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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de maio de 2016.

Amadeo de Souza-Cardoso regressa a Paris em todo o esplendor da sua obra. O catálogo da exposição do Grand Palais mostra-nos o amigo de Amedeo Mondigliani como ninguém antes o viu na capital francesa – com uma originalidade que nos deixa assombrados.

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DE NOVO EM PARIS
Regressar a Paris é sempre uma festa e não falo de uma referência pessoal, mas de um regresso histórico, de alguém que viveu em Paris um dos momentos fundamentais da sua vida e da criação artística. É Amadeo de Souza Cardoso que refiro e o seu regresso em glória ao mítico Grand Palais, que nos recorda a Exposição Universal de 1900. E a verdade é que hoje é um momento muito especial para esta Exposição, quando a geração de «Orpheu», a começar com Fernando Pessoa, se tornou grande referência europeia. Amadeo não tem, porém, ainda a aura do «Livro do Desassossego», mas tem uma singularidade que reforça a consistência da encruzilhada criadora que viveu. O certo é que agora regressado numa mostra referencial ao Grand Palais podemos contar, mais uma vez graças à Fundação Calouste Gulbenkian, com uma exposição sublime, em que o pintor se revela como um dos nomes maiores do seu tempo. E se digo mais uma vez graças à Fundação, é porque, antes de tudo, foi a compra da coleção, quando o Estado Português havia recusado nos anos cinquenta adquiri-la por incompreensíveis razões, que foi possível salvá-la como maravilhoso conjunto, que a história tem valorizado em todo o seu esplendor. São 150 obras de Amadeo e dos seus amigos Mondigliani, Brancusi, os Delaunays… E o certo é que se os heterónimos de Fernando Pessoa nos dão a multiplicação de uma personalidade criadora, que interpretou como ninguém os novos tempos de uma modernidade contraditória e inesgotável, foi a capacidade de Amadeo de Souza-Cardoso dar um sentido universal a uma obra multifacetada, mas produzida num tempo relativamente curto, impressiva e assente em raízes fecundas, que revelam uma espécie de recriação ou reconstrução da realidade e do mundo. Na revista «Portugal Futurista», Álvaro de Campos coincide com Amadeo - «só tem direito a exprimir o que sente em arte, o indivíduo que sente por vários». Almada Negreiros disse que Amadeo «é a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX» - e, maravilhado, deu nota de como partiu de uma identidade próxima para a tornar global - «toda a arte reflete o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as próprias cores. Foram estas cores que teve para começar a sua mensagem de poeta».


NO GRAND PALAIS
O Grand Palais invoca a Exposição Universal de Paris de 1900 e faz-nos lembrar Walter Benjamin a dizer que «as Exposições são as únicas festas verdadeiramente modernas», como antes Baudelaire falara da «embriaguez religiosa das grandes cidades». Esse pavilhão emblemático é dos poucos (como a Torre Eiffel e o Trocadéro) que se manteve depois das Exposições de que fizeram parte. A presença de Amadeo nesse lugar ilustra o que ainda o autor de «Fleurs du Mal» disse (em 1855) da modernidade: «é o transitório, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é eterna e imutável». O Grand Palais representa o ecletismo do fim do século, desde as colunas jónicas à arquitetura do ferro, num conjunto que envolve o Petit Palais e a Ponte Alexandre III. O novo século marcava pela novidade, pela técnica, pelo exotismo e pelo diferente. Amadeo no Grand Palais funciona como um símbolo (como foi o caso de Picasso-Mania, um grande diálogo de influências há pouco terminado em torno do célebre artista). Dir-se-ia que são as duas metades definidas por Baudelaire que se encontram neste artista que soube lidar com o tempo – ligando a herança e a necessária transformação pela arte. Numa célebre entrevista ao jornal «O Dia» Amadeo Souza-Cardoso proclamou solenemente: «Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram, Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola». A insatisfação é a marca dominante ao longo do seu percurso criador. José-Augusto França fala da impaciência, da angústia e de uma criação expressiva e colérica, «misturando na sua definição uma grande liberdade plástica e uma grande necessidade de dar força e imagens, violentas ou irrisórias, a uma ideia do próprio mundo que o pintor pressentia para além de uma aldeia que o destino lhe dera».


O SOL INTENSO DE PORTUGAL
Em 1908, no ano dramático em que Unamuno escreveu sobre Portugal, a presença invisível de Amadeo estava próxima de Pascoaes e Manuel Laranjeira. Hoje, podemos ligar as referências – já que o jovem pintor pôde projetar com pujança o que tanto interessava ao mestre de «Sentimento Trágico da Vida». O artista interpreta o que é genuíno e diferente na terra que conhece. Isso faz parte integrante da sua existência como artista que recusa a mediocridade que vê em volta. Amadeo regressa a Paris e escreve à mãe: «Gostei muito de estar em Manhufe. Fazia um sol intenso. A montanha inundava-se de luz. E que grandiosidade aquelas montanhas! Fiz lá uma oito manchas e estava progredindo bastante, começava a interpretar melhor a natureza. Agora estou em Paris, não imagina a tristeza que me fez ontem esta atmosfera parda, este sol anémico. O que me valeu foi encontrar o Vianna e levamos o dia a falar do Portugal prodigioso, país supremo para artistas. É pena que não haja um forte meio de arte». Sente-se aqui a força original da sua obra. Como Almada Negreiros disse: «o seu rincão natal são as próprias cores». Foram estas as que teve «para começar a sua mensagem de poeta». Das raízes da terra e da luz, do «Portugal prodigioso» parte-se para a procura das mudanças necessárias. Por estes dias passa o centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, e o acontecimento do Grand-Palais associa-se também naturalmente à efeméride. Lembramo-nos da colaboração de Amadeo no número 3, que nunca veria a luz do dia, de «Orpheu». E, se se fala de Sá-Carneiro, recordamos José Régio a considerar a poesia e a personalidade deste como uma mediação para a melhor compreensão da primeira geração modernista. Ora, no campo da criação artística, Amadeo de Souza-Cardoso também foi, à sua maneira, um mediador, por insuscetível de ser encerrado num rótulo ou numa escola, podendo ligar fundamentos, raízes e modernidade. E se muitas vezes houve quem compreendesse mal o lugar de Amadeo na história da nossa Arte, por razões, aliás, contraditórias, tal deveu-se à independência, à originalidade e à insatisfação do artista. Está em causa a ligação entre Manhufe e Paris, entre a proximidade poética a Teixeira de Pascoaes e à Renascença Portuguesa e ponte para a força inovadora de «Orpheu». Almada Negreiros reconhecerá, assim, nele um sinal marcante. Mas, como diz Helena de Freitas, Amadeo é dificilmente definível, «não tem um discurso regular, desloca-se com destreza entre vários registos na vida e na obra. Percebe-se na diversidade da pose (entre o provinciano e o cosmopolita), no estrilo versátil da escrita, na letra instável, no desconcertante traçado das assinaturas»…  

 
Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Para São Tomás de Aquino, o belo é propriedade transcendental do ser. Aliás, no pensamento medievo europeu e cristão, o belo, o vero, o bom estão indissociavelmente ligados, Deus é, ontologicamente, beleza, verdade, bondade. E Santo Agostinho gostava de lembrar aquela afirmação de Platão, que dizia que o Belo é o esplendor do Vero. Nos seus escritos sobre o pensamento na Idade Média, Umberto Eco sublinha tal visão otimista e feliz do ser. E, grande admirador do Aquinense, realça como a própria Summa Theologiae alimenta essa visão e essa esperança: Frente à heresia dos cátaros e ao ressurgimento dessa nova manifestação do maniqueísmo, que dividia o Cosmos entre essas duas forças antagónicas, do Bem e do Mal, impunha-se reafirmar o valor e, sobretudo, a bondade inerente a cada ser. Pessoalmente -- bem sei que sou um "bota-de-elástico" -- penso que a dissociação que, na nossa cultura, se foi operando, entre o belo e o bom, resultou na divisão da própria verdade, isto é, deixámos de aderir, sempre com o coração e a cabeça (ou, diria S. Tomás, apetitivamente e cognitivamente) a uma ideia, a uma obra,  podendo assim considerar boa uma coisa feia, ou feia uma coisa boa. A arte deixou de ser uma aspiração ascensional, uma superação, para se tornar complacente, um comprazimento com as nossas limitações. Pode representar-se ou contar-se o sofrimento, com dor e compaixão, o que é diferente de fazê-lo com sadomasoquismo. Chama-se hoje concertos também a desconcertos, ainda mais barulhentos, dos ruídos que invadem o nosso quotidiano, classificam-se como artes plásticas ou grande literatura as representações violentas ou abstrações caóticas da realidade que nos circunda, da gente que povoa o nosso mundo, do nosso próprio pensarsentir, em que, sobretudo (falo do que mais me choca), se torna exasperante uma alma dominada, não pelo gosto, mas pela amargura, desgosto ou raiva de tudo. Até os próprios noticiários quase só abrangem desgraças e crimes, pecados e ódios que se generalizam, como se a humanidade fosse necessariamente coisa feia e detestável. Assim também os filmes mais populares, nas salas de cinema e na televisão, prenhes de violência, de traições, de fantasmas do mal. Chafurdamos na nossa miséria interior, com paixão bruta, sentimos prazer em não desafiarmos os nossos limites. Como se o sentido da humanidade fosse pôr luto por si. Frequentemente me lembro de que a palavra luto vem do latim lutum, que quer dizer lodo, como aliás também resultou em português. E ainda hoje encontramos, em textos jurídicos, a expressão nojo, para dizer luto.

   Apetecia-me gritar aquele dito do Saint-Exupéry de que ser homem é medirmo-nos com o obstáculo, para o vencermos; ou dizer a todos, com o papa Francisco, a alegria do amor, amoris laetitia... Felizmente, não sou o único, nem o melhor: há hoje, também, por este mundo fora, cada vez mais harmonias bonitas, orquestras que salvam inúmeros jovens de ambientes de miséria e vício, e tantos outros que chegam a partir, nas suas férias, para assistirem gentes distantes, solidários e fraternos. E cada vez mais gente vai descobrindo o valor inestimável dos nossos sorrisos e abraços, da beleza que preservamos ou de que cuidamos: a desta terra que é nossa casa comum, a do património que é um presente dos nossos antepassados, a do que hoje pintamos, esculpimos, escrevemos, desenhamos e construímos, não para acumularmos dinheiro ou ganharmos popularidade pelo culto do lado sujo de tudo e satisfação de curiosidades mórbidas -- mas para partilharmos alegria, e o bem estar da concórdia e da paz.

   Já tenho pensado que aquela propensão para não gostarmos do belo, nem o considerarmos necessariamente bom, terá quiçá raízes, na história recente da nossa cultura, quiçá na natural repugnância e reação aos totalitarismos de cariz vário (dos fascistas aos comunistas, e não só) que também nas artes e nas letras, para além da censura, pretendiam impor modelos de bondade e beleza, de ideais "verdadeiros". Longe de mim pensar em qualquer desejável ou recomendável imposição de valores estéticos ou outros. Antes sugiro que nos viremos para o alto de nós mesmos, isto é, como acima disse o Umberto Eco, para o valor e, sobretudo, a bondade inerente a cada ser. Não quero obcecar-me a opor bem e mal, não promovo visões fictícias de combate contra o maligno, antes procuro precaver-me de confrontações ou afrontamentos mais emotivos do que racionais, mais acusadores dos outros do que melhoradores das nossas circunstâncias comuns. O clima de medo, por vezes patético, do islão, por exemplo, foi certamente despertado por atos de terrorismo bárbaro, absolutamente condenáveis, mas nunca será vencido, antes se irá  agravando, se não nos curarmos de alguns exageros e histerias. À força de culparmos os outros, vamos olvidando a nossa cobardia, e as nossas "culpas" históricas. Ao acusarmos os muçulmanos de terem já demasiadas mesquitas na Europa, esquecemo-nos de que eles estão cá porque, depois do "ocidente" lhes ter ocupado e dividido o território -- e nele ter combatido, em busca de petróleo e alianças várias, duas grandes guerras entre potências europeias – os "importámos" por necessidade de mão de obra, tal como os tínhamos mobilizado para as nossas guerras; e também não nos lembramos de que eles são, cidadãos franceses, alemães ou ingleses, cada vez mais europeus muçulmanos, pela simples razão de que os abastados europeus, ditos cristãos, nem com subsídios querem ter mais filhos... etc... etc... O romance (?) Soumission do Houellebeq, não é, a meu ver, um panfleto islamófobo... é uma ficção realizável! Há hoje, na Europa nossa, magrebinos e outros vizinhos muçulmanos que não são terroristas -- antes pelo contrário, eles condenam essa barbárie -- até são intelectuais e professores em prestigiadas universidades europeias, gente de bem e inteligente, mas que já percebeu como a fraqueza da europa, dantes cristã, vai abrindo as portas do poder ao islão... dado o nosso progressivo abandono ou esquecimento dos valores próprios! Porque a fraqueza da Europa não será, propriamente falando, muscular só, nem militar apenas, ou política (que também é): é intrínseca à cultura europeia, que substituiu a generosidade pelo preço, o valor moral pelo dinheiro. Pessoalmente, Princesa de mim, choca-me ver como mesmo gente que se afirma religiosa anima iniciativas de organizações que privilegiam o lucro de poucos -- com a promessa vaga da posterior distribuição da riqueza adquirida por aqueles muitos que a criaram também -- quiçá consolando-se depois com obras de assistência social, obras essas cuja razão deveria apenas ser a urgência de acudir à emergência de um desastre, a uma falha, mas nunca ser desculpa moral para uma situação de injustiça económica e social que, ou visivelmente se agrava, ou disfarçadamente vai dispondo, em condições pelo menos discutíveis, pessoas humanas ao serviço do maior ganho de quem, vezes demais, até nos governos "democráticos" manda. Antes de clamarmos contra outros, como cão que ladra porque tem medo, devíamos interrogarmo-nos sobre porquê e como fomos consentindo na degradação de valores pilares da nossa cultura, chegando ao ponto de esquecermos o espírito cristão de fraternidade, para fazermos do dinheiro a medida de todas as coisas. Recebi, num dia destes, a lição do bom samaritano, dada por uma refugiada síria que, na televisão, assim falava da mão que o papa Francisco estendera a três famílias muçulmanas: Ele não é da nossa religião, não pertence ao nosso povo, não fala a nossa língua, mas é o primeiro a cuidar de nós. O amor, Princesa de mim, além de alegria, tem muita força.

   E volto ao "meu" São Tomás, e a essa virtude da prudência ou amor sagaz, como lhe chamou Santo Agostinho. As virtudes, escreve o Angélico, são potentiae autem rationales, quae sunt propriae hominis, non sunt determinatae ad unum, sed se habent indeterminatae ad multa... São potencialidades racionais, cujo fim são atos (finis autem potentiae actus est) que, ordenados e repetidos, constituem hábitos. Quer isso dizer que a virtude é o hábito de agir, em circunstâncias múltiplas, de acordo com a inteligência de certos princípios (capacidades ou potencialidades). E na sua Summa, II, 2ª parte, quest.49, prooemium, ele vai definir as oito partes da prudência: Deinde considerandum est de singulis prudentiae partibus quasi integralibus. Et circa hoc quaeruntur octo. Primo, de memoria [memória]. Secundo, de intellectu vel intelligentia [inteligência]. Tertio, de docilitate [docilidade]. Quarto, de solertia [sagacidade]. Quinto, de ratione [ponderação]. Sexto, de providentia [previdência]. Septimo, de circumspectione [circunspeção]. Octavio, de cautione [precaução]. Se refletirmos cuidadosamente, Princesa de mim, na virtude que em si reúne estas oito qualidades, e nos interrogarmos sobre se e como as aplicamos para recordar, perspetivar, perceber, ajuizar e cuidar o andamento do nosso mundo, talvez tenhamos de concluir que temos sido muito imprudentes. Há que arrepiar caminho. 

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

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