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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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        Minha Princesa de mim:

 

Na sua Histoire de Ma Vie, redigida em francês, Giacomo Girolamo Casanova  -  que se intitulava Jacques Casanova de Seingalt, nascido em Veneza a 2 de Abril de 1725, numa 2ª feira de Páscoa, e morto no castelo de Dux, na Boémia austríaca (hoje checa), onde era bibliotecário, a 4 de Junho de 1798  -  refere duas vezes Camões, que ele considerava poeta maior da cultura europeia e designava como o "Virgílio Português", e regista dois encontros  -  ambos muito especiais e gratos  -  com portugueses: um, que se repete, com o padre diplomata Giovanni Patrizio (João Patrício) da Gama da Silveira; outro, encerrado num curto mês londrino, com Pauline, senhora de alta nobreza, foragida da pátria e refugiada em Londres, para escapar a um casamento imposto e realizar outro, a seu gosto, mas que fora gorado pelas autoridades, na viagem da fuga de Portugal. São encontros bem distintos, mas com três pontos em comum: admiração, respeito e afecto. O padre Gama terá nascido em Lisboa, em 1704, e vivido 70 anos, quase todos em Itália, adquirindo mesmo a cidadania romana em 1735. Casanova conhece-o em Outubro de 1743 ou 44, por iniciativa do cardeal Acquaviva, embaixador de Espanha em Roma, que o acolhera e lhe dera guarida e emprego no Palazzo di Spagna (que deu o nome à célebre piazza romana). Na verdade, o padre Gama já era, então, estimado colaborador de Acquaviva. O veneziano Casanova chegara a esta importante personagem por recomendação do padre Georgi, inimigo dos jesuítas e estimado pelo papa Bento XIV, que o recebera em Roma (Casanova havia sido expulso do seminário em Pádua), onde ele, à chegada, se alojara num albergue.

[Abro parênteses para te traduzir um passo da primeira ceia romana de Casanova, à table d´hôte do dito albergue: Ceei com Romanos, e com estrangeiros, seguindo fielmente os conselhos do padre Georgi. Disseram muito mal do papa e do cardeal ministro, que era o culpado do facto de o Estado eclesiástico estar inundado de oitenta mil homens, entre alemães e espanhóis. O que me surpreendeu foi que comessem gordo, apesar de ser 6ª feira; mas, em Roma, só tive surpresas durante oito dias. Não há qualquer cidade cristã católica no mundo em que os homens menos se incomodem com coisas de religião... Os romanos são como os empregados nas plantações de tabaco, aos quais é permitido levarem de graça tanto quanto possam. Ali se vive com a maior liberdade, se não considerarmos que as "ordini santissimi" devem ser tão temidas quanto as cartas seladas em Paris, antes da atroz Revolução...]  

Tinha o autor de tal observação os seus dezoito anos, e relata assim o seu primeiro encontro com o padre português ao serviço da embaixada de Espanha em Roma, dois dias depois: Era um Português, que parecia ter quarenta anos, bela figura que mostrava candura, alegria e graça. A sua afabilidade queria inspirar confiança. A sua fala e as suas maneiras eram tais, que podia dizer-se romano. Disse-me, de modo agradável, que Sua Eminência, ela mesmo, tinha dado ordens ao seu mordomo no que respeitasse ao meu alojamento no palácio. Disse-me que eu jantaria e cearia com ele à mesa do secretariado, e que, enquanto fosse aprendendo a língua francesa, me exercitaria à vontade a respigar passos de cartas que ele me daria... Prometeu o padre Gama amizade e apoio a Casanova, e nunca lhe faltou. Conto-te de seguida alguns exemplos dessa protectora lealdade, bem como outros saborosos momentos de iniciação do jovem veneziano nas voltas e jeitos da vida social romana... Antes, porém  --  quiçá prefaciando, pois me parece que o retrato que Gama da Silveira teria feito de Casanova não andaria longe do que este mesmo, pouco depois, teria de si desenhado a Teresa, com quem desejava casar e de quem teria um filho  --  traduzo-te  o que de si próprio, à pretendida, disse o veneziano: Eis a verdade: supões-me rico, não o sou. Nada mais terei quando acabar de esvaziar a minha bolsa. Supões-me, talvez, homem de alto nascimento, e sou de condição inferior ou igual à tua. Não tenho qualquer talento lucrativo, emprego algum, nenhum fundamento que me garanta que terei com que comer dentro de poucos meses. Não  tenho parentes nem amigos, nem qualquer direito a que possa pretender, nem qualquer projecto sólido. Tudo o que tenho, afinal, é apenas juventude, saúde, coragem, algum espírito, sentimentos de honra e probidade e uns começos de boa literatura. O meu grande tesouro é ser senhor de mim, não depender de ninguém, não recear a infelicidade. O meu carácter tende a ser dissipador. Eis o teu homem... Giacomo Casanova considerava-se, como sabes, um filho espiritual de Horácio, romano antigo, do mesmo modo que cultivava Virgílio e se deleitava com Ariosto. Este seu autorretrato, aliás, traz-me à memória outro passo da Histoire de Ma Vie: O homem sábio, acreditem, nunca poderá ser totalmente infeliz. Até  será sempre feliz, diz o meu mestre Horácio, nisi quum pituita molesta est  (excepto quando sofre de constipação cerebral). Mas que homem estará sempre constipado do cérebro?

Fecho este parêntese, Princesa, e passo ao relato de uma primeira lição de Gama a Casanova, uma espécie de aula prática de introdução à vida de Roma, cidade capital dos Estados Pontifícios, em meados do século XVIII. Depois de ter assegurado a instalação condigna de Giacomo no palácio de Espanha, residência do cardeal-embaixador Acquaviva, e de lhe ter dado as primeiras cartas para análise, o padre português convida-o, quando o vê regressar da sua primeira lição de francês, a sentar-se num café da strada Condotta. Traduzo-te o apetitoso trecho: Era o padre Gama. Disse-lhe ao ouvido que Minerva me tinha proibido os cafés de Roma. Minerva, respondeu-me, manda-vos começar a fazer uma ideia deles. Sentai-vos ao pé de mim. Ouço um jovem padre que conta, em voz alta, um facto verdadeiro, ou controverso, que atacava directamente a justiça do Santo Padre; mas sem azedume. Toda a gente ri e o ecoa. Outro, ao ser inquirido sobre porque deixara o serviço do cardeal B., responde que sua eminência pretendia "não ter de lhe pagar à parte certos serviços extraordinários que lhe exigia em camisa de noite". Risota geral. Outro veio dizer ao padre Gama se gostaria de passar a tarde na "villa Médicis", onde o encontraria acompanhado "di due Romanelle", que se contentariam com um "quartino". É uma moeda de ouro, um quarto de cequim. Outro leu um soneto incendiário contra o governo, de que vários tiraram cópias. Outro leu uma sátira sua, que destruía a honra de uma família. Mais tarde, ao jantar oferecido por Gama da Silveira, com outros convivas, outra sociedade, Casanova conversou, e pareceu-lhe ter feito boa figura. Diz, portanto, ao padre português, que sente ter-se portado bem, e de tal se gaba. Ao que o outro responde: -- Não se gabe disso, eludiu tão evidentemente as questões, que toda a mesa percebeu as suas reservas, e ninguém mais lhe fará doravante perguntas. -- Ficarei aborrecido. Deveria, então, ter-me aberto?  --   Não, mas há sempre um caminho mediano.  --  É o de Horácio, por vezes muito difícil: " Devemos ser, simultaneamente amáveis e estimáveis". E só isso procuro.  --  Santo nome de Deus! Visaste hoje mais a estima do que o amor. É bonito. Mas dispõe-te a combater a inveja e a sua filha calúnia: se esses dois monstros não conseguirem estragar-te, vencerás. E, após recordar-lhe a discussão com um médico (Salicetti), cuja opinião Casanova contrariara na conversa à mesa, e perante a persistência deste em pretender ter razão, dá-lhe Gama lapidar aviso: Tanto melhor para ti, se sabes a coisa com tanta evidênciae tanto pior para Salicetti, se negar essa possibilidade. Deixa-o no erro. Isso será melhor para ti do que convencê-lo e torná-lo teu inimigo. Conheces-me suficientemente bem, Princesa de mim, para nem precisares de imaginar quanto me divertiu este relato. Deixo-te saboreá-lo, voltarei com outros mais, em próximas cartas. Visitar os bastidores do teatro da vida é, as mais das vezes, intrigante, e, em muitas outras, entristecedor, deprimente ou revoltante. Mas pode acontecer também, quiçá por algum cinismo, que os mecanismos  --  ou a cultura  --  da intriga social nos divirtam. Quando julgamos ter descoberto a careca...

 
                Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira