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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Final dos anos 60 - nada, arte conceptual e land art.
 

Nada

O processo da Pop Art gerou uma sujeição ao consumismo, ao excesso, ao exagero e provocou reações como a de Ad Reinhardt, o qual se remete ao ‘nada’ de Malevitch. Reinhardt cria uma pintura liberta de tudo e concentrada no essencial. Ao recusar qualquer utopismo, Reinhardt elimina a pintura (os seus quadros são inteiramente negros) e afirma dedicar-se sempre ao ‘último quadro que se pode pintar’. (Lucie-Smith: 2001)

O nada, a negação, o silêncio, o vazio também aparecem por estes anos como uma opção válida para diversos artistas, tal como se verifica na peça ‘4’33’ de John Cage ou no ‘Leap into the void’ de Yves Klein. A escolha do nada significa uma tentativa de liberdade ou escape ao que é considerado arte. Confrontados com a abundância de imagens da sociedade contemporânea, os artistas concentram-se em produzir trabalhos que requerem concentração, calma e silêncio.
 

Arte conceptual

Na arte conceptual, arte ou a ideia de arte confundem-se. Afirma-se a superioridade do pensamento do artista em relação à execução da obra, como se a obra já se materializasse na imaginação do seu criador e se concretizasse apenas para benefício do espectador.

Em 1965, Joseph Kossuth declara que a única coisa que o artista pode fazer é refletir sobre o conceito de arte. Mas Argan contradiz esta posição porque para si, a arte enuncia-se e auto analisa-se com os seus próprios meios e não com os meios da linguagem (Argan: 1992). Os artistas conceptuais mantêm a distinção entre arte e linguagem, mas identificam a existência do artista com a sua metodologia de pesquisa. Mantêm igualmente uma comunicação recíproca entre a arte e a escrita – utilizando a escrita através do letrismo figurativo, da poesia visual. Os artistas conceptuais fazem arte não mais para oferecer experiências sensoriais mas para operar num processo de declarações escritas ou de informação documental, concretizando o juízo sobre a própria arte, enquanto atividade ‘espiritual’. Fazer arte é definir a arte, o pensamento opera e não a técnica. O objeto da arte desmaterializa-se, passa a ser uma proposta analítica. (Hopkins, 2000)
 

Land Art

Na Land Art, entropia é um conceito generativo da prática artística. A modificação ambiental faz-se através do recurso a elementos, poucos e secundários, para transformar e acrescentar valor. As experiências artísticas parecem aqui exprimir-se através de temas habitualmente pertinentes à arquitetura – sobretudo no seu objetivo de transformação ambiental. Dá-se a deslocação do interesse do objeto construído para o ambiente, explorando relações entre a prática da arte e o controlo do território ou da paisagem, podendo abordar a questão da monumentalidade e da temática.

Ao trabalhar diretamente sobre a paisagem, Christo envolve em plásticos trechos num gesto de comercialização e empacotamento, criando sobretudo um estado de curiosidade em relação a fatores ambientes que se tornaram com o tempo desinteressantes. (Argan: 1992)

Pretendem-se assim revelar as características de um lugar, mudando o significado do contexto, subtraindo, deslocando, dividindo espaços e matérias. Sinais morfológicos e topográficos secundários podem ser determinantes nesta nova ordem conceptual.

Robert Smithson é o artista que mais bem caracteriza esta preocupação, fazendo a ponte com a arte minimalista. Smithson está completamente empenhado em trabalhar com espaços, materiais, e com todas as condições físicas flutuantes do mundo. ’Spiral Jetty’ (1970), em Great Salt Lake, no Utah corporiza o trabalho do artista com a entropia. Embora nunca visitada, nunca experimentada por nenhum tipo de público uma faixa de terra prolonga-se efemeramente por mar adentro em forma de espiral. A espiral está atualmente submersa e a ação foi documentado através de fotografias e através de um filme e os espectadores são obrigados a reconstruir a peça conceptualmente.

 

Ana Ruepp