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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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O Bloco das Águas Livres.

 

O bloco das Águas Livres (1953-56) foi construído em Lisboa, para a Companhia de Seguros Fidelidade. É remate de quarteirão, feito na sequência da abertura e urbanização, em 1940, da envolvente à Rua D. João V. Compreende as definições do Plano de Pormenor da Praça das Águas Livres, elaborado por Manuel Tainha que cose a praça ao Aqueduto que segue para o reservatório da Mãe de Água às Amoreiras.

Concebido por Nuno Teotónio Pereira (1922) e Bartolomeu Costa Cabral (1929), o bloco das Águas Livres faz parte de um conjunto de novas conceções urbanas determinadas na sequência da divulgação da Carta de Atenas e na afirmação do novo papel social do arquiteto. Tal como os projetos do conjunto à Infante Santo e do bloco da Mãe de Água, o bloco das Águas Livres é uma nova conceção de habitação – o bloco coletivo – que se integra na estrutura urbana existente, com requisitos higienistas de orientação solar, ventilação, conforto e segurança.

Contudo, Teotónio Pereira e Costa Cabral desde logo questionam os modelos modernos mais ortodoxos e propõem um novo significado no quadro da arquitetura corrente, utilitária e quotidiana e uma contínua reflexão sobre o modo de habitar.

O moderno somente interessado em promover o edifício do futuro, concentra todos os esforços em gerar formas, que inteiramente novas, derivam unicamente de conceitos de padronização, pré-fabricação e da própria da função que se propõem cumprir. Embora referenciado à unidade de habitação corbusiana, Teotónio Pereira e Costa Cabral associam à máquina de habitar um gosto pelo lugar real e pela continuidade urbana – o bloco não se descose da rua em pilotis e antes assenta num espaço comercial.

O bloco das Águas Livres propõe, assim um modo novo de desenhar a cidade e que muito influenciou a arquitetura de habitação portuguesas. É comunidade, identidade e vida. É unidade de vizinhança concentrada. Permite aglomeração de pessoas, de bens (atividades económicas e ateliers estão associadas ao programa do bloco), de fluxos (a dualidade público/privado existe em confronto permanente) e a introdução das galerias a tardoz acentua a aproximação e o sentido de comunidade. O bloco define-se com diversos espaços e serviços comuns (lavandarias coletivas na cave, ruas interiores nos primeiros dois pisos terciários e ampla sala de condomínio no terraço). Oferece serviços que permitem a criação e a permanência de uma comunidade – distribuição de água quente, recolha de lixos com conduta vertical, monta-cargas e garagens.

Ao dar vida ao bloco Teotónio Pereira e Costa Cabral transformam-no acessível a infinitas interpretações – capaz de receber de cada uma das personalidades interpretantes o seu modo de ver, de pensar, de viver e de ser. Por isso o bloco é uma obra que se abre e se identifica com todos os que aí vivem.

Com uma implantação nascente-poente, o bloco das Águas Livres tem oito pisos de habitação com sete fogos de quatro tipos por piso. No piso térreo situam-se as duas entradas principais, um conjunto de lojas viradas para o exterior e ainda acesso ao piso intermédio ocupado por escritórios. Como remate e dando uso à vista, a cobertura integra um corpo recuado composto de ateliers e uma sala de festas. As galerias de serviço destacam-se da fachada e protegem a fachada poente da exposição solar.

A Companhia de Seguros Fidelidade aplicou o seu capital numa obra de qualidade para uma clientela de elevado nível económico. Apesar de ser novidade em edifícios destinados a uma classe mais elevada foram previstos quatro tipos de habitação. Era intenção oferecer diversos modos de viver a um leque variado de famílias e para tal cada piso dispunha de um fogo T4 e um fogo T1 (respetivamente em cada extremidade do piso), três T2 e dois T3.

A equipa de arquitetos propôs uma organização interna do fogo versátil que racionaliza o modo de vida das famílias, que oferece uma forma de viver não estática e de fácil funcionamento. No fogo é introduzida continuidade espacial, comodidade, eficiência de serviços, integração de espaços ao ar livre para usufruto da vista e redução das zonas de circulação. A continuidade espacial concretiza-se no desenho da sala comum que permite incluir zonas diferenciadas para estar e comer. A cozinha está mais próxima da zona de comer e os acessos principais estão articulados com os acessos de serviços. Existem espaços específicos para as diversas atividades diárias – estendal, zona de engomados, postigo de entrega do pão e do leite.

No bloco das Águas Livres a inovação é também evidente no exterior. A fachada virada a nascente é caracterizada pela horizontalidade da composição dos vãos; pela expressão única das varandas em betão aparente. A cobertura é de constituição curva e o corpo das lojas animado pela dinâmica cobertura abobadada. A cor, rosa claro e o mosaico de vidro de cor cobre, foi estudada pelo pintor-arquiteto Frederico George. Certos elementos repetem-se, como as varandas – sempre viradas a sul, sempre viradas ao sol. A varanda é corpo próprio na fachada que participa do espaço interno da sala, encerrada a norte e aberta para a vista. O bloco tem duas faces: uma mais urbana que se cola ao chão e outra face a poente mais crua e funcional destinada aos serviços domésticos.

A equipa Teotónio Pereira e Costa da Cabral colocou inovação e experimentação num exaustivo trabalho de construção – utilizando novos materiais aplicaram um nível de detalhe muito apurado. Foram pela primeira vez utilizadas num edifício de habitação, lajes fungiformes como solução estrutural.

O desenho dos espaços comuns foi enriquecido por obras, expressamente concebidas para o edifício, de Almada Negreiros, Jorge Vieira, José Escada, Cargaleiro e Frederico George. Gonçalo Ribeiro Telles elaborou o projeto de ajardinados e arranjos verdes interiores que incluíam as varandas e as galerias dos escritórios, bem como o plano de plantação do terraço.

Com o bloco das Águas Livres Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral ultrapassaram o modo de fazer moderno mais dogmático e introduziram a complexidade através de aspetos reais e de valores espaciais abertos à interpretação, à comunicação, entendendo os comportamentos e as experiências pessoais únicas dos habitantes.

 

Ana Ruepp