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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de que, em meados dos anos 70 do século passado, quando fui chamado a orientar uns trabalhos de mestrandos na Universidade de Lovaina, reflecti e falei muito (quiçá demais) de umas previsões que John Maynard Keynes adiantara em 1928, num opúsculo sobre o longo prazo, cujo título era Economic Possibilities for our Grandchildren. Aí, o grande economista estimava que, dentro de um século, o crescimento económico teria feito com que os seus netos não precisassem de trabalhar mais do que três horas por dia. E recordo-me ainda de como, dez anos depois, em meados da década de 80  --  morava eu em Scarsdale, NY, USA  --  se falava muito na pequena cidade de White Plains, a umas 50 milhas de Nova Iorque, que ia crescendo, graças à afluência de uma população que podia trabalhar fora dos grandes centros urbanos e produtivos  --  e mesmo em suas casas  --  menos tempo e com mais liberdade, beneficiando do progresso tecnológico de novos instrumentos de trabalho. Assim chegava à ribalta do nosso pensamento social, e dos nossos sentimentos partilhados, uma nova personagem: o tempo livre. Amanhecia uma nova cultura, a do lazer;  e, com ela, um ser humano distinto do homo faber. A edição que conheço da obrita de Keynes acima referida data de 1930, no ano seguinte ao do estrondo inicial da Grande Depressão, nas palavras do economista uma crise que a história recordará como das mais profundas que a humanidade jamais viveu. Hoje, quase um século mais tarde, o envelhecimento das populações "industrializadas", e a extensão da esperança de vida, as desorientações financeiras, a crescente insustentabilidade do welfare state, vão suscitando outras ponderações do tempo de trabalho e da própria duração da vida activa. Por outro lado, nas mesmíssimas "sociedades de afluência", a libertação de tarefas domésticas e outras, oferecida pela disponibilização generalizada de aparelhagem auxiliar, coloca muita gente perante a questão de como ocupar o tempo, ao ponto de levar alguns a crises depressivas... Nas nossas conversas por aí, frequentemente passamos de quem não tem tempo para nada, nem mãos a medir, a quem não sabe que fazer ao tempo, nem acha com que se entreter. Em registo diferente, tanto nos queixamos de que o tempo passa a correr, como de que nunca mais passa... Quando éramos estudantes, eram longas as aulas, curtos os recreios, nunca mais acabávamos o curso nem começávamos a trabalhar. Impacientes. Depois dos setenta, tudo passou tão depressa... E até já temos paciência para ser pacientes connosco. Todo o tempo nos parece curto, é preciso que dure. Como diria a marechala de Der Rosencavalier, é coisa singular: quando o vivemos assim, nada é; depois, de repente, só o sentimos a ele. Mas escapa-nos sempre, dizemos que passa por nós, mas um fado ensina-nos que ele fica e nós é que passamos... Olha, Princesa de mim, com estas maleitas que me prendem em casa, tive agora tempo para me entreter com um livro recente do Rüdiger Safranski: Zeit. was sie mit uns macht und was wir aus ihr machen. (Tempo. O que ele faz connosco e o que nós fazemos dele). Reconduziu-me àquelas páginas maravilhosas das Confissões de Santo Agostinho, à sabedoria do Livro XI, quando o bispo africano responde à pergunta Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? --  Não vou dar essa resposta brincalhona que, conta-se, certo dia se propôs para iludir tão temível questão: "Deus preparava o inferno para os curiosos". Brincar é uma coisa, reflectir outra. Não, não quero essa resposta. Quando não sei, prefiro responder "Não sei!" a tornar ridículo quem faz uma pergunta profunda e a aplaudir quem dá uma paródia de resposta. É posta assim a questão no parágrafo XII, tem a ver com a eternidade de Deus e a criação do tempo, mas o ser do tempo é tratado no parágrafo XIV e seguintes: O que é, então, o tempo? Quem saberá facilmente dar dele uma breve explicação? Quem  poderá agarrá-lo, ainda que só em pensamento, para o dizer? E, todavia, haverá qualquer evocação mais familiar e clássica, nas nossas conversas, do que a do tempo? Compreendemo-lo bem quando dele falamos; também o compreendemos ao ouvir outrem falar dele. Que será, então, o tempo? Se ninguém me lo perguntar, eu sei. Mas se alguém me fizer a pergunta, e eu quiser explicar, já não sei. Contudo, afirmo com força o seguinte: se nada passasse, não haveria passado; se nada adviesse, não haveria futuro; se nada estivesse, não haveria presente. Mas esses dois tempos  --  o passado e o futuro  --  como poderemos nós dizer que eles "são", posto que o passado já não é, e o futuro ainda não é? Quanto ao presente, se ele ficasse sempre presente sem se transformar em passado, deixaria de ser "tempo" para ser "eternidade". Se, portanto, o presente, para ser "tempo", deve transformar-se em passado, como podemos nós dizer que ele "é", visto que a sua única razão de ser é já não ser  --  a tal ponto que, na verdade, só podemos falar do ser do tempo porque ele se encaminha para o não-ser? Creio que, por diversas vezes já, te disse que pensossinto a mudança, no sentido de evolução, passagem, como essência do ser natureza. A tal ponto, como criaturas que somos, a vivemos, que, quando algo demora muito, dizemos que é uma eternidade... Cansa-nos a permanência do presente, é contranatura.  Mas o tempo que é, com o espaço, categoria necessária à percepção da nossa  condição, também nos aflige, precisamente porque intuímos que acaba, e cada um de nós, nesta nossa condição, com ele, com o seu nosso tempo. Seguindo Agostinho, digamos que o tempo é porque deixa de ser. Por isso acredito na eternidade: sendo absurdo que o ser seja não-ser, a fé, como diz S. Paulo, é a substância das coisas que devemos esperar. Cheguei, Princesa, àquela idade em que pouco me importa se tenho tão presente a grande dor das coisas que passaram (Camões), pois se me esfuma o tempo e ganha substância a alma.

                  Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira