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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

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I - UMA REALIDADE CLARA, MANIFESTA E EVIDENTE

Tudo aquilo que é parte integrante de nós, é algo que já existe em nós, que é óbvio, claro, manifesto, evidente, notório, permanente, intrínseco, não duvidoso, consensual e seguro. Pressentido e sentido intuitivamente por cada um, compartilhado por todos, desde o cidadão comum às lideranças e elites. É algo que de tão pertinente, toda a gente conhece e com ele se identifica. Estamos em presença de uma realidade que sendo inegável é, ao mesmo tempo, um desígnio e uma ideia estratégica. Partindo de algo que já existe, tem de ser uma possibilidade ambiciosa, plausível e verosímil, onde impere a vontade, determinando-nos e motivando-nos, sem risco de irrealismo e de irrealização. Constatamos que a língua portuguesa é algo de claro, manifesto, evidente, intrínseco, partilhada por milhões de falantes, por vários países e comunidades. Estamos em presença de uma realidade que sendo óbvia é, em simultâneo, um desígnio ou uma ideia estratégica, não se tratando apenas de uma ideia ou vontade tendente a preservar a identidade, mas também de nos questionarmos sobre o que é ser português, lusófono e cidadão do mundo.

Em boa hora nossa, não é apenas nossa, mas também nossa. Sendo senhora e dona de quem a fala, afirma-se, crescentemente, como língua essencialmente não-europeia, tendo como referência a distribuição da sua área geográfica e os seus falantes, mesmo que se invoque, em termos cronológicos e genéticos, a sua génese europeia. 

Num mundo globalizado as políticas soberanas nacionais centram-se cada vez menos no domínio económico, tendo tendência a centrar-se cada vez mais na esfera cultural, com destaque para a língua e o património. Em Portugal, por exemplo, e demais países da Zona Euro, os bancos centrais nacionais deram lugar ao Banco Central Europeu e ao euro como moeda comum, sendo o nosso país e restantes parceiros europeus regiões com perda de soberania monetária e uma progressiva perda da económica, senão mesmo política, numa interdependência de contágio, o que se propagou de modo gradual e em geral a todos os países, reforçado por uma globalização defensora de uma homogeneização e unicidade do mercado global. Em termos económicos Portugal, à semelhança de outros, é cada vez menos um país, mas é-o progressivamente como realidade linguística e cultural em geral. Num mundo global com liberdade de comércio e de movimentos, em que tudo é cada vez mais do mesmo em todo o lado, a cultura, o património e realidades como a língua, marcam e fazem a diferença. O que indicia que hoje e no futuro haverá cada vez mais responsabilidades estaduais nestas áreas.

Há quem entenda ser mais importante divulgar interna e externamente, por exemplo, Fernando Pessoa, que com o seu aforismo, “A minha pátria é a língua portuguesa”, nos pode levar a pensar que “Quando Pessoa afirmou que a sua pátria era a sua língua, disse isso por todos nós. (…) Quando de todo se fundirem as soberanias; quando de todo se banirem as fronteiras; quando se aproximarem do fim as identidades; quando todos os seres humanos se considerarem cidadãos do Mundo; quando tudo se tiver globalizado, as pátrias serão as línguas. Mais do que nunca, Pessoa terá razão” (António de Almeida Santos, “Paixão Lusófona”, INCM, 2001, p. 258).

Daqui decorre que há que ter consciência das nossas raízes, da defesa, continuação e projeção permanente da nossa identidade e universalidade, não caindo numa euforia de internacionalismo, globalismo e integracionismo, não nos preocupando apenas, ou essencialmente, com o que é secundário em termos estratégicos, sem perceção ou omissão dos nossos interesses permanentes, onde sobressai, maioritária e estruturalmente, entre outros, o nosso, e não apenas nosso, idioma.

Outro aspeto marcante da sua promoção e sobrevivência, tem como linha programática a utilização da língua portuguesa como língua estrangeira, de exportação, o que implica o uso progressivo do português como língua de comunicação internacional, para além do espaço territorial dos países que a partilham. Não a condenando a um uso confidencial, a um idioma de comunicação internacional fundado num sentimento de posse, não a tratando, de um ponto de vista global, como uma língua localizada ou regional, apesar de servir milhões de falantes dispersos por várias soberanias.

Além de ter de ser partilhada sem direitos adquiridos por antiguidade no uso, também não pode comportar, para quem a fala ou aprende, uma carga negativa e depreciativa, ao aceitar-se e interiorizar-se que falando-a ou usando-a em público, por exemplo, significa um estigma que discrimina e inferioriza quem a usa perante terceiros.

Recursos a investir não são custos a fundo perdido, mas uma aposta estratégica na sua preservação, difusão e promoção, com caraterísticas de continuidade e permanência, diferenciando-nos e universalizando-nos, não como mera referência simbólica, mas como idioma de comunicação global e bem económico de exportação, como um capital e recurso estratégico de primeira grandeza, associando-a a uma imagem de língua do futuro e da modernidade, da ciência e da tecnologia, do desenvolvimento e da prosperidade económica, com implicações culturais, tecnológicas, de imagem de marca e externa dos seus cultores e falantes, com a ambição legítima de a converter numa realidade linguística com efetivo prestígio e valor cultural, político e económico à escala planetária.

Não a reconhecendo como uma realidade infalível, não a divinizando ou sacralizando, aceitamo-la como falível, com os seus méritos e défices, o que envolve abertura e sujeição à crítica, fazendo progredir o conhecimento e evolução duma realidade que é, ao mesmo tempo, clara, manifesta e evidente.

 

04 de Janeiro de 2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

JEAN ROUAUD

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LES CHAMPS D’HONNEUR


Reli com muito gosto este esplendido romance que conheci através “Les Éditions de Minuit”. Trata-se do primeiro volume de uma série de cinco livros autobiográficos: "Des hommes illustres", "Le Monde à peu près", "Pour vos cadeaux et Sur la scène comme au ciel". Retratam estes livros a vida da família de Rouaud e, particularmente, o falecimento de seu pai, de sua muito religiosa tia e de seu avô materno. Na nossa opinião, trata-se de um livro no seu todo, sobre a vida, a morte, o tempo, a família e a interpretação da memória.

Neste livro “ Les Champs D’ Honneur” uma sucessão de vidas e mortes de alguns dos seus familiares é relacionada com o conflito da 1ª Grande Guerra que por todos vem a ser evocada com uma raríssima intensidade, e através de uma rara capacidade de escrita para o dizer.

Jean Rouaud que ganhou o prémio Goncourt em 1990 justamente com este livro “ Les Champs D’ Honneur “- o mais prestigiado galardão literário (para prosa) - estudou Letras tendo realizado a sua Licenciatura na Universidade de Nantes. Viveu este escritor de ter sido vendedor de enciclopédias, empregado numa bomba de gasolina, vendedor de jornais num quiosque, onde veio a conhecer Jerome Lindon director das “Les Éditions de Minuit”e que passará a ser o seu principal editor. Graças ao prémio Goncourt obtido com este romance, deixou o seu trabalho no quiosque; nesse mesmo quiosque que venderia o jornal le Monde, no qual Patrick Kéchichian escreveria

«Les champs d´honneur (…) il est l’un de ces rares, de ces très rares libres, qui emportent l’immédiate conviction: conviction qu’on brûle de faire partager.»

 

Teresa Bracinha Vieira
Janeiro 2016