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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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De 21 a 27 de setembro de 2015

 

Alexandre Herculano (1810-1877), fundador da moderna historiografia portuguesa foi um defensor pioneiro do Património Cultural, em especial através da revista «O Panorama». Invocamo-lo no âmbito das Jornadas Europeias do Património, do Conselho da Europa.

Untitled.jpgCaricatura de Vasco.


SENTIDO HISTÓRICO DA CULTURA

Há muitos modos de interpretar o sentido histórico de uma cultura, como a portuguesa, que, nascida no ocidente peninsular, se projetou universalmente. Alexandre Herculano foi alguém que procurou, de modo sistemático e exigente, dar-nos uma chave sobre a nossa existência histórica, sem a pretensão de a tornar definitiva ou infalível. A historiografia mais recente sente a sua influência – como o reconheceu, melhor do que ninguém, José Mattoso, ao considerar que a melhor marca que o velho historiador nos deixou não foi a da ideologia ou das suas conclusões, mas a da obrigação crítica, aliada ao rigor do método centrado nas fontes. Só seremos, pois, fiéis à lição herculaniana se prosseguirmos a sua visão crítica, centrada na procura da objetividade dos factos e dos acontecimentos. E se refiro a palavra procura é porque muitas vezes há domínios em que nos defrontamos com a dúvida ou com o dilema, quando não com a lacuna, sendo necessário não cair na tentação de simplificar ou de deduzir apressadamente. A vontade dos barões portucalenses, a importância dos municípios, o moçarabismo, a construção gradual do Estado moderno mercê da aliança entre o poder real e os municípios em contraponto ao alto clero e à alta nobreza, os efeitos contraditórios do Império, o liberalismo ideológico e político, a influência romântica – tudo isso constitui a marca própria do historiador que quis abrir horizontes críticos, muito para além das suas conclusões ou intuições. Por isso, a ciência historiográfica mudou profundamente desde o momento em que o Mestre lançou, mercê de aturado trabalho e pesquisa, bases novas. E a verdade é que esse seu indelével sinal continua presente…


DEFENDER A HERANÇA COMUM

Como o próprio Herculano confessa, disputou palmo a palmo a sua vida intelectual. Empenhou-se na Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis a defender o que hoje designamos, numa lógica ampla, como património cultural, a partir dos textos fundamentais da História e da cultura, das ciências e das artes, de modo a garantir uma instrução voltada para o melhor conhecimento de quem somos, não numa lógica fechada e retrospetiva, mas aberta e orientada para diante. Assim nasceu em 1837 «O Panorama – Jornal Literário e Instrutivo», para cuja redação Herculano foi convidado por António Feliciano de Castilho. O jornal saía aos sábados e constitui uma referência fundamental no cuidado pela instrução popular, pela herança e pela memória. Aí se publicaram algumas das «Lendas e Narrativas», e se pôs na ordem do dia a necessidade de proteger o património artístico e arqueológico. Se nos lembrarmos que «O Panorama» chegou a vender cinco mil exemplares, tendo o historiador sido redator principal de 1837 a 1839 e de 1842 a 1844, percebemos que estamos diante de um extraordinário exemplo pioneiro, que seguiu os passos do «The Penny Magazine» de Londres, da Society of Diffusion of Useful Knowledge… (1832-1845) - sendo a própria Rainha D. Maria da Glória a sócia maioritária, num capital de 10 contos de réis. Compreendia-se, assim, ao mais alto nível que uma sociedade moderna e cosmopolita deveria começar por proteger e salvaguardar o que lhe era próprio. De facto, o papel desempenhado por Herculano neste órgão de imprensa, essencialmente cultural, foi da maior relevância, merecendo essa coleção uma revisitação nos dias de hoje. Aí se levanta a voz contra a glória, o lucro e os interesses imediatos, lembrando as vagas de destruição do Renascimento e do pombalismo, apesar da desculpa neste caso da ocorrência da tragédia do terramoto. Havia, no fundo, que contrariar o «instinto bárbaro», «a malevolência selvagem» e a «filosofia da brutalidade». As muralhas antigas da Guarda, Moncorvo, Santarém e Porto eram destruídas. O arco e a torre de Álvaro Pais em Lisboa na cerca fernandina, junto a S. Roque, foram arrasados. E o cidadão Herculano levanta a sua voz na defesa da memória e da liberdade de imprensa. Dentro da mesma coerência, mais tarde, na Regeneração, encontrá-lo-emos no jornalismo político, com «O País» e «O Português», a pugnar em nome da necessidade de haver uma opinião pública, livre, ilustrada e crítica. E se falo do património cultural, devo também lembrar Almeida Garrett que, por exemplo, em «Viagens na Minha Terra» insiste especialmente na atenção e na necessidade de proteger o património antigo votado ao abandono ou à especulação. Diz-nos o escritor, a propósito dos tratos de polé sofridos por Santa Maria da Alcáçova em Santarém: «…Na Europa, no mundo todo, talvez se não ache um país, onde, a par de tão belos monumentos antigos como os nossos, se encontrem tão vilãs, tão ridículas e absurdas construções públicas e particulares, como essas quase todas que há um século se fazem em Portugal».


PATRIMÓNIO, TEMA DIFÍCIL

O tema do património cultural foi sempre controverso. Há a desconfiança de estarmos a privilegiar o passado em relação ao presente e ao futuro. As organizações internacionais que se têm debruçado sobre a matéria têm alertado para a complexidade do tema. A UNESCO e o Conselho da Europa têm procurado articular o património material e imaterial herdado com a criação contemporânea. Veja-se a Convenção de Faro do Conselho da Europa, agora a fazer dez anos –, a dizer que sem respeito pelo que herdamos estamos a condenar o que de melhor as gerações modernas estão a realizar. Os escritores, os artistas, os autores, os inovadores, os investigadores, os intérpretes, os atores, os artesãos, os críticos sabem-no, melhor do que ninguém. E, se invocamos os românticos, com a autoridade de Garrett e Herculano, fazemo-lo porque não encontramos neles a manifestação de meros estados de alma, mas a coerência entre os indispensáveis estudo e a preservação das tradições e dos testemunhos (as lendas, os contos, o teatro, os romanceiros) e a atenção aos arquivos e à procura da documentação autêntica e coeva. Naturalmente que sabemos as suas próprias limitações, mas temos de entender a força do seu apelo, para além da fronteira dos tempos. O programa era e é simples: não destruir ou deixar estragar o que existe, restaurar o que tem valor, divulgar, conservar, tornar acessível… «Nossos pais (dizia Herculano) destruíram por ignorância e ainda mais por desleixo: destruíram, digamos assim, negativamente; nós destruímos por ideias, ou falsas ou exageradas. Destruímos ativamente, destruímos porque a destruição é uma vertigem desta época. Eu ficaria feliz se pudesse, ao menos, salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos. A decadência na época em que vivemos é outra, e mais profunda. Já, não há a corrupção do gosto, o inaplicável das teorias, o erro do entendimento. (…) Em nome de um falso progresso não poupam nada»… Em Palmyra, assistimos ao inominável, no Mediterrâneo e na Europa há uma catástrofe humanitária – aqui limitamo-nos a falar de «uma pequenina luz bruxuleante», para que se salve a memória e se preserve a criação.

                                                                                                 Guilherme d'Oliveira Martins

OLHAR E VER

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  1. ORDNUNGSPOLITIK

Em La Rebelión de las Masas, José Ortega y Gasset a dado passo escreve: El Estado contemporâneo es el produto más visible y notório de la civilización. Y es muy interessante, es revelador, percatarse de la actitud que ante él adopta el hombre-masa. Éste lo ve, lo admira, sabe que está ahí, assegurando su vida; pero no tiene conciencia que es una creación humana inventada por ciertos hombres y sostenida por ciertas virtudes y supuestos que hubo ayer en los hombres y que puede evaporarse mañana. Por otra parte el hombre-masa ve en el Estado un poder anónimo, y como él se siente a sí mismo anónimo  -  vulgo  -, cree que el Estado es cosa suya. Imagínese que sobreviene en la vida pública de un país cualquiera dificultad, conflicto o problema: el hombre-masa tenderá a exigir que inmediatamente lo assuma el Estado, que se encargue directamente de resolverlo com sus gigantescos y incontrastables médios. Éste es el mayor peligro que hoy amenaza a la civilización: la estatificacion de la vida, el intervencionismo del Estado, la absorción de toda espontaneidad social por el Estado; es decir, la anulación de la espontaneidad histórica, que en definitiva sostiene, nutre y empuja los destinos humanos. (O sublinhado é meu). Palavras pronunciadas num tempo em que, pela Europa, já se impunham, se formavam ou ameaçavam, os totalitarismos que todos conhecemos. Lembrei-me delas ao ler, no nº 737 de Le Monde Diplomatique, um artigo assinado por dois franceses (um sociólogo do CNRS e um jornalista) e uma alemã (jornalista) e intitulado L´ordolibéralisme allemand, cage de fer pour le Vieux Continent, que me fez regressar à minha circunstância intelectual em finais dos anos 60 e início dos 70, quando eu era um jovem próximo do movimento de liberalização do Estado Novo e, indigitado por Rogério Martins  -  o terminador do condicionamento industrial em Portugal  - , fui nomeado delegado do nosso país ao Comité da Indústria da OCDE, em Paris. Nesse tempo, falávamos muito de um novo liberalismo económico europeu, mais político e social, designadamente no seu modelo alemão, posto em prática, no pós-guerra, por Ludwig Erhard, ministro da economia de Adenauer (1949-63) e, mais tarde, chanceler da RFA (1963-66). O pensamento subjacente surgira, ainda no período nazi, na universidade de Friburgo-em-Brisgau, movido por intelectuais católicos e conservadores, oponentes do hitlerismo. Adiante veremos isso. Agora, parece-me interessante traduzir para aqui o início do artigo acima referido:  «Se alguém quisesse ainda provas do perigo com que os referendos ameaçam o funcionamento das democracias modernas, ei-la aqui!», fulminava o semanário Der Spiegel de 6 de Julho de 2015, logo depois do anúncio dos resultados da consulta grega. A sideração provocada na Alemanha por este retumbante «não» explica-se pela colisão frontal entre duas concepções da economia e, mais latamente, dos negócios públicos. A primeira achega, que em princípios de Julho os dirigentes gregos incarnavam, reflecte um modo de governo propriamente político. O sufrágio popular tem primazia sobre a regra contabilística, e um poder eleito pode optar por mudar as regras. A segunda, inversamente, subordina a acção governamental à estrita observância de uma ordem. Os políticos podem agir como entenderem, desde que não saiam do enquadramento, que de facto está subtraído à deliberação democrática. O ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, personifica esse estado de espírito. «Para ele, as regras têm um carácter divino», observou o seu antigo homólogo grego Yanis Varoufakis. Esta ideologia alemã mal conhecida tem um nome: ordoliberalismo. Tal como os adeptos anglo-saxões do «laissez faire», os ordoliberais recusam que o Estado falseie o jogo do mercado. Mas, contrariamente àqueles, estimam que a livre-concorrência não se desenvolve espontaneamente. O Estado deve organizá-la; deve edificar o quadro jurídico, técnico, social, moral, cultural, do mercado. E fazer respeitar as regras. É isto a «ordopolítica» ou Ordnungspolitik. Estamos assim perante uma corrente do neoliberalismo, isto é, da renovação ou revisão do pensamento liberal, que ocorreu entre as duas grandes guerras do sec. XX e divergia, na cultura austro-germânica, da tradição liberal, tal como esta era defendida por Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, por exemplo. Curiosamente, o ordoliberalismo, apesar ou, quiçá, precisamente em razão da desconfiança na capacidade de autogoverno das massas (que, aliás, o coevo Ortega partilhava), inspirava-se também em princípios de justiça e estabilidade social, que não eram estranhos à doutrina social da Igreja e, mais tarde, alicerçaram os modelos social-democratas europeus, designadamente o alemão. Mas não vou demorar-me em considerações sobre o pensamento da chamada "Escola de Friburgo", na qual o próprio ministro Schäuble se filia, nem nas suas correspondências com outras correntes do pensamento socioeconómico. Limitar-me-ei a sublinhar que, tal como os seus actuais seguidores e praticantes hoje o defendem, ele é, certamente, um produto da cultura germânica e, como tal, encontra, alhures, críticas, discordâncias e oposições. Pessoalmente  --  e consciente das muitas virtudes que lhe reconheço  --  acho que, como qualquer olhar sobre o mundo e a sociedade, ele é susceptível de revisão, quer para se adaptar a circunstâncias diferentes, quer pelo dever democrático de respeitar a espontaneidade social, como Ortega, aliás, há quase um século vislumbrava. No seu Le Capital au XXIe siècle, Thomas Piketty dedica o capítulo que precede imediatamente as conclusões à questão da dívida pública. Aí recorda como a inflação pode ser um meio eficaz de redução da dívida pública, dado que esta é nominal, pelo que o seu valor real irá diminuindo à medida da desvalorização monetária. E escreve: Assim foi reduzida a maioria das dívidas públicas importantes na história, designadamente, no decurso do século XX, no conjunto dos países europeus. Por exemplo, na França e na Alemanha, a inflação anual foi, respectivamente, de 13% e 17%, em média, de 1913 a 1950. Foi o que permitiu a esses dois países lançarem-se à sua reconstrução com uma dívida pública insignificante no início dos anos 50. A Alemanha, em particular, é de longe o país que mais massivamente recorreu à inflação (e também à anulação pura e simples de créditos) para se desembaraçar das suas dívidas públicas ao longo da sua história. E recorrendo ao historiador alemão Albrecht Ritschl (Does Germany owe Greece a debt? The European debt crisis in historical perspective, LSE, 2012), lembra que uma parte importante da dívida alemã  -  e esta incluía custos de ocupação debitados à Grécia  -  foi pura e simplesmente anulada pelos Aliados a seguir à 2ª Grande Guerra, reportada a uma eventual unificação alemã e nunca mais reembolsada. É fácil conjeturar que a tensão entre os blocos separados pela "cortina de ferro" e a necessidade de fomentar as economias ocidentais tivessem determinado tais generosidades políticas e financeiras, através de medidas e comportamentos menos ortodoxos e mais inovadores. Tal como não será difícil imaginar como povos castigados por décadas de altas de preços e encargos de dívida, na sequência da 1ª Guerra, sentissem receio e raiva a qualquer nova ameaça de desestabilização económica, financeira e social. Já antes, na periferia europeia, a maioria dos portugueses aceitara como mal menor, ou mesmo salvador, depois da desordem da 1ª República, o Estado Novo. Mas talvez se possa hoje pedir, à opinião pública da Alemanha reunificada, uma lembrança mais clara e um entendimento mais sensato das circunstâncias em que foi socorrida e das ajudas então recebidas. Para que, por sua vez, se debruce sobre a diferente condição de outros e se interrogue sobre as necessárias e possíveis inovações políticas  --  no plano nacional como internacional, designadamente quanto à indispensável reestruturação da União Europeia e dos seus mecanismos. Já sabemos que, além de demasiado pesada e injusta para muitos, a "austeridade" vem sendo democraticamente cada vez mais contestada; também sabemos que não tem conseguido reduzir as chamadas dívidas soberanas; nem travado o crescimento do endividamento privado, nem fomentado o desenvolvimento económico e social. E, ora, será bom não esquecer que a circunstância da própria Alemanha tem evoluído muito: já não é a de um país que recebeu muitos apoios e incentivos e logo integrou a CEE, porque era necessário assegurar uma paz duradoura numa Europa desfeita por duas grandes guerras em menos de meio século, e um robustecimento económico das democracias europeias face ao desafio dos países reunidos, sob tutela soviética, pelo Pacto de Varsóvia. Hoje, a Europa conta já mais de meio século de paz e prosperidade, e a CEE passou de seis a quase trinta nações reunidas na União Europeia, integrando a periferia sul do continente e vários países emancipados do jugo comunista ; a imigração, nas economias mais abastadas, já não é só o fluxo pacífico de mão de obra necessária, mas depara-se com a chegada incessante de infelizes que não encontram, nas suas regiões de origem, nem a paz nem o trabalho e progresso que lhes proporcionem uma vida humana digna. E, à volta desta Europa cheia de novos problemas e desafios, agita-se um mundo em globalização acelerada, onde já se destacam, emergentes, novas potências políticas, económicas e financeiras, e muitas vezes se escondem conspirações e poderes do capital não controlado politicamente. Precisamos todos, Alemanha inclusive, de uma nova ordem internacional que permita e fomente um desenvolvimento económico e social mais distribuído e autónomo. O que, evidentemente, só será possível na medida em que, pacífica e construtivamente, soubermos mudar algumas regras das ortodoxias reinantes.


Camilo Martins de Oliveira


A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Fragmentação, Continuidade e Novo Humanismo
na Arquitetura Moderna

 

‘We are informed now that our fate in the presente remains more wholly humam than we had recently been led to belive and that the world as we can know i tis made up not only of nature, nor of machines, nor only of na engulfing female security, but of the blazing ardor of men.’
Vincent Scully

 

No texto de Vincent Scully ‘Modern Architecture: Toward a Redefinition of Style’ (1957), sugere-se a existência de três fases na arquitetura moderna:

  1. Fragmentação (consiste na segmentação dos objetos em suas componentes): As gravuras proféticas de Piranesi, na série Carceri (iniciada em 1745) afirmam uma profunda fragmentação da harmonia, da escala e do auge do Barroco e geram um vasto mundo novo de violência. Neste mundo, o homem é confrontado e constantemente desafiado por um ambiente opressor e esmagador. Estas imagens anunciam a arquitetura da era industrial, de meados do séc. XIX – a vasta dimensão das novas estruturas urbanas, concebidas através dos ideais positivistas e materialistas, acolhe as grandes máquinas e faz esquecer a escala humana. Ainda no final do séc. XVIII, é igualmente declarada a fragmentação da liberdade e a ordem do Barroco. Por um lado, através da procura por uma ordem geométrica pura e austera – como está presente nos projetos de Claude-Nicolas Ledoux. E por outro, através de uma libertação total da geometria, em que se afirma uma assimetria e um naturalismo nostálgico – como se verifica no Hameau de Marie-Antoinette (1783) e em alguma da arquitetura suburbana da costa ocidental dos Estados Unidos.
  2. Continuidade (consiste num infinito movimento do espaço): Segundo Scully, a transição entre fragmentação e continuidade dá-se no início do séc. XX e coincide com o aparecimento do cubismo. Porém, é de facto nos Estados Unidos, que a vontade de continuidade é determinante. Frank Lloyd Wright anseia por uma arquitetura em que paredes, tetos e pavimentos sejam partes integrantes de um todo. Wright proclama uma nova estética, a da continuidade, que afirma uma nova realidade ‘espaço em vez de matéria’. Wright chama a esta nova realidade de ‘A Arquitetura da Democracia’ e declara Walt Whitman como seu profeta – porque todo o homem caminha numa estrada aberta que não tem um fim mas que se descobre sempre que se caminha para a frente.

‘In the low ceilings – ‘I broadened the mass out to bring it down into spaciousness’, wrote Wright – there is compulsion forward and flow like Mark Twain’s river carrying us along.’, Vincent Scully

Scully escreve que também Mondrian foi tocado por este profundo espírito, que cria um impulso a favor da continuidade. Igualmente Mies Van Der Rohe, ao projetar o Pavilhão de Barcelona, cria uma estrutura contínua cujos planos definem volumes espaciais contidos – existe continuidade na forma pela estreita relação entre os elementos mas há separação de volumes e funções.

É sobretudo através de Fallingwater (1935) que Wright associa continuidade a movimento – e as imagens poéticas, do simbolismo norte-americano do séc. XIX, de estrada, mar e rio aqui encontram concretização. O homem é convidado a fazer parte de uma corrente. Imerso, o homem purifica-se – a realidade interior da casa é verdadeiramente espacial. O posicionamento e o entendimento do homem na massa construída deixa de ter importância. É fundamental o infinito movimento no espaço que faz o homem avançar, como se de uma segunda natureza se tratasse – o edifício é a própria circunstância.

  1. Novo Humanismo: Vincent Scully diz que para o homem ocidental existem duas tradições arquitetónicas opostas. Uma tradição que se atualiza na preponderância do espaço interior – espaço este associado à proteção feminina e à caverna. E outra tradição que diz respeito à forma vertical, escultural da evocação dos deuses do exterior e do céu.

Ora, desde cedo que a obra de Le Corbusier tenta resolver esta dicotomia. As Casas Citrohan (1922) são volumes megaron puros – apresentam as extremidades abertas e as paredes laterais fechadas, o interior explora as qualidades tumultuosas e desafiadoras do Cubismo e o volume (que aparenta ser maciço mas que na verdade tem paredes que são simples membranas) no exterior é suportado por pilares finos e elegantes.

No entanto, é com a Unidade de Habitação em Marselha (1952) e com Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamp (1954) que Le Corbusier apresenta o homem como centro da sua arquitetura. Assim se avança para uma nova definição de espaço e de corpo, trazida pela idade moderna. O séc. XX procura uma nova imagem do homem, que volta para o seu habitat natural mas não se dissolve nele (como acontece nas obras de Wright) nem interrompe a fluidez natural das coisas. A arquitetura não é simplesmente ambiente ou um volume fechado. E por isso, a arquitetura de Le Corbusier, tal como o templo Grego, através da massa puramente escultural e as suas perspetivas implícitas, não interrompe os principais elementos naturais circundantes mas consegue aproximar toda a paisagem à escala humana, criando identidade e empatia.

Ana Ruepp

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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Minha Princesa de mim:

A nossa tia Bertha Eugenia só não cumpre hoje 112 anos porque cumpriu, com a serena nobreza que lhe conhecemos, uma vida inteira de fidelidade. Neste dia, é Nosso Senhor que cumpre, na eternidade, a promessa de acolhimento que lhe fez. Mas teimei em rezar com ela hoje mesmo, em ir almoçar com ela a Gramont onde, apesar dos nossos quarenta anos de diferença, partilhávamos, com igual apetite e proveito, o champanhe e as ostras, o râble de lièvre e o Château Margaux. Descíamos depois ao jardim e ao pomar próximo, e essa senhora tão direita, apoiando-se no meu braço e numa bengala que fora da minha avó e eu herdei, falava-me então da sua mocidade e do nosso avô Camilo, seu pai, esse italo-godo de semblante austero e severidade temida, até que um raio de sol toscano lhe iluminasse os olhos, como a graça de Deus quando converte. Não sei se Berta é nome godo (dado a um canhão é alemão de certeza...), mas Eugénia vinha das nossas avós italianas: o nosso avô Camilo (que me deu o nome) assim o quis depositar na sua filha mais nova. Eugenius, eugenia, eugenium, em latim, é um simples adjetivo, designa quem é de  estirpe nobre. Penso que o nosso avô quis deixar bem claro que, por Berta e nórdica que fosse, a filha teria sobretudo a beleza de Itália, a nobreza do sul. Coisas... Ao cair da tarde, por esta mesma vontade saudosa, transportei-nos até New York, fomos ao Plaza tomar chá e provar uns scones com doces de frutos silvestres, ao som do quarteto de cordas que, no salão daquele hotel americano, decorado com palmeiras em vasos, importava memórias de uma Viena antiga, aquela em que a tia encontrara o seu único amor e marido, na viragem do século e em vésperas de guerras. Bendita mão me deu então, que me senti, mais que sobrinho, quase filho, amigo, marido e pai. Não foi lembrança canónica de laços de sangue e obrigações de família registada. Foi a mesma mão que ela dera a outros  -- pai, marido, filho  -  todos já invisíveis aos nossos olhos, todavia tão presentes nas nossas mãos dadas! Foi sentirmo-nos como com os outros connosco. O humano, sobretudo no que tem de valor divino, tem mais a ver com essa relação do coração de nós ao coração de todos, do que com considerações das ordens, de qualquer ordem. Tive na minha a mão que minha tia dera a meu avô, quando este a levava às óperas que a nossa avó Ana aborrecia... A mesmíssima mão que ela dera ao tio Jorge Florêncio, desde que se casaram até à morte dele, e que acariciara o único filho de ambos, que morreu tão cedo. A mão que apertara a de reis e rainhas e se quedara confiante e amiga nas de enfermos e velhinhos pobres que ela tanto gostava de visitar, e com quem conversava interminavelmente. A mesmíssima mão donde se erguia  -  há quantas décadas?  - um dedo indicativo, vertical e admoestador... a prevenir-me contra ideias novas, amigas demasiado sorridentes, e as minhas leituras de Montaigne, Erasmo e... E... e eu, então, quase lhe tinha raiva, revolta certamente. Mais tarde, já dava graças por tantos cuidados e oposições: na verdade, fui sempre seguindo os meus caminhos, mas levava a mala na mão ou a mochila às costas... Podiam pesar-me um pouco (ou muito!), mas abrandavam-me o passo sôfrego e ensinaram-me a percorrer a vida. Não li as lições todas, e terei esquecido outras. Mas fui aprendendo que um passo em frente é sempre um esforço responsável. Também a tua tia e minha Mãe se ia interrogando e assustando comigo. Mas era um espírito mais aberto, confiava mais na misericórdia de Deus do que nas manias disciplinadoras dos homens. E eu confiava nela, como, Camilo português, no lirismo desprendido do Alberto, meu pai... E ainda hoje, e sempre, viverá nos nossos corações, quiçá até nos que já deixaram de bater, essa confiança, tão intimamente fiel que não há gerações nem mortes que a distingam, e que nunca teve idade, só presença. Nessa conversa, antepassados e netos são iguais, nem eu saberia dizer a que geração pertenço, se sou este Camilo Maria ou os outros. Sou com todos eles, pois que de outro modo não seria. E é neste impulso, que me une e abre, é neste abraço que cabemos e caberemos todos, até aos nomes que nunca pronunciámos e nos irão descobrindo pelas esquinas da vida. Assim nos queima  -  a família  - o peito, como lembrança perene, ou chama ardendo no coração... Nesta noite adiantada, em que tantas aflições me tiram descanso e sono, descobri, num espelho fortuito, o rosto pálido de um velho de olhar baço. Foi então que me ocorreu a recordação de todos nós e se me acendeu uma fogueira íntima, e me brilharam os olhos... Bem hajas por estares presente!

                Camilo Maria 

 
Camilo Martins de Oliveira

GILLES LIPOVETSKY E JEAN SERROY

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A cultura transformou-se em mundo, em cultura-mundo, em cultura planetária dos media, das redes digitais, a cultura do consumismo planetário. Nasce assim a hipercultura universal, que, ultrapassa fronteiras e baralha, reconfigura o mundo, a civilização, perdendo-se a coerência da própria explicação do que nas gentes é motivo de agir ou de pensar.

Ao mundo de ontem sucedeu-lhe o mundo da economia política da cultura, sucedendo-lhe igualmente os fluxos de hierarquias de redes, da moda, do mercado, girando tudo na tal circunferência que estando em todo o lado não possui centro em local algum.

Na Grécia dos filósofos já surgira uma noção de cultura-mundo, bem como na Europa das Luzes que exaltava os valores da liberdade e da tolerância, e bem nos recordamos que Dante já havia escrito “A minha pátria é o mundo em geral”. Schiller também escrevia como cidadão do mundo e dizia ele que cedo abandonara a sua pátria para a trocar pelo género humano. Contudo esta é uma cultura-mundo com um profundo ideal ético e humanista que entende ser o amor à humanidade superior ao da cidade.

Ora o nosso tempo é testemunha do surgimento de uma outra época da cultura-mundo, o mundo sem fronteiras dos capitais, um mundo de modelo único de normas e valores que determina o fim da heterogeneidade da esfera cultural. O enorme desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação tornou possível o cibermundo que difunde por todo o planeta imagens, filmes, músicas, modos de existir num profundo envolvimento e consagração da lógica do espectáculo, e desta forma uniformiza o pensamento, manipulando opiniões, infantilizando raciocínios e debates. A arte segue as regras mercantis perdendo a sua função nas realidades sociais. Por todas estas razões que mais não fossem suficientes, a cultura-mundo passa a cobrir um vastíssimo território, muito para além da “cultura culta” tão querida ao humanismo clássico. O livro de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, parte da hipótese de que se instalou um modelo de sobreinvestimento no presente e no curto prazo que mobiliza memórias religiosas e identitárias, não descurando as reivindicações particularistas, tornando apenas operatórios os princípios da modernidade remodelada a cada dia pela lógica do individualismo e do consumismo, face a face ao mundo hipermoderno desorientado e inseguro. Assim, haverá que civilizar a cultura-mundo em vez de tentar mudar o mundo?

Esta uma das análises que nos propõe o reconhecido filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky e Jean Serroy autor de várias obras sobre a literatura do sec XVIII e conhecida obra dedicada à produção cinematográfica das últimas décadas.

De reflectir que se desejamos viver melhor em conjunto, a cultura democrática está em aberto e por inventar, e há que mobilizar inteligência.

Já escrevi sobre este livro na perspectiva de reanalisar o compreender, o participar e o ultrapassar-se e nunca me afastei do que então escrevi, tendo em conta o trabalho que desenvolvia: é imperioso que se repensem as universidades. Encontro-as doentes desconhecendo o seu papel, caracterizadas agora pela inutilidade do rápido ensinar. Disse e escrevi muitas vezes e por abordagem através de diversos ângulos.

Alain Renault – autor do livro A Era do Individuo - diagnosticou muitos dos males de que padecem as universidades, nomeadamente sem que alunos e docentes se preocupem com a refundação dessas instituições tendo em consideração o que é a hipermodernidade, e devolver assim a Universidade à sua missão. Enfim, talvez que os estudos universitários devessem começar pela cultura da história, a fim de evitar que a cultura se vingue também, através das políticas de quotas miméticas, e, possamos nós, de algum modo, regressar à função antropológica da cultura: educar, fornecendo objectivos e horizontes que limitem a desorientação dos seres humanos e os recolha a uma estima de si.


Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2015

ATORES, ENCENADORES - XLI

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O TEATRÓLOGO BOCAGE, DO PRÉ-ROMANTISMO AO PÓS-EXPRESSINISMO

Assinalaram-se ontem (15 de Setembro) os exatos 250 anos do nascimento de Bocage: e no próximo dia 21 de Dezembro deste mesmo ano de 2015, poderemos e deveremos evocar os exatos 210 anos da sua morte, prematura mesmo na época, mas sobretudo sofrida, fisicamente e psicologicamente. Vida curta, agitada e infeliz, num contexto epocal difícil, mas sobretudo, num desfasamento, digamos assim, entre o talento e a potencialidade mental e sobretudo criacional do escritor, o seu extraordinário talento, e a sucessão de episódios dramáticos que o marcaram – e não interessa hoje ponderar os graus de responsabilidade própria ou alheia atribuíveis.

Se no ponto de vista digamos profissional – mesmo na ambiguidade que na época, a expressão envolvia no que toca ao teatro – Bocage não foi propriamente ator ou encenador, as ligações ao teatro são conhecidas, como dramaturgo sem dúvida – mas também como agente de uma representação cénica que marca toda a sua vida e toda a sua obra: pois não é eminentemente “teatral” por exemplo a descrição que dele faz no célebre soneto:

”Magro, olhos azuis, carão moreno,/Bem servido de pés, meão de altura/triste da facha/ o mesmo de figura”… ou o terminal e profundamente neurasténico “Já Bocage não sou!”… `cova escura/ meu estro vai parar desfeito em vento…/Eu aos céus ultrajei!/ (…) Oh! Se me creste, gente impia/Rasga meus versos, crê na eternidade!”

A vida de Bocage representa, em si mesma, como que uma antecipação ambígua da sua época histórica e literária. E isto porque, mantendo-se formalmente fiel aos ritmos do tempo, designadamente como membro da chamada Nova Arcádia, a sua obra poética anuncia já, e de que maneira, um teor romântico que se antecipou ao próprio romantismo “oficial”, digamos assim: “foi um dos poetas do seu tempo que mais contribuiu para a formação do gosto romântico, que em breve teria em Garrett e Herculano a sua expressão vitoriosa” escreveu Hernani Cidade (in “Bocage a Obra e o Homem” -1966). E Fidelino de Figueiredo relaciona a sua estadia em Goa e as evocações decorrentes com a criação camoniana, considerando Bocage como nada menos do que “outro grande poeta, devoto camonianista, que em muitos sonetos sobre as suas peregrinações pela Ásia expressou a mesma fobia da pequena cosmópolis goiana” (in “História Literária de Portugal” – 1944).

Em qualquer caso seria um erro situar a vida e obra de Bocage, exclusivamente na perspetiva de uma predefinição romântica. Tenha-se presente, insista-se, a sua ligação á Nova Arcádia com a designação árcade de Elmano Sadino e mesmo a sua colaboração nos “outeiros”, festas literárias conventuais que duraram até meados do seculo XIX.

Os autores da Nova Arcádia, fundada por Caldas Barbosa, fazem uma ligação ao teatro pré-romântico: Mas precisamente aí, o teatro de Bocage não acompanha os sinais, ténues que sejam, da renovação dramatúrgica de alguns companheiros “neo-Árcades”.

E no entanto, há que reconhecer, o teatro de Bocage, ficam aquém da sua portentosa poesia. Escreveu “elogios dramáticos” e “dramas alegóricos”, usando uma terminologia cara na época: “Força do Fado”, “O Novo Século”, ”A Virtude Laureada” ou o “drama histórico Afonso Henriques ou a Conquista de Lisboa”, onde utiliza uma linguagem já na época desfasada da cena. Por exemplo:

“Enviado de Osmin chegou ao campo/ Almançor entre nós bem conhecido/ Pelo audaz coração e fero orgulho:/ A audiência que pede o Rei lhe outorga/ E ao régio pavilhão convoca os chefes: Por ti, Senhor e por Arnaldo espera”…

Traduziu ainda ou adaptou algumas peças de autores franceses (“Eufémia ou o Triunfo da Religião” de Arnaud, “Erícia ou a Vestal” de Auchet) ou “Atília Régulo de Matastásio. E Fidelino de Figueiredo refere ainda traduções de Delille e Castel, salientando que “a perfeição superior da arte de versejar, (que) foi a glória dos árcades, mas da qual cabe o cetro a Bocage” (ob. cit.).

Sobre Bocage escreveu designadamente Artur Anselmo: “Toda a sua vida decorreu em conflito entre dois momentos distintos: um momento passado traduzindo a adesão a uma escola ou a uma ideia, e um momento presente afirmando essa escola ou ideia “ (in verbete na Enciclopédia Verbo vol. 3). E assim é, nesta simbiose dramática, em sentido figurado e em sentido literal que foi, é, a vida a e a obra de Bocage.

Ora bem: em 1967, Luzia Maria Martins, escreve e dirige no Teatro Estúdio de Lisboa uma peça denominada precisamente “Bocage, Alma sem Mundo”. Trata-se de uma dramatização épico-narrativa da vida e época de Bocage, num conjunto de mais de 30 personagens que vão desde o protagonista obviamente, à corte que o rodeia e despreza, aos militares envolvidos na política, a comerciantes e vagabundos, nobre e plebeus… tudo ligado pela intervenção de um narrador e de um coro de três palhaços. (cfr. Luís Francisco Rebello in “100 Anos de Teatro Português” – 1984)

E é de assinala outro “Bocage” quase contemporâneo, (1965) de Romeu Correia, onde destaquei “uma dimensão para-épica que não chega a ser a ser brechteana mas valoriza muito a componente narrativa com o seu envolvimento temporal” (cfr. Duarte Ivo Cruz in “História do Teatro Português” – 2001).João Gaspar Simões aliás considera este “Bocage” “Admiravelmente grã-guinholesco” (in “Crítica VI – Teatro “ – 1965).

Finalmente: há anos, a tradição de ditos populares de Bocage mantinha-se viva. Por exemplo, uma história de interrogatório na polícia da época. Assim:
(Policia empunhando uma pistola) – “Quem és?; Donde vens? Para onde vais?” (Bocage) - Chamo-me Bocage, venho do Café Nicola, e vou para o outro mundo se disparares a pistola!”


DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

Untitled.jpgA surprising Summer of Politics, 2015

Euforia nas alas esquerda e direita, com ceticismo ao centro. A radicalização do espetro político britânico acentua-se com o alvoroço no Labour Party. Mr Jeremy Bernard Corbyn conquista a liderança e ganha também uma guerra civil com os

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Blairites, no meio de uma chuva mediática sentenciando o óbito dos trabalhistas. — Chérie! Il ne faut pas brûler la chandelle par les deux bouts. A divisão ultrapassa a clivagem new/old leftism, dada a esmagadora maioria do Corbysm nas primárias. Os seus 60% de votos denotam a fenda existente entre as bases e uma elite residente no distrito de Westminster. — Well. The unexpected is no longer unthinkable. A espécie humana tem novo ramo na árvore de família: chama-se Homo naledi, situa-se algures entre o Homo erectus e o Australopithecus, tem 2,5 milhões de anos e aparece na South Africa. Elisabeth II comemora a entrada na história com o mais longo reinado de sempre inaugurando um caminho de ferro entre England e Scotland, o primeiro em novo século. A Northern Ireland oscila na via da paz com o retorno do ido IRA. A Oxford Chabad Society deseja a todos "a happy, healthy, prosperous and sweet" Rosh Hashanah Jewish New Year.

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Indian Summer em London. O ambiente azulado suaviza o vermelho da Press de todos os quadrantes e ainda dos cartazes na envolvente. A cidade recebe grande manifestação de apoio aos refugiados, cenário de Parliament Square logo transformado em palco para a nova rock star do burgo: nenhum outro senão o eleito HM Opposition Leader havia poucas horas neste Saturday — Mr Corbyn, naturally. Apresentando-se como democratic socialist e comummente etiquetado como serial rebel, Jez parece ser omnipresente nas primeiras páginas dos jornais e nos influentes espaços de comentário radiotelevisivo. Dos RHs Boris Johnson e Michael Gove a Lord Peter Mandelson, todos debitam sobre quem é e ao que vem o Old Labour. Mesmo os privados emails aderem à Corbymania, a par das bad news sobre a derrota dos Ashes face a Australia e das good news sobre a 10th Grand Slam de Mr Novak Djokovic após vitória 6-4, 5-7, 6-4, 6-4 sobre Mr Roger Federer no US Open.

Os media denotam a escala do red political earthquake. Nem a visita do Prime Minister David Cameron a um campo libanês de refugiados, paredes meias com a guerra ao Isis na vizinha Syria e em plena declaração do estado de emergência na Schengen Area (com o regresso do controlo de fronteiras na Germany e Austria), lhes afasta o olhar. Jeremy aqui, Corbyn ali, mais Jez. Há a história do rebelde MP por Islington North, o guia das causas do contestatário, a vida privado do sedutor… até a proximidade aos filhos na campanha que o conduz ao leme do Labour. Escrevem-se conselhos e profeciam-se catástrofes! Confesso que a pergunta é inocente: Quem tem medo deste senhor de 66 anos na nova trincheira doméstica contra as políticas de austeridade?

Mr Jim Broadbent regressa finalmente aos palcos e logo para protagonizar o velho Scrooge numa nova versão de A Christmas Carol, adaptada por Mr Patrick Barlow (o Will Kempe de Shakespeare in Love, 1998). O anúncio sobre o clássico dos clássicos de Mr Charles Dickens envolve referências ao conto moral sob as palavras “greed, grief, ghoulish ghosts and 11th-hour redemption,” dimensões que remetem para os mais conhecidos papéis do Academy and BAFTA Award-winning actor na cinematografia popular, como em The Iron Lady (o husband Denis Thatcher, 2011) ou na série do Harry Potter (o teacher Horace Slughorn).

As lições scroogeanas envolvem desde o overworked, underpaid clerk Bob Cratchit e a benevolent Mrs Untitled 4.jpgFezziwig na visita do Ghost of Christmas Past até à famosa bênção de Tiny Tim no encerramento com o "God bless us, everyone!" As memoráveis personagens estarão neste Winter no secular Noël Coward Theatre, em West End (Lon), com as sessões de St. Martin's Lane entre November 30, 2015 e January 30, 2016. O agendamento convida a reler o livro de 1843 e a desde já revisitar conhecida opinião da malthusiana, parda e egoísta figura no escalar europeu da crise dos migrantes. — “If they would rather die, (...) they had better do it, and decrease the surplus population.”

St James, 14th September       

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

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De 14 a 20 de setembro de 2015

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), que nasceu há dois séculos e meio, é um poeta maior da língua portuguesa. A sua memória deve ser lembrada e a melhor poesia devidamente lida… Recordamo-lo com uma ilustração gentilmente cedida pelo nosso amigo Nuno Saraiva.

bocage.jpgCaricatura de Nuno Saraiva.

 

UM POETA A DESCOBRIR

Se há poeta e escritor português que se mantém profundamente desconhecido no seu valor e importância, é Bocage, sobre quem correm muitas lendas, em lugar da compreensão do seu talento e singularidade na transição do século XVII para o século XIX, do classicismo para o romantismo – ao lado de Nicolau Tolentino de Almeida. É certo que o seu repentismo, a sua vida aventurosa, a instabilidade e a participação na boémia do seu tempo não o ajudaram a afirmar-se no lugar a que tem direito na cultura portuguesa. David Mourão-Ferreira teve razão ao considerar que o tempo em que viveu foi desajustado, enquanto diversos analistas, como Maria Helena da Rocha Pereira e Jacinto do Prado Coelho, puseram a ênfase na referida transição do classicismo para o romantismo e no caráter dúplice da identidade do poeta e do criador. As profundas mudanças ocorridas na vida política e social no país e na Europa também não o ajudaram a situar-se no lugar proeminente que poderia ter tido. O Romantismo, pela sua força e pela ligação ao importante movimento liberal, se tivesse sido vivido por Bocage ter-lhe-ia dado maior importância. A verdade é que, apesar de poder ter-nos deixado uma obra mais rica, que o seu talento adivinharia, parece não haver dúvidas de que, lida com atenção, a sua multifacetada criação revela um autor maior, a merecer celebração para além dos aspetos caricaturais ou boémios. Aliás, é o último representante de uma tradição, que tem Camões, como primeira figura («Camões grande Camões quão semelhante / Acho o teu fado ao meu quando os cotejo…»), de uma leitura testemunhal da diáspora marítima da Índia. «Modelo meu tu és… Mas ó tristeza!... / Se te imito nos transes da ventura, / Não te imito nos dons da natureza». No lirismo segue as pisadas de Bernardim Ribeiro, atualizadas pela experiência do tempo, cultiva os temas do Amor e da Morte (que o marcam ao longo de toda a vida) e utiliza com mestria a difícil herança clássica do soneto, antecipando algo em que só Antero de Quental se revelará insuperável.

UMA VIDA ATRIBULADA…

Nascido em Setúbal a 15 de setembro de 1765, filho de um antigo juiz de fora e depois advogado, José Luís Soares de Barbosa, e de uma senhora francesa, Mariana Joaquina du Bocage, filha do Almirante que reorganizara a Marinha portuguesa no início do século e sobrinha de Marie Anne Le Page du Bocage, poetisa francesa tradutora do «Paraíso» de Milton, ficou órfão de mãe aos dez anos, assentou praça no Regimento Infantaria nº 7 de Setúbal depois de fazer estudos de francês e latim, alistando-se em seguida na Academia Real de Marinha. Conhecido pelo seu repentismo poético torna-se um protagonista da boémia lisboeta, entre o Rossio, onde frequenta o «Agulheiro dos Sábios» no «Botequim das Parras» de José Pedro da Silva, e o Bairro Alto. Em 1786, como guarda marinha embarca para a Índia na Nau «Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena». Chegado ao Rio de Janeiro, aí dedica poemas elogiosos ao Vice-Rei, Conde de Figueiró, que, no entanto podem ter tido efeitos contraproducentes, quer pela liberdade de linguagem, quer por serem considerados bajuladores. Segue viagem para a Índia, onde chega em outubro de 1786. Em Nova Goa frequenta estudos de formação de oficiais de marinha e é promovido a tenente. Espírito muito rebelde, deserta depois de ser colocado em Damão (1789) e segue para Macau, onde é absolvido da deserção, cujas razões se mantêm por descobrir.

A NOVA ARCÁDIA LUSITANA

Em 1790, encontramo-lo em Lisboa, desiludido por ver Gertrudes de Noronha – a Gertrúria dos poemas, já casada com seu irmão Gil Francisco («…Por bárbaros sertões gemi, vagante: / Falta-ma ainda o melhor, falta-me agora / Ver Gertrúria nos braços de outro amante»). Apesar de tudo, entusiasma-se com as notícias vindas de Paris, sobre a Revolução. Dedica poemas à liberdade e contra a tirania, relaciona-se com a «Nova Arcádia Lusitana», adota o nome de Elmano Sadino (1791), mas rapidamente entra em conflito com os companheiros, iniciando uma dura série de poemas satíricos muito mordazes. Começa por estabelecer relações de estima com o Padre José Agostinho de Macedo, com quem se incompatibiliza. O primeiro volume de «Rimas» é de 1791, bem como «Os Queixumes do Pastor Elmano» e «Idílios Marítimos». Denúncias em 1797 à Intendência-Geral de Polícia de Pina Manique sobre a autoria de textos ímpios e críticos, de crítica severa do despotismo, levam-no primeiro ao Limoeiro e depois aos calabouços da Inquisição. Aí o processo é rapidamente despachado, indo primeiro para o convento de S. Bento da Saúde e depois para a Casa da Congregação do Oratório, onde é ilibado das culpas de que vinha sendo acusado (1798). Tem a proteção de José Seabra da Silva, e apesar de haver uma nova denúncia por supostamente ser Pedreiro-livre, consegue ficar livre e desenvolver o período mais fecundo da sua vida literária. Em 1799 é publicado o segundo volume de «Rimas». Por proposta do naturalista brasileiro José da Conceição Veloso dedica-se à tradução de poemas didático-científicos (1801). Há um reconhecimento geral sobre a elevadíssima qualidade de tradução e poética destes textos. Em 1804 sai o terceiro tomo de «Rimas» e no ano seguinte manifesta-se a doença que o vitimará – um aneurisma na carótida.

UM FIM DRAMÁTICO

Apesar do reconhecimento da qualidade dos seus escritos, a situação económica do poeta é muito precária. É ajudado por amigos, parentes e pelo comerciante do «Botequim das Parras», José Pedro da Silva, e mora com a irmã Maria Francisca, num modesto andar na travessa André Valente, junto da Calçada do Combro. A trágica situação de saúde e as dificuldades económicas levam a que antigos inimigos com ele se reconciliem, como Curvo Semedo e José Agostinho de Macedo… Morre a 21 de dezembro de 1805, com quarenta anos de idade, dizendo: «Saiba morrer o que viver não soube». É fácil recordar a presença boémia do poeta e a sua popularidade, mais difícil é invocar a sua sólida formação clássica e a facilidade com que conhece os antigos e usa os seus métodos, de um modo inteiramente novo, com uma intensidade sentimental e crítica que liga intimamente dois tempos e duas escolas profundamente diferenciados, permitindo perceber melhor a sua sucessão.

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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Minha Princesa de mim:

Será esta, Princesa, uma carta talvez um pouco mais íntima de mim, pressinto que vou escrevê-la sem cuidados especiais, como se a mim só me dirigisse. Se estou bem lembrado, terá sido numas crónicas que em tempos escrevi, sob o título geral de Credo, que mais me aproximei desta franqueza. Sempre senti a minha fé como procura, ela sempre me interrogou e fez interrogar, nunca descansei nela. O reino de Deus será um tesouro, uma pérola que descobrimos e nos leva a vender tudo o mais que tenhamos, para a adquirir... Mas é também o grão de mostarda, pequenino, que tem de ser lançado à terra e desaparecer, para que dele nasça o arbusto e a árvore que estende os ramos em que se abrigarão todas as aves do céu. Sempre gostei mais desta segunda metáfora.  Deus não é um remédio, nem a fé um auto refúgio. Deus é um desafio, e a nossa fé, no convívio dos homens, deve ser essa misteriosa interpelação estendendo a todos o seu abraço. Assisti, há poucos dias, num círculo privado, à charla descontraída de um bispo acerca das questões que se vão debatendo, no âmbito do sínodo corrente, sobre a chamada "abertura da Igreja ao mundo". Há vários anos que, em privado ou mais publicamente, vou partilhando o meu pensar sentir sobre algumas delas, com o propósito motor de participar numa reflexão desejavelmente fraterna e descontraída. Tenho para mim que, na cabeça de cada um de nós, só os próprios (ou os nossos, por vezes insondáveis, humores) mandam... Teimar ou embirrar de pouco ou nada serve, sei-o bem, mas também reconheço que me irrito, quase solenemente, com gente que sistematicamente opõe às dúvidas, inquirições ou sinceras buscas de outros, uma parede de fórmulas ditas "doutrinárias", tantas vezes muito menos eternas do que julgam... Mas, enfim, de pouco me aliviará essa urticária! O que te venho contar agora, Princesa, é um comentário do tal bispo --   que me conhece relativamente, e mais pelo que disse ou escrevi do que por frequentação:  --  Reparo que, hoje, voltou a insistir no que, para si, é uma relação ontológica do cristianismo com a condição ou imperfeição humana... É verdade, sua reverendíssima percebeu bem. Mas eu não tinha, nessa noite, falado em termos filosóficos, limitara-me a recordar o lugar central do mandamento do amor na perspetiva cristã da vida. De modo leve, aliás, dissertando sobre a palavra amável, por exemplo: o sentido mais corrente é o de uma pessoa que quer ser simpática, agradável; assim concitará a estima de outros, será amável no sentido de alguém de quem se gosta. Amável, já com esforço nosso, também será qualquer pessoa a quem, por razões de ordem familiar ou outra relação, devemos querer bem e ajudar. Finalmente, amável, no sentido cristão do termo, é toda a obra de Deus, aquilo que o Pai criou e nós descobrimos na sua relatividade e imperfeição, ou mesmo na inimizade para connosco ("amai os vossos inimigos"). O mandamento do amor, no cristianismo, é paradoxal: só podemos amar a Deus, que é, ontologicamente, a perfeição, aprendendo a amar o que é imperfeito. Não pelas limitações da imperfeição (o pecado é a paixão dos nossos limites), nem por deleite no mal. Mas pela incessante descoberta do sentido da nossa vida no reconhecimento da realidade do mundo e da nossa condição, do que está por acabar e tem de ser per-feito ou com-vertido. E é este o sentido, por excelência, do amor: transformar, renovar aquilo em que se toca. E lá vou eu, uma vez mais, ao evangelho de S. João. O Verbo que era no princípio estava em Deus, era Deus. A relação do Pai (que envia) com o Filho (que é enviado ao mundo) não é dual: é, ontologicamente, a identidade do amor. O mundo não O reconhece, mas Ele dá-se a conhecer aos seus discípulos, para que, por Ele, eles conheçam o Pai que não vêem e permaneçam no amor. Esta comunhão ontológica (Pai, Filho, humanos) determina uma exigência ética para os que, estando no mundo e nele ficando, não lhe pertencem, antes o devem transformar. Chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se, portanto, vos lavei os pés, eu Mestre e Senhor, também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros. Porque foi um exemplo que vos dei, para que façais, vós também, o que vos fiz. Em verdade, em verdade vos digo que o servidor não é maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou (João 13, 13-16). E, no final da última ceia com os seus discípulos, diz-lhes estas palavras de despedida: Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros; como eu vos amei. Nisso reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns pelos outros (Jo. 13, 34-35)... E antes de ser preso, é por esses, que ficam no mundo, que pede ao Pai: Pai justo: o mundo não te conheceu, mas eu conheci-te, e estes reconheceram que me tinhas enviado. Dei-lhes a conhecer o teu nome, e dá-lo-ei a conhecer, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles (Jo. 17, 25-26). Assim, parece que o amor é um abraço de inclusão. Num mundo imperfeito, entrevado pelo mal, é um toque a reunir e renovar. Digo isto um tanto quanto embaraçado, receio que muitos crentes e alguns incréus não me entendam bem ou me achem um marciano por vir... Mas, na verdade, eu não consigo já ver o mundo e a vida, as relações que, no tempo e nos modos, nos vão tecendo, se não tentar ver que não podem ser absurdas, se não procurar responder a essa misteriosa vocação do amor que nos constrói. Não temos outro caminho possível, nem as revoluções acharam melhor lema do que "liberdade, igualdade, fraternidade". Com frequência ouço gente dizer que não entende como fulano ou beltrano não tem fé; pois, a mim, o que me espanta é a fé fiel, acreditarmos que virá certamente o dia da revelação final das coisas que devemos esperar, a hora do cumprimento de tudo o que só na imperfeição conhecemos. Pessoalmente, como sabes, não tenho propensão alguma a acreditar em aparições e milagres. Na corrente da vida, a minha fé concentra-se na certeza de que o Espírito de verdade vai misteriosamente soprando o andamento do mundo, conforme a promessa de Jesus: Todavia digo-vos a verdade: é de vosso interesse que eu parta; pois, se não partir, o Paráclito não virá a vós; mas se eu partir, enviá-lo-ei. Mas também só sei que o Espírito sopra onde quer, que os desígnios de Deus são insondáveis, que eu não sou nem posso ser juiz, e que a providência divina não tem de me prestar contas. Eu confio nela, não para que me dê regalos, mas apenas aquilo que, simplesmente, pedimos no padre-nosso, a oração que Jesus nos ensinou: que a lembrança da santidade do nome de Deus nos faça caminhar para o seu reino, na aceitação da sua vontade (que nem sempre  --  e para os desvalidos, talvez muito dificilmente  --  entendemos), e do pão da vida que nos for dado, na esperança da misericórdia que, se nos livrarmos do mal e não cairmos na tentação de juízos e castigos injustos, a cada um de nós, também, abraçará… A fé, Princesa de mim, não é negócio, nem superstição, nem "fèzada". É uma entrega, muitas vezes dolorosa, à possível esperança de todos, ao amor que começa aqui e agora e virá a ser o cumprimento das coisas todas que devemos esperar...

 

                                       Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Acerca de ‘Urbanismo, Espaço e Ambiente’ de Giulio Carlo Argan.

 

‘A cidade não é feita de pedras, mas de homens’,

Marsilio Ficino

 

Em ‘Urbanismo, Espaço e Ambiente’, Giulio Carlo Argan (1969) escreve que a cidade não se funda vai-se formando. O valor de uma cidade é atribuído por todos os que habitam nessa cidade. O objeto urbano é sempre a existência humana.

Assiste-se a uma progressiva unificação urbanística de toda a face do globo terrestre, e por consequência a uma sucessiva eliminação da natureza – entendida aqui além do horizonte dos conhecimentos e das possibilidades do homem. A natureza é a região das potências incontroláveis do mito e do sagrado. Argan explica que, no passado, a natureza era o que se encontrava além dos muros da cidade – espaço não protegido, não organizado, não construído. Ao redor da cidade havia uma zona de fronteira, o campo, habitada por seres cuja natureza parecia incerta e ambígua, entre o humano e o animal. A gente do campo vivia segundo tradições antigas, dedicada a técnicas arcaicas e quase rituais, ligadas aos ritmos sazonais e aos ciclos lunares. A gente da cidade, pelo contrário vivia ligada às técnicas civis, cultas e intelectuais e a partir do final do séc. XVIII considerava a natureza inacessível, inviolável, frequentada naturalmente por Deus e pelos génios do bem, mas também pelos génios do mal. A natureza era o sublime, representava o limite entre o habitado e o inabitável, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada e incomensurável do ser. A cidade era a dimensão do distinto, do relativo e do consciente. A natureza a dimensão do transcendente e do absoluto.

Segundo Argan, na história da cidade, o tema do sublime está sempre presente nas catedrais góticas, na arquitetura de Michelangelo e de Borromini, no geometrismo de Ledoux, no ascetismo tecnológico de Gaudí, no expressionismo de Mendelsohn e nas fantasias de Bruno Taut. O tema do sublime é uma constante no urbanismo utópico, porém com o acréscimo de que hoje o sublime ou transcendente é subjugado pelo esforço tecnológico do homem. E a cidade, que no passado era, por excelência, o lugar fechado e seguro, torna-se assim o lugar da insegurança, da luta pela sobrevivência, do medo, da angústia e do desespero.

Argan declara que o que de facto aconteceu na cidade moderna foi a redução cada vez maior (até à eliminação) do valor do indivíduo e por consequência deu-se eliminação da natureza. A realidade não era mais dada em escala humana, mas antes na medida em que não podia e não devia ser pensada, apenas dominada e sofrida. Argan afirma que os projetistas da cidade do futuro pareciam ter horror ao plano da terra, da vida: ‘a cidade do futuro precipita-se nas entranhas da terra ou eleva-se a alturas vertiginosas, suspensa no ar.’ O plano e o nível do terreno sempre tiveram uma importância fundamental na conceção humana de espaço – porque é o que distingue e, ao mesmo tempo, põe em relação o que está em cima com o que está em baixo da terra, a vida, o mundo das origens e dos motivos profundos e as raízes do ser. E por isso, se a cidade não tem como limite nem mesmo o plano do terreno e pode desenvolver-se verticalmente, tanto em profundidade como em altura, não poderá ter limite para a sua extensão horizontal.

‘Hoje, a cidade não pode mais ser considerada um espaço delimitado, nem um espaço em expansão; ela não é mais considerada espaço construído e objetivado; mas um sistema de serviços, cuja potencialidade é praticamente ilimitada.’, Giulio Carlo Argan

O urbanismo racionalista de Gropius afirmou a hegemonia da produção industrial – o homem devia aí empenhar toda a sua existência porque era a partir desta produção que a sociedade realizava todo o seu progresso. Critério fundamental para este urbanismo era o espaço, porque era limite dotado de uma dinâmica capaz de transformar, através da liberdade e do progresso, a sociedade. Depois da Segunda Guerra Mundial, verificou-se uma crise ideológica em todas as atividades culturais, nomeadamente no urbanismo. Tomou-se consciência do perigo de que as vanguardas artísticas fossem revoluções impostas sobre os intelectuais de modo a desviá-las do seu terreno concreto de luta – o do capital e do trabalho.

Argan anuncia que a remoção de ideologias da pesquisa urbanística é um trabalho necessário – porque uma revolução social não deve ser determinada por sistemas muito rígidos ou realizada por uma categoria reduzida de especialistas, mas sim concretizada no campo político. Trata-se assim de restituir ao indivíduo a capacidade de interpretar e utilizar o ambiente urbano de maneira diferente das prescrições implícitas no projecto de quem o determinou, dando-lhe a possibilidade de reagir ativamente a esse ambiente. A solução consiste assim em dar à cidade, entendida como sistema de informação, a elasticidade e a possibilidade de flexão de um sistema linguístico. Por isso, deve ser uma sim cidade feita de coisas, mas coisas que vemos e que se oferecem como imagens à perceção do homem que vive na dimensão livre e mutável dessas imagens. A cidade de hoje, deve então ser um acontecimento interpretável por excelência – uma cidade com a duração de um dia, e que dá a imediata impressão de ser feita de imagens, de sensações, de impulsos mentais, e que realmente vemos e que não é dada pelas arquiteturas imóveis, mas pelos automóveis, pelas pessoas e pelas infinitas notícias que invadem todos os meios de comunicação.

 

Ana Ruepp