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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


 

O Bairro de Alvalade de Faria da Costa
 

A urbanização de Alvalade surgiu na sequência da expansão de Lisboa para a zona planáltica a norte – possibilitada desde 1882. Integrado no Plano Director, elaborado por Étienne de Gröer em 1938, o designado plano de urbanização ‘da Zona a Sul da Alferes Malheiro’ ou do ‘Sítio de Alvalade’ vai surgir em 1945, com uma área de 230 ha, alojando 45 mil habitantes.

A urbanização, desenhada por João Guilherme Faria da Costa, arquitecto urbanista municipal, é limitada a norte pela Avenida Alferes Malheiro (actual Av. Brasil), a nascente pela Avenida do Aeroporto (Av. Gago Coutinho), a poente pelo Campo Grande e Rua de Entrecampos e a sul pela via férrea.

Esta acção de intensa transformação urbana, visava atenuar o contínuo agravamento da crise habitacional, através do condicionamento e redução das rendas das habitações, remodelando qualificadamente a zona central da cidade e o seu trânsito urbano. Sendo assim, o plano de Alvalade pretende associar pureza, clareza e simplicidade à nova vida do trabalhador.

A Avenida de Roma, a Avenida dos Estados Unidos da América e a Avenida da Igreja são os arruamentos principais, separando as oito unidades de vizinhança ou células habitacionais, estrutura base desta urbanização. Cada célula, destinada a 5000 habitantes, é constituída por uma clara hierarquia de vias (principais, secundárias e impasses) e por quarteirões semi-abertos desenhados em torno de uma escola primária.

As dimensões médias de cada célula foram fixadas tendo como referência a distância das habitações à escola – 500m. As ligações entre as habitações e a escola são facilitadas pela existência de pequenas veredas, destinadas somente aos peões, que atravessam os logradouros.

A urbanização propunha pela primeira vez, edifícios colectivos de quatro pisos destinados a habitação social, apoiados numa série de equipamentos sociais. Integrou variados regimes de construção, desde as casas de renda económica financiadas pela Previdência, até às casas de renda limitada e de renda livre. Entendeu-se essencial fomentar a coexistência de diversas categorias sociais no interior de cada célula, assegurando a viabilidade económica do plano – os lotes de maior custo localizaram-se nos terrenos marginais das artérias principais.

As moradias unifamiliares de rendas económicas ocupam uma célula própria – moradias geminadas consideram uma zona destinada a uma pequena burguesia e uma outra zona, com lotes de dimensão mais generosa, destinada a uma alta burguesia.

Os projectos tipo de arquitectura são elaborados por Miguel Jacobetty Rosa e Fernando Silva, estabelecendo diferentes tipos de casas de renda. Existem nove tipos de casas de renda económica, resultantes de um estudo elaborado por Miguel Jacobetty, agrupadas em três séries de três tipos cada – as séries diferenciam-se pelo número e área de espaços e os tipos diferenciam-se pelo número de quartos por fogo. Nas artérias principais situam-se as construções de maior renda.

Os diversos regimes de renda (nomeadamente a modalidade do prédio de rendimento com renda limitada) permitiram variações ao plano como se verifica nos conjuntos urbanos da Avenida de Paris e Praça Pasteur (de Alberto Pessoa, Chorão Ramalho, José Bastos e Lucínio Cruz de 1947), da Av. João XXI (de José Segurado, Joaquim Ferreira, Filipe de Figueiredo e Sérgio Gomes), da Avenida da Igreja (de Fernando Silva) e do Bairro S. Miguel (de Jacobetty Rosa e Sérgio Gomes).

O zonamento funcional modernista encontra-se expresso no Plano, sobretudo, no que diz respeito à existência de células exclusivamente habitacionais (integrando apenas os equipamentos escolares e zonas de lazer); células comerciais e células de indústria/artesanato. As zonas comerciais são localizadas em condições de fácil acesso (alguns dos estabelecimentos ocupam os pisos inferiores dos edifícios habitacionais nas artérias mais importantes e movimentadas). Os espaços livres públicos incluem campos de jogos e locais de recreio.

Dentro do tecido de Alvalade, respondendo a uma burguesia ansiosa por uma vida moderna, a partir do início da década de 50, vão constituir-se alterações ao plano inicial e experimentam-se propostas que respondem aos desígnios mais puros da Carta de Atenas pela mão de arquitectos mais jovens – conjunto habitacional ‘Bairro das Estacas’, concebido entre 1949-55, dentro da célula 8 por Formosinho Sanchez e Ruy Jervis d'Athouguia; a Escola

Primária do Bairro de S. Miguel (1956-57) e a Escola Secundária Padre António Vieira (1959), desenhadas por Rui Jervis d’Athouguia; o conjunto urbano na Avenida dos Estados Unidos da América, de 1956, por J. Croft de Moura, Henrique Albino, N. Craveiro Lopes; e o conjunto urbano à Avenida do Brasil em terrenos do Montepio Geral por Jorge Segurado, em 1958.

Através do exemplo de Alvalade entende-se a vontade de Duarte Pacheco em valorizar o desenho do espaço colectivo e em dar expressão à cidade.

Ana Ruepp