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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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    Minha Princesa de mim:

 
   A confidência da dama inglesa ao contador da história que silenciosamente vamos escutando, começa assim: A primeira palavra é a mais difícil. Há já dois dias que me preparo para ser totalmente clara e verdadeira: espero consegui-lo. Talvez você não compreenda ainda como posso explicar-lhe tudo isto, a si, um amigo. Mas a verdade é que não se passa um dia, nem sequer uma hora, sem que eu pense nesse acontecimento tão peculiar. E pode acreditar em mim, acreditar numa velha senhora: é insuportável fixarmo-nos durante toda a nossa vida num ponto preciso, num único dia dessa vida. Assim, tudo o que tenho para lhe contar abrange um simples período de vinte e quatro horas em sessenta e sete anos, e muitas vezes disse para comigo, pensando que estava doida: que importância tem termos, num qualquer dia, agido loucamente? Mas não é fácil desfazermo-nos disso a que, de modo incerto, chamamos consciência...
   Queres, então, Princesa, ouvir essa narrativa libertadora? É, quando a termina, que a, afinal, serena dama inglesa profere essa sentença, tal como, na carta anterior, eu te transmitira, ao dizer que, se fosse de profissão católica, então - confidencia - a confissão ter-me-ia permitido, desde há muito, libertar-me do segredo pela palavra - mas essa consolação está-nos interdita, e tento hoje, singularmente, absolver-me a mim mesma falando consigo... "Ai Freud, Freud!"- exclamava um jovem padre, meu amigo, que viajou pelo mundo e, sem nunca ter perdido bonomia nem humor, longe dos seus, como missionário morreu - "cá está mais uma a querer confessar-se!" Passo adiante, mais tarde, quiçá, talvez te escreva sobre essa prática. Agora mesmo, em tarde manhosa de domingo, regresso ao nosso Sigmund - perdão! Stefan! - Zweig, e à narrativa da sua dama inglesa. A senhora fora casada, desde os dezassete anitos - feliz e compensada por agradável vida, estatuto social e constantes viagens de lazer - durante vinte e três anos. E cedo tivera, de seu muito amado e atencioso marido, dois filhos, ambos já crescidos e operacionais quando, pelos seus quarenta anos de vida, enviuvara. Dois anos depois do triste desenlace, já sem crias que reclamassem a sua atenção e os seus cuidados, conta a senhora - que, como ela mesma confessa, fora sempre rica, ainda solteira, e bastante dona do seu tempo - no fundo, a partir desse instante, considerei a minha vida como totalmente insensata e inútil. O homem com que tinha partilhado cada hora e cada pensamento durante vinte anos tinha morrido, os meus filhos não precisavam de mim; temia destruir a juventude deles com os meus soturnos pensamentos e a minha melancolia - pois que, quanto a mim, já nada mais desejava nem queria. Fui primeiro a Paris, onde, para matar o aborrecimento, ia a lojas e museus. Mas a cidade e as coisas eram-me estranhas, evitava as pessoas porque não aturava os seus olhares de polida compaixão pelo meu luto. Não posso explicar-lhe como se passaram esses meses errantes, flutuantes e tristes. Só me lembro de que queria morrer, sem ter coragem de, por mim mesma, precipitar esse tão desejado fim. 
   É lembrada do defunto gosto do marido pela visita a casinos, que a viúva, para se distrair e libertar de fantasmas excessivamente melancólicos, vai parar em Monte Carlo. Na sua primeira visita às salas de jogo da sorte, recorda-se, pelo indiferente cansaço dos rostos à sua volta, do que o ente querido e perdido, amante de quiromancia ou ciência das mãos e linhas de vida, lhe ensinara a observar à mesa de um casino: nunca olhar para um rosto, mas somente para o espaço quadrado da mesa e, aí, tão só para as mãos das pessoas e seus singulares movimentos... É empolgante, de tão bem escrito, o texto do contador Stefan Zweig, a tal ponto que, se começasse agora a traduzir-to, nunca mais pararia... Mas gostaria que um dia lesses a expressão desse fascínio que a narradora vai sentir pela expressão das mãos do jovem jogador sentado à sua frente, como se elas fossem prenunciadoras de uma viagem louca, tão louca que poderia terminar em roleta russa, mais louca ainda porque levará, não apenas um, mas dois seres humanos, a uma vertigem de montanha, veloz e russa também, que durará vinte e quatro horas. No que eu me meti, Princesa de mim, eu, vê tu bem!, que, como qualquer gato, tanto gosto de dormitar no meu cantinho... As mãos do jovem senhor - que, dir-nos-á adiante o contador, é um aristocrata polaco que ganhara, por ter aceite de um tio a ocasião e o dinheiro para apostas e jogos de azar, presente oferecido para celebrar os excelentes resultados que obtivera no concurso de admissão à carreira diplomática, o vício incontrolável da batota - aquelas mãos tinham gestos mágicos, que escancaravam uma alma e mostravam a torrente de sentimentos que a percorria. Ora eram ousadas no lançamento das fichas e das maquias apostadas, ora expectantes no decurso das jogadas, ávidas na recolha dos ganhos, raivosas nas perdas. Até ao momento em que ele tudo perde, como narra a dama: nesse segundo, ambas as mãos se abateram subitamente, como dois animais trespassados pela mesma bala. Ambas caíram, verdadeiramente mortas, e não simplesmente extenuadas, tombaram com tão desenhada expressão de abandono, de decepção, como fulminadas, acabadas, tanto e a tal ponto que não há palavras para dizê-lo. Mas diga-se que, nunca jamais, nem antes nem depois, eu vira mãos tão expressivas, em que cada músculo era uma boca e onde quase se sentia a paixão transpirar pelos poros. Depois, ambas elas se quedaram desfalecidas sobre a mesa verde, ao jeito de medusas rejeitadas à beira da água, inertes e mortas. A veemência expressiva daquelas mãos fixa o olhar e vai prendendo a atenção cardíaca da dama que, em momento de maior emoção do jogo, procurará ver o rosto desconhecido do dono delas. E, cheio de ansiedade e de medo, o meu olhar trepou lentamente pelas mangas, até aos ombros estreitos. E logo me sobressaltei: esse rosto falava a mesma linguagem destravada, fantasticamente enfática, das mãos, irradiava a mesma contumácia terrível na aparência, com a mesma beleza delicada e quase feminina. Jamais eu vira rosto assim, desse modo arqueado para fora de si, a si mesmo arrancado, e podia agora contemplá-lo, como se fora uma máscara, uma escultura desprovida de olhar... Volúvel, a sorte do jogo foi variando, até deixar o jovem - que andaria pelos vinte e quatro anos de idade - sem ter sequer uma nota ou moeda para arriscar novamente. Então se ergue, titubeante, derrubando a cadeira, e sai da sala, cambaleando entre gente atónita ou indiferente. Perante a cena, fiquei petrificada. E logo compreendi que aquele homem caminhava para a morte. Impulsiva, automaticamente irá atrás dele, sem ciência nem plano de acção. Persegue-o: por instinto maternal salvador? por solidariedade humanitária? por imperativo evangélico? ou por inconsciente, obscuro desejo? Não o sabemos ainda, é impossível discernir razões quando o único motivo que podemos entrever é uma qualquer obsessão, a nossa consciência concentrada e esgotada numa só paixão (objectiva? subjectiva?),  desta se fazendo a realidade inteira. Deixo-te, Princesa de mim, suspensa na curiosidade premente das respostas possíveis ou factuais, bem como da última, da definitivamente reconhecida. Acabarei a história na próxima carta.
   Mas termino esta com algumas citações que são lembranças dessa perseguição que nos movem as paixões, as tentações, todos esses surpreendentes impulsos que não conseguimos cabalmente explicar, e que, por aí, vagamente e com suspiros, resumimos na sucinta designação de obscuro objecto do desejo... Assim, Georges Bataille, homem devasso, que foi católico e, perdida a fé, ateu convicto, sentiu, todavia, sempre uma obsessão religiosa pelos interditos: encanta-nos a transgressão do interdito...   ...o ser humano é intimamente trabalhado pelo desejo de se virar do avesso... E Sigmund Freud dizia que o eu mesmo não é senhor em sua própria casa, e, pensando em Leonardo da Vinci, afirmou que se faz investigação em vez e lugar de amar, e que a arte procura apagar desejos não resolvidos, e, o artista, libertar-se... Santo Agostinho, recorrendo à sua própria teologia do pecado original, dirá que a condenação de Adão se traduz em tornar o homem carnal no seu espírito...    ...Mas, de modo nenhum, é o homem o seu próprio senhor, posto que, estando em desacordo consigo mesmo, em vez de usufruir a liberdade que desejou, se sujeitou a uma escravidão dura e miserável, sob as ordens daquele a quem, pecando, obedeceu. Diferem os pontos de vista, serão diversas as explicações dadas, mas há concordância em que a escuridão tem muita força. Quanto a mim, gato velhote e borralheiro, vou ressonando, aparentemente descansado e alheio, intimamente repetindo comigo: como é que nessa sombra densa, tão fechada, que nos habita (ou em que habitamos?), o mal seja capaz de tanto bem, e o bem de tanto mal? Deixo-te a pensar, até voltar à dama que se confessa.
 
         Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira