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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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A Casa da Moeda de Jorge Segurado.

 

A Casa da Moeda (1933-41) é um conjunto edificado, da autoria de Jorge Segurado (1898-1990), que ocupa todo o quarteirão nas Avenidas Novas delimitado pelas Avenidas João Crisóstomo, António José de Almeida, Filipa de Vilhena (antiga R. D. Estefânia) e Defensores de Chaves.

Ainda que pensada inicialmente para o terreno do atual Instituto Nacional de Estatística, necessidades evocadas racionais justificaram a mudança para o quarteirão de configuração mais regular (convenientemente retangular). Segurado pensou o edifício da Casa da Moeda de modo a que os seus lados maiores enfrentassem as vias públicas e que o seu eixo maior seguisse a orientação norte-sul. O lote deveria então adaptar-se de modo racional a um programa misto de oficinas e administração.

A obra é única e invulgar no contexto do primeiro modernismo português – tendo em vista que em finais dos anos 30, do séc. XX, dominava já o ‘sentido português’ das construções requeridas pelo Estado, onde se revestiam os edifícios com memória rústica (raízes do povo) e joanina (raízes do poder, do império). De assinalar que Jorge Segurado faz a ponte para a segunda geração de modernos com os blocos de habitação do Montepio Geral, à Av. do Brasil – o que prova que Segurado adere a um vocabulário de vanguarda, não de maneira meramente epidérmica.

A Casa da Moeda consegue demonstrar, através de uma assinalável qualidade de construção, um evoluir sobre as primeiras experiências de despojamento volumétrico de Carlos Ramos, Cristino da Silva e Pardal Monteiro, afastando-se do dogmatismo do Movimento Moderno, de estilo internacional.

A obra é singular ao aproximar-se de experiências europeias desenvolvidas em contextos não radicais e mais periféricos, adquiridas por Segurado em viagens. Assiste-se a um momento de mudança e de renovação, com referências a outros quadrantes culturais que não terão seguimento. É de assinalar a influência do holandês Willem Dudok (1884-1974) e da Escola de Amesterdão. Jorge Segurado, na Casa da Moeda, evoca Dudok ao enfatizar a identidade do edifício através da horizontalidade das linhas e ao recorrer ao efeito assimétrico dos conjuntos cúbicos. A herança da Escola de Amesterdão ao estabelecer uma rigorosa intensificação da expressão individual, traz à Casa da Moeda o uso de elementos singulares (como o chanfro e a escultura) e a tradição da construção em tijolo.

A obra é, também, única ao concretizar um programa misto e complexo – edifício da administração, com escritórios e edifício do fabrico de moedas, com oficinas.

É intencional pôr em prática o paradigma da necessidade do edifício responder exteriormente à funcionalidade interior, tratando de banir toda a ornamentação supérflua. Segurado afirma uma arquitetura criada de dentro para fora – os alçados harmonizam-se de acordo com a distribuição lógica das plantas. O carácter industrial do edifício acentuou ainda mais o pragmatismo formal: porque primeiramente são satisfeitas as necessidades internas.

Os dois edifícios (administração e fabrico) são ligados por duas passerelles elevadas e distinguem-se pela utilização diversa de formas, materiais e proporções. O corpo administrativo apresenta intencionalmente um carácter de representação – pela monumentalidade, pela escala horizontal dos vãos generosamente guarnecidos, pelo imponente desenho da escadaria que marca a entrada principal. Configura o topo norte, ligando-se ao conjunto em U das oficinas através de duas passagens elevadas sobre pilotis. O corpo das oficinas é por natureza mais utilitário. Embora o carácter industrial das oficinas permitisse uma modernidade radical como se de uma máquina se tratasse – desenham-se grandes panos de parede, impõe-se uma proporção larga das janelas e uma lisura na composição – é aqui que se transcendem os paradigmas do movimento moderno através de elementos de identificação e caracterização individual que tornam o edifício único – o tijolo, os panos verticais marcados, o chanfro, a escultura e o relógio. Em chanfro, a entrada dos operários possui maior novidade, radicalismo, liberdade e expressão. Reveste-se de tijolo vidrado verde-escuro, sobre a porta um baixo-relevo de Francisco Franco e um relógio. O uso dos tijolos esmaltados de verde nos panos verticais entre pilares traz a singularidade, pela introdução de uma nova expressividade distinta do objetivismo da Bauhaus.

Assim, com a Casa da Moeda, Segurado abriu novos caminhos para o entendimento do Movimento Moderno sobretudo com a concretização das primeiras alternativas de interpretação do vocabulário puro e duro que os arquitetos da sua geração propunham e difundiam.

Ana Ruepp