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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um aroma da poesia indiana

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Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo e Outros Poemas Eróticos da Índia Antiga, introduções e versões de Jorge Sousa Braga numa cuidada e ilustrada edição da Assírio & Alvim

Do pouco que sabemos da tradição literária indiana e muito principalmente a poética que é essencialmente oral, leva a que, por essa razão, muitos dos seus autores sejam desconhecidos, o que implica um difícil fio condutor na história da literatura indiana. Muitos conhecem Tagore, o primeiro escritor indiano a receber em 1913 o Prémio Nobel da Literatura. Mas, a poesia de Bilhana que aqui nos compete referir sediou-se no sec. XI e não tem sido fácil segui-la.

Foi esta poesia escrita em sânscrito que significa «refinado» e era então a língua usada por brâmanes e pelos poetas. Citando Jorge Sousa Braga, o escritor Octavio Paz, descreve este a poesia sânscrita como uma poesia que evoca a plasticidade das esculturas e através da qual, tal como corpos e as formas das esculturas se tocam, também aqui as palavras olham-se e tocam-se. De notar, que na Índia antiga, o acto sexual tinha um destaque de honra e o sexo não se opunha à espiritualidade. O kama Sutra e outros textos similares eram estudados por homens e mulheres. A experiência erótica surgia normalmente com o desabrochar do amor e prosseguia depois da sua consumação. Os próprios templos sempre ilustraram as mais diversas posições sexuais, as sugestões que se mostrassem mais sensíveis à obtenção do prazer físico.

Bilhana Kavi foi um poeta de Caxemira (sec XI) tendo como patrono o rei Vikramaditya VI. “Os cinquentas poemas do ladrão do amor” tornaram-no uma referência.

Reza a lenda que Bilhana terá sido contratado como preceptor de uma princesa tendo vivido com ela uma paixão arrebatadora. Quando descobertos Bilhana foi preso e condenado à morte por decapitação. Na prisão terá composto estes poemas, poemas de fervoroso amor-amante que recitava à medida que subia os 50 degraus que o levavam ao cadafalso. Sensibilizada com tanta beleza a deusa Kali intercedeu por ele e na mais feliz das versões, Bilhana não só recupera a liberdade como desposa a princesa. Todavia, a versão de Caxemira não especifica qual foi o destino de Bilhana.

Procurei saber se John Steinbeck tão amante da Índia e da sua literatura, teria feito alguma anotação à versão que chega à Europa, contudo não tenho informação que baste das várias traduções inglesas ou francesas que tiveram lugar entre, aproximadamente 1848 e 1919, das que se destaca muitíssimo a de Sir Edwin Arnold.

Diga-se que alguns poemas corroboram aspectos da lenda que acima referi, evidentes neste livro, “Os cinquenta poemas de amor furtivo” por exemplo, no nº 31 (“ Mesmo agora atormenta-me o espírito / Recordar como os soldados do rei / Semelhantes aos mensageiros da morte /Com braços terríveis me arrancaram do seu leito /E o que ela não fez para me defender”) ou no nº 27 (“Mesmo agora sabendo que a cada / Instante a morte se aproxima / O meu espírito abandona o culto dos deuses / E persegue a minha amada”).

E sendo o amor e o desejo o lago de lótus da paixão, eis ainda:

“Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
Essa corça de olhos assustados
Oferecendo-me os seios transbordando de néctar
Renunciaria à coroa real
Renunciaria mesmo ao paraíso celeste”

De facto, a leitura deste livro também nos leva ao confronto do quanto mal conhecemos o mundo e insistimos em dizer que ele nos decepciona. Na nossa cultura decepcionará que o cair de um vestido revele que o selo lacre possa estar no desejo e no cerne do amor em simultâneo? Poder-se-á entender o quanto se é planta por onde a seiva sobe a fim de que a possua o desejo que só o amor dos céus testemunha?

Talvez haja que estreitar a noite nos braços e reconhecer que ela também abre as flores e deixa afinal que o dia receba os agradecimentos.

Talvez, como sempre que compreendemos novos mundos, a grande monção do verdadeiramente vivo nos surge peregrino.

 

Teresa Bracinha Vieira
Janeiro 2016