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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

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De 4 a 10 de janeiro de 2016

 

«Viagens de Mandeville» de John Mandeville (tradução, prefácio e notas de Clara Pinto Correia; Fundação Calouste Gulbenkian, 2012) é um documento singularmente importante e misterioso na riquíssima literatura de viagens.

 

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UM MISTERIOSO AUTOR…
Ninguém sabe ao certo quem foi o autor desta obra mítica, apenas havendo elementos para o considerar um viajante e imaginoso escritor que viveu no século XIV. Jehan de Mandeville tem sido alvo de atenção dos estudiosos, podendo corresponder a um tal Jehan de la Barbe, de nacionalidade francesa, médico bem sucedido de Liège. Ambos talvez sejam a mesma pessoa, o que explicará a inscrição na pedra tumular de Mandeville, falecido em 17 de novembro de 1372, onde se diz ser também conhecido como «ad Barbam»… Mandeville (ou o seu alter ego) teria chegado a Liège em 1343, proveniente da Ásia, com fama de grande naturalista, mas também de filósofo e astrólogo, com conhecimentos notáveis de Física. O certo é que o seu relato de viagens se tornou umas das obras fundamentais do tempo – com leitura nas principais cortes, inclusive na de Lisboa, com provável influência nas orientações adotadas pelo Infante D. Henrique no lançamento da empresa dos Descobrimentos. Como salienta Clara Pinto Correia: «no essencial, estas Viagens acompanharam os viajantes durante tantos séculos, foram tão importantes na definição de novas rotas marítimas e integram hoje com tamanho destaque a literatura do género do período medieval, que o seu autor está indelevelmente reconhecido como Mandeville, fosse ou não fosse esse o seu verdadeiro nome – e tivesse ou não personalidades múltiplas».

 

A VIAGEM COMO MARCA HUMANA
A viagem e o dever de peregrinação são realidades bem presentes ao longo dos tempos – e em especial na Idade Média. Assim, o relato destas «Viagens» de Mandeville é constituído por elementos originais e ecos de diferentes outros autores e experiências. Trata-se, de facto, do paradigma dos relatos que tanta importância tiveram, em especial na criação de condições para que se iniciasse um processo de achamento de novas rotas, de novos lugares e povos e de novas oportunidades económicas. E é notável a presença de muitos pormenores de natureza diversa, envolvendo línguas e seus símbolos gráficos, costumes, mas também animais, plantas, minerais, vias marítimas e fluviais, acidentes orográficos e o que hoje designaríamos como diferentes ecossistemas… A peregrinação à Terra Santa ocupa o Primeiro Livro e é, em bom rigor, o grande pretexto para a obra toda. Aí há um testemunho razoavelmente direto do viajante, ainda que este confesse não conhecer todos os caminhos que refere ou aconselha, como, por exemplo, a chegada a Jerusalém através da Tartária… Mandeville vai de Inglaterra até Constantinopla, onde se deixa deslumbrar pela magnífica capital do Império Romano do Oriente, com seus enquadramentos, templos e palácios. No que se refere ao «ensinamento do caminho de Constantinopla para a Terra Santa», o cicerone distingue quem vai através da Turquia, seguindo para Niceia, através do Portão e da Montanha de Ciboto, de quem vai por mar, seguindo o Braço de S. Jorge e depois navega pelo Mar Grego – por Chios e Patmos, pela proximidade de Éfeso e depois por Cós e Rodes… «De Rodes a Chipre são cerca de quinhentas milhas (…) Chipre é uma bela ilha e bastante grande; há várias cidades boas, mas principalmente quatro…». Mandeville não nos faz apenas uma descrição do seu testemunho de viajante, a sua obra é mais do que isso: uma apresentação de roteiros diversos para atingir a Terra Santa. Para tanto, encontramos várias descrições, muitas delas baseadas em literatura ou testemunhos alheios. Em contraponto, oiçamos o que o próprio tem para nos dizer «in loco»: «De Belém a Jerusalém são só duas milhas. No caminho para Jerusalém, a meia milha de Belém, fica uma igreja, no lugar onde os anjos anunciaram aos pastores o nascimento de Cristo. E nessa entrada está o túmulo de Raquel, a mãe do patriarca José; e que morreu assim deu à luz Benjamim. Aqui foi enterrada, e José colocou sobre o seu corpo doze pedras grandes simbolizando os doze Patriarcas. A meia milha de Jerusalém apareceu a estrela aos Três Reis. E nesta estrada para Jerusalém há muitas igrejas, que todos os peregrinos visitam»… Temos uma descrição não apenas dos lugares da Paixão de Jesus Cristo, mas também referências bíblicas e históricas e até do entorno político – como a propósito dos vários nomes dos sultões das suas terras ou das duas Babilónias (a pequena, segundo o nome por que era conhecida a cidade do Cairo e a grande, onde se encontra a Torre de Babel). Importa fazer a distinção das «Viagens» de Mandeville e do «Livro das Maravilhas» de Marco Polo. Tem razão Clara Pinto Correia em salientar que o carácter romanesco deste último contrasta com o tom pedagógico e informativo do primeiro. Marco Polo relata-nos uma viagem na primeira pessoa, o que dá ao testemunho especial cor. No caso de Mandeville, se o primeiro livro parece corresponder mais a um testemunho presencial, o segundo assenta em fontes diversas, nem todas próximas.

 

UMA CONCEÇÃO CENTRADA NA ECÚMENA
O caso mais interessante é o recurso ao escrito do franciscano Odorico de Pordenona, que durante o século XIII viveu cinco anos na China e publicou as suas memórias em 1330. Mandeville diz ter estado no Império do Meio ainda que, estranhamente, não fale do Japão. De qualquer modo, ao seguir muito diretamente o relato do frade, terá difundido a ideia de que teria viajado em sua companhia (até à corte do Grande Khan). A verdade é que o tom do Segundo Livro é razoavelmente diferente do Primeiro e mais permeável à fantasia (como no caso do Vale Perigoso). Com Mandeville, estamos perante a conceção baseada na antiga ideia de Ecúmena – um círculo único de terra emersa pousado num mar imenso: «o círculo da terra era organizado por um T de grandes massas de água: o braço vertical do T era o Mediterrâneo, e o braço horizontal era a combinação do Danúbio com o Nilo. Acima do braço horizontal ficava a Ásia. Do lado esquerdo do braço vertical ficava a África e do lado direito a Europa». A leste ficava o Paraíso terreste e no centro preciso do círculo ficava Jerusalém - «umbilicus terrae». Não por acaso, Mandeville contou com leitores célebres, desde Cristóvão Colombo a Leonardo da Vinci. Já dissemos que o Infante D. Henrique teve contacto com as «Viagens» de Mandeville, do mesmo modo que o Infante D. Pedro trouxe o «Livro de Marco Polo» para a Corte. Devemos lembrar as especiais referências à importância de Ormuz, à comunidade cristã de «Milipor» no Coromandel, onde se encontraria o corpo incorrupto de S. Tomé, no sul do subcontinente indiano (em busca do que partiram Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, referência presente nos objetivos de Vasco da Gama); bem como ao Preste João, já referido por Marco Povo de um modo algo vago e por Mandeville de um modo mais circunstanciado, ainda que também impreciso. O confronto das duas obras que mais influência tiveram no conhecimento da Ásia e do Índico é do maior interesse, havendo mais detalhes em Mandeville. Se a fantasia da árvore do algodão contrasta com o rigor da descrição do Mar Morto e da fossa de Mynon, onde a gravilhas dá origem a vidro de grande qualidade, a verdade é que estamos perante, sem dúvida, «uma das fontes inspiradoras dos roteiros marítimos dos Descobrimentos portugueses»; e a fantasia ou a descrição de inesperados e misteriosos seres, tudo mais não foi do que um acicate para dar «novos mundos ao mundo».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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