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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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Alexander Calder e o equilíbrio cósmico infinito.

 

'Nous pouvons considérer de 'monde' entier comme une composition cosmique complète, composée elle-même d'un nombre infini de compositions autonomes de plus en plus petites, toutes composées, finalement, dans le macrocosme comme dans le microcosme, de points (...). Ce sont des unités de points géométriques se trouvant sous différentes apparences en équilibre dans l'infini géometrique.', Kandinsky em 'Ponto, linha, plano'.

 

Embora nascido numa família de escultores, só no final dos anos 20 do séc. XX, Alexander Calder (1898-1976) produziu as suas primeiras esculturas. Depressa deixou-se envolver pela nova experimentação estética e técnica do modernismo. O seu primeiro sucesso foi com 'Circus' (1926-31) cujas figuras em arame e madeira são manipuladas de maneira a gerar uma elaborada performance - ao passar, em 1925, diversas semanas num circo a desenhar, já aqui se testemunha o fascínio de Calder pelo equilíbrio fino e sempre instável das personagens que constituem um circo (malabaristas, trapezistas, equilibristas, aramistas, contorcionistas, domadores, halterofilistas...). E por isso o interesse pela escultura animada pelo movimento, pela gravidade e pela mecânica, desde cedo se manifestou.

Ora, foi durante a sua estadia em Paris (1928-32) que a sua escultura sofreu uma alteração profunda. A visita ao atelier de Mondrian transformou para sempre o seus objectos - 'Ma premiére incitation à travailler dans l'abstrait m'est venue lors d'une visite à l'atelier de Mondrian, à l'automne 1930. Je ne sais pas si vous savez comment était alors son atelier - un mur blanc, assez haut, avec de rectangle de carton peints en jaunes, rouge, bleu, noir, et une variété de blancs, punaisés de manière à former une belle et grande composition. J'ai été bien plus touché par ce mur que par ses peintures, bien que je les aime maintenant beaucoup, et je me rappelle avoir dit à Mondrian que ce serait bien si l'on pouvait les faire osciller dans des directions et à des amplitudes différentes (il n'a pas approuvé).' (Alexander Calder, 1934). A partir deste momento, as esculturas de Calder referem-se a uma realidade mais vasta e que rodeia o homem. A tentativa de materialização do cosmos domina a nova temática de Calder. A linguagem agora utilizada é pura e geométrica onde a aplicação das cores primárias é essencial (devendo também muito à influência de Miró, Hélion e Léger) e o movimento surge como elemento chave. E por isso lê-se no livro 'Calder, la sculpture en mouvement.', de Arnauld Pierre, que é de facto o exemplo de Mondrian que dá a Calder o impulso de transportar uma visão mais dinâmica para a escultura, vinda da sugestão de criação de uma pintura em movimento.

E a partir de 1932, Calder começa a criar os primeiros mobiles (designação dada por Duchamp). Sendo assim, conseguem-se ditinguir vários tipos de mobiles: estáveis (ou stabiles que brotam do chão); mecânicos (que dependem de um motor para se movimentarem), de parede (que são pinturas a quatro dimensões); suspensos (que se movem com o fluir do ar e redefinem continuamente o espaço onde se estabelecem); e os orgânicos (as formas mais arcaicas e primitivas rapidamente tomam o lugar da geometria rígida inicial).

A escultura móvel de Calder revolucionou o mundo da arte, para sempre. Ao explorar o potencial da arte cinética, a concepção de um mero sólido objecto constituido por massa e peso é assim posta em causa. E Calder declara: 'Why must art be static? You look at an abstraction, sculptured or painted, an entirely exciting arrangement of planes, spheres, nuclei, entirely without meaning. It would be perfect but it is always still. The next step in sculpture is motion.'

Calder produz incansávelmente todos os seus objectos à mão. Nunca se considerou abstracto, porque os seus trabalhos evocam sempre, de alguma maneira, uma realidade. As formas pretendem ser as mais naturais - pela forma, tamanho, cor, espaço, movimento e matéria. A sua inspiração volta-se para a natureza para formar objectos ainda mais completos, que são em si universos e respondem a correntes de ar, espontaneamente e imprevisivelmente, com diferentes velocidades e direcções. Calder usa como referências descrições cósmicas e terminologias científicas - 'I felt that there was no better model for me... Spheres of different sizes, densities, colors and volumes, floating in space, traversing clouds, currents of air, viscosities and odors - of the greatest variety and disparity.'. Interessa-se pelos fenómenos sensíveis e pelas leis que os regem. Para si o espaço circundante é um sistema de forças e de relações, como uma interpenetração de energias variáveis.

As primeiras construções móveis de Calder são lineares, baseadas no princípio do equilíbrio estável. São constituídas por fios de ferro, onde dominam as formas circulares, as curvas, os arcos, as esferas de madeira maciça - são como astros em gravitação, o cosmos em movimento. Retomam o seu trabalho como engenheiro mecânico, onde volumes são ligados por vectores que por sua vez são atravessados pela velocidade (movimento de ar). Calder constrói assim, através de um outro naturalismo, sistemas gravíticos e flutuantes onde as forças de atracção agitam-se em permanência de maneira ilimitada e imprevísivel.

 

'Les formes circulaires, particulièrement lorsqu'elles s'interpènètrent, me paraissent avoir une sorte de sentiment cosmique ou universel. Ce que j'aurais aimé réussir, c'est la suspension d'une sphère sans aucun support.', Alexander Calder

 

Em simultâneo Calder elabora construções com um motor eléctrico - e aqui as formas geométricas movem-se a velocidades variáveis, por intermediário de finas linhas de ferro. Estes objectos mecânicos descrevem no espaço órbitas regulares, arcos de círculo, rotações e translações. Dispõe de formas que se movem no mesmo plano vertical, sugerindo sempre ao observador um ponto de vista frontal. Porém são os 'Cadres', que o artista realiza entre 1932 e 1934 que melhor dão forma à intuição que se gerou aquando da visita ao atelier de Mondrian e que está relacionado com a ideia de que uma pintura em movimento é possível: 'On peut utiliser le mouvement dans un object comme partie de la conception et de la composition. La sculpture devient alors une machine, et en tant que telle il sera nécessaire la concevoir comme une machine. Même ces sculptures mues par le vent sont toujours des machines' (Calder, 1943)

Coincidindo com o fim do período parisiense as esculturas de Calder entraram numa nova fase. As formas fazem-se mais arcaicas e primitivas, libertas de geometria. É um ciclo que se prolongará ate ao final dos anos 30. Os mobiles são de pêndulo suspensos no tecto ou em painéis de parede, compostos por formas orgânicas que flutuam subtilmente. O recorrer a formas biomórficas reinventa o repertório já usado por Jean Arp e Joan Miró. Segundo Arnauld Pierre, os contornos curvos e os ritmos expansivos de Calder estabelecem uma relação inédita - fora de toda a tentiva de figuração - com a natureza e o mundo vivo. É um mimetismo de processos naturais que gera e faz crescer. E Calder através deste processo consegue reintegrar na arte (dita abstracta) um pensamento de natureza.

Em 1934, Calder regressa aos Estados Unidos, instalando-se em Connecticut. Ao viver no campo, realiza os primeiros objectos 'stabiles', de grande envergadura dispostos no terreno que circunda a sua casa. Mas, de 1935 a 1940, os objectos naturais encontrados (ramos de árvore, raízes) adquirem uma enorme importância, permitindo a introdução de contrastes na sua escultura - o liso e o rugoso, a geometria e o orgânico, o pesado e o leve. Estes trabalhos geram a série 'Constelações' apresentada pela primeira vez em Nova Iorque, em 1943. As 'Constelações' organizam no espaço tridimensional pequenas formas polidas e por vezes pintadas que se ligam por fios de ferro rectilíneos. Presas à parede projectam-se em diversas direcções, sem centro de gravidade nem limite espacial preciso. Estas constelações a pouco e pouco geram objectos cujas formas flutuantes se aplanam, inspiradas mais e mais em formas do mundo natural (penas, folhas, palmas e pétalas), constituindo conjuntos arborescentes cada vez mais complexos e refinados.

E foi assim que em menos de três anos, no ínicio da década de trinta do séc. XX, Calder conseguiu dar forma a um dos mais antigos sonhos da arte ocidental, o de produzir uma arte em movimento. O seu trabalho depressa ultrapassou as experièncias dos futuristas e construtivistas. Calder criou a primeira arte cinética, uma arte inteiramente consagrada à expressão e à integração do movimento real. E por isso, as suas criações são puras, são uma realidade autónoma, de uma existência e equilíbrio quase natural.

 

Ana Ruepp