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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Histoire de Ma Vie - Giacomo Casanova.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na Histoire de Ma Vie do Giacomo Casanova, a portuguesa Pauline começa assim o conto da sua vida: Sou a filha única do infeliz conde de X... que Carvailho Oeiras fez morrer na prisão depois do atentado contra a vida do rei, que foi atribuído aos jesuítas. Não sei se meu pai era culpado ou não, mas sei que o ministro tirano não ousou, nem levantar-lhe um processo, nem mandar confiscar-lhe os bens, de que sou senhora, mas de que nunca poderei usufruir se não voltar à pátria. [Abro parêntese, Princesa, só para te adiantar que este início de história pode cheirar mais a história inventada do que a narrativa verdadeira. Será que, depois de levado ao engano por alguma aventureira (que poderia ser ou pretender-se portuguesa) o conquistador Casanova pintou um quadro que mais favoravelmente o colocasse noutra dramaturgia? ou estará, por detrás, uma história verdadeira, amor diferente, desilusão e saudade?] Seja como for, este conto desenvolve-se num contexto histórico conhecido e alimenta-se de episódios que, mesmo se imaginários, encontram exemplos na realidade do tempo. Segundo o veneziano, Pauline relata que minha mãe me mandou educar num convento sob a direcção de sua irmã, que dele era abadessa e me deu toda a espécie de mestres, entre outros um italiano natural de Livorno, homem sábio que em seis anos me ensinou tudo o que acreditava estar autorizado a ensinar-me. Só o achei avaro a satisfazer as minhas perguntas quando elas tinham a ver com a religião, mas eu percebia a sua reserva. A sua prudência, bem longe de me desagradar, posso assegurar-vos de que me fazia gostar mais dele, pois me permitia, e até me fornecia matéria para pensar.

   Resumindo, muito embora Pauline se comprazesse no convento, na companhia da tia, e donde só gostaria de sair quando se apresentasse uma oportunidade de casamento, o avô tirou-a de lá, pô-la em casa da cunhada marquesa de X, que lhe cedeu metade do palácio e lhe arranjou uma governanta para mandar em criadagem que a servisse. Estava essa aia presente quando, um ano mais tarde, o avô anunciou a Pauline que o conde de F lhe pedira a mão dela para o filho, que nesse mesmo dia regressava de Madrid, e que tal casamento recebera a aprovação de toda a nobreza, bem como do próprio rei e de toda a família real. A prometida donzela protestou dizendo que nunca se casaria com um homem cujo carácter não pudesse avaliar primeiro, e foi queixar-se à tia abadessa que, conta ela, segundo Casanova, me disse que era desejável que o conde me agradasse e eu a ele, mas, mesmo que não gostássemos um do outro, lhe parecia que o casamento se faria, pois ela julgava saber que o projecto vinha da Senhora Princesa do Brasil [a futura rainha Dona Maria I] que protegia o conde F. Assim prevenida, voltei para casa, determinada a nunca dar o meu consentimento a qualquer casamento em que não encontrasse todas as minhas conveniências.

   Quando, finalmente, o conde pretendente lhe é apresentado pelo avô, na presença de damas e cavalheiros, Pauline considera-o um chacoteador presunçoso, estúpido e devoto até à superstição, feio e mal feito e, apesar disso, tolo ao ponto de não ter tido vergonha de debitar à assembleia, com ar desdenhoso, várias boas fortunas galantes que tinha tido em Paris e na Itália. Volta a visitar a tia abadessa, que também o tinha achado insuportável, mas receava que haveria jeito de a obrigar. Sem apoiantes que lhe valessem, a menina fecha-se e decide comunicar, em breve carta, todo o meu caso ao impiedoso Oeiras, carrasco de meu pai, pedindo-lhe protecção. O comentário que Casanova põe na boca de Pauline é evidentemente o como ele mesmo calcula: Sem supor ao ministro um coração humano, pensei poder penetrar o coração do homem. Contei com o seu orgulho: senti-me segura de que, fazendo-me justiça, ele acreditaria convencer-me de que não tinha sido injusto  para com meu pai. Não me enganei.

   E foi assim que Sebastião José lhe enviou um mensageiro para a tranquilizar e lhe garantir o seu apoio. E será esse jovem Mercúrio que lhe cairá no goto e ela voltará a ver e conversar e, finalmente, a visitará disfarçado de mulher que vende rendas, e lhe fará então a primeira transportada declaração de amor ardente. Tal ardil e tal acontecimento prenunciam  o próximo desenrolar do romance, quando o jovem conde de Al (assim é identificado o amante)  --  que continuava a visitar, travestido, a sua amada  --  recebe ordens do ministro para seguir para Londres e lá trabalhar com Aires Sá e Melo, encarregado de negócios de Portugal. É na sequência dessa imposição que o casal decide fugir para Inglaterra, trocando de género, isto é, desempenhando ela ( pretensa autora desse plano) o papel dele, fazendo ele passar-se por sua mulher. Acreditavam que uns diamantes que ela possuía lhes permitiriam viver em Londres, onde se casariam, até à maioridade que lhe facultaria o acesso à herança se seu pai. E pensavam que o conde de Oeiras não mais os perseguiria, depois de perceber que, afinal, fizera a fortuna do seu protegido. Será por força da troca de género, que outra ordem do ministro, obrigando o capitão do navio em que viajavam a desembarcar em Portugal a senhora do casal, determinará que fosse precisamente ela a poder seguir para Inglaterra, vestida de homem... Depois desta cena  --  digna de ópera bufa  --  passo em branco várias peripécias da chegada e primeira acomodação de Pauline em Londres, sem os diamantes --  que ficaram com a "senhora" forçada a abandonar o navio  --  e só com uma mala cheia de fatos de homem. Forçada a economizar o produto da venda a prestações do único anel que guardara, acabou por ir parar ao andar alugado por Casanova, a preço irrisório, não apenas por isso, mas também porque o anúncio de aluguer dizia que o senhor que dispunha da casa era um italiano que aparentemente não temia armadilhas; e, pelo meu lado, não receava a violência, no que me enganei, porque há dessas violências às quais é doce não resistir. Tendo sido educada por um Italiano, tive sempre grande inclinação pela vossa nação... [ "ganda" Casanova, Princesa, que põe a nobre portuguesa a proferir tal discurso!] Ao que ele mesmo assim responde:

   Eis ,Senhora, uma breve história que muito me interessou. Tendes um espírito de anjo, e, agora que sei que sois portuguesa, reconcilio-me com a vossa nação.  -- Não nos amáveis, então.  -- Punha-vos em causa, desde que soube que tínheis deixado morrer de miséria, há duzentos anos, o vosso Virgílio.  -- Camões, quereis vós dizer ; mas como podeis amá-lo tanto, sem entenderdes a nossa língua?  -- Li-o traduzido em versos heroicos latinos, tão belos que julguei estar a ler Virgílio.  -- Céus! Que me dizeis? Prometo neste momento ao próprio Deus que, sim, faço o voto de aprender latim.  -- Muito bem! Mas, por mim, irei viver e morrer em Portugal, se me prometerdes o vosso coração.  -- Tivesse eu dois! Desde que vos conheço que me amo menos: receio não passar de uma inconstante.  -- Fico contente por saber que me amais como se eu fosse vosso pai, mas permiti que o vosso pai aperte, por vezes, em seus braços, a própria filha! Sempre oportuno, atento e veemente o nosso Giacomo Casanova...
   Se, e como, o veneziano terá atingido o paroxismo da sua demanda amorosa é acto que deixo, em suspenso, para próxima carta. Terminarei agora esta, prosseguindo a confidência que, segundo Casanova, a nobre portuguesa lhe ia fazendo da sua vida. A ninguém, nem a mim mesmo, peço fé na história que o animado narrador conta, apenas espero que ela nos divirta  --  e te faça rir muito  --  com as suas peripécias próprias de uma intriga de comédia. Ao chegar a Londres, Pauline escreve uma carta à tia abadessa, relatando-lhe o travestimento e fuga dela e do seu namorado, o conde Al, infelizmente gorada para este, então reconduzido a Portugal, por ordem do ministro Sebastião José, vestido de mulher, e como sendo a sua própria identificado. Eis como será levado e entregue pelo braço secular ao convento e à guarda da sua abadessa que, todavia, já conhecedora, pela carta da sobrinha, dos disfarces e dos factos, fingiu nada entender e fechou a pretensa dama num quarto, e logo escreveu ao conde de Oeiras que, em consequência das suas ordens, tinha acolhido no convento uma menina que Sua Excelência dissera ser sobrinha dela ; mas que essa menina não sendo nem sobrinha nem menina, mas um rapaz vestido de rapariga, ela não poderia mantê-lo no seu convento. Pedia-lhe, pois, que o mandasse retirar dali o mais cedo possível. Entretanto, caridosamente cúmplice, vai falar com o conde Al ao quarto em que o encerrara à chave, contando-lhe da carta de Pauline e da sua ao ministro. O infeliz e arrojado rapaz cai-lhe aos pés, lavado em lágrimas, e entrega-lhe o estojo  --  que sempre trouxera consigo  --  onde guardava os diamantes da sua amada. Estes seriam, mais tarde, garantes de eventuais custos da estadia da menina em Londres e do seu tão desejado regresso a Portugal, quando uma carta do ministro a assegurasse de que, com a maioridade, já não teria de recear oposição ao seu casamento, e poderia, para esse efeito, voltar à Pátria, onde receberia também, por inteiro, os títulos e a fortuna, herança de seu pai. Não resisto, Princesa, à tentação de, alongando ainda a presente, te traduzir mais um trecho da Histoire de Ma Vie, servindo de aperitivo ao que vier contar-te, já que isto "continua no próximo número"... Por hoje, vejamos apenas como Sebastião José reagiu à carta da abadessa, de acordo com a narrativa que Casanova atribui a Pauline:

   Tendo recebido a carta já tarde, só no dia seguinte lhe pôde dar resposta, mas entendeu levar-lha ele mesmo, em pessoa. A abadessa convenceu-o da importância do segredo acerca desta história, pois que, tendo sido violada a clausura, seguir-se-ia a perda da sua honra. Deu a ler ao ministro a carta que recebera de mim, e disse-lhe que tinha recebido em depósito o estojo. Respondeu-lhe este que o devia guardar. Agradeceu-lhe a franqueza com que o pusera ao corrente de tudo, e pediu-lhe desculpa, rindo, de lhe ter mandado um bonito rapaz fazer-lhe companhia. Após alguns minutos de reflexão, disse-lhe que neste caso o segredo era da maior importância e, assim sendo, o mascarado devia, primeiro, sair do convento e ir com ele. A minha tia, só podendo ser dessa opinião, foi busca-lo, conduziu-o até à porta e fê-lo entrar no coche do ministro, que estava só, e o mandou sentar-se à sua direita. Ela não soube dizer-me o que foi feito dele, nem ninguém sabe. Lisboa inteira ardia de curiosidade, porque a história era pública, mas com uma circunstância que dava ao facto uma diferença essencial, que ela fez correr, e faria rir o conde de Oeiras. Dizia-se em Lisboa, e ainda hoje dizem, que o capitão da fragata me tinha entregue à minha tia, por ordem do ministro, mas que este, logo no dia seguinte, me tinha ido buscar e me detinha onde ninguém sabe. Consequentemente, toda a gente pensa que o conde Al está aqui, em Londres.

   Por sua conta e risco, Casanova escreve adiante que esta história poderá parecer um romance àqueles sobre os quais o carácter da verdade não tem qualquer poder. Apesar dos nomes disfarçados, várias pessoas notáveis de Lisboa sabem quem são os verdadeiros actores. Mas, sendo sábias, nunca as nomearão.

   Não sei dizer-te se essa história é realidade  --  ainda que disfarçada ou modificada a gosto  --  ou elaborada ficção. Ma... si non è vera è bene trovata! Deixo-te suspensa

                                                              Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira