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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


 

A Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa de João Luís Carrilho da Graça.
 

A Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (1988-1993) ocupa uma estreita faixa de terreno na margem norte da Avenida Marechal Craveiro Lopes (Segunda Circular). A Escola, desenhada por João Luís Carrilho da Graça propositadamente corta, como uma lâmina, o território em duas paisagens diversas. No pequeno monte separa-se, a confusão e o barulho, do silêncio. A colocação do edifício no sítio é singular. Ao estar isolada, a Escola parece esquecer a desordem e a saturação urbana que a circunda. O muro branco agarrado à terra esconde, por trás, um edifício sem gravidade. À leveza contrapõe-se a massa e a densidade.

A fachada sul branca e quase cega, que se ergue ao longo da Segunda Circular, fecha-se a uma paisagem urbana compacta. A fachada norte, cor de terra, abre-se a uma paisagem mais liberta caracterizada por objectos construídos mais dispersos. Também a norte, uma praça alta permite a criação de uma interioridade nos espaços de acesso à Escola. As escadas exteriores, como que ligando espaços virtuais, reforçam a intencionalidade da abertura para a paisagem.

Ao ser vista da Segunda Circular, a Escola tem uma intensidade sequencial conseguida através da decomposição de diversos planos e de escassas aberturas. O muro vai-se desfazendo e perde espessura. Carrilho da Graça utiliza uma ortogonalidade que se desfaz através de transparências, de intensidades, de densidades e de profundidades. O volume perpendicular ao plano, destinado à administração e aos docentes, está levantado do chão e destaca-se a ocidente por ser o mais alto. No seu interior abre-se o átrio com três pisos de altura.

A linguagem utilizada estabelece uma relação evidente com o movimento moderno. Carrilho da Graça referencia-se a essa linguagem, nomeadamente apurando as influências dos grandes mestres dos anos 20 e 30, e estabelece um processo de ligação ao universo em que se inscreve a Escola.

A arquitectura de Carrilho da Graça nasce de uma profunda compreensão do território – as primeiras reflexões acerca do projecto acorrem da metamorfose do programa com o sítio. Carrilho da Graça transforma a paisagem, humanizando e introduzindo sempre uma carga poética e uma leveza que vão além dos modos de construir e dos materiais utilizados – não basta só posar o objecto no território.

Carrilho da Graça pertence à geração que no início da década de 80 transita para a pós-modernidade – processo que implicou uma mudança de atitude perante a rigidez do moderno, ao utilizar um discurso por todos reconhecível, ao recorrer à história e ao responder a um apelo da cultura de massas. Carrilho da Graça estabelece ligação com o processo da pós-modernidade na medida em que revela um redobrado interesse pelas vanguardas históricas, numa espécie de redescoberta do movimento moderno.

Da herança moderna Carrilho da Graça utiliza não o sentido universal, restrito e dogmático mas antes a necessidade de encontrar o espírito do tempo, a essência de um programa específico, de um lugar concreto e a utilização de um vocabulário geométrico puro e directo.

Retirando a carga puramente abstracta, Carrilho da Graça fomenta a individualidade de cada projecto ancorado num território real. Carrilho da Graça não esconde, igualmente admiração pelo trabalho de Álvaro Siza ao pensar a arquitectura como processo artístico e poético, que levanta questões e que só pode ser única ao pertencer a um contexto específico.

A relação permanente com as outras artes e disciplinas é uma prática corrente no exercício da arquitectura de Carrilho da Graça e que em muito contribui para determinar o resultado final das suas obras.

Enquanto professor (actividade que desde cedo desempenhou na ESBAL, na Faculdade de Arquitectura e mais tarde na Universidade Autónoma) tornou-se conhecido o desafio que lançava aos seus alunos, o de construírem edifícios sem gravidade e sem programa – só assim, na procura pela essencialidade a relação entre a forma e o território é mais acentuada e mais estruturada.

Na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, a relação é muito forte com a paisagem, talvez porque Carrilho da Graça a contrapõe de modo a criar um equilíbrio entre as duas margens da Segunda Circular.

 

Ana Ruepp