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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Histoire de Ma Vie - Giacomo Casanova.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na Histoire de Ma Vie do Giacomo Casanova, a portuguesa Pauline começa assim o conto da sua vida: Sou a filha única do infeliz conde de X... que Carvailho Oeiras fez morrer na prisão depois do atentado contra a vida do rei, que foi atribuído aos jesuítas. Não sei se meu pai era culpado ou não, mas sei que o ministro tirano não ousou, nem levantar-lhe um processo, nem mandar confiscar-lhe os bens, de que sou senhora, mas de que nunca poderei usufruir se não voltar à pátria. [Abro parêntese, Princesa, só para te adiantar que este início de história pode cheirar mais a história inventada do que a narrativa verdadeira. Será que, depois de levado ao engano por alguma aventureira (que poderia ser ou pretender-se portuguesa) o conquistador Casanova pintou um quadro que mais favoravelmente o colocasse noutra dramaturgia? ou estará, por detrás, uma história verdadeira, amor diferente, desilusão e saudade?] Seja como for, este conto desenvolve-se num contexto histórico conhecido e alimenta-se de episódios que, mesmo se imaginários, encontram exemplos na realidade do tempo. Segundo o veneziano, Pauline relata que minha mãe me mandou educar num convento sob a direcção de sua irmã, que dele era abadessa e me deu toda a espécie de mestres, entre outros um italiano natural de Livorno, homem sábio que em seis anos me ensinou tudo o que acreditava estar autorizado a ensinar-me. Só o achei avaro a satisfazer as minhas perguntas quando elas tinham a ver com a religião, mas eu percebia a sua reserva. A sua prudência, bem longe de me desagradar, posso assegurar-vos de que me fazia gostar mais dele, pois me permitia, e até me fornecia matéria para pensar.

   Resumindo, muito embora Pauline se comprazesse no convento, na companhia da tia, e donde só gostaria de sair quando se apresentasse uma oportunidade de casamento, o avô tirou-a de lá, pô-la em casa da cunhada marquesa de X, que lhe cedeu metade do palácio e lhe arranjou uma governanta para mandar em criadagem que a servisse. Estava essa aia presente quando, um ano mais tarde, o avô anunciou a Pauline que o conde de F lhe pedira a mão dela para o filho, que nesse mesmo dia regressava de Madrid, e que tal casamento recebera a aprovação de toda a nobreza, bem como do próprio rei e de toda a família real. A prometida donzela protestou dizendo que nunca se casaria com um homem cujo carácter não pudesse avaliar primeiro, e foi queixar-se à tia abadessa que, conta ela, segundo Casanova, me disse que era desejável que o conde me agradasse e eu a ele, mas, mesmo que não gostássemos um do outro, lhe parecia que o casamento se faria, pois ela julgava saber que o projecto vinha da Senhora Princesa do Brasil [a futura rainha Dona Maria I] que protegia o conde F. Assim prevenida, voltei para casa, determinada a nunca dar o meu consentimento a qualquer casamento em que não encontrasse todas as minhas conveniências.

   Quando, finalmente, o conde pretendente lhe é apresentado pelo avô, na presença de damas e cavalheiros, Pauline considera-o um chacoteador presunçoso, estúpido e devoto até à superstição, feio e mal feito e, apesar disso, tolo ao ponto de não ter tido vergonha de debitar à assembleia, com ar desdenhoso, várias boas fortunas galantes que tinha tido em Paris e na Itália. Volta a visitar a tia abadessa, que também o tinha achado insuportável, mas receava que haveria jeito de a obrigar. Sem apoiantes que lhe valessem, a menina fecha-se e decide comunicar, em breve carta, todo o meu caso ao impiedoso Oeiras, carrasco de meu pai, pedindo-lhe protecção. O comentário que Casanova põe na boca de Pauline é evidentemente o como ele mesmo calcula: Sem supor ao ministro um coração humano, pensei poder penetrar o coração do homem. Contei com o seu orgulho: senti-me segura de que, fazendo-me justiça, ele acreditaria convencer-me de que não tinha sido injusto  para com meu pai. Não me enganei.

   E foi assim que Sebastião José lhe enviou um mensageiro para a tranquilizar e lhe garantir o seu apoio. E será esse jovem Mercúrio que lhe cairá no goto e ela voltará a ver e conversar e, finalmente, a visitará disfarçado de mulher que vende rendas, e lhe fará então a primeira transportada declaração de amor ardente. Tal ardil e tal acontecimento prenunciam  o próximo desenrolar do romance, quando o jovem conde de Al (assim é identificado o amante)  --  que continuava a visitar, travestido, a sua amada  --  recebe ordens do ministro para seguir para Londres e lá trabalhar com Aires Sá e Melo, encarregado de negócios de Portugal. É na sequência dessa imposição que o casal decide fugir para Inglaterra, trocando de género, isto é, desempenhando ela ( pretensa autora desse plano) o papel dele, fazendo ele passar-se por sua mulher. Acreditavam que uns diamantes que ela possuía lhes permitiriam viver em Londres, onde se casariam, até à maioridade que lhe facultaria o acesso à herança se seu pai. E pensavam que o conde de Oeiras não mais os perseguiria, depois de perceber que, afinal, fizera a fortuna do seu protegido. Será por força da troca de género, que outra ordem do ministro, obrigando o capitão do navio em que viajavam a desembarcar em Portugal a senhora do casal, determinará que fosse precisamente ela a poder seguir para Inglaterra, vestida de homem... Depois desta cena  --  digna de ópera bufa  --  passo em branco várias peripécias da chegada e primeira acomodação de Pauline em Londres, sem os diamantes --  que ficaram com a "senhora" forçada a abandonar o navio  --  e só com uma mala cheia de fatos de homem. Forçada a economizar o produto da venda a prestações do único anel que guardara, acabou por ir parar ao andar alugado por Casanova, a preço irrisório, não apenas por isso, mas também porque o anúncio de aluguer dizia que o senhor que dispunha da casa era um italiano que aparentemente não temia armadilhas; e, pelo meu lado, não receava a violência, no que me enganei, porque há dessas violências às quais é doce não resistir. Tendo sido educada por um Italiano, tive sempre grande inclinação pela vossa nação... [ "ganda" Casanova, Princesa, que põe a nobre portuguesa a proferir tal discurso!] Ao que ele mesmo assim responde:

   Eis ,Senhora, uma breve história que muito me interessou. Tendes um espírito de anjo, e, agora que sei que sois portuguesa, reconcilio-me com a vossa nação.  -- Não nos amáveis, então.  -- Punha-vos em causa, desde que soube que tínheis deixado morrer de miséria, há duzentos anos, o vosso Virgílio.  -- Camões, quereis vós dizer ; mas como podeis amá-lo tanto, sem entenderdes a nossa língua?  -- Li-o traduzido em versos heroicos latinos, tão belos que julguei estar a ler Virgílio.  -- Céus! Que me dizeis? Prometo neste momento ao próprio Deus que, sim, faço o voto de aprender latim.  -- Muito bem! Mas, por mim, irei viver e morrer em Portugal, se me prometerdes o vosso coração.  -- Tivesse eu dois! Desde que vos conheço que me amo menos: receio não passar de uma inconstante.  -- Fico contente por saber que me amais como se eu fosse vosso pai, mas permiti que o vosso pai aperte, por vezes, em seus braços, a própria filha! Sempre oportuno, atento e veemente o nosso Giacomo Casanova...
   Se, e como, o veneziano terá atingido o paroxismo da sua demanda amorosa é acto que deixo, em suspenso, para próxima carta. Terminarei agora esta, prosseguindo a confidência que, segundo Casanova, a nobre portuguesa lhe ia fazendo da sua vida. A ninguém, nem a mim mesmo, peço fé na história que o animado narrador conta, apenas espero que ela nos divirta  --  e te faça rir muito  --  com as suas peripécias próprias de uma intriga de comédia. Ao chegar a Londres, Pauline escreve uma carta à tia abadessa, relatando-lhe o travestimento e fuga dela e do seu namorado, o conde Al, infelizmente gorada para este, então reconduzido a Portugal, por ordem do ministro Sebastião José, vestido de mulher, e como sendo a sua própria identificado. Eis como será levado e entregue pelo braço secular ao convento e à guarda da sua abadessa que, todavia, já conhecedora, pela carta da sobrinha, dos disfarces e dos factos, fingiu nada entender e fechou a pretensa dama num quarto, e logo escreveu ao conde de Oeiras que, em consequência das suas ordens, tinha acolhido no convento uma menina que Sua Excelência dissera ser sobrinha dela ; mas que essa menina não sendo nem sobrinha nem menina, mas um rapaz vestido de rapariga, ela não poderia mantê-lo no seu convento. Pedia-lhe, pois, que o mandasse retirar dali o mais cedo possível. Entretanto, caridosamente cúmplice, vai falar com o conde Al ao quarto em que o encerrara à chave, contando-lhe da carta de Pauline e da sua ao ministro. O infeliz e arrojado rapaz cai-lhe aos pés, lavado em lágrimas, e entrega-lhe o estojo  --  que sempre trouxera consigo  --  onde guardava os diamantes da sua amada. Estes seriam, mais tarde, garantes de eventuais custos da estadia da menina em Londres e do seu tão desejado regresso a Portugal, quando uma carta do ministro a assegurasse de que, com a maioridade, já não teria de recear oposição ao seu casamento, e poderia, para esse efeito, voltar à Pátria, onde receberia também, por inteiro, os títulos e a fortuna, herança de seu pai. Não resisto, Princesa, à tentação de, alongando ainda a presente, te traduzir mais um trecho da Histoire de Ma Vie, servindo de aperitivo ao que vier contar-te, já que isto "continua no próximo número"... Por hoje, vejamos apenas como Sebastião José reagiu à carta da abadessa, de acordo com a narrativa que Casanova atribui a Pauline:

   Tendo recebido a carta já tarde, só no dia seguinte lhe pôde dar resposta, mas entendeu levar-lha ele mesmo, em pessoa. A abadessa convenceu-o da importância do segredo acerca desta história, pois que, tendo sido violada a clausura, seguir-se-ia a perda da sua honra. Deu a ler ao ministro a carta que recebera de mim, e disse-lhe que tinha recebido em depósito o estojo. Respondeu-lhe este que o devia guardar. Agradeceu-lhe a franqueza com que o pusera ao corrente de tudo, e pediu-lhe desculpa, rindo, de lhe ter mandado um bonito rapaz fazer-lhe companhia. Após alguns minutos de reflexão, disse-lhe que neste caso o segredo era da maior importância e, assim sendo, o mascarado devia, primeiro, sair do convento e ir com ele. A minha tia, só podendo ser dessa opinião, foi busca-lo, conduziu-o até à porta e fê-lo entrar no coche do ministro, que estava só, e o mandou sentar-se à sua direita. Ela não soube dizer-me o que foi feito dele, nem ninguém sabe. Lisboa inteira ardia de curiosidade, porque a história era pública, mas com uma circunstância que dava ao facto uma diferença essencial, que ela fez correr, e faria rir o conde de Oeiras. Dizia-se em Lisboa, e ainda hoje dizem, que o capitão da fragata me tinha entregue à minha tia, por ordem do ministro, mas que este, logo no dia seguinte, me tinha ido buscar e me detinha onde ninguém sabe. Consequentemente, toda a gente pensa que o conde Al está aqui, em Londres.

   Por sua conta e risco, Casanova escreve adiante que esta história poderá parecer um romance àqueles sobre os quais o carácter da verdade não tem qualquer poder. Apesar dos nomes disfarçados, várias pessoas notáveis de Lisboa sabem quem são os verdadeiros actores. Mas, sendo sábias, nunca as nomearão.

   Não sei dizer-te se essa história é realidade  --  ainda que disfarçada ou modificada a gosto  --  ou elaborada ficção. Ma... si non è vera è bene trovata! Deixo-te suspensa

                                                              Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira

Um aroma da poesia indiana

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Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo e Outros Poemas Eróticos da Índia Antiga, introduções e versões de Jorge Sousa Braga numa cuidada e ilustrada edição da Assírio & Alvim

Do pouco que sabemos da tradição literária indiana e muito principalmente a poética que é essencialmente oral, leva a que, por essa razão, muitos dos seus autores sejam desconhecidos, o que implica um difícil fio condutor na história da literatura indiana. Muitos conhecem Tagore, o primeiro escritor indiano a receber em 1913 o Prémio Nobel da Literatura. Mas, a poesia de Bilhana que aqui nos compete referir sediou-se no sec. XI e não tem sido fácil segui-la.

Foi esta poesia escrita em sânscrito que significa «refinado» e era então a língua usada por brâmanes e pelos poetas. Citando Jorge Sousa Braga, o escritor Octavio Paz, descreve este a poesia sânscrita como uma poesia que evoca a plasticidade das esculturas e através da qual, tal como corpos e as formas das esculturas se tocam, também aqui as palavras olham-se e tocam-se. De notar, que na Índia antiga, o acto sexual tinha um destaque de honra e o sexo não se opunha à espiritualidade. O kama Sutra e outros textos similares eram estudados por homens e mulheres. A experiência erótica surgia normalmente com o desabrochar do amor e prosseguia depois da sua consumação. Os próprios templos sempre ilustraram as mais diversas posições sexuais, as sugestões que se mostrassem mais sensíveis à obtenção do prazer físico.

Bilhana Kavi foi um poeta de Caxemira (sec XI) tendo como patrono o rei Vikramaditya VI. “Os cinquentas poemas do ladrão do amor” tornaram-no uma referência.

Reza a lenda que Bilhana terá sido contratado como preceptor de uma princesa tendo vivido com ela uma paixão arrebatadora. Quando descobertos Bilhana foi preso e condenado à morte por decapitação. Na prisão terá composto estes poemas, poemas de fervoroso amor-amante que recitava à medida que subia os 50 degraus que o levavam ao cadafalso. Sensibilizada com tanta beleza a deusa Kali intercedeu por ele e na mais feliz das versões, Bilhana não só recupera a liberdade como desposa a princesa. Todavia, a versão de Caxemira não especifica qual foi o destino de Bilhana.

Procurei saber se John Steinbeck tão amante da Índia e da sua literatura, teria feito alguma anotação à versão que chega à Europa, contudo não tenho informação que baste das várias traduções inglesas ou francesas que tiveram lugar entre, aproximadamente 1848 e 1919, das que se destaca muitíssimo a de Sir Edwin Arnold.

Diga-se que alguns poemas corroboram aspectos da lenda que acima referi, evidentes neste livro, “Os cinquenta poemas de amor furtivo” por exemplo, no nº 31 (“ Mesmo agora atormenta-me o espírito / Recordar como os soldados do rei / Semelhantes aos mensageiros da morte /Com braços terríveis me arrancaram do seu leito /E o que ela não fez para me defender”) ou no nº 27 (“Mesmo agora sabendo que a cada / Instante a morte se aproxima / O meu espírito abandona o culto dos deuses / E persegue a minha amada”).

E sendo o amor e o desejo o lago de lótus da paixão, eis ainda:

“Mesmo agora se uma vez mais pudesse ver
Essa corça de olhos assustados
Oferecendo-me os seios transbordando de néctar
Renunciaria à coroa real
Renunciaria mesmo ao paraíso celeste”

De facto, a leitura deste livro também nos leva ao confronto do quanto mal conhecemos o mundo e insistimos em dizer que ele nos decepciona. Na nossa cultura decepcionará que o cair de um vestido revele que o selo lacre possa estar no desejo e no cerne do amor em simultâneo? Poder-se-á entender o quanto se é planta por onde a seiva sobe a fim de que a possua o desejo que só o amor dos céus testemunha?

Talvez haja que estreitar a noite nos braços e reconhecer que ela também abre as flores e deixa afinal que o dia receba os agradecimentos.

Talvez, como sempre que compreendemos novos mundos, a grande monção do verdadeiramente vivo nos surge peregrino.

 

Teresa Bracinha Vieira
Janeiro 2016

 

ATORES, ENCENADORES - LIX

 

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EÇA E RAMALHO NO ESPETÁCULO TEATRAL

 

Nesta linha de efemérides que temos aqui evocado, referimos já o centenário da morte de Sá Carneiro e os 70 anos da morte de Alfredo Cortez, ambos numa perspetiva de ligação ao espetáculo teatral em si mesmo, isto é, numa intervenção direta na organização dos espetáculos que completa ou transcende a criação dramatúrgica: escassa ou episódica que essa intervenção tenha sido, num e noutro caso, não deixa de revelar o interesse global dos autores pela arte do teatro, aí envolvendo a produção e a interpretação.

E haveremos de assinalar outros casos em que os grandes nomes da cultura e da criação literária se dedicaram mesmo esporadicamente ao espetáculo teatral: designadamente referirei em próxima evocação o caso limite de Vergílio Ferreira, cujo centenário do nascimento ocorre este ano, mas que se desligou muito prematuramente do teatro.

Já aqui lembramos as intervenções do jovem estudante-ator Eça de Queiroz em espetáculos na Universidade de Coimbra, e pode aliás recordar-se as personagens e as situações e episódios ligados ao teatro nos romances de Eça. Aliás, a obra de Eça é eminentemente “teatral”: daí, os próprios romances e personagens, diálogos, conflitos e situações estarem na origem das numerosas dramatizações e adaptações à cena e ao cinema.

E iremos prosseguindo nesta sucessão de evocações, que revelam, em épocas, estilos e fórmulas diversas, uma pujança por vezes esquecida da cultura teatral portuguesa, mesmo quando não se exprima diretamente na criação de textos e espetáculos.

Precisamente: a referência a Eça, que, repita-se, já foi aqui feita e mais do que uma vez, deve ser retomada no contexto d’ “As Farpas”, o que conduz a uma evocação das criações teatrais de Ramalho Ortigão, tanto mais justificáveis pela ocorrência também do centenário da morte do escritor em 27 de setembro de 1915.

É certo que Ramalho nos deixou sobretudo traduções de autores então mais ou menos recentes ou mais ou menos na moda: designadamente Dumas (“Anthony”), George Sand (”O Marquês” de Villemère”), Gustave Feiullet (“A Esfinge” e “O Acrobata”) ou mesmo Pérez Galdoz (“Eletra”).

Em 1871, Eça e Ramalho escrevem em coautoria “O Mistério da Estrada de Sintra”: e no mesmo ano iniciam a publicação d’ “As Farpas”. A moderna crítica inclina-se a considerar Eça autor direto da redação dos textos iniciais, mas não se exclui obviamente Ramalho da coautoria da produção literária e da crítica respetiva, que aliás viria a prosseguir, depois da saída de Eça, e com referencias recorrentes ao teatro.

António José Saraiva e Óscar Lopes analisam a redação conjunta dos dois escritores nas “Farpas”, salientando que “cada número constituía um comentário crítico e satírico aos acontecimentos e instituições, orientado segundo um ideário cuja principal fonte era, nos primeiros tempos, a obra de Proudhon” (in “História da Literatura Portuguesa” Porto Ed. págs. 840/841).

E Jorge de Sena até vai mais longe: considera “As Farpas “ como o culminar de um jornalismo “mais social do que politico nas Farpas de Ramalho e Eça e nos Gatos de Fialho de Almeida” (in “Do Teatro em Portugal” edições 70 - 1988 pág. 148).

Na primeira “Farpa”, a crítica concentra-se nos textos representados, mais do que na forma como são representados e como o público os recebe. De facto, sem citar nomes, Eça e Ramalho não poupam a dramaturgia: só que consideram as peças no contexto em que realmente devem ser analisadas – em função do espetáculo, através das intervenções dos atores, e na perspetiva do público como fator determinante. Daí, uma crítica severa ao teatro como espetáculo:

“O teatro perdeu a sua ideia, a sua significação; perdeu até o seu fim. Vai-se ao teatro passar um pouco a noite, ver uma mulher que nos interessa, combinar um juro com o agiota, acompanhar uma senhora ou – quando há um drama bem dramático, bem pungente – para rir como se lê um necrológio para se ficar de bom humor. Não se vai assistir ao desenvolvimento de uma ideia, não se vai sequer assistir à ação de um sentimento. (…) No entanto, como é necessário que quando se ergue o pano se movam algumas figuras e se troquem alguns diálogos, é esse o motivo por que em Portugal pretendem que existe uma literatura dramática (…) Mas é necessário que haja dramas, comédias, atos. O lustre está aceso, aqueles senhores estão à espera, e, se quando se levantar o pano aparecem apenas os bastidores, os maridos levam as suas mulheres, os pais levam as suas filhas, os rapazes levam as suas toilettes para outro sítio”…

Importa agora lembrar que em 1871 o teatro- espetáculo estava numa fase pujante em Portugal, no que se refere ao prestígio e qualidade, a julgar pelas críticas da época, que não poupam elogios a atrizes, atores e ensaiadores, como então se dizia. E duns e doutros nos ficaram nomes que ainda hoje são citados na literatura especializada: nomes hoje esquecidos como por exemplo Emília das Neves, Furtado Coelho, João Anastácio Rosa, Beatriz Rente, João Montedónio, Carlota Talsassi, Tasso, Carlos Posser, Virgínia - e tantos mais que já temos evocado nesta série de artigos.

E rematamos esta referência ao teatro - texto e espetáculo, com uma “recomendação crítica” de Ramalho Ortigão inserta no Volume VI de “As Farpas”:
“No teatro aplauda pouco e a tempo. Não se arrebate e não e dê bravos!”

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

LONDON LETTERS

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Mr Alan Sidney Patrick Rickman, 1946-2016

 

A voz doce e gutural de Master William Shakespeare nos meus sonhos parte no seu ano 400. Dir-se-á ser a divine reshuffle, mas é a melancolia que escolta a partida de Mr Alan Rickman. Alan Sidney Patrick Rickman é um gigante dos palcos e dos écrans, um daqueles working-class actors tão grandes quanto sonham ser nas council houses que nos 70s combatem a pobreza com o mérito na Britain de

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Elisabeth II. Na luz e na sombra, consigo muitos aprendem que o talento é uma dádiva e uma responsabilidade. E também na doença e na morte ensina o valor incomensurável da dignidade. — Chérie. Ce n'est pas tout de courir bien, il faut partir a temps. O US President Barack Obama faz o seu último e cool State of Union Adress a título de self-portrait. Ainda nos USA é a persistência do Trumphenomenon, entre aplausos à North Korea e deselegâncias aos rivais na Republican race. — That is, politically, a fun game. A eurofiscalidade entra pela porta dos fundos em Brussels, após Herr Wolfgang Schäuble propôr em Berlin a criação de um imposto comum para financiar o acolhimento aos refugiados. Já a United Nations quer uma taxa voluntária nos jogos e afins. Austria suspende as fronteiras Schengen. Em vésperas de receber o Supreme Leader iraniano, Pope Francis lança grito de "non uccidete in nome di Dio" ao visitar a nova sinagoga em Rome.

Patchy light rain around, within cold and dry blazes. O dia é preenchido em Central London. De manhã, o Prime Minister David Cameron apela à integração dos muçulmanos com aposta inteligente na educação das mulheres ‒ nomeadamente, por via de uma English language drive. À tarde, a House of Commons debate uma e-petition popular que reúne 574,196 assinaturas para barrar a entrada de Donald J Trump no UK ‒ por este igual defender aos muslims nos US. Mas a envolvente faz jus a January e ao seu icástico Janus, sempre a olhar em opostas direções. Os escaparates ilustram a Bowiemania à volta do globo, da Vanity Fair à Time, do New York Times e Bild ao Libé ou Corriere de la Serra, numa clara expressão de força da pop culture. Bem mais discreto é o desaparecimento de um diverso ícone das artes: Mr Alan Rickman, que parte aos 69 anos

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com legado memorável e leque de obras ainda à espera de vir a público. Ele é um Shakesperean actor por excelência, um pouco como Sir John Gielgud ou Mr Laurence Olivier foram e Mr Kenneth Branagh é. Adorável pessoa, na posse de vivo humor e de perfeito timing que o singulariza seja onde seja, prepara-se na Royal Academy of Dramatic Art e começa a teatral peregrinação na Royal Shakespeare Company até à BBC e ao estrelato global de Holywood.

Há bem pouco tempo vi Mr Rickman no celulóide em A Promise (2013, Patrice Leconte), onde contracena com Ms Rebecca Hall na tradução de Journey into the Past por Herr Stefan Zweig. Logo no início marca-nos concludente diálogo que mantém com Mr Richard Madden: “I have all the time in the world.” / “Well, I haven't.” Que dizer deste senhor improvavelmente nascido no seio de uma working-class family de Acton (London), que usa recordar e o leva ao ativismo no Labour Party e em várias charities enquanto atua e mesmo dirige peças por vezes filmadas? Com voz única, e é ouvi-lo a declamar as palavras do bardo nas décadas, os menos novos recordam o seu encontro com The Queen em 2014 a par do suave austeuniano Colonel Brandon em Sense and Sensibility (1995, Ang Lee) em contraste com os dark baddies, do cínico Hans Gruber em Die Hard (1988, John McTiernan) ao voraz Sheriff of Nottingham em Robin Hood: Prince of Thieves (1991, Kevin Reynolds), que lhe vale tardio BAFTA. Já os menos velhos o tomam minimalmente tanto como o Professor Severus Snape, da série Harry Potter, quanto ainda como o Dr Lazarus, de Galaxy Quest. Daqui a comum tirada do “By Grabthar's Hammer, the suns of Warvan... you shall be revenge”. No caso: “You, dear Sir, shall be greatly missed. So, by my hat… what an Actor.” — Farewell! And, Thank you.

Notícia também de uma nova etapa na viagem de um outro passageiro acidental por estas ilhas, quando o Labour Party persiste num civil war mood que todos agasta em Westminster District. O Dr

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Christoph Vogtherr abandona o leme de The Wallace Collection para rumar ao Hamburger Kunsthalle (Germany). A saída é revelada pelo museu nacional em nota do Chairman, Mr António Horta Osório, após triénio de cortes orçamentais. Assinatura do Wallace’s Guidebook e um dos autores do belo De Watteau à Fragonard. Les Fêtes Galantes (2014, Fonds Mercator), académico com lacre das Berlin Freie, Heidelberg e Cambridge Universities, perito em telas do 700, ele começa em Hertford House como Curator of Old Master Paintings e é Director desde 2011. As suas realizações em London são sabidas. É voz ativa nos debates públicos sobre como, no presente, cuidar do passado para guardar o futuro. É mão hábil que aposta na visibilidade do espólio doado à nação em 1897 por Lady Wallace e aumenta em 20% o número de visitantes em vivificado walking trail nas costas de Oxford Street, firmando a Victorian family home aberta ao público em 1900 como “an international research centre for French seventeenth and eighteenth century art and European arms and armour.” Sobretudo, fica na old history dos Marquesses of Hertford como responsável pela bem conseguida restauração da Great Gallery. — Well! As Master Will writes in A Midsummer Night's Dream, love looks not with the eyes but with the mind.

 

St James, 18th January
Very sincerely yours,
V.

A VIDA DOS LIVROS

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De 18 a 24 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira (1916-1996) completa dentro de muito poucos dias (28 de janeiro) o centenário do nascimento, merecendo referência como um dos autores mais influentes do século XX.

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UM LUGAR MUITO ESPECIAL…

Vergílio Ferreira tem uma importância para a cultura portuguesa do século XX, e em especial para as novas gerações do pós-guerra, que ultrapassa em muito a ideia de estarmos perante um escritor entre outros. É uma figura marcante – pela singularidade e pela força criativa. Eduardo Lourenço disse, por isso, com especial pertinência que «a sua obra de romancista e de ensaísta é a única em que, através de mil ambiguidades e dificuldades, se respira a atmosfera de um combate». De facto, o romancista e o pensador souberam assumir na sua obra as tendências fundamentais do seu tempo, sempre com um apurado sentido crítico, numa significativa lógica de independência e singularidade – em busca de uma vocação própria, sem esquecer as profundas mudanças que o mundo ia apresentando. De Hegel a Nietzsche, de Kierkegaard a Sartre, até Camus o autor de «Aparição» vive um século trágico, pleno de confrontos entre diversas leituras dogmáticas da sociedade e do tempo, que o intelectual e o homem recusam. Vergílio Ferreira quis, assim, sempre assumir o seu próprio caminho – primeiro tratando dos dramas sociais, que reclamariam uma sociedade nova (como em «Vagão J», 1946) e, a pouco-e-pouco, embrenhando-se nos mistérios da existência – que, desde sempre foram aflorando na interrogação das palavras, das pessoas e das complexas relações sociais. E assim foi consolidando a sua afirmação num romance de feição reflexiva e existencial – em que se sentem as leituras de Jean-Paul Sartre, mas que o tempo foi aproximando da força criadora e crítica de Albert Camus. No pórtico de «Aparição» (1959), o romance que constitui um marco na literatura portuguesa contemporânea, ao falar da «casa enorme deserta» onde se encontra, acrescenta, emblematicamente: «Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras».

COMO MUDAR?
Desde «Mudança» (1949), sentimos a presença de personagens marcadas pela angústia, pela tensão entre assumir a relação consigo próprio e com os outros. E deste modo a reflexão filosófica funde-se com a criação literária – o eu e o outro encontram-se e descobrem o sentido da vida, em choque com a «inverosimilhança da morte». Como o escritor dirá em «Conta-Corrente»: «o único valor possível, ou seja, o único mito que não se sabe o que é, é o próprio homem». Os temas fundamentais têm, no fundo, a ver com o choque perante a realidade da doença, da solidão, da morte, da decadência, da crueza dos dramas da existência. E assim Vergílio Ferreira transmite-nos o sentimento contraditório do desejo em choque com a realidade: «Escrever? «Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E, para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão» («Pensar», 1992). «Sinto mais nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim». Mas que é esta «aparição existencial»? «A revelação de si a si próprio». E é isto que se sente não apenas em «Aparição», mas em toda a obra do romancista. Alberto Soares apenas consegue proteger-se, sobrepondo a relação com a Serra à fragilidade do ser humano… Angústia, fragilidade – eis o que domina a reflexão do autor. No fundo (como dizia Eduardo Lourenço): há uma permanente procura, uma agonia, no sentido etimológico, de luta interior – e é essa luta que dá uma tónica única à prosa inconfundível.


QUE DESTINO HUMANO?
Como afirmou Samuel Dimas, a propósito da corrente europeia que tanto influenciou Vergílio Ferreira (de Malraux a Camus): «o mais alto destino do homem é assumir o seu destino, o qual inclui a questão da vida e da morte e antes dele ou em consequência dele a questão da existência de Deus»… Esta, no fundo, é a preocupação fundamental assumida… A Vergílio Ferreira perguntaram um dia qual dos seus livros proferiria. O autor hesitou e avançou: «Depende! Em todo o caso, se retorno ao «Para Sempre» tenho de ir ter com a Sandra para nele me comprazer. Mas «Alegria Breve» posso abri-lo em qualquer ponto, para sempre me releio em plenitude»… Com efeito, a vasta obra, especialmente a romanesca e ensaística de Vergílio Ferreira, tem uma textura e um alcance inconfundíveis… - correspondendo a uma leitura da realidade histórica que nos rodeia. E poderemos, sobre a obra e o homem, lembrar novamente Eduardo Lourenço, que afirmou, sobre a influência de Camus: «A condição do homem é uma mistura só em raras horas explosiva. Essas explosões são as revoltas, demasiado fáceis se o seu fim fosse sem equívoco a justiça. Mas a justiça e a injustiça têm o mesmo rosto humano e não é fácil distingui-las. (…) E, todavia, isso é necessário para alguns. Mesmo num mundo privado de deuses não abdicam dos valores… Mas como a sua garantia absoluta não existe só, eles mesmos os podem sustentar. O revoltado é justamente esse, privado de transcendência, que está disposto a pagar pelos valores que a sua existência introduz no mundo para se realizar. O seu caminho é solitário e sem consolação. A sua revolta é a sua maneira de existir. É uma exaltação sem medida ou uma tristeza de abismo, ambas injustificáveis. Como na vida»…

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Quantas vezes terei escutado a canção à lua da Rusalka de Dvorak? Não sei, sei só que a reconheço sempre e já te falei (quantas vezes?) dela... Hoje, deito a alma a outras canções do checo, sobretudo a uma, que abre uma selecção da Bernarda Fink: o primeiro dos cantos de amor, com letra de Gustav Pfegler-Moravsky e melodia do mesmo Antonin Dvorak. Chora assim:

 

          Ai! não tem o nosso amor

          a tão esperada alegria...

          E se a tivesse, se a tivesse,

          pouco tempo duraria...

          Porque há de correr, dorida,

          uma lágrima sobre beijos

          ardentes, cheios de vida?

          Porque me abraça a tua angústia

          tão cheia de amor já triste,

          choroso do adeus, pois me dizes

          que a esperança não existe?

          Tremendo, sabe meu coração

          que recebe extrema unção...

 

   É libérrima a minha tradução. Aliás, não conheço a língua checa. E, afinal, para ser mesmo sincero contigo, escrevia-a imaginando o sentimento de Giacomo Girolamo Casanova, quando se separou, para sempre, da misteriosa portuguesa Pauline. Ninguém poderá garantir que ela existiu, todos poderão jurar que não se chamava Pauline. Dizem-me que o Alfredo Magalhães Ramalho, dos serões da Veva de Lima, apenas sugere que, podendo então ter estado em Londres e portuguesa de alta nobreza, só a 5ª marquesa de Minas, Dona Maria Francisca de Sousa... Mas vem ver comigo como o Casanova conta a história, com que delicadeza o faz, cheio de um misterioso respeito, bem próximo dum amor que o vence e é comovente, inesquecível. Todavia, é soez o começo da narrativa:

   Os prazeres que lá [nos Vauxhall Gardens] podíamos encontrar eram grandes. Boa comida, música, passeios pelas alamedas sombrias onde encontrávamos bacantes, e passeios pelas alamedas com lanternas, onde se viam, à mistura, as mais famosas belezas de Londres, do mais alto ao mais baixo nível. No meio de tantos prazeres, aborrecia-me porque não tinha uma boa amiga na cama, nem à mesa, e já estava em Londres havia cinco semanas. A minha casa estava feita de forma a que lá pudesse ter uma amante com toda a decência...   ...Mas como encontrar em Londres essa rapariga feita para mim e parecida no carácter a alguma daquelas que eu tanto tinha amado? Já tinha visto em Londres cinquenta raparigas que toda a gente achava bonitas, e não tinha encontrado nenhuma que me tivesse inteiramente persuadido. Pensava continuamente nisso. Veio-me uma ideia bizarra e agarrei-me a ela.

    Vai daí, o nosso Casanova (o histórico), afixa à porta de casa um escrito que rezava assim: Segundo ou terceiro andar, apartamento mobilado, para alugar barato a jovem menina, só e livre, que fale inglês e francês, e não receba qualquer visita, nem de dia, nem de noite. Tal anúncio fez rir muita gente, até foi simpaticamente gozado no St. James´ Chronicle  --  assim, pelo menos o pretendeu o veneziano, que não falava inglês, e deve ter-se enganado... Também acorreram muitas interessadas, nenhuma a gosto dele: vi velhas que se diziam jovens, malandrecas, rameiras, impertinentes... Mas eis o "coup de foudre"! Até que, finalmente, vi surgir à minha frente, estando eu à mesa, uma rapariga de vinte e dois a vinte e quatro anos, alta, vestida sem luxo mas com limpeza, de nobre fisionomia, e séria, bela de todos os pontos de vista, com cabelos negros e tez pálida. Faz-me, ao entrar, uma humilde reverência, que me obriga a levantar-me. Pede-me que fique à mesa e, para me obrigar a ficar, aceita sentar-se. Ofereço-lhe compotas, porque ela já me tinha impressionado, e tudo recusa, modestamente. Diz-me, não em francês, como começara, mas no mais puro italiano que se possa falar, e sem qualquer sotaque estrangeiro, que alugaria um quarto no terceiro... [ou seja: no andar menos nobre]. 

   Passo por cima de pormenores de arranjos e acordos relativos à instalação e serviços a prestar, para referir apenas que a hóspede se comprometeu a sair somente para ir à missa em dias de festa, ao que, rendido, Casanova retorquiu que ela era senhora de decidir quando sairia, sem ter de dar satisfações a ninguém. Depois de pedir que ninguém fosse autorizado a visitá-la, nem revelada a sua presença ali, pagou a renda, e saiu para ir buscar a mala, dizendo à porteira que deveria ser tratada por Mistriss Pauline. O comentário de Casanova é curioso: Muito satisfeito com este achado, sinto-me contente. Não tinha necessidade de mulher para satisfazer o meu temperamento, mas, sim, de amar e de reconhecer, no objecto que me interessava, muito mérito, quer quanto à beleza, quer quanto às qualidades da alma. E o meu amor nascente ganhava forças à medida que previa que a conquista me custaria cuidados. Punha a possibilidade do fracasso na linha dos impossíveis: sabia que não há mulher no mundo que possa resistir aos cuidados assíduos e a todas as atenções de um homem que queira torná-la enamorada. E, na verdade, Casanova não se furtará a cuidados com o conforto da sua inquilina. Até que lhe pede uma audiência, e ela responde que é ele o dono da casa. Quando então a visita, observa o bom gosto com que se instalou, os livros  que a rodeiam. Lisonjeia-o a gentileza com que lhe agradece os cuidados prestados. Quando ela lhe retribui a visita, jogam xadrez e ela vence-o, ri-se, encantada, e fica para jantar. Sucedem-se episódios em que os crescentes ardores de Casanova ainda não conseguem um beijo, nem sequer uma mão dada. Até que, sentado ao pé dela, lhe prendi uma mão, colando nela os meus lábios, e perguntando-lhe se era casada. Diz-me que sim. Conheceis vós, pergunto, o amor materno?    -- Não, mas imagino bem o que seja. Tenho um marido, que ainda se não deitou comigo.  -- Está em Londres?  -- Não, está bem longe daqui. Peço-vos que não falemos disso.  -- Dizei-me apenas se, quando vos perder, será para irdes ter com ele

-- Sim. Asseguro-vos de que, se não me despedirdes, sairei de vossa casa para sair de Inglaterra, e só sairei desta ilha feliz para ser eu mesma feliz na minha pátria com o marido que escolhi para mim. Continuo, já de seguida, a tradução desta conversa, tal como ela é relatada ou imaginada pelo aventureiro veneziano, pois me parece que, apesar de ser longa a transcrição, ela revela muito da pessoa de Casanova, do seu poder de insinuação, como da vaidade narcísica do galã que pretende transformar em amadora a pessoa amada. Mas diz também algo da natureza especial que ele atribui ao seu amor de (com) Pauline:

   -- Minha encantadora Pauline, por cá ficarei infeliz, porque vos amo, e receio desagradar-vos se vos fizer muito ternas demonstrações.  -- Infelizmente, peço-vos que vos domineis, pois não sou senhora de mim, nem para me entregar ao amor, nem para lhe resistir se não me poupardes.  -- Obedecer-vos-ei, mas desfalecerei. Como posso ser infeliz, tendo a felicidade de vos agradar?  -- Tenho deveres, meu querido amigo, que não posso contornar sem me sentir desprezível.  -- Julgar-me-ia o mais traiçoeiro, o mais horrível de todos os homens, o mais indigno de ser amado por uma mulher digna de o ser, se pudesse diminuí-la na minha estima por ela fazer a minha felicidade cedendo a uma inclinação que eu mesmo lhe tivesse inspirado.

-- Pois bem: também não vos julgo capaz disso. Mas moderemo-nos, pensando que talvez nos vejamos obrigados a separar-nos amanhã. Confessai que a nossa separação seria bastante mais dolorosa. Se não estiverdes de acordo, é sinal de que o vosso amor não é da natureza do meu.  -- De que natureza é então o amor que tive a felicidade de vos inspirar?  -- É tal que o prazer só me parece acessório.  -- O que é então essencial?  -- Viver juntos, no mais perfeito acordo.  -- Essa é uma felicidade que tenho e vós possuís. Ambos a usufruímos de manhã à noite. Porque não poderemos ser também indulgentes com o acessório, que só nos ocupará alguns momentos, que trará às nossas almas enamoradas a paz e a tranquilidade que nos são necessárias? Confessai também que esse acessório serve de alimento à feliz consistência do principal.  -- Concordo, mas concordai também em que esse alimento é, o mais das vezes, mortal.  -- Não podemos acreditar que seja, quando se ama muito. Podereis vós crer que, tendo-me terno e amoroso nos vossos braços, me amaríeis menos depois?  -- Não, não creio: e é precisamente por isso que receio tornar o momento da separação em desespero para mim.  -- Tenho de ceder à vossa poderosa dialéctica, minha encantadora Pauline. Tenho vontade de ver com que alimentais o vosso espírito sublime. Desejo examinar os vossos livros. Vamos até lá acima?  -- Com muito gosto. Mas ficareis surpreendido.  -- Como assim?  -- Vamos lá.

   É então que Casanova descobre a biblioteca breve de Pauline. Todos os livros estão escritos em português, com excepção do Milton inglês, do Ariosto italiano e de Les Caracteres de La Bruyère francês. E confessa: -- Tudo isto, minha querida Pauline, me dá uma ideia muito abonatória de vós. Mas porquê essa preferência por Camões e todos os demais Portugueses?  -- Porque sou portuguesa!  -- Portuguesa? Pensei que fosseis italiana. Na vossa idade, sabeis cinco línguas, pois também deveis falar espanhol.  -- Claro que sim. Pauline diz-lhe então que uns manuscritos ali postos  --  que Casanova, curioso, quer saber de quem são  --  foram por ela mesma escritos e contam a sua história. Lá iremos, Princesa de mim, mas em próxima carta.

                                                       Camilo Maria 

            

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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A Casa da Moeda de Jorge Segurado.

 

A Casa da Moeda (1933-41) é um conjunto edificado, da autoria de Jorge Segurado (1898-1990), que ocupa todo o quarteirão nas Avenidas Novas delimitado pelas Avenidas João Crisóstomo, António José de Almeida, Filipa de Vilhena (antiga R. D. Estefânia) e Defensores de Chaves.

Ainda que pensada inicialmente para o terreno do atual Instituto Nacional de Estatística, necessidades evocadas racionais justificaram a mudança para o quarteirão de configuração mais regular (convenientemente retangular). Segurado pensou o edifício da Casa da Moeda de modo a que os seus lados maiores enfrentassem as vias públicas e que o seu eixo maior seguisse a orientação norte-sul. O lote deveria então adaptar-se de modo racional a um programa misto de oficinas e administração.

A obra é única e invulgar no contexto do primeiro modernismo português – tendo em vista que em finais dos anos 30, do séc. XX, dominava já o ‘sentido português’ das construções requeridas pelo Estado, onde se revestiam os edifícios com memória rústica (raízes do povo) e joanina (raízes do poder, do império). De assinalar que Jorge Segurado faz a ponte para a segunda geração de modernos com os blocos de habitação do Montepio Geral, à Av. do Brasil – o que prova que Segurado adere a um vocabulário de vanguarda, não de maneira meramente epidérmica.

A Casa da Moeda consegue demonstrar, através de uma assinalável qualidade de construção, um evoluir sobre as primeiras experiências de despojamento volumétrico de Carlos Ramos, Cristino da Silva e Pardal Monteiro, afastando-se do dogmatismo do Movimento Moderno, de estilo internacional.

A obra é singular ao aproximar-se de experiências europeias desenvolvidas em contextos não radicais e mais periféricos, adquiridas por Segurado em viagens. Assiste-se a um momento de mudança e de renovação, com referências a outros quadrantes culturais que não terão seguimento. É de assinalar a influência do holandês Willem Dudok (1884-1974) e da Escola de Amesterdão. Jorge Segurado, na Casa da Moeda, evoca Dudok ao enfatizar a identidade do edifício através da horizontalidade das linhas e ao recorrer ao efeito assimétrico dos conjuntos cúbicos. A herança da Escola de Amesterdão ao estabelecer uma rigorosa intensificação da expressão individual, traz à Casa da Moeda o uso de elementos singulares (como o chanfro e a escultura) e a tradição da construção em tijolo.

A obra é, também, única ao concretizar um programa misto e complexo – edifício da administração, com escritórios e edifício do fabrico de moedas, com oficinas.

É intencional pôr em prática o paradigma da necessidade do edifício responder exteriormente à funcionalidade interior, tratando de banir toda a ornamentação supérflua. Segurado afirma uma arquitetura criada de dentro para fora – os alçados harmonizam-se de acordo com a distribuição lógica das plantas. O carácter industrial do edifício acentuou ainda mais o pragmatismo formal: porque primeiramente são satisfeitas as necessidades internas.

Os dois edifícios (administração e fabrico) são ligados por duas passerelles elevadas e distinguem-se pela utilização diversa de formas, materiais e proporções. O corpo administrativo apresenta intencionalmente um carácter de representação – pela monumentalidade, pela escala horizontal dos vãos generosamente guarnecidos, pelo imponente desenho da escadaria que marca a entrada principal. Configura o topo norte, ligando-se ao conjunto em U das oficinas através de duas passagens elevadas sobre pilotis. O corpo das oficinas é por natureza mais utilitário. Embora o carácter industrial das oficinas permitisse uma modernidade radical como se de uma máquina se tratasse – desenham-se grandes panos de parede, impõe-se uma proporção larga das janelas e uma lisura na composição – é aqui que se transcendem os paradigmas do movimento moderno através de elementos de identificação e caracterização individual que tornam o edifício único – o tijolo, os panos verticais marcados, o chanfro, a escultura e o relógio. Em chanfro, a entrada dos operários possui maior novidade, radicalismo, liberdade e expressão. Reveste-se de tijolo vidrado verde-escuro, sobre a porta um baixo-relevo de Francisco Franco e um relógio. O uso dos tijolos esmaltados de verde nos panos verticais entre pilares traz a singularidade, pela introdução de uma nova expressividade distinta do objetivismo da Bauhaus.

Assim, com a Casa da Moeda, Segurado abriu novos caminhos para o entendimento do Movimento Moderno sobretudo com a concretização das primeiras alternativas de interpretação do vocabulário puro e duro que os arquitetos da sua geração propunham e difundiam.

Ana Ruepp

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

Cá estou de volta, para te contar mais uns episódios da Histoire de Ma Vie do Giacomo Girolamo Casanova, estes ainda marcados pela presença do padre português João Patrício da Gama da Silveira. Desde o tempo em que ocorreram os ditos e acontecimentos relatados na minha última carta, terão decorrido uns dezassete anos até ao novo encontro dos dois amigos, de que te falarei agora. Entretanto, Casanova percorrera várias terras e culturas  -  esteve mesmo no império otomano, e preso em Veneza  -  confrontara-se com gentes várias e aventuras, continuara a ter amores e doenças venéreas, dissabores e fugas, períodos de mais abastança e luxo, polémicas e manifestações de muito apreço pela sua inteligência e talentos. Leva-o, certo dia, o fado até Florença e, na cidade onde nascera a ópera, ao teatro da via della Pergola, onde, instalado num camarote, descobre que a primeira cantora é aquela Teresa de que tivera de separar-se, dezassete anos antes, em Rimini. É, depois do espectáculo, amorosamente quente o reencontro dos amantes, apesar dela estar já casada e não querer enganar o marido. No dia seguinte, depois do ensaio, Teresa oferece um jantar a várias pessoas, e tem Casanova a seu lado. Vamos ao relato deste: A dado momento, vejo um velho padre, muito bem vestido, que entra, em andar compassado, com ar amável e sorridente e que, tendo olhos só para Teresa, vai ter com ela e lhe beija a mão, pondo um joelho no chão, à moda portuguesa. Teresa, graciosa e risonha, fá-lo sentar à sua direita; eu estava à esquerda. Reconheço nesse momento o padre Gama, que há dezassete anos deixara em Roma, com o cardeal Acquaviva, mas não lho deixo entender. Envelhecera muito, mas era ele. O galante velho, tendo olhos só para a Teresa, dizia-lhe piropos, e ainda não tinha olhado para mais ninguém. Esperando que não me reconheça, não olho para ele e conto umas bagatelas à Corticelli. Teresa chama-me à ordem, dizendo que o padre gostaria de saber se eu o reconhecia. Olho então para ele, finjo-me surpreendido, e pergunto-lhe se estava a ter o gosto de ver o Senhor Padre Gama.  --  O próprio, diz ele, levantando-se, e agarrando-me a cabeça para me dar vários beijos, como faria no seu carácter, que eu conhecia, de político fino, e muito curioso... E assim recomeçará o convívio de ambos, matando saudades e evocando lembranças, até surgir na sala um jovem que é uma estampa do Casanova: é ele a surpresa que Teresa lhe prometera, o filho de ambos, que o pai agora vê pela primeira vez! Gama da Silveira que, entretanto, informara o seu amigo veneziano de como tinha deixado o serviço diplomático de Espanha, para passar ao de Portugal  -  e assim tivera de sair de Roma, aquando da ruptura de relações com o Vaticano, determinada pelo ministro Sebastião José  -  propõe novo encontro, para conversa mais a sós e prolongada. Volto a traduzir-te o relato de Casanova: No dia seguinte, às nove horas, anunciaram-me o padre Gama, que começou por chorar de contentamento, vendo-me em tão boa saúde ao fim de tantos anos, e na flor da idade. O leitor vê aqui que ele deve ter feito o meu elogio. Pode ser bom ter espírito, mas temos de reconhecer que nos agradam os manteigueiros. Esse padre suave, bastante amável, muito fino, e nada maldoso, mas curioso por carácter, e por profissão, não esperou que insistisse com ele para me contar toda a sua história de dezassete anos, que ele alongou, multiplicando os episódios. Interrompo aqui o conto de Casanova, para te dar o contexto histórico do que seguidamente ele narra. Tal narrativa refere-se a Dezembro de 1760, em Florença, aonde o padre Gama acompanhara Francisco de Almada e Mendonça, embaixador do rei D. José I de Portugal junto do papa, em Roma, de Maio de 1759 a Julho de 1760, altura em que, por ordem do ministro Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal), tivera de sair dos Estados Pontifícios, pois se suspenderam as relações diplomáticas de Portugal com o Vaticano. A razão de tal corte por parte da Sua Majestade Fidelíssima (título dado ao rei de Portugal em 1750) fora a recusa do papa Clemente XIII (antes cardeal Carlo Rezzonico) a perseguir os jesuítas, que o governo de Portugal acusava de terem participado na conspiração de lesa majestade, conducente ao atentado de 3 de Setembro de 1758, contra Dom José I. Gama permanecia em Florença, já depois da partida (anterior à chegada de Casanova) do embaixador Almada que, aliás, anos mais tarde (de Agosto de 1769 a Fevereiro de 1779), voltaria a exercer em Roma as mesmas funções. Gama da Silveira, que deixara as suas funções na embaixada de Espanha em 1760, para ficar ao serviço de Portugal (embora fosse, desde 1735, cidadão romano), também estaria com Almada e Mendonça novamente em Roma a partir de 1770. Escreve o veneziano: Passara do serviço de Espanha para o de Portugal e, sendo secretário de embaixada do comendador Almada, tivera de deixar Roma, por causa do papa Rezzonico não querer permitir que S. M. Fidelíssima castigasse os jesuítas que, apesar de só lhe terem partido um braço, tinham tido intenção de matar. Gama andava errante pela Itália, correspondendo-se com Almada e o famoso Carvalho [Sebastião José], esperando o fim da querela para regressar a Roma. Era tudo, mas o padre levou uma hora a contá-lo, para me obrigar a dar-lhe desforra com a narrativa das minhas aventuras. Ambos exercemos o nosso talento: o padre alongando a sua história, e eu abreviando a minha, sem deixar de ter o gozo de castigar a curiosidade dele. Perguntou-me, a talho de fouce, o que ia fazer a Roma, e respondi-lhe que iria apresentar-me ao papa e suplicar-lhe que pedisse o meu indulto aos inquisidores do Estado. Tal não era verdade. Mas se lha tivesse dito, isto é, que ia lá para me divertir, ele não teria acreditado. Quem disser a verdade a um incrédulo, prostitui-a: é um assassínio. O padre pediu-me, por gosto, que alimentasse com ele um comércio epistolar, e eu prometi-lhe que sim. Disse-me então que podia dar-me um sinal da sua amizade, apresentando-me ao marquês Bota Adorno, governador da Toscana, e de quem se dizia que era amigo de Francisco I, imperador reinante; respondi-lhe que seria uma honra para mim. Promessa cumprida, Gama terá vários outros encontros com Casanova, com quem aliás irá, pelo menos duas vezes, visitar Bota Adorno. Mais adiante, conta: o padre Gama, à mesa, falando-me de política, perguntou-me se eu queria encarregar-me duma diligência da corte de Portugal no congresso que se reuniria, como toda a Europa pensava, na cidade de Augsburgo. Assegurou-me de que, desempenhando com prudência a diligência de que queria encarregar-me, eu poderia estar certo de que, indo depois a Lisboa, obteria na corte tudo o que pudesse ambicionar. Respondi-lhe que estaria pronto para empreender tudo aquilo de que ele me julgasse capaz: apenas teria de me escrever, e eu cuidaria de lhe dar sempre o meu endereço. Foi nesse momento que me veio o desejo mais forte de um dia ser ministro. O Congresso de Augsburgo, pensado para pôr fim à Guerra dos Sete Anos, não se realizou, porque o primeiro ministro britânico, Pitt, descobriu entretanto que se desenhara um acordo secreto da França com a Espanha, para que esta entrasse na guerra. Portugal não era um dos beligerantes mas, sendo o Reino Unido o seu parceiro comercial principal, tinha todo o interesse em ser observador do Congresso. Novo encontro em Roma, em 1770, quatro anos antes da morte de Gama, então morador na piazza di Spagna, num 3º andar na esquina da via della Croce: Encontrei o padre Gama em Chiaggia, muito envelhecido, mas de boa saúde e sempre alegre. Depois de conversarmos meia hora sobre as nossas recíprocas aventuras, disse-me que todos os diferendos entre a Santa Sé e a corte de Lisboa tinham acabado, pela bravura do papa Ganganelli [Clemente XIV]. As referências seguintes ao bom padre Gama da Silveira circunscrevem-se ao trato social, em que o velhote português o traz de volta a namoros antigos... E a oportunidades de recauchutar finanças! Curioso século XVIII, o do Iluminismo, em que as relações pessoais, quando eram boas e bem cultivadas, socorriam, acolhiam, protegiam, promoviam, prestigiavam... Eu diria mesmo, Princesa, em francês, que la franc-maçonnerie, ça fait três dix-huitième, não achas? Em próxima carta te contarei a misteriosa história da portuguesa Pauline, segundo Casanova...

 

                                               Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

MARGUERITE

 

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Quando se finge ignorar o que se aguarda

Quando se nasce assim e se é deste planeta

A promessa total a que se entrega

É de uma infinita página em branco

Onde a vida escreverá ou não a traição ao sonho

A farsa

Qual desafio, a quem atire a primeira pedra.

 

Mas à hora em que mais tempo

Seria demora à morte que viria atónita

É esta a estrela, as asas, o impulso

É acima de tudo o medo de perder-te

 

E assim te digo de máscara de Veneza posta

No meu rosto em pranto:

Não leves muito a sério

O que te diz a memória da música

Não obstante tanto

Que para ti cantei ao teu desejo

Pois quem te disse que eu não sei que fui ficção

E que a ela me desejei parecer eterna e nua

Enrolada em vermelha seda, minha rival.

 

Enfim

Provei-te que no vazio

O amor se acalmou por um instante

 

Sou Marguerite!

Agora

 

Já bastou como morada

Quatro dias ou sessenta anos

Acompanhar-me-ão.

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2015

 

 

ATORES, ENCENADORES - LVIII

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O TEATRO E OS TEATROS DE ALFREDO CORTEZ

Importa desde já referir que neste ano de 2016 assinalam-se os 70 anos da morte de Alfredo Cortez, ocorrida em Oliveira de Azeméis aos 65 anos de idade a 7 de Abril de 1946. Sabe-se que a estreia “profissional” do dramaturgo ocorrera no Teatro D. Maria II em 5 de Março de 1921, com a peça “Zilda” encenada por António Pinheiro e interpretada pelos então jovens Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Amélia recorda essa estreia agitada e polemizada no recente livro de entrevistas coordenadas por Vítor Pavão dos Santos a que já fiz referência (“O Veneno do Teatro ou Conversas com Amélia Rey Colaço” - 2015).

Essa estreia gerou polémica, e até individualidades com a dimensão de Aquilino Ribeiro deram a sua opinião. Mas a peça fez carreira e inaugurou a longa presença profissional de Alfredo Cortez em sucessivas produções em Portugal e no Brasil.

E hoje, já não de pode pôr em dúvida a extraordinária qualidade da dramaturgia de Cortez, e designadamente a fortíssima expressão inovadora da sua obra, construída a partir de expressões dramáticas diversificadas – desde o realismo duro e puro ao teatro poético, ao expressionismo então inovador entre nós, ao regionalismo e à visão crítica global da sociedade e da mentalidade portuguesa, que não perdeu, também nesse plano de conteúdos analíticos, uma flagrante atualidade.

Os 70 anos da morte de Alfredo Cortez serão devidamente assinalados a nível nacional, e acompanharemos ao logo do ano essas comemorações. Hoje, porém queremos salientar muito concretamente dois aspetos específicos.

Um deles reporta-se à estreia do dramaturgo, num texto extraviado, de que restará eventualmente uma pequena citação. Trata-se de um manuscrito que me foi facultado pela família de Alfredo Cortez. (cfr. o meu livro intitulado “Alfredo Cortez – Teatro Completo com Peças e Textos Inéditos” edição INCM -1992). Sabia-se que Cortez é autor de um texto representado em 1918 no então chamado Teatro Foz por alturas de 1916, com referências e enquadramento da intervenção de Portugal na 1ª Grande Guerra. Denominado “Terra e Mar” e assinado com um pseudónimo, essa peça constituiria a primeira obra dramática de Cortez, pois a “Zilda” só foi estreada em 1921.

Dessa primeira (eventual) peça, restaram algumas cenas manuscritas, as quais, aliás, desde logo revelam o talento e a qualidade e sentido teatral do autor. Publiquei-as na edição referida acima e aqui transcrevo que que restou, com as ressalvas de que o texto, sendo indiscutivelmente manuscrito de Alfredo Cortez e até aí inédito, poderá ou não integrar essa desconhecida “Terra e Mar”.

Trata-se de um breve diálogo entre a “Embriaguez” e a “Pouca Vergonha”: “ EMBRIAGUEZ – Tu que és a Pouca-Vergonha/ Tem de explicar-me, vez cá/ Com é que a minha mamã/ É também o meu papá”./ POUCA VERGONHA - Não percebes?/ EMBRIAGUEZ – Não percebo./ POUCA VERGONHA – Pois eu explico-to, pá./ Ela esperava casar/ E vai depois não casou./ Coitada, ficou de esperanças/ Só de tanto que esperou./ EMBRIAGUEZ – Quem espera sempre alcança./ POUCA VERGONHA – Foi assim que ela alcançou…”

Salientamos este extrato porque ele desde logo revela e documenta a qualidade cénica do teatro de Alfredo Cortez. E é então oportuno lembrar que esta vasta dramaturgia percorre todos os caminhos da modernidade, e assume claramente a expressão ideológica, digamos assim, e a coerência do autor, que traduz no teatro desde a suas profundas opções existenciais – cito designadamente as peças de expressão confessional católica, “Lourdes”, “O Oiro”, “Domus”, o realismo social duro e puro – “Zilda”, “O Lodo, Baton, “Lá-lás”, o expressionismo inovador entre nós – “Gladiadores”, ou o regionalismo – “Tá-Mar” (de que Rui Coelho compôs uma Ópera) e “Saias”, esta escrita em dialeto mirandês!... alem de textos esparsos e inéditos que revelei na edição acima referida de Teatro Completo.

Refira-se que “Gladiadores” constituiu um verdadeiro escândalo de modernidade. “A peça causou escândalo como sátira de símbolos sociais e políticos” escreveu Etelvina Santos, que cita a propósito a opinião de Eduardo Scarlatti: “talvez o primeiro ensaio de um género superior de teatro cómico, o qual transportaria o grotesco da vida em sociedade sobre manequins humanos” (in “Dicionário de Literatura Portuguesa” dir. Álvaro Manuel Machado, verbete sobre Alfredo Cortez pag.145).

Mas há outra expressão da atividade teatral de Alfredo Cortez que quero agora salientar, e que refere a sua atividade como promotor e colaborador em companhias e espetáculos profissionais. Desde logo com tradutor/adaptador de textos diversos – cito designadamente as traduções/adaptações, de “Jerusalém” de George Rivolet, “Wang, Sábio Três Vezes Sábio” de Henry Gheson, “Isabel, Rainha de Inglaterra” de André Josset e Maria Stuart” de Schiller. Cito sobretudo a criação e direção, por Alfredo Cortez, em 1923, da chamada Nova Companhia de Declamação, com Adelina Abranches e António Pinheiro como cabeças de cartaz.

E o repertório esteva á altura, numa modernidade que marcou, na época, o meio teatral português: alem de uma reposição de “O Lodo”, traduziu e estreou a já citada “Apaixonada” de Porto Riche, e ainda “A Mulher Fatal” de André Birabeau e “A Malquerida” de Jacinto Benavente.

E escreveu ainda o argumento e os diálogos do filme “Ala Arriba” de Leitão de Barros (1942).

Textos que então constituíram verdadeiras revelações e que ainda hoje atestam, repetimos, a qualidade e modernidade dos espetáculos a que Alfredo Cortez esteve ligado – como autor, como tradutor, com diretor de companhia…

 

Gravura: Retrato de Alfredo Cortez por Eduardo Malta, in revista “De Teatro”- Abril 1924

 

 

DUARTE IVO CRUZ