Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 grand-place.jpg 

   Minha Princesa de mim:
 

   A casa da nossa família, em Bruxelas, como sabes, foi requisitada para alojamento de oficiais alemães, quando estes entraram na capital belga, na 2ª Grande Guerra. Todos nós ouvimos contar aquele episódio da Avó Ana Maria Adelaide ter mandado colocar, no topo da escadaria da entrada, um cadeirão em que se sentou, ladeada dos seus lobos de Alsácia, para explicar, no seu impecável alemão, ao comandante do grupo, que eles ocupariam os andares inferiores e ela lhes exigia disciplina de hóspedes. Ao que parece, tudo, depois, foi correndo sem percalços, os três oficiais mais graduados jantariam, uma vez por semana, com os senhores da casa, já que um deles era nosso familiar. Aquando da derrota nazi e da retirada germânica, os mesmos oficiais vieram agradecer a hospitalidade, como se ela não tivesse sido imposta. E um deles - não revelo o seu nome - ofereceu à tia Bertha Eugenia o seu violino Stradivarius, em sinal de apreço e gratidão. Outros tempos, outros gestos, outra educação, mas já nem sequer estávamos no fim de uma época como aquela que terminara com a hecatombe da 1ª Guerra: só por inesperado e intemporal acaso acontecera naquela casa da Avó um encontro ao gosto da Grande Ilusão do Jean Renoir... Grande filme! Talvez tivesse havido uma direiteza elegante de princípios, essa qualquer coisa a que quiçá se chamou ética aristocrática. Não posso assegurar que tal tivesse existido, já que também vi tanta aristocracia em debandada de princípios e gozo de deboches vários. Apenas sei que tenho saudades dessa direiteza elegante, sobretudo pelo gosto do bem haja e o respeito do outro, esse raro modo de ser, tal como a entendo...

   Assim também me comoveu a declaração de Sir Simon Rattle, à morte de Nikolaus Harnoncourt, violoncelista e maestro, nascido em Berlim, a 6 de Dezembro de 1929, como conde Johann Nikolaus de la Fontaine und Harnoncourt-Unverzagt, numa família austríaca e muito católica, descendente de huguenotes (protestantes franceses) e de arquiduques de Áustria. O palácio da família, em Graz, foi expropriado pelos nazis. Disse o maestro britânico, hoje director da Berliner Philarmoniker: Nikolaus, com a sua inesgotável e voraz curiosidade, deixa uma marca indelével na vida musical. O homem parecia "arder em música", e a sua chama propagava-se com irresistível intensidade...   ...Como aristocrata autêntico, tratava cada um de nós de igual para igual, experiência absolutamente desarmante para todos nós. Dirigia sem rede, contando apenas com o seu imenso conhecimento e as sua convicções...   ...Raras vezes encontrei uma prática musical com tão obstinada vitalidade. Meu querido Nikolaus, devemo-vos tanto! Que faremos sem vós? [In Diapason, nº 645, Abril de 2016].

   Esse carácter aristocrático de Nikolaus Harnoncourt ressalta, ainda que de outro modo, no editorial da revista Classica [nº 181, Abril de 2016], assinado por Bertrand Dermoncourt, que, depois de referir como, à pergunta "o que é um bom chefe de orquestra?", o austríaco respondera "Um Arquitecto!", cita um trecho do preâmbulo do livro O Discurso Musical, da autoria de Harnoncourt: Esta atitude face à música histórica  --  não a trazer para o presente, mas colocarmo-nos nós mesmos no passado -  é sintoma da ausência de uma música contemporanea verdadeiramente viva. Para encher o vazio que se criou, regressamos à música histórica...   ...Esta situação é absolutamente nova na história da música. Um exemplo pode ilustrá-la: se hoje baníssemos a música histórica das salas de concerto, para apenas darmos obras modernas, as salas em breve estariam desertas - quando a mesmíssima coisa teria acontecido, no tempo de Mozart, se se tivesse privado o público de música contemporânea, para apenas lhe oferecer música antiga... E o jornalista francês prossegue, por conta sua: A curiosidade pelo inaudito, o gosto da novidade, a fé na experimentação, eis algumas qualidades que para si reivindicam muitos criadores hodiernos. Mas Harnoncourt assumiu-as, de certo modo, retrospectivamente: foi moderno dando vida ao património. Terá falado uma língua do seu tempo, que todavia se conjugava no passado. Testemunha activa de uma desorientação, e até, segundo ele, de uma crise maior de civilização, Harnoncourt virou-se para o passado para dar uma oportunidade ao futuro.

   Jordi Savall - que lhe ficou a dever portas abertas à vida musical -  admirava-o muito, como praticante e teorizador. Diz dele: Não será  inútil recolocar o seu trabalho no seu contexto: aos fraseados demasiado "açucarados", ele respondia com articulações por vezes severas, reacção natural e saudável. A força das suas interpretações reflectia uma necessidade profunda. O público pode ter-lhe preferido retóricos mais sedutores, que afastam essa necessidade por agradáveis artifícios. Podemos gostar de um artifício, mas não viver com ele e por ele. A música de Harnoncourt transmitiu sempre essa necessidade vital.

   Talvez por sentir isso mesmo que Savall acaba de dizer, eu pus a tocar, quando soube da morte de Harnoncourt, a sua gravação, de Agosto de 2002, com a Wiener Philarmoniker, da 9ª sinfonia do Bruckner, tão cheia desse rigoroso entusiasmo íntimo que só uma alma ascética alcança.

   Grande homem, este, que, à pergunta do famigerado "questionário de Proust" sobre quem gostaria de ser, respondeu: São Francisco de Assis. Madre Teresa de Calcutá. De certeza que não quereria ser Napoleão. Talvez um bom amigo de Bach, tocando violino na orquestra dele. Bach que, para ele, formava, com Mozart, a parelha de compositores acima de todos os demais. O que não o impediu de gravar muitos outros, além desses dois. Com especial carinho recordo Bruckner e Beethoven, a cuja integral das sinfonias, com a Orquestra de Câmara da Europa, tantas vezes regresso. Aliás, Harnoncourt começara agora outra série das nove, com o Concertus Musicus, a orquestra que ele mesmo formou. Mas só nos deixou, gravadas em 2015, a 4ª e a 5ª. Desta, alguém disse que começa, não já com o destino a bater à porta, mas com o prisioneiro a sacudir as grades da cadeia: tã, ta, ta, tã! A estas horas, já Quem lhe terá dito: Aqui estou! 

       
                 Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira