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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIOLÊNCIA VÃ DA ESPERANÇA

 

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Helgi desmontou do seu cavalo e acocorou-se inclinado sobre a toalha líquida que ficara sobre a areia onde se espraiara a onda. Atento a esse espelho, interpretou-se como um refugiado de si na procura dos sinais do além. Já percorrera florestas, planícies, bosques fechados aos próprios enigmas e nunca vira no seu caminho figura humana: de companhia só as perguntas fundamentais. Por muito que cavalgara no seu cavalo negro, nunca Helgi descobrira até então aquilo que afinal saíra a procurar. Afinal qual o sentido do seu viver? Estava no mundo, assim, dentro da sua armadura e procurava.

Depois de uma fria noite de sono, ao relento, tendo apoiado a cabeça sobre o arção da sela e com a espada desembainhada a seu lado, acordou e distinguiu na praia o esqueleto de um monstro marinho, um licorne dos mares. Sentiu de repente que a simples coragem não lhe retirava o medo do que sentia como nefasto ter encontrado. Foi quando uma mulher de grandes olhos e longos cabelos o fitou, apercebendo-se logo o cavaleiro que a mesma língua não partilhavam. Helgi recordou de imediato, ao olhar a rapariga, o quanto na sua juventude sempre achara que o simples facto de olhar, com profundo desejo alguém, retirava ao ser cobiçado algo que nunca mais o deixaria igual. Assim a silhueta de Sigrun dentro dele se ia adensando. Seguiu-a desde logo, entrou no veleiro dela com o seu cavalo, e na ilha que os aguardava, de archotes na mão, penetraram numa gruta cuja luz da cúpula os encantava. De repente, eis o que procurava: agarrou de imediato o Graal olhando o seu fundo, no qual viu assombrado, não o seu reflexo, mas os tempos dos primórdios. Sigrun sorriu-lhe e num gesto, pediu-lhe que se desembaraçasse do aço que o cobria. Logo se amaram. Logo a eternidade do momento de graça fazia-se física num tremer horrendo da montanha que se desfazia e cujas pedras os selara na gruta definitivamente.

O Graal negava-se, por fim.

Helgi mostrou então a Sigrun a sua adaga, e, antes da solução de ambos, ainda tomou o Graal, e no seu fundo, nem sequer uma pergunta do seu ser vislumbrou resposta. Expunham-se claramente, e tão só, as vertiginosas cenas apocalípticas do futuro.

Isto é o que me lembro Luisa, quando de frente para mim li este conto. É muito bom sentir-te sossegada a escutá-lo como se não tivesses 27 anos. Ao mesmo tempo, digo-te, eu, que já tanto persegui os meus passos, encontro sempre - neste conto de António Bracinha Vieira, que te relatei de memória -, a pergunta, do como é possível ser tão cerrada a floresta e a experiência dos trilhos secretos tão exposta?

Sabes, nem eu sei o quanto neste relato de conto que ouviste, é meu, do escritor, do cavaleiro, do veleiro, do amor na gruta, do licorne ou do palácio dos sempre iniciados que conhecem a vida.

Ah! dormes. Que bom! Vou também fechar os olhos, pois para mim foi de luz excessiva o que te relatei, e o guia fui eu. É minha a reivindicação das ideias que concluo. O ritmo é que, às vezes, me cansa. Ou as texturas?, não sei.

 

Teresa Bracinha Vieira
2016