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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

O Plano dos Olivais Norte e Sul.
 

Desenvolvido entre 1955 e 1958, por José Sommer Ribeiro, Pedro Falcão e Cunha e Guimarães Lobato, o Plano dos Olivais Norte corresponde à célula V do estudo de Urbanização de Olivais elaborado e controlado por serviços do município de Lisboa através do Gabinete Técnico de Habitação (GTH).

Construído nos terrenos expropriados ao abrigo do regime dos ‘Centenários’ – que coincide com a vontade de qualificar Lisboa para a Exposição do Mundo Português, em 1940 – o Plano dos Olivais Norte está situado a noroeste do Bairro da Encarnação.

O propósito moderno e internacional do plano enfatiza o papel intervencionista do arquitecto na sociedade, que agora actua segundo uma causa e não segundo um estilo. O plano de Olivais Norte contribui para eliminar a sociedade desigual – é possível fazer da arquitectura e do urbanismo o principal motor de organização da vida. É este o desígnio que ignora a cidade tradicional, com quarteirões, ruas e praças. É agora mais importante considerar o bloco colectivo (em banda e em torre), elevado, isolado, delimitado por vias e espaço verde.

Seguem-se os desígnios da Carta de Atenas que determinam, para todos, o usufruto em igualdade de condições de espaço, luz e ar, em todas as actividades – trabalho, habitação, lazer, circulação. 

Olivais Norte apresenta um esquema que separa os peões dos veículos. Os blocos implantam-se isolados e livres, em extensos e planeados espaços verdes, permitindo aos projectistas uma maior independência e consequente liberdade formal e tipológica. As funções distribuem-se zonificadas. As actividades comerciais, de cultura e de recreio concentram-se no centro cívico e a escola surge como um elemento segregado.

O Plano pretende colmatar carências habitacionais verificadas em Lisboa. As habitações sociais consideram quatro categorias que determinam diferenciadas rendas de aluguer. As categorias I e II associam-se a edifícios de quatro pisos e as categorias III e IV a edifícios de oito e doze pisos.

A difusão da Carta de Atenas experimentada na reconstrução de algumas cidades europeias no pós-Guerra, demonstrou-se frágil, sobretudo pelo racionalismo mecanicista que representou. O modelo caracterizava-se pelo Planeamento Funcionalista e pelo zonamento do seu tecido em funções especializadas, segregadas e controladas a partir da gestão e do investimento público.

Surgiu, consequentemente, uma contestação ao Estilo Internacional.

Olivais Sul, confinado a Norte pelo Bairro da Encarnação e Olivais Norte, a Sul por Chelas, a Nascente pela faixa industrial desenvolvida ao longo da Avenida Infante D. Henrique e a Poente pelo Aeroporto da Portela, é a formalização crítica a certos princípios da Carta de Atenas, afirmando sobretudo ideais das New Towns Inglesas e dos bairros INA-CASA inseridos no movimento neo-realista italiano.

Foi igualmente construído ao abrigo do regime dos ‘centenários’ e realizado pelo Gabinete Técnico de Habitação e elaborado em 1960/1961 pelos arquitectos Rafael Botelho, Carlos Duarte, Mário Bruxelas, Celestino de Castro e  António Pinto de Freitas.

A alternativa urbana de Olivais Sul, pretendia-se mais humana, sobretudo pelo uso de materiais locais ainda que associados à prática moderna, onde se reintroduzem conceitos de lugar, de continuidade tipológica e de identidade cultural.

O plano ensaia um modo de vida associado à diversidade, humanizando a cidade rodeada de verde, dando importância ao sítio, definindo comunidades sociais na sua verdade mais pura. Sendo assim, as novas gerações de arquitectos exploram agora temas respeitantes à realidade quotidiana, circunstancial e concreta, exprimindo a preferência por formas arquitectónicas populares que denunciam um regresso às formas da cidade tradicional.

Os edifícios adaptam-se ao sítio e ao clima – as janelas abrem-se mais pequenas. Os materiais são mais reconhecíveis (a telha e o tijolo)

Procura-se uma estrutura urbana extensível através de unidades mínimas de vida autónomas, diferenciadas, hierarquizadas e organizadas em torno de um equipamento ou comércio local. As habitações sociais consideram quatro categorias agrupadas, por unidade de vizinhança, nas categorias I e II e nas categorias III e IV. As tipologias utilizadas são os blocos isolados, torres, bandas contínuas, edifícios com galerias piso a piso e m moradias unifamiliares.

O edificado descontínuo obedece a um jogo de volumes, regrado por um Plan de Mass e a mistura de tipos e de formas era mesmo encorajada. A cada grupo habitacional corresponde um arquitecto. Numa mesma célula, cada unidade podia apresentar um carácter urbano distinto. Este método diferiu do considerado para Olivais Norte, onde cada arquitecto tinha um edifício e não uma zona capaz de formar por si só um lugar. 

Ana Ruepp