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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Minha Princesa de mim:
 

É hoje dia de silêncio. Aguardo o que, sei-o bem, irá acontecer. Sempre recordo, em Sábado Santo, essa frase de São Paulo que tantas vezes repito, desde que a decorei na versão da vulgata latina: Fides est substantia sperandarum rerum. Este é o dia do ano em que mais sentidamente vivo, no íntimo de mim, a fé como substância, isto é, ser ou realidade das coisas que devemos esperar. Sento a minha alma à beira de um túmulo, sabendo já que todas as tumbas do mundo estão doravante vazias. Espero. Não no sentido de experimentar esperança, mas no de aguardar. Aguardo a visão da vida que tenho como certa. Nunca nada me falou tanto como o silêncio deste dia.

E tenho medo, Princesa, tenho mesmo medo de confessar, ainda que a ti apenas, como a idade (será a idade?) me empurra para o silêncio, para o gosto visceral, intrínseco, do silêncio. Este novo parágrafo da minha carta, quando confesso o meu receio, escrevo-o muito depois do primeiro, dezasseis horas, talvez. Assisti ao início da cerimónia da Vigília Pascal, na Sé de Lisboa. Nada tenho a dizer, nem comentar, sobre os fiéis ali presentes, nem sobre quem "oficiou", muito embora não goste do verbo entre aspas. Mas não resisto a falar-te do meu sentirpensar isso tudo... Há sessenta anos, ou mais, Princesa de mim - brincarias tu com bonecas - já eu participava, maravilhado, e submisso a uma graça especial, na liturgia católica do Tríduo Pascal, em convento de dominicanos. Na confusão fotográfica desse passado, lembro-me dos meus amigos de liceu, da faculdade, da JUC (o Sousa Franco, o Miguel Galvão Teles, já falecidos, e aqueles que não nomeio porque ainda os visito), mas também dos nossos seniores, sobretudo os do grupo da Moraes (uns que já partiram, como o António Alçada Baptista,o João Bénard da Costa), do Pedro Tamen, e do Nuno Cardoso Peres (frei Mateus), de tantos outros... Fiz, nesses tempos, era eu quase miúdo, grandes amigos, desde frades como o Bento Domingues a aventureiros de Deus e outras coisas como o Nuno de Bragança... E tantos outros, em redor do estudantado dominicano de Fátima, ou da sua igreja de Cristo Rei, no Porto: o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, e quantos mais... Toda uma vontade de mudança, sentida da direita à esquerda! Nessa altura, eu adorava o rito litúrgico, sabia latim, deixava-me envolver pela magia dos gestos antigos de uma celebração que me falava, me dizia coisas que eu entendia, que cabiam num mundo interior que eu percebia também fora de mim...como mundo possível! Perdoa-me esta insistência, talvez não entendas logo o que quis dizer: isso das coisas que eu entendia, que cabiam num mundo interior que eu percebia também fora de mim... Estou a bater no ponto: o que, afinal, te quero dizer é a minha dificuldade actual em me integrar, de coração aberto, em cultos celebrados como epifenómenos da vida das pessoas. Não comprometem ninguém, para além das declarações de princípios - que depois serão feitas, de consciência tranquila e auto satisfeita, alheia à tremenda agitação dos dramas de tantas outras almas neste mundo - não sinto nestas cerimónias tão cuidadosamente rituais, qualquer sopro interior que viesse animar a saída para a rua, a sujar de lama os pés, a cometer imprudências e erros, pela força do mesmo amor que, depois, os recuperará... As nossas igrejas parecem ter um bengaleiro à porta, onde deixamos as nossas vidas à entrada e as recuperamos à saída. E quando somos duas coisas, uma delas é necessariamente incolor. A Igreja parece-me um clube fechado, os nossos horizontes encerram-nos nas redes de incomunicação social programada.

Naquele tempo de que te falava, éramos novatos, mas ardíamos por que o nosso entusiasmo renovador se comunicasse. Os nossos horizontes não terminavam em Portugal: viajávamos muito, falávamos e líamos línguas várias, éramos curiosos e aspirávamos os ventos que traziam sinais dos tempos, acompanhávamos a renovação das artes (incluindo a arte sacra) e as novas correntes de pensamento social, económico e político, o lançamento das Comunidades Europeias e da EFTA... A notícia do Vaticano II foi uma festa! Eu até traduzia Teilhard e outros, incluindo teólogos para a versão portuguesa da revista Concilium.  A minha alma estava em harmonia com o mundo, tal como  os corações daqueles que acima nomeei e de muitos outros... Não éramos contra nada nem ninguém, nem estávamos sempre de acordo, éramos pelo bem de tudo e todos. Fosse o que fosse, até de nós, que tivesse de ficar pelo caminho como quando assinávamos documentos ao jeito do dos 101. Eu era um miúdo, já te disse, da vida só sabia que um dia, um qualquer dia, há de ser um dia claro... Há poucos anos ainda, outro grande amigo dos católicos desse tempo (e da gorada primavera marcelista) - o Rogério Martins - me dizia, com saudade sincera: "Nós acreditávamos num mundo melhor, tínhamos esperança!"

Ainda não o vi, esse claro dia. Mas é esse o dia que espero e aguardo. O dia certo, esse certo dia que há de vir. Ao leres-me, Princesa, não adivinharás a imensa alegria, nem a tão sentida dor com que te digo tudo isto. Pouco importa, as saudades são presenças por vir. Um dia, tu também perceberás que, afinal, chegamos sempre onde fomos. Eu não me incluo, hoje, entre os Nós, os vencidos do catolicismo... Antes me junto àqueles que, com o papa Francisco, ainda acreditam que a ternura de Deus pode levantar-nos do chão.  

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira