos cruéis, maus tratos, formas de treino inadequadas ou outros atos de que resulte abandono ou sofrimento injustificado.
Sucede que uma tendência para uma igualdade que exige que o sofrimento e o sentir sejam sempre tidos em linha de conta, em termos igualitários, em relação a um sofrimento e sentir semelhante de qualquer ser (mesmo que de outra espécie), pode conduzir a situações delicadas ou absurdas. Mesmo que se entenda que a extensão da igualdade não implica tratamento igual, mas sim consideração igual. Ou defendendo-se que a sua ampliação de um grupo a outro não acarreta que devamos conceder a ambos os grupos os mesmos direitos e tratá-los de igual modo, uma vez depender da natureza dos seus membros.  

 

5 de junho de 2015

Joaquim Miguel De Morgado Patrício    

ATORES, ENCENADORES (XXVIII)

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Adelina Abranches (in http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.pt/)

 

ADELINA E AURA ABRANCHES: RENOVAÇÃO FAMILIAR

 

Há uma certa constância, ao longo dos tempos, na renovação geracional da profissão e da atividade de atriz e ator. No século passado, os casos de Amélia Rey Colaço e Mariana Rey Monteiro, ou de Laura Alves e Vasco Morgado Filho podem servir de exemplo, entre outros mais.

Precisamente: trazemos hoje a evocação de duas atrizes exponenciais na história do teatro-espetáculo português, mãe e filha, que cobriram, em atividade simultânea ou sucessiva, quase um século de atividade contínua, a partir da segunda metade do século XIX. Assim, Adelina Abranches, nascida em 1866, estreou-se com 5 anos de idade, no Teatro D. Maria II (Janeiro 1872). Morreu em 1945, celebram-se pois daqui a meses os 75 anos. E a sua filha, a atriz Aura Abranches, nasceu em 1896 e morreu em 1962.

Também da família, filho de Adelina, irmão de Aura, o ator Alfredo Ruas fez a sua época, mas não abordaremos aqui.

Ocorre que Adelina Abranches esteve em cena, como se diz na gíria teatral, até pelo menos 1942. E Aura estreou-se no Teatro D. Maria II em 1907, num espetáculo protagonizado pela mãe. E em cena se manteve até 1962, tendo encerrado a carreira com uma impressionante interpretação do vicentino “Pranto da Maria Parda” em 1961, a que assisti: inesquecível pela qualidade e já agora pela formidável ovação do público, no final…

Ora bem: para lá desta recordação, a que acrescento muitas outras de Aura Abrantes, quero aqui referir um aspeto interessante das duas carreiras complementares. É que tanto Adelina como Aura surgem ligadas à estreia/revelação predominante de autores contemporâneos de cada uma delas. E isto, no que respeita ao teatro europeu ou brasileiro - pois ambas representaram no Brasil - mas sobretudo no que se refere ao teatro português. E Isto porque, designadamente no tempo de Adelina Abranches, quase não se representava entre nós qualquer outro “teatro” que não fosse, ou português, ou espanhol ou francês.

Mas o mais relevante, sobretudo no que diz respeito ao repertório português de ambas as atrizes, é a sua modernidade – para a época, claro: mas também a sua qualidade, e essa já não obriga a restrições cronológicas.

Senão, vejamos: Adelina estreou peças de Marcelino Mesquita, de D. João da Câmara, de Eduardo Swalbach, Bento Faria, Henrique Lopes de Mendonça, Vasco Mendonça Alves, Ramada Curto, entre outros mais. E sobretudo, pela qualidade e pela repercussão à época e ainda hoje, registe-se a estreia “escandalosa" de “O Lodo” de Alfredo Cortez em 1923 e de “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão, em 1927.

Ora, no mesmo registo se desenvolveu a carreira de Aura Abranches, com maior internacionalização de repertório, agora mais recetivo a autores e peças de outras origens. Mas evoquemos, no que se refere ao teatro de autores portugueses, além de alguns já citados – Schwalbach, Ramada, Cortez – Júlio Dantas, Chagas Roquete e autores estrangeiros de grande modernidade e ainda hoje de grande qualidade – por exemplo Alexandre Casona, Luigi Pirandello, Arthur Miller, este com “As Bruxas de Salem” que fez época no D. Maria II.

Mas importa ainda referir a intervenção de Adelina e Aura Abranches numa iniciativa aliás gorada mas notável no sentido da modernização. Tratou-se do chamado “Teatro da Natureza”, que em 1911 reuniu, no Jardim da Estrela, por iniciativa do cenógrafo e futuro professor do Conservatório e diretor do D. Maria II Augusto Pina, um grupo de artistas apostados ma atualização do repertório clássico, enquadrando-o numa versão moderna. Estrearam então a “Oréstia ” de Ésquilo, com um elenco notável: Adelina e Aura Abranches, Alexandre de Azevedo, Barbara Wolkar…

Mas o espetáculo durou três dias!

(cfr. Luis Francisco Rebello “Dicionário do Teatro Português” Prelo ed pags. 72-74.e  “O Teatro Simbolista e Modernista”  ed. ICP 1979 pag. 86;  Duarte Ivo Cruz “História DO Teatro Português” ed. Verbo 2001 pag.240; Gloria Bastos e Ana Isabel E. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira Republica” ed. MNT 2004 pag.146).

 

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

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The Law of The Land, 1215-2015

 

“To no-one will we sell, to no one deny or delay right or justice.” A ninguém venderemos, a ninguém negaremos ou atrasaremos direito ou justiça. Com estas palavras cerra a cláusula 29 da Magna Carta selada pelo King John a June 19, 1215, em Runnymede, após cinco dias de negociação under truces com revoltosos barões. 

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Ao estatuir que nem o monarca está acima da lei, a Great Charter firma-se como embriónica rocha das modernas liberdades e do estado de direito. — Chérie, qui se détourne évite le danger!

Que o poder não aceita facilmente limites prova-o o facto de esta carta régia sobreviver durante apenas 12 semanas, até ser repudiada pelo Pope a preces do dito Bad King. O abuso cedo a recupera e as gentes lhe garantem longevidade. — Hmm. Do as you would be done by. Nos nossos dias, The Queen preside à parada Trooping The Colour e distingue 1,163 pessoas por serviços à comunidade. Já a US First Lady Michelle Obama visita London para promover a causa da educação feminina. A European Space Agency maravilha com a mensagem “Hello Earth! Can you hear me?” emitida pela Philae, que acorda sete meses depois de lançada pela nave mãe Rosetta e aterrar na superfície do cometa 67P.

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Glorious Summer days around. As atenções repartem-se entre a metrópole engalanada para The Queen’s official birthday, com a tradicional prime piece of pageantry e a British Royal Familý no balcão do Buckingham Palace, e um burgo 20 milhas a oeste de London: Runnymede. Elisabeth II preside ali à cerimónia que assinala o 800th anniversary of The Great Charter. Com a Patron of the Magna Carta Trust está o neto Prince William, segundo na linha do trono. A coroa renova assim a fidelidade à Law of The Land. Hoje mesmo, três das cláusulas de 1215 permanecem no Britain's Statutes Book que reúne a Law of the United Kingdom. A influência da rule of law passa fronteiras. Inspira a US Declaration of Independence e a US Bill of Rights. Parcelas do articulado constam até da Universal Declaration of Human Rights, incidentally pela mão de Sir Winston Churchill.

The Westminster system é legado desta tradição de liberdade, a qual exige defesa de todos em todos os tempos. O antigo Prime Minister Gordon Brown adverte agora para novos perigos que pairam sobre The Land of the free, devido a táticas partidárias de divide and rule. Na sua ótica, os Tories “starting to give up on Scotland” com os planos de "English votes for English laws." Esta é uma fresca advertência que o  EVEL ampliará divisões no reino. “If the United Kingdom collapses, it will not be because a majority of Scots are hellbent on leaving but because the UK Government is giving up on saving it,” escreve num artigo no The Guardian

Elisabeth II celebra o aniversário oficial (o seu é a April 21) com saudação em Buckingham a par dos Princes Philip, Charles, William e George, a parada Trooping The Colour em St James e a criação de novos 33 knights but only 7 dames

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O Dr William Frankland, 103-year-old e um dos pioneiros da allergy research que trabalha com o inventor da penicilina, destaca-se nas distinções deste ano. Os actores Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch entram nas honras e são jovens nobres cavaleiros da Most Excellent Order of the British Empire. Também o US actor Kevin Spacey recebe “an honorary knighthood” ao terminar a 10-year run como diretor artístico do London's Old Vic. Entre os membros da ordem de cavalaria da democracia britânica, criada pelo King George V em 1917, estão duas ilustres académicas da University of Oxford: Frances Mary Ashcroft e Frances Anne Cairncross, uma Professor of Physiology e outra Rector no Exeter College. Por “political service” surge um discreto protagonista eleitoral. O CEO do Arbuthnot Banking Group e ora Sir Henry Angest é apontado como a generosíssima mão que entrega aos Tories £7m em doações e empréstimos. — Well, well. Actions speak louder than words.

 

St James, 15th June

Very sincerely yours,

V

A VIDA DOS LIVROS

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De 15 a 21 de Junho de 2015

«Diálogo entre o Autor e o Crítico» (Editorial Presença, 2015) de José-Augusto França é uma boa surpresa. E Hélder Macedo é claríssimo no reconhecimento: «Este “Autor” que é também “Crítico” encarrega-se de facultar aos leitores as necessárias informações sobre a sua obra literária e, consequentemente, sobre si próprio.

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JACOB E O ANJO

A ilustração da capa é significativa, Jacob luta com o Anjo, na interpretação de Delacroix na igreja de Saint-Sulpice de Paris. E, lendo o diálogo que o livro contém, descobrimos em Israel, o vencedor do anjo, o Autor e na misteriosa figura alada o Crítico. Acontece que neste livro os dois antagonistas são uma e a mesma pessoa, que usa a lucidez (citando de quando em vez os críticos que falaram ou escreveram, como Ernesto Rodrigues tantos outros) para nos revelar uma vocação romanesca, assente numa serena erudição, natural, agradável e sempre pedagógica… E que bom seria se outros escritores também o tivessem feito. Porque raras vezes terá havido um escritor que tão detalhadamente se revele como ele». É verdade. Mas estamos diante de um especialíssimo Autor, que tem experiência bastante para se colocar nos dois pratos da balança – uma vez que fez ofício de vida a realizar a crítica, como historiador de arte de primeira água, tendo-se assumido como ficcionista em continuidade e coerência com o uso do bisturi analítico. De facto, vem a propósito, como faz o prefaciador, H. Macedo, lembrar Paul Valéry quando este diz que «um escritor clássico é um criador que contém em si um crítico que participa na sua criação». E em J.-A. França isso é por demais verdadeiro, porque sempre as duas qualidades de encontram em abundância na personalidade criadora do autor. E, assim, o melhor e mais original do que escreve em ficção não cabe nas coordenadas clássicas. Por exemplo, «A Bela Angevina» (2005) e «A Guerra e a Paz» (2009) tratam do que foi e sobretudo do que poderia ter sido. E o autor assume essa sua veia de procurar ir além do real, fiel a uma coerência que recorda as suas preocupações originais de alguém atento ao movimento e às inquietações existenciais.

 

OBRA CRIATIVA DE CULTURA PARTILHADA
Como ainda afirma o prefaciador: «num tempo de banalidades pseudoculturais esta é uma obra de criativa cultura partilhada como um valor comum e permanente. Oxalá todos deem por isso». E entende-se muito bem a epígrafe que o autor escolhe, do Padre António Vieira: «O livro sendo o mesmo para todos, uns percebem dele muito, outros pouco, outros nada; cada qual conforme a sua capacidade»… E não se pense que se trata de uma obra com chave acessível a muito poucos. Não. Mesmo que se não conheçam as obras de que o Autor fala, em diálogo com o Crítico, podemos usufruir uma reflexão muito útil sobre o ato criador, sobre como se constrói o mundo romanesco, contando com diversas matérias-primas, a começar na vida vivida e a continuar no legado que recebemos dos clássicos. Que é a criação senão contante recriação? E sente-se a importância do entretenimento na função criadora. Sim, a palavra entretenimento é pertinente nesta «grande tapeçaria de invocação tolstoiana», na expressão de Eduardo Lourenço, que refere a tentativa de um «retrato de uma longa vida enredada em labirintos e fantasmas e numa paixão pela mitologia cultural de um século de fascínios e horrores». Se houve neutralidade colaborante e não houve invasão, na segunda grande guerra, em Portugal, o certo é que tudo aquilo (que o romance documenta) poderia ter existido… E tal permite perceber o que aconteceu e não aconteceu depois… «Tudo é real, meu caro (diz o Autor), ou ficção, que tanto faz, na ilusão, em suma, de toda a literatura que se pratica! E os nomes das pessoas só, afinal, têm valor onomástico, nos sítios em que se encontrarem ou os ponham…».

Mas temos de ir atrás, até «Natureza Morta» (1949). Aí com Júlia, singular personagem feminina, o autor «experimenta (…) a expressão do moderno sentimento de angústia em interdependência com uma realidade quotidiana» (que Tomás Ribas notou muito cedo), numa espécie de «superação simultânea dos postulados estéticos do presencismo e do neo-realismo» (como verificou Miguel Real), quando também se poderia falar de influência das análises intimistas oriundas da «Presença», como fez o autor de «O Labirinto da Saudade»… «Mina e as Consequências» (2011) irá retomar o tema da mulher com especial cuidado e realce.

UM MUNDO ROMANESCO
E vêm-nos à memória as outras nossas heroínas do romance – a Luísa do Basílio, a Morgadinha dos Canaviais, a Margarida Dulmo de «Mau Tempo no Canal». Mas Maria Eduarda é talvez a única heroína do romance nacional, depois da «Menina e Moça» de Bernardim… Sendo marcante, Mina Van Ghel de J.-A. França, Urbano Tavares Rodrigues identifica-a com a aristocracia do Sentir e Eduardo Lourenço com uma beleza triunfante e natural. É o feminino singular. Por outro lado, há ainda o caso de «Azazel», experiência teatral (1956) – a fazer lembrar o «bouc emissaire» de René Girard -, de que Maria Helena Vieira da Silva gostou, ao contrário de Sena e Casais Monteiro, mas que José Blanc de Portugal melhor compreendeu («o comermos os nossos pecados convinha à sua profunda consciência católica – tanto quanto à minha, digamos, “existencial”»)… Muitos outros exemplos poderíamos dar. Percebemos, por exemplo, que em «A Bela Angevina» há a ilustração de que o romance entrecruza sempre a realidade e a imaginação. Aí se conforma, de facto, o nascimento de «Os Maias» (Ernesto Rodrigues dixit). E se Faulkner dizia que o romance por excelência era «Anna Karenina», J.-A. França não tem dúvidas em acrescentar, no caso português, que é de «Os Maias» que devemos falar. A encruzilhada aí está, gerando-se a complexidade e o carisma de Maria Eduarda. Campos Matos fala de processo de gestação da personagem. E assim Tolstoi está bem presente nos romances do Autor, onde porventura a sua força criadora melhor se manifesta. E se Eça é, naturalmente, referencial e histórico, Almada Negreiros (amigo do Autor) é protagonista contemporâneo de «José e os Outros» (2006), «um romance individual» ou «um romance social “dos anos vinte”, “janela sobre Lisboa” da época, como foi escrito, «ficção das (des)ilusões modernistas de 1920»… O livro quase passou despercebido, mas merece atenção primordial – respondendo o Autor que a razão de ser dele é uma justificação à Almada: 1 mais 1 =1, que poucos compreenderam. Fernando Pessoa não é subalternizado, o que se passa é que o fulcro está na teatralidade e na singularidade de Almada Negreiros, mestre da «Invenção do Dia Claro», que o Autor conheceu e de quem foi amigo (depois de uma célebre conferência no Centro Nacional de Cultura, pouco depois da fundação deste em 45). «Almada propõe-nos a clareza do “teleon”, o número perfeito dos Antigos, e em aforismos o exprime…Assim é o mito!». Em suma, dirá o Autor: «as personagens que encontrei ou com que me encontrei, mesmo que sejam “históricas” como Eça ou Almada, é a verdade delas que conta»…


Guilherme d'Oliveira Martins

CONTOS BREVES

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Jogos para crianças, Bruegel o velho

 

12. SOMOS COMO RIOS...

 

A Inês, a caminho dos quinze, já não pede colo ao Avô. Há anos! Emancipou-se, foi-se fazendo senhorita, diz umas coisas, manda umas opiniões, mas sempre lá de longe, dois passos atrás, afastando-se rapidamente do beijinho com que saúda: "Olá Avô, como está?" O velho, manhoso e brincalhão, invariavelmente lhe responde, à boa lusitana maneira, que vai andando, que já andou muito e por muitos anos... "Olha, menina, já tenho idade para estar melhor ou pior, até posso ser resmungão sempre que isso me ajude, ou se me apetecer ou calhar que assim seja... Mas tu... tu é que não te safas, tens pela frente uns anos para mostrares os dentes (e não te esqueças de os lavares todos os dias várias vezes!) num sorriso largo, para dizeres «Estou óptima! Viva a república!», percebes?" Esta neta deita-me então uns olhos, meu Deus, nem sei como explicar... Ou talvez saiba, mas não quero, não gosto, até parece que está a fazer troça! Não deve estar, não, coitadinha, ela é tão boazinha... Será? Tam-tam-tam-taaam!, começo logo a ouvir a 5ª sinfonia do Beethoven, será o destino a bater-me à porta? E ponho-me a cogitar : será que a miúda tem a mania de que já é o máximo, ou será que cresceu mesmo e eu, saudosista, não dei por isso, ou será - assim canso a cabeça - que estou xéxé e já não me lembro da "idade do armário"?  Seja como for, lá se senta e se vai chegando a mim, sobretudo se eu estiver sentado ao computador, escrevendo... A curiosidade é mãe de todas as coisas, não é? - "O Avô continua a escrever muito? E não escreve contos dos netos?" Sinto-me logo escravizado, cheio de ganas de ir reclamar, para mim também, caramba!, o direito ao lazer, férias pagas, exílios em paraísos tranquilos... Ergo o rosto severo e inquisidor, desfaço-me num sorriso parvo, mas logo  todo o meu mim se amansa: não tenho outro espelho senão o sorriso que alegra os olhos e a boca da Inês: vejo então que é, afinal, meu também aquele sorriso, nada tem de parvo, parvo fui eu ao pensar que já não tinha idade para ser vencido, ou por não ter logo entendido que as famílias são rios de nascentes longínquas e que vão desaguar no infinito. As gerações são imperfeições que, correndo como as águas, se sucedem... Tempos depois, em manhã de sossego e solidão, atendo um telefonema lá de longe, da Inês. "Não tens escola?" - "Tenho, mas não fui, dói-me a barriga, mas a Mãe está comigo e logo à tarde talvez já possa ir... O Avô está a escrever? Fala dos netos?"  Falámos nós os dois, sim, de livros e da vida, do tempo e de coisas banais, dessas que são desinteressantes mas valem muito por serem desinteresseiras... A Inês, no dia em que se surpreendeu mulher, voltou a sentar-se ao colo do Avô, por telefone, a mais de mil quilómetros de distância. 

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Christopher Alexander e o sistema de vizinhança. 
 

‘People need an identifiable spatial unit to belong to.’, Christopher Alexander, 1977
 

Como aproximar o Homem à cidade?

A ideia de sistema de vizinhança traz o Homem à sua comunidade - fá-lo identificar-se com o espaço em que vive. De acordo com Chritopher Alexander (1936), em ‘A Pattern Languange’  (1977) o conceito de vizinhança varia de povoação para povoação, de cidade para cidade, de pessoa para pessoa. Porém, um sistema de vizinhança consistente está protegido em relação à totalidade da cidade – tem tamanho reduzido [em área e em população (cerca de 400 a 500 habitantes)] e é constituído, essencialmente por vias de acesso local (‘A neighborhood can only have a strong identity if it is protected from heavy traffic.’, Alexander, 1977)]. O limite da vizinhança é necessário para tornar o lugar identificável, singular, único.

A existência de um lugar não depende somente das suas condições reais, mas acima de tudo varia de acordo com a atribuição humana de significados e interpretações. O Homem cria o lugar, ocupa-o. É determinante, reforçar que não é uma superfície física forte que forma a fronteira, que divide o interior do exterior. O que de facto formaliza a fronteira de uma vizinhança é a coerência do seu conteúdo. Uma vizinhança é uma subcultura em dimensões reduzidas – as funções introduzidas não se relacionam com a resposta a grandes necessidades de consumo e de trabalho (estas necessidades maiores associam-se ao espaço que envolve estes lugares). Uma vizinhança, com menos de 500 habitantes, necessita somente de cumprir necessidades básicas – este factor também ajuda a determinar uma fronteira, uma parte distinta da cidade.

Uma vizinhança deve, assim ser uma parte distinta da cidade com fronteira capaz de manter o carácter do lugar morfológico – poucos arruamentos circundantes devem ligar-se à sua grelha.

É possível formalizar o lugar identificável, a proximidade, a vizinhança e a comunidade?

Segundo Christopher Alexander, a formalização é actualizada através de determinadas condições urbanas. E para que se constituam Sistemas de Vizinhança é necessário cumprir os seguintes factores:

a) Nós de actividade: os caminhos principais das vizinhanças devem convergir para centros de actividades, i.e., manchas vitais para a vivência de uma comunidade. Estas actividades, quando colocadas numa comunidade, têm de estar associadas aos seus caminhos mais importantes. O objectivo é criar concentração de pessoas através do agrupamento denso de funções que se combinam em torno de um espaço público reduzido. É essencial criar nós de actividade nas extremidades dos caminhos mais relevantes (os caminhos pedestres devem convergir para estes nós) e permitir o contraste entre actividade e residência numa escala reduzida. As vias pedonais mais importantes devem concretizar diferentes hierarquias de espaço público – na proximidade dos nós, mais largas; nas extremidades mais residenciais, mais estreitas.

b) Hierarquia Privado/Público: cada vizinhança contempla três locais ideais para habitação:

  • Próxima de nós de actividade – ao longo de caminhos ao longo de serviços, bem abertos e receptivos a actividades variadas e a multidões, que encorajam actividades e tráfego apressado e em quantidade.
  • Entre nós de actividade – ao longo de caminhos de ligação entre os nós mais calmos e os mais centrais e activos.
  • Isolada – ao longo de caminhos separados dos serviços, estreitos e tortuosos para evitar movimento automóvel.

c) Fronteira: existe pela coerência do conteúdo de um sistema, pelos acessos restritos e por entradas marcadas. A existência de fronteira protege, fortalece e realiza as funções que a envolvem. A mais importante característica da fronteira de uma vizinhança é o seu acesso restrito – vizinhanças claramente definidas só são servidas por determinados caminhos e vias – é importante a presença do limite (este pode ser entendido, planimetricamente através do desenho dos arruamentos em T). Se o acesso, à vizinhança é restrito, os pontos de acesso tornam-se importantes – estes pontos são designados por gateways e marcam a passagem para a vizinhança. As gateways permitem identificar mais claramente a vizinhança, sobretudo as suas fronteiras/limites. As fronteiras não só identificam, protegem, mas unem vários sistemas de vizinhança da cidade. A fronteira pode estar associada a espaços de encontro e a funções comuns a variados sistemas de vizinhança (parques de estacionamento, serviços, equipamentos, espaços verdes, ruas comerciais).;

d) Ligação entre Edifícios: a ligação física entre edifícios cria automaticamente espaços vazios positivos. Edifícios isolados contribuem para uma sociedade fragmentada – espaço livre entre edifícios pode contribuir para a formação de espaços sem utilização e sem relevância;

e) Fachadas do Edificado: permitem o desenho de alinhamentos, de contenções, de convergências. A disposição dos edifícios ao longo do espaço público faz com que participem desse espaço (ao contrariar o alinhamento do edificado a definição do espaço público como espaço social pode perder-se);

f) Relação de Edificado com o Espaço Exterior: através da introdução de aberturas estratégicas no edificado – por exemplo através das arcadas permite-se a introdução de caminhos no edificado, protegidos, contínuos que garantem a ligação entre edifícios, a interacção entre pessoa e edifício, entre espaço público e privado. Esta aproximação é maior e mais bem conseguida sempre que o edificado não excede os quatro pisos;

g) Espaço Vazio Positivo: a existência de espaço comum permite a concretização de um sistema social. Atenta-se, aqui, ao espaço que se estende do privado para o público, ligado à rede comunitária por excelência. O espaço comum garante zonas de encontro entre as variadas actividades. A percentagem ideal de espaço comum é de 25% para 75% de área privada. Em geral, o espaço deliberadamente sobrante entre edifícios não é utilizado. Existem dois tipos de espaço sobrante – o positivo e o negativo. O espaço é negativo sempre que é informal (sem forma, sem controlo), provoca espaço residual deixado entre edifícios, meramente colocados no território. O espaço é positivo sempre que se apresenta formal, isto é, sempre que a sua forma é tão importante quanto a forma dos objectos que o desenham. Se o espaço é negativo/sobrante, os edifícios identificam-se como objectos. O espaço positivo apresenta dois conjuntos formais – o espaço construído e o espaço não construído. O espaço positivo e negativo também se define através do grau de convexidade e contenção dos objectos existentes. Os espaços positivos são, parcialmente contidos e a sua área é definida por fronteiras, mas também por espaços de convergência – é espaço convexo, tendencialmente utilizado. O espaço negativo não é determinado por fronteiras, apresenta uma extensão não formalmente limitada – é espaço não convexo, tendencialmente não utilizado. O ideal é garantir ligação entre espaços positivos e evitar encerramento total.

h) Pequenos Espaços de Encontro: Os pequenos espaços de encontro representam numa vizinhança os nós de actividade. A tendência para a existência de praças com grandes dimensões provoca, na verdade espaços sem vida – o ideal dimensional é de 20m de largura. Os pequenos espaços de encontro têm de ser claramente perceptíveis pela própria disposição dos objectos construídos e devem estar incluídos numa hierarquia de espaços públicos.

i) Espaço Canal: é necessário considerar a rua como local de acesso, de movimento e de encontro. A rua é determinada pelo processo do andar – processo directo ou sinuoso que liga sucessivos e concretos objectivos. É espaço de encontro, de permanência e não espaço de passagem. Para promoverem a permanência, a forma da rua tem de se apresentar ligeiramente convexa.


Ana Ruepp

CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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Sir Alec Guinness as "Monsignor Quixote"

 

Minha Princesa de mim:

 

Já chegou a primavera, vem próxima, a celebrá-la, a festa da Páscoa. Escrevo-te em Domingo de Ramos, que foi sempre, para mim, a celebração da aclamação popular do sacrifício anunciado, desse gosto (mórbido?) de que seja bom que um homem morra pelo povo todo... E é certo que continuamos a teimar - está na nossa cultura - na necessidade de um bode expiatório, como aquele que os judeus antigos expulsavam para o deserto e levava, pobre animal, a carga pesada dos pecados dos homens... Tem muito que se lhe diga, tem mesmo, esta cultura da culpabilização remetente. Pecado, em tal contexto, é, antes do mais, a violação de um interdito religioso, seja ele animista, imaginário e pagão, ou seja violação de um hadith de Maomé, ou de um mandamento divino que, no júdeo-cristianismo, ou nas religiões ditas monoteístas, os poderes clericais se esmeraram em alastrar por infinitas normas canónicas. Um susto tão grande, que  pobres pessoas - para se manterem na comunhão das suas irmandades - foram tendo que renegar o que livremente pensaram, o que corajosamente sentiram, para a si mesmas se acusarem... Publicamente, para edificação de todos, fomos insistindo nas doutrinas das igrejas, na afirmação de conveniências circunstanciais como princípios eternos e imutáveis. Insistimos no transitório, esquecemos a tradição da verdade que liberta (...et veritas liberabit vos...). Confundimo-nos, afinal, com culpabilidade, alienámos, de modos variados, a  responsabilidade. E este pobre diabo, que te quer tanto, e tanto bem, insiste em pensar, minha Princesa de mim, que, de culpas, sabe Deus, mas responsáveis devemos nós ser... A grande, fundamental, diferença entre culpabilização e responsabilização está em que as culpas se atiram sobre nós ou sobre outros  -  com mais ou menos hipóteses de perdão  -  mas a responsabilidade, essa sim, é sempre só nossa, não é aferida por juízo de terceiros, é simplesmente a resposta que a nossa consciência dá... Exige formação dessa própria consciência, a procura do conhecimento necessário à construção dum espírito crítico. No que nos toca, a cada um de nós como pessoa e sujeito de direitos, é sobretudo a dignidade com que definimos os nossos critérios, com rigor e prudência (o tal amor sagaz de que falam Sto. Agostinho e S. Tomás), mais do que a pressa com que possamos trucidar terceiros ou correr - se considerarmos que é culpa nossa - ao alívio de qualquer confessionário. Quem quiser praticar a justiça terá, certamente, de ajuizar, não tem que julgar, a si ou a outros, reclamando-se de funções ou poderes que não lhe competem nem foram conferidos. Apenas na ordem social - e no quadro do necessário regulamento de comportamentos que podem ser conflituosos ou ofensivos - se justifica, pela procura da harmonia, o exercício de um poder judicial, garante de direitos e paz. Mas como atitude de cada um, parece-me a mim, socorramo-nos desse espírito de justiça que inspira Aristóteles, cuja leitura quero, com gosto, partilhar contigo (respigo do livro V da Ética a Nicómaco): Quanto à justiça e à injustiça, devemos examinar quais podem ser as acções que elas põem em jogo, que espécie de média constitui a justiça e entre que extremos se situa o justo como meio termo... Ora esse meio é o equitativo porque, em cada tipo de acções em que há lugar para o demasiado e o demasiado pouco, há lugar também para o equitativo...

(Faço mesmo um parêntese, deu-me a lembrança riso: já cantava o Marceneiro que "amar de mais é loucura, amar de menos maldade"... ou qualquer lição assim!)

Daí, pensossinto eu, a importância da primazia do juízo da consciência formada, ou discernimento -  que necessariamente implica a diferenciação entre o essencial e o acessório, isto sendo, em muitos casos, a percepção dos tempos e modos das coisas - sobre a afirmação intratável de princípios, como se vivêssemos numa ideal eternidade... Vê bem, Princesa, olha para mim, que andei vagabundo pelo mundo, desde pequeno, não achas que terei, na minha alma, de encontrar um lugar para cada ser humano, na sua contingência e cultura, que o deixe respirar na harmonia? Li há pouco a notícia de que uma mulher muçulmana, cidadã francesa, casada, de 28 anos de idade, foi brutalmente agredida, em Toulouse, por dois gauleses (castiços?), pois trazia a cabeça coberta por um hidjab, esse véu cujo porte, na Europa cristã - mais renda, menos tecido - era ainda, há poucas décadas, obrigatório para as mulheres nas igrejas católicas... Salvou-lhe a vida um dos dois assaltantes, por ter reparado em que ela estava grávida e impedido o outro de a esfaquear. Este ainda lhe gritou "Tira esse véu, muçulmana porca, não queremos m... dessas aqui!" Valeu-lhe a ela - francesa, como seu marido muçulmano, desde a nascença - essoutro rapaz que, pesasse o seu momento de tensão agressiva, se lembrou de que, em consciência, acima de tudo o mais, devemos respeitar o direito à vida. De coisa nenhuma, para além da afirmação de um "princípio", se lembrou outra senhora francesa,  republicana e laica, que obrigou um rabino judeu, tão cidadão de França como ela, a tirar o solidéu que lhe cobria a cabeça para poder votar nestas eleições regionais... Em nome do laicismo que se atira ao fanatismo religioso, ela não percebeu que se comportava movida pelos mesmos propósitos da santa inquisição católica, dos massacres da Saint Barthélemy em 1572, da perseguição de católicos por Cromwell, de tantas guerras, sevícias e massacres perpetrados em nome de "princípios" religiosos, políticos ou ideológicos. Quiçá por excesso de zelo, a devota e dedicada republicana laica esqueceu-se, todavia, de que a lei proibindo o porte de insígnias ou acessórios identificadores de crenças não se aplica nos locais de voto... Ou estaria simplesmente obcecada pela preocupação do respeito por um princípio, e da correcção, ou mesmo castigo, dos seus violadores? Magoa-me, muitas vezes, que se impute às religiões a culpa dos conflitos. Não por meu excessivo amor à camisola católica que visto, menos ainda por pensar que as instituições da minha religião, ou qualquer outra, nunca foram responsáveis, directa ou indirectamente, através de afirmações "doutrinais", pretensões disciplinadoras ou tentações totalitárias, por muita estupidez e muitas barbaridades por aí cometidas... A minha mágoa, Princesa de mim, vem tão somente de pensarsentir que tanto mal é feito invocando-se o nome de Deus misericordioso para não usarmos de misericórdia e pretendermos impor aos outros a "verdade" que eles não entendem como nós. O professor da universidade de Paris IV, Denis Crouzet, especialista em guerra das religiões - e que publicará brevemente, com Jean-Marie Le Gall, um ensaio intitulado Au péril des guerres de religion - afirma, em recente entrevista a Le Monde: Temos de pensar no facto religioso como matriz do conflito. É uma cultura que estrutura as violências, ainda que seguindo modalidades diferentes. A religião dominante - o catolicismo na Europa dos séculos XVI e XVII, o islão sunita no mundo árabe de hoje - considera-se ameaçada: conduz então uma guerra "purificadora", visando exterminar todos os que pactuarem com o "mal"... E, comparando iconografia desses anos de guerra entre cristãos católicos e protestantes, todos europeus, com os vídeos do Daech, estado islâmico do nosso tempo, conclui que uns nada têm a invejar aos outros... E eu acrescento que a obsessão laicista hodierna tem a mesma motivação psíquica, não sendo, todavia, religiosa. A França que se reclama de uma "certa república", não só proíbe o uso pessoal de símbolos religiosos em espaços públicos (estatais), como até deslocou as datas de certas férias escolares, tradicionalmente concedidas por ocasião de festas cristãs (a Páscoa, por exemplo), para que não houvesse confusões, nem se desse azo a que minorias de outras religiões pudessem reclamar. Esqueceu-se essa coisa comezinha: essas férias não eram já só celebrações cristãs, eram parte integral, actual e antiga, da identidade francesa. Nenhum muçulmano, vivendo em França, teria de reclamar, limitar-se-ia a aceitar a circunstância que o acolhera. Hoje, paga à laicidade o preço do que não reclamou, não podendo, ele tampouco, sobretudo se for mulher, vestir-se na escola segundo a sua própria tradição. Minha muito querida Princesa de mim: sejam crentes ou ateus, religiosos ou laicos, estou farto de beatos. Sejamos mais responsáveis pelo saudável convívio de todos!

(Abro ainda um segundo parêntese, espero que também te rias: contou-me um amigo padre que, naquele tempo em que viajava à boleia, por essas estradas da Europa, reparou na vantagem de usar colarinho romano, essa coisa que clérigos põem ao pescoço... Em dia de canícula e camisa aberta, não trazia nenhum, só um farnel que lhe preparara a mãe para a viagem. Ora, quis o Espírito Santo que a boa senhora lhe tivesse ali posto um queijo camembert... Ideia genial! O nosso cura, com o canivete, corta cuidadosamente a casca do queijo à volta e cola a branca fita ao pescoço. Logo conseguiu boleia, e um toque final: "Foi um prazer trazê-lo, senhor padre, apesar do cheiro a queijo...!")

Não te zangues muito comigo: não sou pedreiro livre, sou só livre pensador. Não tão livre que me satisfaça ou sequer contente, pois a vida de cada um de nós é feita do renovado cansaço que, dia a dia, vamos consentindo, na procura de um novo olhar. Como cão de guarda, a esse arame fico preso. E teu amigo, sempre.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira