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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Quantas vezes terei escutado a canção à lua da Rusalka de Dvorak? Não sei, sei só que a reconheço sempre e já te falei (quantas vezes?) dela... Hoje, deito a alma a outras canções do checo, sobretudo a uma, que abre uma selecção da Bernarda Fink: o primeiro dos cantos de amor, com letra de Gustav Pfegler-Moravsky e melodia do mesmo Antonin Dvorak. Chora assim:

 

          Ai! não tem o nosso amor

          a tão esperada alegria...

          E se a tivesse, se a tivesse,

          pouco tempo duraria...

          Porque há de correr, dorida,

          uma lágrima sobre beijos

          ardentes, cheios de vida?

          Porque me abraça a tua angústia

          tão cheia de amor já triste,

          choroso do adeus, pois me dizes

          que a esperança não existe?

          Tremendo, sabe meu coração

          que recebe extrema unção...

 

   É libérrima a minha tradução. Aliás, não conheço a língua checa. E, afinal, para ser mesmo sincero contigo, escrevia-a imaginando o sentimento de Giacomo Girolamo Casanova, quando se separou, para sempre, da misteriosa portuguesa Pauline. Ninguém poderá garantir que ela existiu, todos poderão jurar que não se chamava Pauline. Dizem-me que o Alfredo Magalhães Ramalho, dos serões da Veva de Lima, apenas sugere que, podendo então ter estado em Londres e portuguesa de alta nobreza, só a 5ª marquesa de Minas, Dona Maria Francisca de Sousa... Mas vem ver comigo como o Casanova conta a história, com que delicadeza o faz, cheio de um misterioso respeito, bem próximo dum amor que o vence e é comovente, inesquecível. Todavia, é soez o começo da narrativa:

   Os prazeres que lá [nos Vauxhall Gardens] podíamos encontrar eram grandes. Boa comida, música, passeios pelas alamedas sombrias onde encontrávamos bacantes, e passeios pelas alamedas com lanternas, onde se viam, à mistura, as mais famosas belezas de Londres, do mais alto ao mais baixo nível. No meio de tantos prazeres, aborrecia-me porque não tinha uma boa amiga na cama, nem à mesa, e já estava em Londres havia cinco semanas. A minha casa estava feita de forma a que lá pudesse ter uma amante com toda a decência...   ...Mas como encontrar em Londres essa rapariga feita para mim e parecida no carácter a alguma daquelas que eu tanto tinha amado? Já tinha visto em Londres cinquenta raparigas que toda a gente achava bonitas, e não tinha encontrado nenhuma que me tivesse inteiramente persuadido. Pensava continuamente nisso. Veio-me uma ideia bizarra e agarrei-me a ela.

    Vai daí, o nosso Casanova (o histórico), afixa à porta de casa um escrito que rezava assim: Segundo ou terceiro andar, apartamento mobilado, para alugar barato a jovem menina, só e livre, que fale inglês e francês, e não receba qualquer visita, nem de dia, nem de noite. Tal anúncio fez rir muita gente, até foi simpaticamente gozado no St. James´ Chronicle  --  assim, pelo menos o pretendeu o veneziano, que não falava inglês, e deve ter-se enganado... Também acorreram muitas interessadas, nenhuma a gosto dele: vi velhas que se diziam jovens, malandrecas, rameiras, impertinentes... Mas eis o "coup de foudre"! Até que, finalmente, vi surgir à minha frente, estando eu à mesa, uma rapariga de vinte e dois a vinte e quatro anos, alta, vestida sem luxo mas com limpeza, de nobre fisionomia, e séria, bela de todos os pontos de vista, com cabelos negros e tez pálida. Faz-me, ao entrar, uma humilde reverência, que me obriga a levantar-me. Pede-me que fique à mesa e, para me obrigar a ficar, aceita sentar-se. Ofereço-lhe compotas, porque ela já me tinha impressionado, e tudo recusa, modestamente. Diz-me, não em francês, como começara, mas no mais puro italiano que se possa falar, e sem qualquer sotaque estrangeiro, que alugaria um quarto no terceiro... [ou seja: no andar menos nobre]. 

   Passo por cima de pormenores de arranjos e acordos relativos à instalação e serviços a prestar, para referir apenas que a hóspede se comprometeu a sair somente para ir à missa em dias de festa, ao que, rendido, Casanova retorquiu que ela era senhora de decidir quando sairia, sem ter de dar satisfações a ninguém. Depois de pedir que ninguém fosse autorizado a visitá-la, nem revelada a sua presença ali, pagou a renda, e saiu para ir buscar a mala, dizendo à porteira que deveria ser tratada por Mistriss Pauline. O comentário de Casanova é curioso: Muito satisfeito com este achado, sinto-me contente. Não tinha necessidade de mulher para satisfazer o meu temperamento, mas, sim, de amar e de reconhecer, no objecto que me interessava, muito mérito, quer quanto à beleza, quer quanto às qualidades da alma. E o meu amor nascente ganhava forças à medida que previa que a conquista me custaria cuidados. Punha a possibilidade do fracasso na linha dos impossíveis: sabia que não há mulher no mundo que possa resistir aos cuidados assíduos e a todas as atenções de um homem que queira torná-la enamorada. E, na verdade, Casanova não se furtará a cuidados com o conforto da sua inquilina. Até que lhe pede uma audiência, e ela responde que é ele o dono da casa. Quando então a visita, observa o bom gosto com que se instalou, os livros  que a rodeiam. Lisonjeia-o a gentileza com que lhe agradece os cuidados prestados. Quando ela lhe retribui a visita, jogam xadrez e ela vence-o, ri-se, encantada, e fica para jantar. Sucedem-se episódios em que os crescentes ardores de Casanova ainda não conseguem um beijo, nem sequer uma mão dada. Até que, sentado ao pé dela, lhe prendi uma mão, colando nela os meus lábios, e perguntando-lhe se era casada. Diz-me que sim. Conheceis vós, pergunto, o amor materno?    -- Não, mas imagino bem o que seja. Tenho um marido, que ainda se não deitou comigo.  -- Está em Londres?  -- Não, está bem longe daqui. Peço-vos que não falemos disso.  -- Dizei-me apenas se, quando vos perder, será para irdes ter com ele

-- Sim. Asseguro-vos de que, se não me despedirdes, sairei de vossa casa para sair de Inglaterra, e só sairei desta ilha feliz para ser eu mesma feliz na minha pátria com o marido que escolhi para mim. Continuo, já de seguida, a tradução desta conversa, tal como ela é relatada ou imaginada pelo aventureiro veneziano, pois me parece que, apesar de ser longa a transcrição, ela revela muito da pessoa de Casanova, do seu poder de insinuação, como da vaidade narcísica do galã que pretende transformar em amadora a pessoa amada. Mas diz também algo da natureza especial que ele atribui ao seu amor de (com) Pauline:

   -- Minha encantadora Pauline, por cá ficarei infeliz, porque vos amo, e receio desagradar-vos se vos fizer muito ternas demonstrações.  -- Infelizmente, peço-vos que vos domineis, pois não sou senhora de mim, nem para me entregar ao amor, nem para lhe resistir se não me poupardes.  -- Obedecer-vos-ei, mas desfalecerei. Como posso ser infeliz, tendo a felicidade de vos agradar?  -- Tenho deveres, meu querido amigo, que não posso contornar sem me sentir desprezível.  -- Julgar-me-ia o mais traiçoeiro, o mais horrível de todos os homens, o mais indigno de ser amado por uma mulher digna de o ser, se pudesse diminuí-la na minha estima por ela fazer a minha felicidade cedendo a uma inclinação que eu mesmo lhe tivesse inspirado.

-- Pois bem: também não vos julgo capaz disso. Mas moderemo-nos, pensando que talvez nos vejamos obrigados a separar-nos amanhã. Confessai que a nossa separação seria bastante mais dolorosa. Se não estiverdes de acordo, é sinal de que o vosso amor não é da natureza do meu.  -- De que natureza é então o amor que tive a felicidade de vos inspirar?  -- É tal que o prazer só me parece acessório.  -- O que é então essencial?  -- Viver juntos, no mais perfeito acordo.  -- Essa é uma felicidade que tenho e vós possuís. Ambos a usufruímos de manhã à noite. Porque não poderemos ser também indulgentes com o acessório, que só nos ocupará alguns momentos, que trará às nossas almas enamoradas a paz e a tranquilidade que nos são necessárias? Confessai também que esse acessório serve de alimento à feliz consistência do principal.  -- Concordo, mas concordai também em que esse alimento é, o mais das vezes, mortal.  -- Não podemos acreditar que seja, quando se ama muito. Podereis vós crer que, tendo-me terno e amoroso nos vossos braços, me amaríeis menos depois?  -- Não, não creio: e é precisamente por isso que receio tornar o momento da separação em desespero para mim.  -- Tenho de ceder à vossa poderosa dialéctica, minha encantadora Pauline. Tenho vontade de ver com que alimentais o vosso espírito sublime. Desejo examinar os vossos livros. Vamos até lá acima?  -- Com muito gosto. Mas ficareis surpreendido.  -- Como assim?  -- Vamos lá.

   É então que Casanova descobre a biblioteca breve de Pauline. Todos os livros estão escritos em português, com excepção do Milton inglês, do Ariosto italiano e de Les Caracteres de La Bruyère francês. E confessa: -- Tudo isto, minha querida Pauline, me dá uma ideia muito abonatória de vós. Mas porquê essa preferência por Camões e todos os demais Portugueses?  -- Porque sou portuguesa!  -- Portuguesa? Pensei que fosseis italiana. Na vossa idade, sabeis cinco línguas, pois também deveis falar espanhol.  -- Claro que sim. Pauline diz-lhe então que uns manuscritos ali postos  --  que Casanova, curioso, quer saber de quem são  --  foram por ela mesma escritos e contam a sua história. Lá iremos, Princesa de mim, mas em próxima carta.

                                                       Camilo Maria 

            

Camilo Martins de Oliveira