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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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SIM


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Quando vejo aquelas aldeias cobertas de neve

Casas muito juntinhas

Lâmpadas acesas quais luzes de vida

Janelas embaciadas por diálogos de quente pão

Tudo me parece definir

Que todos desejamos

Aquele amor onde se apoia o frio

De quem não carece de sair de casa

Para viver o que o mundo já lhe oferece

Dentro

Em cobertores de nuvens que aconchegam

Qualquer olhar que os procure

Qualquer mão que se erga

Qualquer alma interrogada

Qualquer vida entreaberta

 

Teresa Bracinha Vieira
2016

 

 

ATORES, ENCENADORES - LXXII

  
Imagem: Diário de Notícias

 

BREVE EVOCAÇÃO DE FRANCISCO NICHOLSON

´Há menos de um mês, evocamos a carreira de Nicolau Breyner, por ocasião da sua morte.  (“Atores, Encenadores - LXVIII – 23 de março de 2016). Hoje, pouco mais de apenas três semanas decorridas, evocamos a carreira de Francisco Nicholson, falecido no passado dia 12 de abril. São dois atores da mesma geração, com carreiras paralelas e tantas vezes convergentes, na participação de espetáculos, na heterogeneidade de repertórios, na renovação da cena portuguesa, em que ambos participaram com destaque adequado e justificado pelo talento que também lhes era comum.

Francisco Nicholson (N. 1936) começou a fazer teatro aos 14 anos, ainda aluno do ensino secundário, nas iniciativas de António Manuel Couto Viana, e numa geração que abrangeria, mias tarde, atrizes e atores que marcaram o espetáculo em Portugal. Passou entretanto, ao longo de uma carreira de dezenas de anos, por grupos que são ainda hoje referencias no moderno teatro- espetáculo em Portugal. Destaco, no que respeita ao teatro declamado com exigências culturais, a ligação a companhias que marcaram época: a do Gerifalto, companhia duradoura de teatro infanto-juvenil, fundada e dirigida por Couto Viana, que encenaria peças de aurores marcantes como Fernando Amado, Natália Correia, Jaime Salazar Sampaio, Correia Alves, Norberto Ávila, alem de clássicos adequados ao publico infanto-juvenil.  E recordo ainda a Companhia Nacional de Teatro ou o Teatro Estúdio de Lisboa, dirigido por Luzia Maria Martins e Helena Felix.

E ainda a companhia que Raul Solnado criou para inaugurar o Teatro Villaret, isto em 1965:  tal como escrevi na época, “obra excelente, no bom gosto, no sentido de oportunidade, no completamento ideal de instalações”, até porque se trata de um teatro de bolso integrado num prédio em Lisboa: teatro em vez de lojas ou garagens. Por isso escrevi a propósito que “Lisboa tem uma sala potencialmente a mais rica, e desde já, a realidade consoladora de um lugar cénico em que todos, atores e espetadores, se sentem bem”…

Nicholson tinha estudado em Paris e a sua participação, durante anos, na companhia do Teatro Villaret, sob a direção de Raul Solnado, muito contribuiu para a qualidade e sentido de renovação dos espetáculos e em geral do meio teatral da época: estamos, recorde-se, em 1965. E até podemos evocar, para documentação do progresso que Solnado trouxe na época ao meio teatral português, que o Teatro Villaret se “desdobrava” em duas companhias e em duas temporadas simultâneas, perdoe-se a expressão paradoxal: pois ao mesmo tempo Jacinto Ramos dirigia, em matinés, o denominado “Teatro do Nosso Tempo” que na época constitui também uma renovação de elencos e repertórios, na simultaneidade de duas companhias e dois espetáculos absolutamente distintos no centro de Lisboa. Em qualquer caso, no Villaret, Nicholson integrou o elenco do “Inspetor Geral” de Nicolau Gogol.

A partir daí, a carreira de Nicholson prosseguiu numa abrangência de géneros e numa pluralidade de iniciativas muitas vezes inovadoras e sempre com qualidade. No Teatro ABC estreia como ator e também como autor de revista, em “O Gesto é Tudo” contracenando com Camilo de Oliveira e Eugénio Salvador. Percorreu os diversos teatros/espetáculos de revista, no Parque Mayer e um pouco por todo o país. E seria um dos fundadores da companhia do Teatro Adoque. Trabalhou também nos Teatros Monumental e Maria Matos.

Francisco Nicholson desenvolveu pois uma notável carreira, pela qualidade das interpretações como ator, pela qualidade dos textos como autor, mas também pela variedade de registos cénicos e dramatúrgicos abrangidos. E mais: como autor de poemas musicados por uma variedade assinalável de compositores e intérpretes, em espetáculos e concursos internacionais, em Portugal mas também pelo menos no Rio de Janeiro e em Atenas.

Foi um dos nomes marcantes na televisão, designadamente a partir de 1964, como autor e interprete em numerosíssimos programas e também como letrista e autor de telenovelas, que aqui não vamos elencar, mas que cobrem dezenas de anos de produção televisiva, sendo a primeira a “Vila Faia” na RTP.     

E finalmente, escreveu os guiões de dois filmes de Pedro Martins: “Operação Dinamite” (1966) e “Bonança e Cª” (1969).

 

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

A Queen for all seasons, 1926-2016

Mão amável envia-me um destes dias a fotografia de Jamie, um belo rebento com futuro aberto.  Os nascituros sempre contêm aquele quê de intrinsecamente maravilhoso pela potência do ser. O No. 17 Bruton Street de London W1 acolhe um destes momentos mágicos a 21 April 1926. Nasce Elizabeth Alexandra Mary, neta do King George V e sobrinha do Prince Edward of Wales.

 Na terceira linha de sucessão ao trono, a infanta é “a little darling with lively complexion and pretty fair hair” nas palavras da avó Queen Mary. Já um dos seus treze Prime Ministers diz que cedo revela “a star quality.” Sir Winston S Churchill é também um dos seus primeiros admiradores: “She has an air of authority and refletiveness astonishing in an infant.” Tais traços permanecem quando Her Majesty Elizabeth II assinala 90 anos de vida e cumpre o mais longo reinado de Great Britain. — Chérie! En petit champ croït bon blé. A Electoral Commission designa os grupos Vote Leave e Britain Stronger in Europe como mandatários das campanhas Exit e Remain no euroreferendo. Uma e outra ala ganham acesso a dinheiro público até £600,000, selos e debates. — Hmm! The eagles do not breed doves. O Turkish é official EU language. RH Jeremy Corbyn invoca o Primeiro Ministro de Portugal na adesão à eurofilia. Refrescando as memórias da Princess Diana na India, os Dukes of Cambridge posam no Taj Mahal. O Congresso do Brasil aprova o início do processo constitucional de impedimento da Presidenta Dilma Roussef. Pope Francis apela em Lesbos (Greece) à compaixão do mundo para com os refugiados, com exemplar regresso ao Vatican acompanhado de uma dúzia de sírios.

Clear skyes em Central London. Não sei se terão algo melhor para fazer nas tardes de Saturday, mas parece regressada a moda das marchas dos regular protestors em Westminster District para sombrear a tranquilidade nativa. O motivo destes festivais é duplo: contestar a política austeritária e os novos cortes nos apoios sociais; clamar pela demissão do Conservative Prime Minister. Singular é o visível dispositivo policial presente, uma coisa e outra, afinal, só servindo para esmoer libras e paciência aos contribuintes. Talvez animados pela cor que guarnece o ruído, hoje é a vez dos ativistas por cá realizarem uma demonstração prática de alpinismo: dois membros do Greenpeace UK escalam a Nelson's Column, em Trafalgar Square, para alertar contra a poluição do ar na metrópole. Pena que o seu conceito de qualidade ambiental seja restrito, num mapa de estátuas agastadas que soma as de Oliver Cromwell junto às Houses of Parliament e de Winston Churchill em Parliament Square. Acresce que, em tempos difíceis, a Met Police tem melhor agenda a acautelar vidas humanas e o comum dos Londoners manifestamente prefere festejar o Vivat Regina.

Em matéria de Politics, RH David Cameron e o seu treasure offshore continuam em foco apesar da descolagem oficial da campanha europeia (Yes, only now they all really started!…). Após o unprecedented step de divulgar a riqueza fiscal, o Prime Minister faz an unprecedented Commons statement on his personal finances. Aqui admite a responsabilidade pelos erros na comunicação sobre os Panama Papers e defende a honra do pai Ian como criador do Blairmore Holdings Inc – um fundo comercial e não um veículo de evasão a impostos, na sua visão. Revela detalhes das £31,500 em ações com chapéu panamiano, bem como porque as aliena à entrada para o No. 10 Downing Street: a transação gera um lucro de £19,000 em 2010 e visa evitar potencial conflito de interesses. Fecha com um hino a quantos “make money lawfully.” A declaração é fortemente ovacionada pela Tory Majority e sonoramente censurada pela Loyal Opposition. A animada sessão contém quer perguntas incómodas, quer incidente parlamentar para apimentar os registos no Hansard. Antes de convidado a sair do hemiciclo pelo Speaker John Bercow, entre apelos de “order, order,” RH Dennis Skinner (Labour MP por Bolsover desde 1970) aponta, nomeia e renomeia o PM como “Dodgy Dave.” No entretanto, mesmo em vésperas de London receber a Global Anti-Corruption Summit, em May 12th, HM Government anuncia pacote de medidas contra a evasão tributária e os paraísos fiscais.

Mas Monday é “a day for facts,” segundo afirma outro visionário de Whitehall. O Chancellor RH George Osborne apresenta nas páginas de The Times o que é classificável como o killer argument dos patronos da permanência do UK na união continental: a saída arruina o reino, “permanentely and significantly.” Em números e conforme a major Treasury report prontinho para sair a público: “Britain's national income could be 6% smaller by 2030.” Depois dos £9m gastos num 16-page booklet enviado para todas as caixas de correio nas ilhas, o No. 11 garante agora que “every household in Britain would be £4,300 a year worse off” numa década e meia. A reação dos Outers à conjetura é seca. “Scaremongering.” Melhor surge RH Jeremy Corbyn entre os Bremainers, quando o Mayor Boris Johnson ocupa o weekend em Brexit blitz com comícios em três cidades. Discursando na University College London, em plena Senate House de Gower Street, o Labour Leader antes hasteia a bandeira dos “workers’ rights” e sustenta que “there is a strong socialist case for staying in the European Union, just as there is also a powerful socialist case for reform and progressive change in Europe.”A batalha referendária ganha vigor com a entrada em cena da oposição trabalhista, uma hoste, aliás, sob o comando de um outro Johnson, o veteraníssimo Alan Johnson MP, bem como com adicional contendor de peso entre os Lefties: nenhum outro senão um outrora Bennite Euroceptic e ora relutante convertido: “I remain critical of EU shortcomings” No mais do indefinido voto de 23rd June: Only 65 days to go…

Se as conflicting views In/Out dominam o debate em Westminster, ofuscando ainda as eleições de May em Scotland, Wales, Northern Ireland e em London e nos local councils em England, preenchida está a agenda cultural. Três notas breves para enriquecer os dias. Assim: Mr Roger McGough CBE FRSL regressa à BBC 4 com nova série de Poetry Please, escoltando a tradicional competição Poetry by Heart. O British Museum acolhe os epocais Spring florals da National Gardening Week. E as Bodleian Libraries movimentam as 400 Shakespeare's Birthday celebrations. Oxford tem uma nova exposição sobre a vida e a morte na obra e tempos do bardo, pelos curadores Professors Simon Palfry e Emma Smith. Os Fellows dos Brasenose e Hertford Colleges acompanham a iniciativa com o livro Shakespeare's Dead, além do catálogo de enigmática mostra. Well! One sure thing would Master Will pen if he walked around in ourdays: Happy 90s birthday, Ma’am.

 

St James, 18th April                    

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de abril de 2016.

 

Acaba de ser dada à estampa a tradução portuguesa do livro «Conquistadores – Como Portugal criou a Primeiro Império Global», lançado em língua inglesa no ano passado e agora publicado em português (Editorial Presença, 2016 - com tradução de Jorge Freire e revisão técnica de José Manuel Garcia).

UMA HISTÓRIA MARÍTIMA
Roger Crowley (1951) é um historiador britânico, de Cambridge, experimentado na história das expedições marítimas, tendo escrito obras importantes sobre o Mediterrâneo, sobre a queda de Constantinopla de 1453, sobre Veneza e sobre os Impérios do Mar. A divulgação histórica tem sido uma tarefa desempenhada com sucesso por Crowley, sobretudo, porque procura basear-se na leitura da melhor bibliografia e no conhecimento dos fatores relevantes. Mais do que a originalidade na investigação, o motivo do sucesso das suas obras deve-se a uma ligação inteligente de elementos, que são apresentados ao público com clareza e vivacidade. O autor começa por referir como é bastante desconhecida no mundo a gesta marítima dos portugueses, ao contrário do que acontece, por exemplo, com Cristóvão Colombo. A partir daí, Roger Crowley procura, numa narrativa escorreita, bem documentada e com um ritmo muito atraente, contar como Portugal pôde construir um grande império marítimo, dando mesmo origem à primeira globalização económica. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Vasco da Gama abre novos horizontes nas relações entre continentes e no conhecimento do planeta Terra. E a verdade é que o autor do livro confessa, na prática, que ele próprio ficou surpreendido com o alcance de uma ação conjugada, que não poderia ter sido possível sem um grande rigor científico, sem uma tecnologia apurada e sem uma vontade determinada da governação de Portugal e o empenhamento dos portugueses. «Durante a exploração (diz o autor), os portugueses iniciaram infindáveis interações mundiais, tanto benignas como malignas. Trouxeram armas de fogo e pão para o Japão e astrolábios e feijão-verde para a China, escravos africanos para as Américas, chá para Inglaterra, pimenta para o Novo Mundo, seda chinesa e medicamentos indianos para todo o continente europeu e um elefante para o Papa. Pela primeira vez, os povos de lados opostos do planeta puderam ver-se, tornando-se alvo de descrições e de espanto. Pintores japoneses representaram estes visitantes estranhos em imagens, usando calças de balão enormes e chapéus coloridos»… O escritor refere no início e no fim da sua obra dois aspetos singulares. Por um lado, lembra, que durante trinta anos, no início do século XV, o imperador chinês Yongle, da recém-estabelecida dinastia Ming, enviara armadas pelos mares ocidentais, apenas para afirmar o poder do Império do Meio. As expedições foram seis em vida de Yongle e sete entre 1431 e 1433. Não houve tentativas de ocupação militar nem empreendimentos económicos, apenas uma afirmação de poder e influência. Em 1433, na sétima expedição, Zheng He, o mítico almirante muçulmano, morreu, talvez em Calecute, na costa da Índia e depois da sua morte as «jangadas estelares» não voltaram a navegar. A orientação política no Império da China mudara e, em lugar da abertura ao mundo, prevaleceu o isolamento e foi reforçada a Grande Muralha. «As viagens marítimas foram banidas e os registos destas destruídos». Neste primeiro caso, dá o autor nota de que aquilo que os portugueses fizeram ao abrir caminho para o conhecimento do planeta, poderia ter acontecido a partir da China. E a verdade é que os navios de Vasco da Gama caberiam num só dos juncos magnificentes de Zheng He. O segundo ponto que merece destaque é a nota final, algo irónica, em que Crowley refere o sucesso dos «Pastéis de Belém» nos dias de hoje. A esse propósito, estando em causa um lugar de atração em Lisboa para milhares de turistas, que vêm à praia de onde Vasco da Gama partiu e ao monumento que invoca esse momento único e heroico – os Jerónimos -, o escritor refere esse exemplo culinário como um verdadeiro símbolo do que foi a importante gesta dos «Conquistadores»: «as multidões acorrem aí para provar a sua especialidade, os pastéis de Belém (...). Comem-se salpicados de canela, acompanhados por café escuro como pez. Canela, açúcar, café: os sabores do mundo que ali chegaram em veleiros».

UMA HISTÓRIA POUCO CONHECIDA
A obra agora traduzida em português é destinada essencialmente a quem esteja longe do conhecimento do grande tema da obra magna do épico Luís de Camões. Nesse sentido, revela-se de grande pertinência. No entanto, também o público português ganha em ler, uma vez que se trata de um relato da autoria de alguém que tem estudado a história marítima do mundo e que, por isso, está em condições de abrir pistas para a compreensão da complexidade de uma gesta como aquela que os portugueses protagonizaram. E a leitura atenta da narração permite compreender-se que tudo só foi possível graças a uma convergência de fatores de vária índole – económicos, políticos, sociais, culturais e tecnológicos. Nada dependeu de um mero acaso ou de uma qualquer improvisação. Houve informação, conhecimento, ponderação, planeamento, determinação e convergência de esforços – e houve ainda dificuldades a superar, carência de recursos, efeitos de uma profunda crise e ecos da tremenda peste negra… «O destino e a sorte de Portugal foram não ter acesso ao Mediterrâneo, a arena movimentada do comércio e troca de ideias. Na orla da Europa e periféricos ao Renascimento, os portugueses podiam apenas olhar invejosamente para a riqueza de cidades como Veneza e Génova, que tinham assumido posições dominantes no mercado dos bens de luxo vindos do Oriente: especiarias, seda e pérolas, comerciando com as cidades islâmicas de Alexandria e Damasco e vendendo os produtos a preços monopolistas. Portugal, porém, estava virado para o mar». Roger Crowley vai conduzir os seus leitores a partir dessa singular circunstância – uma costa marítima aberta e um modo novo de pensar, que Jaime Cortesão liga aos fatores democráticos e ao franciscanismo… A parte I trata do reconhecimento, ou seja, da identificação da rota marítima para as Índias. A parte II fala-nos de um conflito que envolve os monopólios do comércio mundial e a guerra santa. A parte III refere-se à conquista, invocando o «Leão dos Mares» - é Afonso de Albuquerque de quem aqui se fala, como figura contraditória, portadora de uma vontade férrea e de uma visão estratégica fundamental. Aqui notam-se as contradições políticas do reino. D. Manuel terá tido consciência do que estava em causa -. Entre a lógica nacional e a descentralização mercantil. Goa, Ormuz e Malaca são centros cruciais, que Albuquerque define… E há um sonho providencial, que se vai desvanecer perante a distância e a ilusão dos ganhos fáceis dos «fumos da Índia». Uma história de claros e escuros a merecer atenção prospetiva!  

 

 Guilherme d'Oliveira Martins 
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:
 

   A casa da nossa família, em Bruxelas, como sabes, foi requisitada para alojamento de oficiais alemães, quando estes entraram na capital belga, na 2ª Grande Guerra. Todos nós ouvimos contar aquele episódio da Avó Ana Maria Adelaide ter mandado colocar, no topo da escadaria da entrada, um cadeirão em que se sentou, ladeada dos seus lobos de Alsácia, para explicar, no seu impecável alemão, ao comandante do grupo, que eles ocupariam os andares inferiores e ela lhes exigia disciplina de hóspedes. Ao que parece, tudo, depois, foi correndo sem percalços, os três oficiais mais graduados jantariam, uma vez por semana, com os senhores da casa, já que um deles era nosso familiar. Aquando da derrota nazi e da retirada germânica, os mesmos oficiais vieram agradecer a hospitalidade, como se ela não tivesse sido imposta. E um deles - não revelo o seu nome - ofereceu à tia Bertha Eugenia o seu violino Stradivarius, em sinal de apreço e gratidão. Outros tempos, outros gestos, outra educação, mas já nem sequer estávamos no fim de uma época como aquela que terminara com a hecatombe da 1ª Guerra: só por inesperado e intemporal acaso acontecera naquela casa da Avó um encontro ao gosto da Grande Ilusão do Jean Renoir... Grande filme! Talvez tivesse havido uma direiteza elegante de princípios, essa qualquer coisa a que quiçá se chamou ética aristocrática. Não posso assegurar que tal tivesse existido, já que também vi tanta aristocracia em debandada de princípios e gozo de deboches vários. Apenas sei que tenho saudades dessa direiteza elegante, sobretudo pelo gosto do bem haja e o respeito do outro, esse raro modo de ser, tal como a entendo...

   Assim também me comoveu a declaração de Sir Simon Rattle, à morte de Nikolaus Harnoncourt, violoncelista e maestro, nascido em Berlim, a 6 de Dezembro de 1929, como conde Johann Nikolaus de la Fontaine und Harnoncourt-Unverzagt, numa família austríaca e muito católica, descendente de huguenotes (protestantes franceses) e de arquiduques de Áustria. O palácio da família, em Graz, foi expropriado pelos nazis. Disse o maestro britânico, hoje director da Berliner Philarmoniker: Nikolaus, com a sua inesgotável e voraz curiosidade, deixa uma marca indelével na vida musical. O homem parecia "arder em música", e a sua chama propagava-se com irresistível intensidade...   ...Como aristocrata autêntico, tratava cada um de nós de igual para igual, experiência absolutamente desarmante para todos nós. Dirigia sem rede, contando apenas com o seu imenso conhecimento e as sua convicções...   ...Raras vezes encontrei uma prática musical com tão obstinada vitalidade. Meu querido Nikolaus, devemo-vos tanto! Que faremos sem vós? [In Diapason, nº 645, Abril de 2016].

   Esse carácter aristocrático de Nikolaus Harnoncourt ressalta, ainda que de outro modo, no editorial da revista Classica [nº 181, Abril de 2016], assinado por Bertrand Dermoncourt, que, depois de referir como, à pergunta "o que é um bom chefe de orquestra?", o austríaco respondera "Um Arquitecto!", cita um trecho do preâmbulo do livro O Discurso Musical, da autoria de Harnoncourt: Esta atitude face à música histórica  --  não a trazer para o presente, mas colocarmo-nos nós mesmos no passado -  é sintoma da ausência de uma música contemporanea verdadeiramente viva. Para encher o vazio que se criou, regressamos à música histórica...   ...Esta situação é absolutamente nova na história da música. Um exemplo pode ilustrá-la: se hoje baníssemos a música histórica das salas de concerto, para apenas darmos obras modernas, as salas em breve estariam desertas - quando a mesmíssima coisa teria acontecido, no tempo de Mozart, se se tivesse privado o público de música contemporânea, para apenas lhe oferecer música antiga... E o jornalista francês prossegue, por conta sua: A curiosidade pelo inaudito, o gosto da novidade, a fé na experimentação, eis algumas qualidades que para si reivindicam muitos criadores hodiernos. Mas Harnoncourt assumiu-as, de certo modo, retrospectivamente: foi moderno dando vida ao património. Terá falado uma língua do seu tempo, que todavia se conjugava no passado. Testemunha activa de uma desorientação, e até, segundo ele, de uma crise maior de civilização, Harnoncourt virou-se para o passado para dar uma oportunidade ao futuro.

   Jordi Savall - que lhe ficou a dever portas abertas à vida musical -  admirava-o muito, como praticante e teorizador. Diz dele: Não será  inútil recolocar o seu trabalho no seu contexto: aos fraseados demasiado "açucarados", ele respondia com articulações por vezes severas, reacção natural e saudável. A força das suas interpretações reflectia uma necessidade profunda. O público pode ter-lhe preferido retóricos mais sedutores, que afastam essa necessidade por agradáveis artifícios. Podemos gostar de um artifício, mas não viver com ele e por ele. A música de Harnoncourt transmitiu sempre essa necessidade vital.

   Talvez por sentir isso mesmo que Savall acaba de dizer, eu pus a tocar, quando soube da morte de Harnoncourt, a sua gravação, de Agosto de 2002, com a Wiener Philarmoniker, da 9ª sinfonia do Bruckner, tão cheia desse rigoroso entusiasmo íntimo que só uma alma ascética alcança.

   Grande homem, este, que, à pergunta do famigerado "questionário de Proust" sobre quem gostaria de ser, respondeu: São Francisco de Assis. Madre Teresa de Calcutá. De certeza que não quereria ser Napoleão. Talvez um bom amigo de Bach, tocando violino na orquestra dele. Bach que, para ele, formava, com Mozart, a parelha de compositores acima de todos os demais. O que não o impediu de gravar muitos outros, além desses dois. Com especial carinho recordo Bruckner e Beethoven, a cuja integral das sinfonias, com a Orquestra de Câmara da Europa, tantas vezes regresso. Aliás, Harnoncourt começara agora outra série das nove, com o Concertus Musicus, a orquestra que ele mesmo formou. Mas só nos deixou, gravadas em 2015, a 4ª e a 5ª. Desta, alguém disse que começa, não já com o destino a bater à porta, mas com o prisioneiro a sacudir as grades da cadeia: tã, ta, ta, tã! A estas horas, já Quem lhe terá dito: Aqui estou! 

       
                 Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

O Plano dos Olivais Norte e Sul.
 

Desenvolvido entre 1955 e 1958, por José Sommer Ribeiro, Pedro Falcão e Cunha e Guimarães Lobato, o Plano dos Olivais Norte corresponde à célula V do estudo de Urbanização de Olivais elaborado e controlado por serviços do município de Lisboa através do Gabinete Técnico de Habitação (GTH).

Construído nos terrenos expropriados ao abrigo do regime dos ‘Centenários’ – que coincide com a vontade de qualificar Lisboa para a Exposição do Mundo Português, em 1940 – o Plano dos Olivais Norte está situado a noroeste do Bairro da Encarnação.

O propósito moderno e internacional do plano enfatiza o papel intervencionista do arquitecto na sociedade, que agora actua segundo uma causa e não segundo um estilo. O plano de Olivais Norte contribui para eliminar a sociedade desigual – é possível fazer da arquitectura e do urbanismo o principal motor de organização da vida. É este o desígnio que ignora a cidade tradicional, com quarteirões, ruas e praças. É agora mais importante considerar o bloco colectivo (em banda e em torre), elevado, isolado, delimitado por vias e espaço verde.

Seguem-se os desígnios da Carta de Atenas que determinam, para todos, o usufruto em igualdade de condições de espaço, luz e ar, em todas as actividades – trabalho, habitação, lazer, circulação. 

Olivais Norte apresenta um esquema que separa os peões dos veículos. Os blocos implantam-se isolados e livres, em extensos e planeados espaços verdes, permitindo aos projectistas uma maior independência e consequente liberdade formal e tipológica. As funções distribuem-se zonificadas. As actividades comerciais, de cultura e de recreio concentram-se no centro cívico e a escola surge como um elemento segregado.

O Plano pretende colmatar carências habitacionais verificadas em Lisboa. As habitações sociais consideram quatro categorias que determinam diferenciadas rendas de aluguer. As categorias I e II associam-se a edifícios de quatro pisos e as categorias III e IV a edifícios de oito e doze pisos.

A difusão da Carta de Atenas experimentada na reconstrução de algumas cidades europeias no pós-Guerra, demonstrou-se frágil, sobretudo pelo racionalismo mecanicista que representou. O modelo caracterizava-se pelo Planeamento Funcionalista e pelo zonamento do seu tecido em funções especializadas, segregadas e controladas a partir da gestão e do investimento público.

Surgiu, consequentemente, uma contestação ao Estilo Internacional.

Olivais Sul, confinado a Norte pelo Bairro da Encarnação e Olivais Norte, a Sul por Chelas, a Nascente pela faixa industrial desenvolvida ao longo da Avenida Infante D. Henrique e a Poente pelo Aeroporto da Portela, é a formalização crítica a certos princípios da Carta de Atenas, afirmando sobretudo ideais das New Towns Inglesas e dos bairros INA-CASA inseridos no movimento neo-realista italiano.

Foi igualmente construído ao abrigo do regime dos ‘centenários’ e realizado pelo Gabinete Técnico de Habitação e elaborado em 1960/1961 pelos arquitectos Rafael Botelho, Carlos Duarte, Mário Bruxelas, Celestino de Castro e  António Pinto de Freitas.

A alternativa urbana de Olivais Sul, pretendia-se mais humana, sobretudo pelo uso de materiais locais ainda que associados à prática moderna, onde se reintroduzem conceitos de lugar, de continuidade tipológica e de identidade cultural.

O plano ensaia um modo de vida associado à diversidade, humanizando a cidade rodeada de verde, dando importância ao sítio, definindo comunidades sociais na sua verdade mais pura. Sendo assim, as novas gerações de arquitectos exploram agora temas respeitantes à realidade quotidiana, circunstancial e concreta, exprimindo a preferência por formas arquitectónicas populares que denunciam um regresso às formas da cidade tradicional.

Os edifícios adaptam-se ao sítio e ao clima – as janelas abrem-se mais pequenas. Os materiais são mais reconhecíveis (a telha e o tijolo)

Procura-se uma estrutura urbana extensível através de unidades mínimas de vida autónomas, diferenciadas, hierarquizadas e organizadas em torno de um equipamento ou comércio local. As habitações sociais consideram quatro categorias agrupadas, por unidade de vizinhança, nas categorias I e II e nas categorias III e IV. As tipologias utilizadas são os blocos isolados, torres, bandas contínuas, edifícios com galerias piso a piso e m moradias unifamiliares.

O edificado descontínuo obedece a um jogo de volumes, regrado por um Plan de Mass e a mistura de tipos e de formas era mesmo encorajada. A cada grupo habitacional corresponde um arquitecto. Numa mesma célula, cada unidade podia apresentar um carácter urbano distinto. Este método diferiu do considerado para Olivais Norte, onde cada arquitecto tinha um edifício e não uma zona capaz de formar por si só um lugar. 

Ana Ruepp

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Minha Princesa de mim:
 

É hoje dia de silêncio. Aguardo o que, sei-o bem, irá acontecer. Sempre recordo, em Sábado Santo, essa frase de São Paulo que tantas vezes repito, desde que a decorei na versão da vulgata latina: Fides est substantia sperandarum rerum. Este é o dia do ano em que mais sentidamente vivo, no íntimo de mim, a fé como substância, isto é, ser ou realidade das coisas que devemos esperar. Sento a minha alma à beira de um túmulo, sabendo já que todas as tumbas do mundo estão doravante vazias. Espero. Não no sentido de experimentar esperança, mas no de aguardar. Aguardo a visão da vida que tenho como certa. Nunca nada me falou tanto como o silêncio deste dia.

E tenho medo, Princesa, tenho mesmo medo de confessar, ainda que a ti apenas, como a idade (será a idade?) me empurra para o silêncio, para o gosto visceral, intrínseco, do silêncio. Este novo parágrafo da minha carta, quando confesso o meu receio, escrevo-o muito depois do primeiro, dezasseis horas, talvez. Assisti ao início da cerimónia da Vigília Pascal, na Sé de Lisboa. Nada tenho a dizer, nem comentar, sobre os fiéis ali presentes, nem sobre quem "oficiou", muito embora não goste do verbo entre aspas. Mas não resisto a falar-te do meu sentirpensar isso tudo... Há sessenta anos, ou mais, Princesa de mim - brincarias tu com bonecas - já eu participava, maravilhado, e submisso a uma graça especial, na liturgia católica do Tríduo Pascal, em convento de dominicanos. Na confusão fotográfica desse passado, lembro-me dos meus amigos de liceu, da faculdade, da JUC (o Sousa Franco, o Miguel Galvão Teles, já falecidos, e aqueles que não nomeio porque ainda os visito), mas também dos nossos seniores, sobretudo os do grupo da Moraes (uns que já partiram, como o António Alçada Baptista,o João Bénard da Costa), do Pedro Tamen, e do Nuno Cardoso Peres (frei Mateus), de tantos outros... Fiz, nesses tempos, era eu quase miúdo, grandes amigos, desde frades como o Bento Domingues a aventureiros de Deus e outras coisas como o Nuno de Bragança... E tantos outros, em redor do estudantado dominicano de Fátima, ou da sua igreja de Cristo Rei, no Porto: o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, e quantos mais... Toda uma vontade de mudança, sentida da direita à esquerda! Nessa altura, eu adorava o rito litúrgico, sabia latim, deixava-me envolver pela magia dos gestos antigos de uma celebração que me falava, me dizia coisas que eu entendia, que cabiam num mundo interior que eu percebia também fora de mim...como mundo possível! Perdoa-me esta insistência, talvez não entendas logo o que quis dizer: isso das coisas que eu entendia, que cabiam num mundo interior que eu percebia também fora de mim... Estou a bater no ponto: o que, afinal, te quero dizer é a minha dificuldade actual em me integrar, de coração aberto, em cultos celebrados como epifenómenos da vida das pessoas. Não comprometem ninguém, para além das declarações de princípios - que depois serão feitas, de consciência tranquila e auto satisfeita, alheia à tremenda agitação dos dramas de tantas outras almas neste mundo - não sinto nestas cerimónias tão cuidadosamente rituais, qualquer sopro interior que viesse animar a saída para a rua, a sujar de lama os pés, a cometer imprudências e erros, pela força do mesmo amor que, depois, os recuperará... As nossas igrejas parecem ter um bengaleiro à porta, onde deixamos as nossas vidas à entrada e as recuperamos à saída. E quando somos duas coisas, uma delas é necessariamente incolor. A Igreja parece-me um clube fechado, os nossos horizontes encerram-nos nas redes de incomunicação social programada.

Naquele tempo de que te falava, éramos novatos, mas ardíamos por que o nosso entusiasmo renovador se comunicasse. Os nossos horizontes não terminavam em Portugal: viajávamos muito, falávamos e líamos línguas várias, éramos curiosos e aspirávamos os ventos que traziam sinais dos tempos, acompanhávamos a renovação das artes (incluindo a arte sacra) e as novas correntes de pensamento social, económico e político, o lançamento das Comunidades Europeias e da EFTA... A notícia do Vaticano II foi uma festa! Eu até traduzia Teilhard e outros, incluindo teólogos para a versão portuguesa da revista Concilium.  A minha alma estava em harmonia com o mundo, tal como  os corações daqueles que acima nomeei e de muitos outros... Não éramos contra nada nem ninguém, nem estávamos sempre de acordo, éramos pelo bem de tudo e todos. Fosse o que fosse, até de nós, que tivesse de ficar pelo caminho como quando assinávamos documentos ao jeito do dos 101. Eu era um miúdo, já te disse, da vida só sabia que um dia, um qualquer dia, há de ser um dia claro... Há poucos anos ainda, outro grande amigo dos católicos desse tempo (e da gorada primavera marcelista) - o Rogério Martins - me dizia, com saudade sincera: "Nós acreditávamos num mundo melhor, tínhamos esperança!"

Ainda não o vi, esse claro dia. Mas é esse o dia que espero e aguardo. O dia certo, esse certo dia que há de vir. Ao leres-me, Princesa, não adivinharás a imensa alegria, nem a tão sentida dor com que te digo tudo isto. Pouco importa, as saudades são presenças por vir. Um dia, tu também perceberás que, afinal, chegamos sempre onde fomos. Eu não me incluo, hoje, entre os Nós, os vencidos do catolicismo... Antes me junto àqueles que, com o papa Francisco, ainda acreditam que a ternura de Deus pode levantar-nos do chão.  

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

AGUSTINA BESSA-LUÍS

 

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Aceitariam alguma vez aqueles que tanto necessitam do seu momento de glória, projectar a qualidade de quem se mantém discreto, sereno mesmo, ainda que também silenciado exactamente pelo mérito criativo que possui? Não, não aceitariam, não aceitarão nunca louvar ninguém que realmente respeitem, ou antes, receiem, pois esses seres que vivem durante uma vida inteira como ficção, posto que mentem sem respeito de si mesmos, embrutecidos pelo seu umbigo, nunca admitirão um são convívio com o mérito da grande criatividade. Afinal eles pouco ou nada descobriram ou despertaram, mas de muito se entendem honoris causa, com a falsa modéstia usada no rigor dos momentos. Os homens são perversos, sentem inveja sim, vivem num estado de auto-elogio constante, para se exporem a todos num falso humildemente, acima das circunstâncias. Os seus ossos já são relíquias no reino que os lembrará, e hão-de lembrá-los, exactamente os que coligiram os seus passos numa alegria de quem tudo percebeu à nascença.

Num debate, no qual Agustina participava, este foi o resumo do tema em que todos quisemos dar o nosso contributo para que se criasse um conflito de consciências, um escândalo pelas linhas tortas nos caminhos sempre fisgados.

Só conheci pessoalmente a escritora Agustina Bessa-Luís neste dia. Recordo as suas sábias palavras a propósito do que acima dei como resumo:

E alguma vez as gentes que em vanglória, neste país pequenino, se dará conta do quanto o seu orgulho almoça com a abundância e janta com o desprezo?

Foi ao ler estas palavras agora no “Caderno de Significados” de Agustina lançado pela Babel, que me recordei de as ter escutado naquele dia em que, uma vez mais, se constatou que o caleidoscópio do mundo conhece cores que não se destinam a ser vistas.

 

Teresa Bracinha Vieira
2016

ATORES, ENCENDORES - LXXI

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EVOCAÇÕES DE ÂNGELA PINTO POR QUEM A VIU REPRESENTAR

 

Evoco hoje a memória e a carreira da atriz Ângela Pinto, nos 150 anos do seu nascimento e isto na perspetiva de um desempenho que, na época, foi unanimemente elogiado e aplaudido, o que hoje já não podemos obviamente avaliar: mas diz-nos muito, porque - e isso podemos avaliar - alem do sucesso unânime e duradouro junto do publico e da critica, deixou a memória de uma renovação de repertório e de modernização de espetáculos que impulsionou ou a que esteva ligada. Ora, se não se pode obviamente avaliar, repita-se, a qualidade das interpretações, pode-se, isso sim, atestar a qualidade e exigência de repertório, tanto em teatro declamado como em teatro ligeiro e musicado, e, mais do que isso, evocar o estrondoso sucesso e prestígio na sua longa vida de atriz, tanto em Portugal como no Brasil.

Transcrevo, a propósito, o que Mário Duarte, na revista “De Teatro” (Março de 1925), escreveu por ocasião da morte da atriz, ocorrida em 9 de Fevereiro daquele ano:

“Não se precisa citar a sua maior criação, se foi no papel cómico, picaresco de uma revista que brilhou, ou se o seu talento deu maior tensão à trágica figura de determinada obra dramática; não. A comediante que hoje perdemos fazia todos os seus papéis com a mesma arte e levava – os consigo até á altura descomunal do seu talento de criadora”.

Cita em seguida um grupo de notáveis atores então recentemente falecidos: Virgínia, Ferreira da Silva, Joaquim Costa, Ângela Pinto. Só a fama de Joaquim Costa não chegou aos dias de hoje. 

E Mário Duarte completa a evocação com recomendações veementes de disciplina e ordem aos atores:

“Basta de indisciplina e falta de ordem que vão pelos teatros, porque, desaparecendo consecutivamente essas figuras, que ainda hoje o dignificam, e poucas são, uma escassa dúzia, se outras não estiverem preparadas para tomar dignamente os seus postos, não teremos apenas, como agora, de chorar a perda de um artista, mas em breve teremos de pôr luto pelo teatro português!”…Assim mesmo!

Mas recuemos no tempo. Vinte e um anos antes, portanto em 1906, é publicado um livro intitulado precisamente “Ângela Pinto – Esboços, Homenagens e Apreciações Críticas” que recolhe depoimentos sobre a atriz, então no auge da carreira. E aí, escreveu Henrique Lopes de Mendonça, já na época figura destacadíssima do teatro e da sociedade portuguesa em geral:

“Essa radiante atriz, que começou pela opereta e galgou rapidamente às eminências do grande drama, reflete em cada um dos géneros as qualidades primaciais que noutro a distinguiram e que às vezes… raras vezes!... poderão destacar desagradavelmente. (…). Um simples gesto dela, nessa admirável fantasia burlesca do «Burro do Senhor Alcaide» (peça de D. João da Câmara e Gervásio Lobato estreada em 1891) revelou-me uma trágica. E se não correspondeu ainda plenamente a essa minha previsão, não é dela a culpa. É do meio artístico, que não parece comprazer-se na singeleza clássica da tragédia. Mas não há drama em que ela entre, onde, por um admirável gesto, por uma frase de profundo patético, a Ângela não produza o misterioso arrepio de que só os grandes artistas são os agentes. Intuição verdadeiramente genial, por certo, visto ser esta a frase consagrada para essas refulgências de espírito artístico, geradas espontaneamente no mais recôndito do ser (…) porque o temperamento vibrátil, irrequieto, impulsivo de Ângela Pinto não lhe consente o estudo demorado, minucioso, atento e paciente”…

E finalmente, Sousa Bastos (marido de Palmira Bastos, que amplamente elogia) no “Diccionário do Theatro Português” (1908):

“Ângela Pinto é um talento de eleição, uma atriz distintíssima, um nome que sem dúvida ficará vinculado, como raros, na história do nosso teatro. Nas suas tournées ao Brasil, tem sempre tido êxito igual ao que alcança a toda a hora na sua terra natal”!

Para terminar: Luís Francisco Rebello, no estudo intitulado “Três Espelhos” (2010), evoca, com elogios, algumas das peças que, ao longo da longa carreira, Ângela Pinto interpretou. E aí encontramos a heterogeneidade de géneros e autores: de Garrett (a Madalena de Vilhena) a D. João da Câmara (a Mariana do “Amor de Perdição”), de Shakespeare (“Hamlet”, em que fez o protagonista - imagem) a Feydeau, Augier, Bernestein, ou à “Severa” de Júlio Dantas, entre tantos e tantos mais.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

LONDON LETTERS

  

A very clear description of tax affairs, 2016

O Prime Minister está em situação delicada em plena contagem decrescente para o voto sobre a permanência do UK na European Union, não devido a rivais internos ou a adversários externos, mas por causa da singular Panama Files' crisis management de Downing St. Em foco andam a evasão às questões sobre dinheiros familiares e a ofensiva referendária.

Vozes nos media e protestos em Westminster pedem a cabeça de RH David Cameron. — Oh-la-la! Les bons comptes font les bons amis? A crise no aço agita ainda as paixões populares, cirurgicamente fogueadas pelo Labour Party. O tom de RH Jeremy Corbyn sintoniza a veia puritana dos Brits. Será o turning point da narrativa austeritária? — Ooh err! Please, do not be a slave of the first impressions. Já Brussels planeia reformar o imposto de valor acrescentado ou VAT system. As eurodeportações dos migrantes começam entre Greece e Turkey. Depois da erupção republicana de Mr Donald Trump, agora é o democrata Senator Bernie Sanders a somar 8 vitórias (em 9 primárias) ao conquistar o Wyoming na White House Race. No Grand National vence Rule The World e Mr Danny Willett triunfa no Golf Masters. Os Dukes of Cambridge fazem a 7-day tour à India e Bhutan. O Archbishop of Canterbury, TMR Justin Welby, vivencia extraordinária descoberta aos 60s. Pope Francis abre a uma maior inclusão dos divorciados na Catholic Church em proclamação sobre o amor na família, a Amoris Lætitia.

Sunny spells and light rains em Central London. Mas é a neblina fiscal a dominar a atmosfera. Hoje é dia de novo special statement do PM na House of Commons, em tentativa de traçar um dique no pior período que recordo nos já longos seis anos da Cameron’s Tory Premiership. Decisões e efeitos são complexos, pois contêm ingredientes capazes de danos maiores quando até a histriónica Loyal Opposition parece acordar. O epicentro é triplo: RH David Donald Cameron enrola-se na descrição das finanças privadas e Her Majesty's Government desembolsa £9m públicos em folheto da Bremain, em momento da vida económica sob negra tela de fundo. Assim: Como não bastara o vendaval siderotécnico em Wales após a insatisfação gerada pelo 2016 Budget e a demissão de IDS do Cabinet, a escassas semanas das eleições regionais que colocam milhares de candidatos à mercê do eleitorado, duas decisões do Number 10 causam sério prejuízo no capital político do líder conservador. Siga-se o caudal dos acontecimentos. Quanto à siderurgia, a Tata Steel inicia a venda das fábricas no UK e consequente processo de despedimento coletivo dos milhares de operários. Todavia, diferente da justificação das perdas, conclui-se agora carecer o negócio em Port Talbot de balanço retificado com discretas, globais e lucrativas transações que a companhia de Mumbay realiza com generosas quotas do carbono permitidas pelo amistoso governo do reino.


A campanha euroreferendária do Prime Minister em semana tórrida (Exeter University, 2016).

A qualidade da informação na prestação de contas afeta ainda o Number 10 no tocante aos rendimentos e impostos do próprio Prime Minister, após a revelação das ligações financeiras do seu falecido pai ao Panama Haven e à parcela que ele tanto herda como também recebe da mãe. Recorde-se que nada de ilegal é até agora revelado. Porém, há questões latentes de integridade. O líder do executivo recebe meio milhão de libras sem daí pagar um cêntimo ao HM Treasury! O caso ecoa a Trickle-down Economics mais as revelações dos Panama Papers e da Blairmore Holdings Inc, que Mr Ian Cameron cria no offshore em 1981 e é cliente da Mossack Fonseca. Com a designação da ancestral casa familiar em Aberdeenshire (Scotland), a companhia de investimentos gere “tens of millions of pounds for wealthy families.” Durante 30 anos escapa a quaisquer tributos no UK, apenas sendo taxados os lucros para cá transferidos. Tudo muda em 2010-12, quando o filho entra em Whitehall, o fundador morre e o fundo se abriga em Dublin. Números à parte, sobrevém aqui algo distinto do eat your cereal, son. Desde logo, with some duplicity, RH David W D Cameron MP é um global champion em matérias de evasão fiscal e branqueamento de capitais. A political hipocrisy da esquerda é análoga, aliás, ao instigar o ódio aos ricos, com protestos de megafone cantando heads-offshore à porta do hotel onde por cá reúne a Conservative Springtime Conference. Resume o Premier: "It is not been a great week."

O gene austero das ilhas vibra aquém do planeamento bancário no Caribbe e da otimização tributária em Highlands, com as legítimas e convenientes partilhas entre as “£300,000 father’s heritance” e as “£200,000 mother’s gift.” Sobre o Panama Hat, em dias sucessivos, o 10 Office dá cinco desiguais versões da riqueza primoministerial. Derrapa entre o tell nothing (é assunto privado), tell some (há mercê herdada) e tell all (eis as declarações fiscais dos Downing years). Pelo meio ocorre momento crítico. Ei-lo, por extenso. A pergunta é do editor político da Sky News, Mr Faisal Islam: — "Can you clarify for the record that you and your family have not derived any benefit in the past and will not in the future from the offshore Blairmore Holdings fund mentioned in the Panama Papers?" A resposta de Sir David Cameron é fina: — "The two things I'm responsible for are my own financial affairs and for the tax system of the United Kingdom. In terms of my own financial affairs, I own no shares, I have a salary as Prime Minister and I have some savings which I get some interest from and I have a house which we used to live in, which we now let out while we're living in Downing Street. And that's all I have. I have no shares, no offshore trusts, no offshore funds, nothing like that. And so that I think is a very clear description." A réplica é grave pelo que omite, à luz dos finalmente admitidos ganhos banhados em éden centroamericano de curioso motto: Pro Mundi Beneficio.

Face a criticismo crescente, fora e dentro do partido Tory, nas avenidas e nas praças mediáticas, o PM dá an unprecedented step de total transparência. Cai nova paliçada nas hoje ténues esferas de privacidade e de escrutínio. A política atrai pelo debate de ideias, não por tablóides. De todo por acidente endereça Aristotle o pensamento ocidental para as exigentes paragens da moral, do direito e da política. So, parafraseando os Monty Python: Nudge nudge, wink wink. Reação imediata do líder trabalhista RH Jeremy Corbyn ao No. Ten: “O Prime Minister still has big questions to answer over his tax affairs.” Mais e mais fundo: A Scotland First Minister RH Nicola Sturgeon divulga as tax returns e apela a "transparency over politicians' finances," secundada pelos demais dignatários de Holyrood, que logo decidirão os pares de Westminster. Contudo, focar a essência do problema é que importa. Isto é: por e para quê e como existem os paraísos fiscais? Com que efeitos para as nações e para as pessoas? Quais são as relações entre poderes e finanças? A caminho, por imperativo de justiça, estão incontornáveis reformas.

A temperatura esfriara em torno de Downing Street antes da Cameron-hunting. O Cabinet aumenta a parada na campanha referendária. Afirma responder “to public desire for EU facts” e gasta £9,3 milhões a produzir um panfleto que segue para todas as casas no reino a favor do Clube dos 27.

A iniciativa é justificada pela Environment Secretary, RH Liz Truss: “This referendum will be a huge decision for our country, perhaps the biggest we will make in our lifetimes and it is crucial that the public have clear and accessible information." Sem igual bolsa pública, logo os Outers aproam forte vaga de censuras ‒ justamente quando o argumento da saída envolve o continente. Sustenta RH Liam Fox MP: “Brexit can liberate not just us but the whole of Europe.” Sobre a publicidade, o ex Tory Minister assinala que o governo deste modo acaba "doubling the funding for one side, ie the Remain campaign." Também o grupo Grassroots ataca o financiamento do manifesto a custas dos contribuintes e apela à Electoral Commission, "given that the government has not registered as a campaigner." No mais do cada vez mais incerto voto de 23rd June: Only 72 days to go…

Se Westminster invoca os elevados padrões do Great British Drama, viva competição chega de um inabitual setor e sob inesperadas vestes. O Archbishop of Canterbury acaba de reconhecer que o seu pai não é quem durante todos os seus 60 anos de vida pensa que é. Toda a família é apanhada desprevenida. As dúvidas jornalísticas acerca da real paternidade do alto prelado diluem-se num teste do DNA. Acresce um detalhe maior. O progenitor biológico de The Most Reverend Justin Welby é o ido Sir Anthony Montague Browne, colega da mãe enquanto last private secretary de Sir Winston Churchill e o diplomata com assinatura nos papéis forçosos a que o Great Man «morra» em England. Well! As Master Will writes in “Romeo and Juliet:” What's in a name? That which we call a rose by any other name would smell as sweet.

St James, 11th April                    

Very sincerely yours,

V.