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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

13 de Novembro de 2015

 

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Aos inocentes, o que lhes pertence: a inocência, a paz, a solidariedade, a liberdade, o amor, a ausência de dor, a raiz da dimensão humana, um novo tempo, uma nova consciência que salgue definitivamente quem os não respeita.

Et c’est déjà beaucoup de n’employer que des pierres authentiques

 

M.Y.., notes «Memoires d’Hadrien»

     
Teresa Bracinha Vieira

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR


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A magia do cubismo e o espaço construtivista.


No texto ‘From Cubism to Construtivism’, Herbert Read sugere que o cubismo surgiu da confluência de duas fontes: das pinturas de Cézanne e da escultura tribal africana. Apesar de não ser claro qual dos dois – Picasso ou Braque – ter sido o primeiro a exercer essa fusão, Read avança com a hipótese de ter sido Picasso a trazer a influência da escultura negra (já tão presente em ‘Les Demoiselles d’Avignon’) e Braque a transportar a arte de Cézanne. ‘Cubo’ é uma palavra que indica a existência de uma tridimensionalidade. Ao serem combinados vários pontos de vista, com o cubismo, cria-se a síntese necessária e dinâmica para produzir o volume em todas as suas dimensões e assim poder representar a realidade tal qual é. Na verdade, a melhor maneira para representar os seus diversos pontos de vista é através do uso de planos sucessivos, reforçando assim a impressão de uma estrutura sólida. Ora, a partir de 1913, Picasso e Braque conseguiram através da Assemblage enfatizar a textura da superfície da pintura – objectos variados combinam-se sobre a tela (papel, linóleo, peças de madeira, cordas). Partindo destas assemblagens Picasso criou a primeira peça de escultura – Glas of Absinthe (1914) – feita através de objetos ready made.

Este novo tipo de escultura/pintura assemelha-se às construções construtivistas russas. Mas, os construtivistas (como Tatlin, Gabo e Rodchenko) procuravam sobretudo produzir objectos impessoais cujas relações espaciais são tão abstractas como fórmulas matemáticas – em alguns casos aproximam-se até, desinteressadamente, de modelos visuais construídos por cientistas para ilustrar fórmulas algébricas.

Já as esculturas (assemblagens de Picasso), têm atributos emocionais específicos – são sinistras, misteriosas ou irónicas. Segundo Read, estas possuem um tipo de magia relacionada com cultos animistas primitivos. E magia aqui é entendida, não como uma força irracional que pertence ao passado (e às primeiras civilizações), mas como uma actividade construtiva com uma função social específica. Read escreve: ‘According to anthropologists like Malinowski and Levi-Strauss and to a philosopher like Collingwood, the aim of magical objects and magical rites is to arouse emotion in the group and to make such roused emotions effective agents in the practical life of the community.’

A atividade mágica é, deste modo, um mecanismo dinâmico da vida prática que contem uma corrente emocional que a conduz. Para Read, a escultura mágica cria objectos que cristalizam emoções (que não são gerais, nem particulares) e que se afirmam na sociedade (não como representações do mundo externo, nem como mera expressão de um sentimento pessoal) como incentivadores de uma consciência colectiva. A força vital presente, por exemplo nas esculturas de Picasso, segundo Read, é a alma que se projecta sobre todas as coisas (animadas ou inanimadas), é o impulso universal que flui através de tudo o que existe e sobre o qual o artista trabalha e transmite para as suas criações (que por sua vez se estende à pessoa que frui). E esta vitalidade é, na opinião de Herbert Read, o principal desejo e objectivo do escultor moderno. Desde as primeiras esculturas, Picasso anseia criar uma compensação espiritual pela alienação do homem causada pela máquina e assim conceber uma arte inconsciente.

Porém os construtivistas, desde 1914, a partir de Moscovo tentavam aplicar técnicas de engenharia à produção de objectos, que chamavam de construções. O promotor pioneiro era Vladimir Tatlin (1885-1953), que começou por criar esculturas semelhantes às primeiras esculturas cubistas de Picasso, mas sem o motivo representativo e sem o objectivo de criar uma extensão tridimensional das experiências feitas em pintura. Tatlin deseja construções completamente abstractas – e aspira mesmo por um novo tipo de escultura, que utiliza materiais no seu estado mais original e objetos ready made, arranjados num espaço real sem intenção representativa (Corner Relief, 1915). Os materiais diversos (madeira, ferro e vidro) formam o objecto com materiais reais no espaço real. Também Naum Gabo (1890-1977), tal como Tatlin, deseja caminhar para abstracção pura e assim criar uma nova realidade espacial através da aplicação de novos materiais: ‘Art formerly reproductive has become creative’. Gabo nega o volume como expressão única do espaço. A massa física é também rejeitada e afirma-se, acima de tudo, o ritmo dinâmico como base. É verdade que Naum Gabo pretende criar estruturas que sejam a imagem vital do tempo e do espaço. Mas tem igualmente em conta que o artista ao criar não pode escapar da sua personalidade, porque mesmo antes de qualquer concepção espacial ou temporal existe a sensibilidade humana. A presença humana existe até na mais pequena observação empírica.

‘Abstract is not the core of the Constructive idea I profess. The Idea means more to me. It involves the whole complex of human relation to life. It is a mode of thinking, acting, perceiving and living... Anything or action that enhances life, propels it and adds to it something in the direction of growth, expansion and development is Constructive.’. Naum Gabo, 1944.

E por isso, as imagens do cubista e do construtivista são concretas e ambas acabam por ser construções materiais que projectam uma imagem pessoal mental e que criam ícones de significado universal.  

Ana Ruepp