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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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De 11 a 17 de janeiro de 2016

 

«Do Mar Oceano ao Mar Português», editado pelos CTT (2015), com apoio do Centro Nacional de Cultura, é um livro fascinante, que faltava. Mário Ruivo, o prestigiado biólogo e oceanógrafo, conseguiu reunir a seu lado uma plêiade de autores que garantem a produção de uma obra única no panorama nacional.

 

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 A MINHA TERRA É O MAR
Ninguém melhor do que Sophia de Mello Breyner definiu a relação entre o português e o mar: «A minha terra é o mar» (em «Menina do Mar», 1958). É difícil falar do Mar, quando este domina a nossa identidade. Mas nesta obra encontramos um conjunto de pistas e informações que poderão ter um papel pedagógico e formativo essencial. Como salienta o coordenador: «o alargamento da plataforma continental é uma fonte de oportunidades para um desenvolvimento sustentável (económico, social, cultural e institucional) apoiado nos setores que utilizam os recursos do mar português, implicando ações concertadas face a um bem comum que, pela sua natureza, cria ao Estado Português uma responsabilidade acrescida no conhecimento e na gestão sustentável». Os cinco capítulos que o livro apresenta procuram sensibilizar o leitor para a importância do Mar, num país que alicerça a sua diferença na frente e na história marítimas. Especialistas e investigadores alinham as suas reflexões nestes domínios: um Património Comum para o futuro; o Diálogo entre Culturas na Descoberta do Mundo; o Mar na Identidade cultural portuguesa; o Panorama sistémico do Mar português e, por fim, há uma incursão nas tradições dos sabores do mar. Começando pela geoestratégia, o «mar português» situa-se na confluência de três continentes, o que permite reforçar no futuro a afirmação e a intervenção do país no plano internacional. Deste modo, a zona económica exclusiva (ZEE) e a extensão da Plataforma Continental classificam hoje Portugal como «país oceânico», mais do que como «país marítimo». O potencial económico é, de facto, muito grande, abrangendo o que é relativo à «biosfera profunda», desde a medicina aos novos materiais; da energia à indústria química; bem como aos recursos geológicos do mar profundo – jazigos de sulfuretos maciços e correspondentes campos hidrotermais; nódulos e crostas polimetálicos; hidratos de metano e hidrocarbonetos de novas origens… Como referem Emanuel J. Gonçalves, Fernando J. A. S. Barriga e Maria Eduarda Gonçalves: «o conhecimento científico desempenha um papel central», sendo «condição de base para a definição de mecanismos de gestão eficazes, desenhados de acordo com a melhor informação e estudos disponíveis».

 

UMA HISTÓRIA MUITO RICA
Joaquim Romero Magalhães recorda «as maravilhosas coisas do mar», que permitiram fazer Portugal como nação. O comércio marítimo à distância do pescado e do sal, os produtos agrícolas e florestais foram caracterizando a vida económica portuguesa desde o período medieval. Na expansão atlântica ampliou-se a conceção de espaço político, militar e económico. «Vai-se descobrindo que há mais terras e mais mares, mais gentes». Mas o aproveitamento de novos espaços exigia suporte interno – o que faltou por despovoamento e míngua de gente. Circularam escravos, marfim e malagueta e a expansão do Atlântico foi anunciando novas oportunidades. D. João II tornou Portugal placa giratória do primeiro comércio global e instalou a feitoria de S. Jorge da Mina (1481-82) – os tecidos europeus, os cavalos e os tapetes do Magrebe são trocados por ouro da África subsaariana. «O mar proporciona e agiliza ligações». Desde o Infante D. Henrique que os soberanos portugueses procuram e conseguem o exclusivo da navegação em áreas demarcadas. O «mare clausum» anuncia Tordesilhas; mas depois virá o «mare liberum» de Hugo Grócio. O Príncipe Perfeito preparou-se para dominar o Índico, segundo o Plano da Índia – com as viagens de Bartolomeu Dias, Pero da Covilhã e Afonso de Paiva. Sabia-se em Portugal, no entanto, muito pouco sobre a Ásia. As especiarias e os cristãos procurados eram muito incertos. O Preste João ficava na Abissínia e o conhecimento das rotas viria mais tarde. Depois de Vasco da Gama abrir o caminho, Pedro Álvares Cabral iniciou a consolidação do novo império e Afonso de Albuquerque ligou o poder militar ao domínio comercial, com Goa (1510), Malaca (1511) e Ormuz (1515). Tomé Pires chega a Pequim (1517), em Ceilão estabelece-se a feitoria para o trato da canela e pedras preciosas. Há portugueses em todo Índico – na costa do Coromandel, no golfo de Bengala, nos reinos de Pegu e de Sião, nas Molucas… O sudoeste asiático é o lugar por excelência dos mercadores e mercenários, mais do que da Coroa – e o comércio interasiático vai-se sobrepondo aos interesses de Lisboa. China, Japão e Macau tornam-se centros de atenção. «Do império da pimenta inicial passam os portugueses para o interesse da seda chinesa, financeiramente mais proveitosa».

FATORES DE ENRIQUECIMENTO
Entretanto, o Brasil ganha importância: o açúcar, o gado, o tabaco, a madeira tornam-se fatores de enriquecimento. No Portugal europeu há um comércio marítimo intenso, que se soma aos negócios da Casa da Índia – de especiarias, drogas, sedas e preciosidades orientais. Depois de Alcácer Quibir, a crise dinástica e as dificuldades financeiras da Península levam à derrocada do império asiático, em benefício dos holandeses. Mas a Restauração de 1640 consolida-se graças à vitalidade dos colonos de Pernambuco, que no Atlântico remetem os holandeses de volta para o comércio europeu do peixe salgado… Depois, veio o ouro de Minas Gerais, mas o Conde da Ericeira dirá: «não há na nossa terra quem se resolva a experimentar danos presentes por interesses futuros». O certo é que o império português – oriental no século XVI, atlântico no XVII - fez-se «sempre centrado e justificado pelo mar». E Gonçalo Mendes Ramires na «Ilustre Casa» representa o sonho do ciclo africano, a que se seguirão a emigração e o regresso europeu. Jaime Cortesão afirma que «a atividade marítima está não só nas raízes da nacionalidade donde sobe como a seiva para o tronco, mas é como que a linha medular que dá vigor a toda a (nossa) história». A costa atlântica define a perenidade da independência portuguesa; o mar é o referencial identitário. Unamuno fala da convergência entre a história trágico-marítima e o nosso fundo lírico… Daí Maria Isabel João referir «histórias de coragem e de glórias, mas também de sofrimento e lágrimas». Temos mar desde os trovadores, de Martim Codax, a Pessoa, passando por Camões, Sá de Miranda, Garrett, Herculano, Antero de Quental, Pascoais, Raul Brandão, Sophia, até Torga, Ruy Belo e Manuel Alegre, sem esquecer todas as artes… E Telmo Carvalho, Márcia Marques e Raquel Ribeiro apresentam uma magnífica infografia, a demonstrar a importância de «um conhecimento científico interdisciplinar e integrado», impondo-se a superação de fragilidades que temos sentido e que não têm permitido uma continuidade necessária». O Mar profundo, o Mar-caminho, o Mar-sustento e o Mar sustentável obrigam a ver o espaço oceânico como um todo – o que determina muito mais do que intenções ou sonhos…

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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