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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (LXXVI)


ÁLVARO BENAMOR NA CASA DA COMÉDIA E NÃO SÓ 
 

Já aqui evoquei a carreira de Álvaro Benamor, em especial como professor de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional (CNC - “O Ensino do Teatro em Portugal”- 5 - 21 de maio de 2014). Ocorre que se assinalam 40 anos da sua morte. E acresce que entre os últimos grandes espetáculos em que marcou a sua intervenção e a que assisti, saliento, na Casa da Comédia, “A Dança da Morte” de Augusto Strindberg, na temporada 1969/1970, e a versão de Friedrich Durrenmat denominada “Play Strindberg – A Dança da Morte em Doze Assaltos”, estreada em Portugal em 1975 (e depois reposta), também na Casa da Comédia, ambas encenadas por Jorge Listopad. (cfr. Rui Pina Coelho “Casa da Comédia (1946-1975) Um Palco para uma ideia de Teatro” – ed. Temas Portugueses – FLL e INCM 2009).

Álvaro Benamor iniciara a carreira em 1928. Toda essa cronologia por si só justificaria a evocação. Mas importa sobretudo referir a qualidade deste ator-encenador e sobretudo a inovação que sempre marcou as suas intervenções no plano da atuação em palco, repita-se, como ator e como encenador, e particularmente, ainda, a capacidade didática como professor, que o foi no Conservatório Nacional a partir de 1959. Aí o conheci e a muitas aulas, exercícios e ensaios também assisti.

E é de assinalar então a intervenção de Benamor na Casa da Comédia, pois, para lá da qualidade dos espetáculos, que me é grato novamente registar, inscrevem-se simultaneamente diversos fatores relevantes.

Por um lado, a versatilidade do ator, no auge de uma carreira que, iniciada como vimos em 1928, e que integra, ao longo de décadas, os mais relevantes projetos de teatro profissional – Empresa Rey-Colaço – Robles Monteiro, no D. Maria mas também noutros teatros, Companhia Teatral Portuguesa de António Pinheiro e Companhia de Maria Matos no Avenida, Comediantes de Lisboa no Apolo, Teatro de Arte de Lisboa de Francisco Ribeiro no Trindade, Companhia Nacional de Teatro de Couto Viana também no Trindade, e ainda, como já se disse, a Casa da Comédia, onde terá encerrado a sua atuação como “ator culto e inteligente”, escreveu Luís Francisco Rebello no “Dicionário de Teatro Português”.

E para alem disto, a intervenção no teatro radiofónico, dezenas de anos na EN, e a inovação nos inícios do teatro da RTP, em direto, como era prática na época.

Ma ainda, em particular, a direção-encenação de dezenas de espetáculos da Companhia Portuguesa de Ópera no Teatro da Trindade dirigido por José Manuel Serra Formigal. Por razões familiares mas também profissionais, assisti a numerosos ensaios de todas as produções, que alternadamente cobriram desde o grande repertório operístico a estreias e “recuperações” de óperas portuguesas, numa sucessão muito meritória. E aí, assinalo a renovação e, para o público em geral, a “descoberta” desse repertório operístico português – por exemplo, como citei em artigo anterior, a “Serrana” de Alfredo Keil, “A Vingança da Cigana” de Leal Moreira, ou “A Condessa Caprichosa” de Marcos Portugal.

E destaco, na memória que conservo destes espetáculos, dois aspetos relevantes: de um lado, a modernidade das encenações; mas simultaneamente, a reconstituição adequada à estética musical, predominante num espetáculo de ópera clássica, mesmo quando a encenação é um a reconstituição epocal moderna, passe o paradoxo.

Cito ainda o final dessa minha evocação anterior. É que, para além do repertório internacional clássico e moderno, “no Conservatório, Álvaro Benamor selecionava, para os alunos, um repertório português, a partir de Gil Vicente, percorrendo dos clássicos aos contemporâneos, e dando assim uma complementação das cadeiras teóricas, desde a História da Literatura Dramática à Filosofia do Teatro.” 

DUARTE IVO CRUZ