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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

Cá estou de volta, para te contar mais uns episódios da Histoire de Ma Vie do Giacomo Girolamo Casanova, estes ainda marcados pela presença do padre português João Patrício da Gama da Silveira. Desde o tempo em que ocorreram os ditos e acontecimentos relatados na minha última carta, terão decorrido uns dezassete anos até ao novo encontro dos dois amigos, de que te falarei agora. Entretanto, Casanova percorrera várias terras e culturas  -  esteve mesmo no império otomano, e preso em Veneza  -  confrontara-se com gentes várias e aventuras, continuara a ter amores e doenças venéreas, dissabores e fugas, períodos de mais abastança e luxo, polémicas e manifestações de muito apreço pela sua inteligência e talentos. Leva-o, certo dia, o fado até Florença e, na cidade onde nascera a ópera, ao teatro da via della Pergola, onde, instalado num camarote, descobre que a primeira cantora é aquela Teresa de que tivera de separar-se, dezassete anos antes, em Rimini. É, depois do espectáculo, amorosamente quente o reencontro dos amantes, apesar dela estar já casada e não querer enganar o marido. No dia seguinte, depois do ensaio, Teresa oferece um jantar a várias pessoas, e tem Casanova a seu lado. Vamos ao relato deste: A dado momento, vejo um velho padre, muito bem vestido, que entra, em andar compassado, com ar amável e sorridente e que, tendo olhos só para Teresa, vai ter com ela e lhe beija a mão, pondo um joelho no chão, à moda portuguesa. Teresa, graciosa e risonha, fá-lo sentar à sua direita; eu estava à esquerda. Reconheço nesse momento o padre Gama, que há dezassete anos deixara em Roma, com o cardeal Acquaviva, mas não lho deixo entender. Envelhecera muito, mas era ele. O galante velho, tendo olhos só para a Teresa, dizia-lhe piropos, e ainda não tinha olhado para mais ninguém. Esperando que não me reconheça, não olho para ele e conto umas bagatelas à Corticelli. Teresa chama-me à ordem, dizendo que o padre gostaria de saber se eu o reconhecia. Olho então para ele, finjo-me surpreendido, e pergunto-lhe se estava a ter o gosto de ver o Senhor Padre Gama.  --  O próprio, diz ele, levantando-se, e agarrando-me a cabeça para me dar vários beijos, como faria no seu carácter, que eu conhecia, de político fino, e muito curioso... E assim recomeçará o convívio de ambos, matando saudades e evocando lembranças, até surgir na sala um jovem que é uma estampa do Casanova: é ele a surpresa que Teresa lhe prometera, o filho de ambos, que o pai agora vê pela primeira vez! Gama da Silveira que, entretanto, informara o seu amigo veneziano de como tinha deixado o serviço diplomático de Espanha, para passar ao de Portugal  -  e assim tivera de sair de Roma, aquando da ruptura de relações com o Vaticano, determinada pelo ministro Sebastião José  -  propõe novo encontro, para conversa mais a sós e prolongada. Volto a traduzir-te o relato de Casanova: No dia seguinte, às nove horas, anunciaram-me o padre Gama, que começou por chorar de contentamento, vendo-me em tão boa saúde ao fim de tantos anos, e na flor da idade. O leitor vê aqui que ele deve ter feito o meu elogio. Pode ser bom ter espírito, mas temos de reconhecer que nos agradam os manteigueiros. Esse padre suave, bastante amável, muito fino, e nada maldoso, mas curioso por carácter, e por profissão, não esperou que insistisse com ele para me contar toda a sua história de dezassete anos, que ele alongou, multiplicando os episódios. Interrompo aqui o conto de Casanova, para te dar o contexto histórico do que seguidamente ele narra. Tal narrativa refere-se a Dezembro de 1760, em Florença, aonde o padre Gama acompanhara Francisco de Almada e Mendonça, embaixador do rei D. José I de Portugal junto do papa, em Roma, de Maio de 1759 a Julho de 1760, altura em que, por ordem do ministro Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal), tivera de sair dos Estados Pontifícios, pois se suspenderam as relações diplomáticas de Portugal com o Vaticano. A razão de tal corte por parte da Sua Majestade Fidelíssima (título dado ao rei de Portugal em 1750) fora a recusa do papa Clemente XIII (antes cardeal Carlo Rezzonico) a perseguir os jesuítas, que o governo de Portugal acusava de terem participado na conspiração de lesa majestade, conducente ao atentado de 3 de Setembro de 1758, contra Dom José I. Gama permanecia em Florença, já depois da partida (anterior à chegada de Casanova) do embaixador Almada que, aliás, anos mais tarde (de Agosto de 1769 a Fevereiro de 1779), voltaria a exercer em Roma as mesmas funções. Gama da Silveira, que deixara as suas funções na embaixada de Espanha em 1760, para ficar ao serviço de Portugal (embora fosse, desde 1735, cidadão romano), também estaria com Almada e Mendonça novamente em Roma a partir de 1770. Escreve o veneziano: Passara do serviço de Espanha para o de Portugal e, sendo secretário de embaixada do comendador Almada, tivera de deixar Roma, por causa do papa Rezzonico não querer permitir que S. M. Fidelíssima castigasse os jesuítas que, apesar de só lhe terem partido um braço, tinham tido intenção de matar. Gama andava errante pela Itália, correspondendo-se com Almada e o famoso Carvalho [Sebastião José], esperando o fim da querela para regressar a Roma. Era tudo, mas o padre levou uma hora a contá-lo, para me obrigar a dar-lhe desforra com a narrativa das minhas aventuras. Ambos exercemos o nosso talento: o padre alongando a sua história, e eu abreviando a minha, sem deixar de ter o gozo de castigar a curiosidade dele. Perguntou-me, a talho de fouce, o que ia fazer a Roma, e respondi-lhe que iria apresentar-me ao papa e suplicar-lhe que pedisse o meu indulto aos inquisidores do Estado. Tal não era verdade. Mas se lha tivesse dito, isto é, que ia lá para me divertir, ele não teria acreditado. Quem disser a verdade a um incrédulo, prostitui-a: é um assassínio. O padre pediu-me, por gosto, que alimentasse com ele um comércio epistolar, e eu prometi-lhe que sim. Disse-me então que podia dar-me um sinal da sua amizade, apresentando-me ao marquês Bota Adorno, governador da Toscana, e de quem se dizia que era amigo de Francisco I, imperador reinante; respondi-lhe que seria uma honra para mim. Promessa cumprida, Gama terá vários outros encontros com Casanova, com quem aliás irá, pelo menos duas vezes, visitar Bota Adorno. Mais adiante, conta: o padre Gama, à mesa, falando-me de política, perguntou-me se eu queria encarregar-me duma diligência da corte de Portugal no congresso que se reuniria, como toda a Europa pensava, na cidade de Augsburgo. Assegurou-me de que, desempenhando com prudência a diligência de que queria encarregar-me, eu poderia estar certo de que, indo depois a Lisboa, obteria na corte tudo o que pudesse ambicionar. Respondi-lhe que estaria pronto para empreender tudo aquilo de que ele me julgasse capaz: apenas teria de me escrever, e eu cuidaria de lhe dar sempre o meu endereço. Foi nesse momento que me veio o desejo mais forte de um dia ser ministro. O Congresso de Augsburgo, pensado para pôr fim à Guerra dos Sete Anos, não se realizou, porque o primeiro ministro britânico, Pitt, descobriu entretanto que se desenhara um acordo secreto da França com a Espanha, para que esta entrasse na guerra. Portugal não era um dos beligerantes mas, sendo o Reino Unido o seu parceiro comercial principal, tinha todo o interesse em ser observador do Congresso. Novo encontro em Roma, em 1770, quatro anos antes da morte de Gama, então morador na piazza di Spagna, num 3º andar na esquina da via della Croce: Encontrei o padre Gama em Chiaggia, muito envelhecido, mas de boa saúde e sempre alegre. Depois de conversarmos meia hora sobre as nossas recíprocas aventuras, disse-me que todos os diferendos entre a Santa Sé e a corte de Lisboa tinham acabado, pela bravura do papa Ganganelli [Clemente XIV]. As referências seguintes ao bom padre Gama da Silveira circunscrevem-se ao trato social, em que o velhote português o traz de volta a namoros antigos... E a oportunidades de recauchutar finanças! Curioso século XVIII, o do Iluminismo, em que as relações pessoais, quando eram boas e bem cultivadas, socorriam, acolhiam, protegiam, promoviam, prestigiavam... Eu diria mesmo, Princesa, em francês, que la franc-maçonnerie, ça fait três dix-huitième, não achas? Em próxima carta te contarei a misteriosa história da portuguesa Pauline, segundo Casanova...

 

                                               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira