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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - LVIII

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O TEATRO E OS TEATROS DE ALFREDO CORTEZ

Importa desde já referir que neste ano de 2016 assinalam-se os 70 anos da morte de Alfredo Cortez, ocorrida em Oliveira de Azeméis aos 65 anos de idade a 7 de Abril de 1946. Sabe-se que a estreia “profissional” do dramaturgo ocorrera no Teatro D. Maria II em 5 de Março de 1921, com a peça “Zilda” encenada por António Pinheiro e interpretada pelos então jovens Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Amélia recorda essa estreia agitada e polemizada no recente livro de entrevistas coordenadas por Vítor Pavão dos Santos a que já fiz referência (“O Veneno do Teatro ou Conversas com Amélia Rey Colaço” - 2015).

Essa estreia gerou polémica, e até individualidades com a dimensão de Aquilino Ribeiro deram a sua opinião. Mas a peça fez carreira e inaugurou a longa presença profissional de Alfredo Cortez em sucessivas produções em Portugal e no Brasil.

E hoje, já não de pode pôr em dúvida a extraordinária qualidade da dramaturgia de Cortez, e designadamente a fortíssima expressão inovadora da sua obra, construída a partir de expressões dramáticas diversificadas – desde o realismo duro e puro ao teatro poético, ao expressionismo então inovador entre nós, ao regionalismo e à visão crítica global da sociedade e da mentalidade portuguesa, que não perdeu, também nesse plano de conteúdos analíticos, uma flagrante atualidade.

Os 70 anos da morte de Alfredo Cortez serão devidamente assinalados a nível nacional, e acompanharemos ao logo do ano essas comemorações. Hoje, porém queremos salientar muito concretamente dois aspetos específicos.

Um deles reporta-se à estreia do dramaturgo, num texto extraviado, de que restará eventualmente uma pequena citação. Trata-se de um manuscrito que me foi facultado pela família de Alfredo Cortez. (cfr. o meu livro intitulado “Alfredo Cortez – Teatro Completo com Peças e Textos Inéditos” edição INCM -1992). Sabia-se que Cortez é autor de um texto representado em 1918 no então chamado Teatro Foz por alturas de 1916, com referências e enquadramento da intervenção de Portugal na 1ª Grande Guerra. Denominado “Terra e Mar” e assinado com um pseudónimo, essa peça constituiria a primeira obra dramática de Cortez, pois a “Zilda” só foi estreada em 1921.

Dessa primeira (eventual) peça, restaram algumas cenas manuscritas, as quais, aliás, desde logo revelam o talento e a qualidade e sentido teatral do autor. Publiquei-as na edição referida acima e aqui transcrevo que que restou, com as ressalvas de que o texto, sendo indiscutivelmente manuscrito de Alfredo Cortez e até aí inédito, poderá ou não integrar essa desconhecida “Terra e Mar”.

Trata-se de um breve diálogo entre a “Embriaguez” e a “Pouca Vergonha”: “ EMBRIAGUEZ – Tu que és a Pouca-Vergonha/ Tem de explicar-me, vez cá/ Com é que a minha mamã/ É também o meu papá”./ POUCA VERGONHA - Não percebes?/ EMBRIAGUEZ – Não percebo./ POUCA VERGONHA – Pois eu explico-to, pá./ Ela esperava casar/ E vai depois não casou./ Coitada, ficou de esperanças/ Só de tanto que esperou./ EMBRIAGUEZ – Quem espera sempre alcança./ POUCA VERGONHA – Foi assim que ela alcançou…”

Salientamos este extrato porque ele desde logo revela e documenta a qualidade cénica do teatro de Alfredo Cortez. E é então oportuno lembrar que esta vasta dramaturgia percorre todos os caminhos da modernidade, e assume claramente a expressão ideológica, digamos assim, e a coerência do autor, que traduz no teatro desde a suas profundas opções existenciais – cito designadamente as peças de expressão confessional católica, “Lourdes”, “O Oiro”, “Domus”, o realismo social duro e puro – “Zilda”, “O Lodo, Baton, “Lá-lás”, o expressionismo inovador entre nós – “Gladiadores”, ou o regionalismo – “Tá-Mar” (de que Rui Coelho compôs uma Ópera) e “Saias”, esta escrita em dialeto mirandês!... alem de textos esparsos e inéditos que revelei na edição acima referida de Teatro Completo.

Refira-se que “Gladiadores” constituiu um verdadeiro escândalo de modernidade. “A peça causou escândalo como sátira de símbolos sociais e políticos” escreveu Etelvina Santos, que cita a propósito a opinião de Eduardo Scarlatti: “talvez o primeiro ensaio de um género superior de teatro cómico, o qual transportaria o grotesco da vida em sociedade sobre manequins humanos” (in “Dicionário de Literatura Portuguesa” dir. Álvaro Manuel Machado, verbete sobre Alfredo Cortez pag.145).

Mas há outra expressão da atividade teatral de Alfredo Cortez que quero agora salientar, e que refere a sua atividade como promotor e colaborador em companhias e espetáculos profissionais. Desde logo com tradutor/adaptador de textos diversos – cito designadamente as traduções/adaptações, de “Jerusalém” de George Rivolet, “Wang, Sábio Três Vezes Sábio” de Henry Gheson, “Isabel, Rainha de Inglaterra” de André Josset e Maria Stuart” de Schiller. Cito sobretudo a criação e direção, por Alfredo Cortez, em 1923, da chamada Nova Companhia de Declamação, com Adelina Abranches e António Pinheiro como cabeças de cartaz.

E o repertório esteva á altura, numa modernidade que marcou, na época, o meio teatral português: alem de uma reposição de “O Lodo”, traduziu e estreou a já citada “Apaixonada” de Porto Riche, e ainda “A Mulher Fatal” de André Birabeau e “A Malquerida” de Jacinto Benavente.

E escreveu ainda o argumento e os diálogos do filme “Ala Arriba” de Leitão de Barros (1942).

Textos que então constituíram verdadeiras revelações e que ainda hoje atestam, repetimos, a qualidade e modernidade dos espetáculos a que Alfredo Cortez esteve ligado – como autor, como tradutor, com diretor de companhia…

 

Gravura: Retrato de Alfredo Cortez por Eduardo Malta, in revista “De Teatro”- Abril 1924

 

 

DUARTE IVO CRUZ